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Thursday, October 11, 2012

As linhas de Wellington

Falem-me de um filme de época com grandes actores nacionais - e já se viu que Portugal produz bom cinema neste género - e um grande senhor que me convence a ver qualquer coisa, John Malkovich. É claro que eu não podia perder As Linhas de Wellington. Apesar de estar em exibição em Coimbra por apenas dois dias, a meio da semana, não quis deixar de assistir. Fiquei admirada por ver a sala cheia, com uma plateia maioritariamente jovem. O filme tinha todos os ingredientes para me cativar e não desiludiu. É curioso que eventos tão trágicos e recentes como as Invasões Francesas (1807 - 1814) apesar de fazerem parte do nosso imaginário, sejam por vezes pouco discutidos  - inclusive nas escolas - e, não obstante as reconstituições históricas que algumas localidades vão realizando aqui e ali, muita gente não se recorde, ou não se aperceba, do horror que representaram para os civis portugueses. A brutalidade, a escassez, as tragédias, a violência perpetrada por todas as facções envolvidas, as consequências fracturantes para o País e as histórias humanas geradas pela Guerra Peninsular são material para muitos guiões. Ao concentrar-se no êxodo da população para chegar às Linhas de Torres Vedras, Valeria Sarmiento maquilha - ou omite - alguns dos episódios mais sangrentos e horrorosos; o terror da guerra é sugerido, mas quem não conhecer os factos  ficará com uma visão muito ligeira da realidade. Por outro lado, tal opção oferece-nos a parte saborosa de um acontecimento dessa magnitude: histórias de pessoas, com perfis e origens muito diversos, envolvidas na mesma luta pela sobrevivência.
 Isso cria oportunidade, como não podia deixar de ser, para um grande elenco - Catherine Deneuve, Vincent Perez, Chiara Mastroianni, só para citar alguns, fazem cameos que levam as pessoas ao cinema e acrescentam panache à produção. Porém, um dos pontos fortes da história acaba por se tornar no seu calcanhar de Aquiles - com tanta gente, tantas estórias cruzadas, é inevitável que se perca o fio à meada, que surjam alguns plot holes e que personagens interessantes fiquem pelo caminho sem que se perceba como ou porquê.  Por outro lado, numa situação daquelas o mais comum seria perder de vista pessoas que se tinham conhecido na viagem - e talvez seja isso que a realizadora quis demonstrar. Numa óptica de simples espectadora, estas foram as únicas falhas que me saltaram à vista.
Diálogos competentes, excelentes interpretações - fiquei impressionada com Carloto Cotta, Marcello Ugerghe e Victória Guerra, cujo trabalho não conhecia; Nuno Lopes e Albano Jerónimo fantásticos, comme d´habitude, e Soraia Chaves...é Soraia Chaves. Só não percebi como uma vivandeira falava correctamente espanhol e inglês, mas pus a imaginação a trabalhar e concluí que tivesse aprendido com os soldados. A voluptuosa Martírio é sem dúvida uma das personagens mais simpáticas do filme. De resto, um ritmo agradável, boa fotografia, e um figurino que não é de desprezar. O casaquinho encarnado usado por Clarissa (Victória Guerra, abaixo) era perfeitamente "vestível" hoje. Passei o tempo a olhar para aqueles folhinhos e a imaginar o que faria tirando-lhe a touca e adicionando um vestido e umas botas. Se Anna Karenina pode ter uma linha de roupas Banana Republic, não sei porque as Linhas de Wellington não poderá fazer o mesmo. Não estou a brincar - o nosso cinema tem de gerar dinheiro, e isso não passa só por fazer filmes "para comer pipocas" mas por ter merchandising associado a grandes marcas. Eu comprava!
Camponeses

14 comments:

Dulce said...

Quero muito ver esse filme, pois fico satisfeita por saber que finalmente começaram a aproveitar a nossa rica e imensa História para a 7ª arte!!

Mas está claro que não há bela sem senão... então o filme só teve nas salas de Coimbra 2 dias?!!! Queria vê-lo quando chegasse a Portugal, mas já percebi que vou ter que o procurar...

A tua opinião vai um bocadinho de encontro à opinião que já me tinham dado... Também me disseram que é imprescindível conhecer bem a história desse período pois o filme é vago nalgumas questões, como a questão da origem das linhas, etc...

A ver vamos :)

PS - Se gostas deste período das invasões napoleónicas, sugiro-te o Guerra e Paz (não tem que ser o livro, a série da BBC com o Anthony Hopkins é soberba)!

Urso Misha said...

"O filme tinha todos os ingredientes para me cativar e não desiludiu."
Era mesmo o que eu precisava de ouvir :)
Estou em pulgas, adoro filmes históricos e metendo o nosso país então.

