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Monday, October 1, 2012

Da teimosia fútil




Há pessoas muito teimosas, de uma teimosia obtusa e inútil, que nada tem a ver com persistência saudável. Metem uma ideia ou objectivo na cabeça desde os tempos do liceu e não evoluem para além disso, andam anos e anos a batalhar pelo mesmo, por poucos resultados que tenham; insistem nos mesmos erros; desesperam-se por coisas que claramente não lhes estão destinadas, para as quais não estão talhadas e que em última análise, não lhes serviriam. Não alargam horizontes, não procuram sequer desenvolver capacidades que lhes permitam adaptar-se ao papel que ambicionam, mas continuam na mesma - obcecadas, fixadas, sem vida própria - e a insistir no mesmo. É o caso daqueles cromos que tentam todos os programas de cantigas e que, por mais que lhes digam " dedica-te a outra coisa, porque desafinas" não se convencem disso para seu próprio bem e continuam a apregoar " vou lutar pelo meu sonho!". Não lhes ocorre que se gostam tanto do mundo do espectáculo mas não têm qualidades para estar nas luzes da ribalta podem, por exemplo, dedicar-se à produção de música, ao agenciamento, a tantas outras profissões na área. Querem a fama e pronto. Querem cantar nem que ninguém as queira ouvir. Mudam os planos e a estratégia, mas não mudam de sonhos. E os sonhos são como tudo: nascem, crescem, desenvolvem-se e às vezes, morrem para dar lugar a outra coisa. No meu tempo de caloira tinha um número de sonhos: uns realizei, outros mantive, outros mudaram. Olhando para trás, fico feliz por alguns terem ficado pelo caminho: foram substituídos por coisas bem melhores e que têm mais a ver comigo. 
    Tive um amigo que era boa pessoa, mas muito depressivo e de ideias fixas. Sempre que saia de ao pé dele sentia-me esgotada porque não havia maneira de conversar com ele sem que o diálogo fosse dar ao mesmo: a ex namorada, que o tinha deixado há sete anos. Acreditava que ela era o amor da vida dele e não se tirava disso (versão masculina das mulheres da luta!). Era a Luísa para cá, a Luísa para lá, que tinha a certeza que a Luísa o amava mas os pais dela é que a tinham empurrado para outro mais rico, ai eu vi a Luísa na Baixa e tenho a certeza que ela olhou para mim, ela ainda volta para mim, isto é o destino, etc. Não se tocava que a rapariga tinha seguido adiante, que se estava borrifando agora como estivera sete anos antes. Se lhe tentassem pôr juízo, a culpa nunca era dele, nem da jovem (onde um não quer, dois não brigam) mas dos pais dela, da melhor amiga dela, da mãe que ia à bruxa para os separar, dos outros pretendentes que a desencaminhavam; não lhe ocorria que se calhar ela lhe tinha posto um par de patins por ele ser um chato de galochas, nem fazia por conhecer outras mulheres. Só muito mais tarde se deixou disso, encontrou uma excelente namorada e hoje está muito bem. Este era um teimoso inofensivo, mas conheço outros e outras que não se limitam a chagar ad nauseam os amigos com as suas desditas: interferem com a vida alheia, perseguem, insultam quem os avalia, arranjam intrigas para prejudicar quem acham que é uma ameaça ao seu precioso sonho, dizem mal de tudo e de todos...não procuram a sua felicidade, tornam-se amargos e frustrados, lutam por batalhas há muito perdidas (custe o que custar, doa a quem doer, por mais portas na cara, humilhações e recusas que tenham de suportar) e nem sequer os preocupa a triste figura que fazem. Figura de "este (a) é maluquinho (a), deixem-no falar" ou de palhaço triste - a causar pena até a quem não gosta deles. 

2 comments:

Urso Misha said...

fazia falta a tanta gente ler e compreender este post...

Imperatriz Sissi said...

Sobretudo compreender. Se lerem, acham que não é com ele (a)s. Nunca é.

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