Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, October 9, 2012

Mulheres de armas


                                
Numa das zonas mais pobres da exótica Índia há um grupo de mulheres que luta, literalmente, pela justiça. Chamam-lhes "o gulabi gang" ou "o gang dos saris cor-de-rosa" e estas mulheres têm vindo a ganhar não só a admiração da população mas o respeito (e o medo!) dos malfeitores e das autoridades. Armadas de "lathi" (varapaus de bambu) as justiceiras, lideradas por Sampat Pal Devi -  ex funcionária  pública que casou aos 11 anos e é mãe de cinco filhos-  combatem a violência doméstica e a corrupção local. Quando uma mulher procura as vigilantes a queixar-se de violência por parte do marido ou do sogro, o grupo tenta chegar a um acordo verbal com o agressor. Se este não cumprir...elas vão atrás dele e dão-lhe a provar do seu próprio remédio. Em três anos, o movimento ganhou 10 mil adeptas que têm evitado casamentos forçados, obrigado a que a polícia aja em casos de violação e impedido que a corrupção e a prática do suborno privem a população carenciada do fornecimento de água e comida.
Sampat, que teve de fazer frente ao sogro para não usar véu, ao pai para poder frequentar o colégio e ao marido pelo direito a sair de casa, considera-se valente e quer ensinar outras mulheres a reclamar o seu poder. É ela que as treina no uso do lathi para envergonhar publicamente - e caso não se retratem, sovar sem contemplações - os prevaricadores. Embora a causa apelasse inicialmente aos direitos das mulheres, já há muitos homens que pedem ajuda ao "gang cor de rosa" em casos de injustiça contra os mais fracos. Este é um exemplo de algo que já tenho comentado por aqui...não importa a posição inicial de cada um, e sim a sua vontade de não se deixar amesquinhar. O caso recordou-me dois contos tradicionais portugueses, recolhidos por Teófilo Braga, em que mulheres pegam em armas para auto defesa: prova que sempre houve mulheres inteligentes dispostas a questionar o status quo e o abuso de poder masculino. Reproduzo-o aqui por palavras minhas:
sampat pal devi and members of the pink sari or gulabi gang
gulabi gang member aarti deviNuma aldeia, vivia uma mulher que era muito amiga do marido, mas por mais que ela fizesse, o malvado arranjava sempre pretextos para lhe bater. Todos os dias a pobrezinha levava uma tareia, e na manhã seguinte ia chorar para junto da amiga que morava defronte. Esta tentou a princípio ajudá-la a agradar ao marido,mas sem resultado: ele enchia a companheira de pancadas e depois gabava-se aos colegas, incitando-os a fazerem o mesmo, porque nada contribuía tanto para a harmonia conjugal como sopapos frequentes. Até que um dia a vizinha se cansou e armou um ardil. Vendo a amiga chorar novamente, cheia de nódoas negras, disse-lhe: " à noite deixa a porta aberta: se ele te bater, grita pelas Onze Mil Virgens, e verás!". Secretamente, pediu às mulheres da vizinhança que arranjassem uns véus brancos que as cobrissem de alto a baixo e uns varapaus sólidos, e ficou à espreita. Naquela noite, o homem parecia que trazia o diabo no corpo. Arranjou um motivo qualquer e vai de espancar a coitadita como se não houvesse amanhã. Tantas pancadas lhe deu que ela, não suportando mais aquele martírio, desatou a gritar: "Valha-me minha Nossa Senhora! Valham-me as Onze Mil Virgens! Acudam-me as Onze Mil Virgens!". Ainda palavras não era ditas e onze moçetonas entraram pela casa dentro e vibraram tantas cacetadas no cobardolas que o deixaram mais morto do que vivo. Depois partiram como tinham chegado. O homem ficou muito tempo doente e aos amigos que o vinham visitar, dizia: "olha que tu nunca batas na tua mulher. Crê que as mulheres são santas. Bati na minha, ela chamou pelas Onze Mil Virgens e olha o estado em que me deixaram. Ainda bem que lhe deu para chamar pelas Onze Mil Virgens e não pelos Doze Apóstolos ou não estaria cá para contar a história...sempre era força de homem!".



  







10 comments:

Fashionista said...

ah ah gostei! Mulheres de armas!

S* said...

Gosto tanto destes teus textos!

Sérgio Saraiva said...

Parece que o jogo do pau chegou à India... :p

Imperatriz Sissi said...

:D Never mess with a woman in pink...

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, S* :D beijinho.

Imperatriz Sissi said...

Terão aprendido com os portugueses?

Tamborim Zim said...

Muito bom! E excelente ideia! Vamos pensar nisso??:)

A Bomboca Mais Gostosa said...

Uau, admirável mesmo!

Luna said...

Não conhecia, obrigada. Como te respondi no meu blog, também eu estou convencida que a revolução no mundo islâmico começará quando as mulheres se unirem e rebelarem em conjunto.

Imperatriz Sissi said...

Sim, tudo depende delas. Com ajuda de alguns homens de carácter como o marido da Princesa Ameerah. Um saudita que está a mudar o seu país e a equilibrar tradição com justiça.

http://jessi-aleal.blogspot.pt/2012/08/a-princesa-ameerah.html

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...