"sejam por vezes pouco discutidos - inclusive nas escolas"
ainda me lembro em história, mal se falar disto, bem como 1ª e a 2ª GM, sinceramente que acontecimentos mais importantes houve nos ultimos 200 anos a nivel mundial que seja preciso estudar?

Urso Misha said...

Li o link muito bom, histórias interessantes.

Imperatriz Sissi said...

Dulce, não estou bem informada mas creio que noutras cidades estará em exibição mais tempo. Também vai haver a versão mini série (como fizeram com o excelente "Mistérios de Lisboa") por isso, aguardemos...
Parece-me que quem tenha uma ideia mínima dos acontecimentos conseguirá seguir a história sem problemas, embora possa ficar com a impressão "vá lá, a Guerra Peninsular não foi assim tão terrível". Uma cena marcante, ao estilo " O resgate do soldado Ryan" podia ser de gosto discutível, mas no meu entender fez falta. De resto, recomendo muito. Vou seguir a sugestão, porque já lá vão uns aninhos desde que me aventurei no Guerra e Paz...

Imperatriz Sissi said...

PS: a nossa história está recheada de episódios de fazer delirar os melhores argumentistas. Não percebo, por mais que me esforce, como não se apresentam propostas a Hollywood. Só Inês de Castro, que blockbuster. Entre tantos outros.

Imperatriz Sissi said...

Misha, vale a pena. Também achei que era um link interessante para colocar aqui, leve mas com bastante informação. Por acaso, na escola falei bastante das duas Grandes Guerras, mas as Invasões Francesas, se as abordámos, foi de uma forma muito superficial. O que conheço foi de ler, de ouvir falar em casa e mais tarde, de lidar com o tema por questões de trabalho. Aliás, no liceu deu-se pouquíssima história de Portugal. Foi uma fase (não sei se ainda está em voga essa ideia) em que se estudava"história conjuntural" o que quase me fez abominar uma das minhas disciplinas preferidas. Até parecia que consideravam a nossa história uma coisa do tempo da outra senhora, e que só uma abordagem europeia era digna de interesse...começavam ao contrário. Enfim, manias de portugueses para inglês ver!

Nuno Raphael Relvão said...

@Dulce

Na verdade o filme teve apenas duas sessões em Coimbra, uma na segunda e outra na terça, ambas às 21:30, no TAGV. No entanto, posteriormente, já ouvi rumores que pode voltar (possivelmente devido à adesão em massa por parte do público nessas duas sessões).

@Misha

A mim desiludiu-me um pouco, tanto pela referida dispersão de histórias, como pelo exagero no uso de cortes abruptos de planos e acção, como pela, sempre usada, táctica do sexo e palavrões para se relacionar com o público.

No entanto essa desilusão pode passar bastante pela elevada expectativa tinha. Além disso, mesmo que tivesse correspondido, parece-me ser um daqueles filmes que necessitam de várias visualizações para apreciar por completo.

O que mais me aborreceu foi mesmo a inclusão, como é de rigueur no nosso país, de sexo, innuendos e palavrões; que não devendo ser tabus, e.g. funcionam muito bem em séries como o Spartacus, pecam, em Portugal, por se chaparem em tudo o que chega ao cinema como se o nosso povo não soubesse apreciar mais nada. E o povo riu e gostou, claro está, porque a isso está/foi habituado.

Na escola, devo ter sido um dos sortudos porque Invasões Francesas e Grandes Guerras foram provavelmente das matérias, a par com o paleolítico e neolítico, às quais foi dedicado mais tempo de estudo nas minhas aulas de História.

Nuno Raphael Relvão said...

É o português a, mais uma vez, não saber potenciar os seus valores...

Urso Misha said...

Gostava também de ver ao estilo " O resgate do soldado Ryan" mas e orçamento, estou para ver que a batalha do Buçaco no filme não passa de uma escaramuça de 1 minuto :( se existir

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Urso Misha said...

paleolítico e neolítico também é o que mais recordo a IGM foi de passagem e a IIGM mal me lembro...
ok quando vir, depois logo "bitaito" qualquer coisa sobre o assunto.

Urso Misha said...

ok low expectations, será o truque então.

Imperatriz Sissi said...

Concordo que é um filme para ver mais do que uma vez - provavelmente em casa, para não suportar os comentários dos patetas que lá vão para ver a Soraia sem roupa. Se o filme fosse demasiado solene não corresponderia à realidade. Nem toda a gente se expressava da forma mais elevada naqueles tempos. Mas confesso que nem dei pelos palavrões, não achei exagerado. Estava na medida certa.

Imperatriz Sissi said...

@Nuno - se calhar acham que Hollywood não se interessaria por um filme que começasse por " Once upon a time, in a far away kingdom ...". Pategos.

@Urso, quem for à espera de muita acção ficará desapontado.

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