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Wednesday, October 10, 2012

Não estupidifiquem as crianças


                                              

Ouvi dizer que uma personagem chamada Xana Toc Toc encheu o Coliseu. Quem não conhece, clique no link para se maravilhar...

                                       
Não pretendo com isto ofender, nem amesquinhar o trabalho de ninguém. Queiram desculpar, mas há um paradoxo que me custa entender. As crianças de hoje, no privado ou na escola pública, têm mais actividades extra curriculares do que eu alguma vez sonhei (e olhem que eu já não tinha poucas); são versadas em informática; vão para a primeira classe (perdão, primeiro ano que isto agora é muito politicamente correcto) já a saber ler, escrever e contar, pois a "pré" (termo detestável) mais parece a recruta do exército; são todas hiper activas, todas índigo, todas sobredotadas, ou pelo menos é o que os pais acham. Se antigamente "tudo se criava" e as crianças eram para ser vistas e não ouvidas, agora para criar um ser humano sem o traumatizar são precisos quilos de manuais de psicologia, infinitas técnicas, pinças cirúrgicas, vénias que nunca mais acabam. São super protegidas, super mimadas, super estimuladas. E no entanto...é preciso a Xana Toc Toc para as ensinar a bater a uma porta? Ora expliquem-me lá devagarinho, porque eu ainda sou do tempo da Ana Faria Brincando aos Clássicos, do José Barata Moura,

                                                                              D. Eustáquio Rebuçado

mais parece uma cebola
anda tão enfarpelado
que já não anda... rebola

Traz tantos tantos fatos
que quando passa agora
é uma bola de trapos
com o nariz de fora

Porque ele traz sempre vestido:
capa, capote e cachecol,
gabardine e sobretudo,
chapéus de chuva e de sol
e por baixo disto tudo: 
casaco, casaquinho,
casequeta e casacão;
camisa, camisinha,
camisola e camisolão.

do Avô Cantigas -  mas não desta versão esquisitoide, 3D e simplista do Fantasminha Brincalhão.  Na minha infância, o Avô Cantigas tinha um disco fantástico, Histórias do Corpo Humano, de produção musical extraordinária, com letras inspiradas e complexas o suficiente para nos fazer pensar. (Podem ouvir o resto deste tesouro aqui).
Cresci com os contos de Grimm, com as histórias da Formiguinha, de D.Ana de Castro Osório, com os contos tradicionais portugueses recolhidos por Teófilo Braga, com os livros de Alice Vieira e de Luísa Ducla Soares, entre tantos outros.

"(...)imaginam o que seria se uma omelete se erguesse do prato e vos desse uma bofetada, a sopa se atirasse sobre a vossa cabeça, a laranja vos desse um chuto ou se as amêndoas da Páscoa , irritadas, começassem às pedradas contra vocês?..."


                         Luísa Ducla Soares, O Vampiro que bebia groselha



Ilustração de Carlos Alberto Santos,
"Histórias do Avozinho"
                                                                 
Os meus livros infantis tinham ilustrações que se prezassem, não stick figures abstractas e parvas a imitar os desenhos infantis, como está na moda agora. Eu queria era ver desenhos que me fizessem sonhar e me inspirassem, porque para rabiscos bastavam os meus (e eu até tinha bastante talento para o desenho, não me contentava com qualquer coisa). Pelo meio, lia alguns livros não exclusivamente dedicados a crianças, porque os meus pais nunca me tomaram por idiota, não me permitiam que falasse à bebé e certamente, iam ficar horrorizados se eu achasse graça a coisas condescendentes e tolas como Viky, o Pequeno Golfinho, Ruca (que dá pontapés ao próprio pai) e outros horrores do género. Por isso, desculpem lá se não entendo como pais  conscientes - que ainda por cima consideram que as suas crianças são especiais, de uma super geração - levam  inocentes ao coliseu para os sujeitarem a uma sessão de terror supostamente pedagógico, a um espectáculo destituído de qualquer desafio intelectual, de humor remotamente inteligente, de espírito crítico e e última análise, de imaginação. Xana Toc Toc, a menina queira desculpar também - não é por mal, sou eu que venho mesmo de outro planeta.

19 comments:

Sérgio Saraiva said...

Ó Sissi, parece-me que estás a misturar coisas muito distintas, nomeadamente fases muito diferentes do crescimento de uma criança, como a pré-primaria, ou a maturidade para ler um livro, etc. Repara, o mundo hoje é diferente do nosso tempo e se queres que te diga bastante melhor. Sinceramente não tenho saudades nenhumas do tempo em que não haviam actividades de tarde na escola, para além da visita do padre uma vez por semana para passar um slides de uma historia qualquer onde o missionário vencia o feiticeiro da tribo de África, chovia dentro das salas para além de fazer frio no inverno, etc, etc, etc. E lá por ter cantado o hino à professora da primária antes de começar a aula, acho que mesmo assim não compensa o resto...

Lol... O Ruca dá pontapés no pai? Acho que perdi esse episódio :P

Todos os pais acham os seus filhos especiais. E ainda bem que assim o é, desde que esse sentimento seja minimamente controlado e equilibrado. O resto vai-se gerindo até porque cada criança é diferente da do lado.

Não me leves a mal, já sabes que gosto bastante da tua escrita, mas... Epá... Por este texto nota-se bem que não és mãe... :P

PS: quem é a Xana Toc Toc?

Imperatriz Sissi said...

Sérgio, eu ouvia o Avô Cantigas com quatro anos. Segue o link que deixei no primeiro parágrafo e já vais ver a que me refiro. É uma das coisas mais condescendentes que já ouvi. As escolas onde andei (públicas e privadas) eram bem confortáveis, embora sem os luxos de hoje. E o Hino não me fez mal...essa do Missionário não vi, mas as Irmãs passavam uns slides moralizadores. Recordo-me de um menino que sofria de bullying, morreu com uma pedrada na cabeça e foi para o céu. Nunca mais ninguém andou à pedrada no recreio. Essa do "nota-se bem que não és mãe" não se aplica a mim...acredita, os meus pais achavam-me especial como todos os pais, mas isso passava por não subestimarem a minha inteligência nem permitirem que fizesse figuras de parvinha (falar à bebé, dedo na boca, atrevimento, etc). Deus me livre de ter filhos e permitir que ouçam horrores como o Viky. As crianças devem ser livres para brincar, para se sujarem, etc, mas isso deve ser acompanhado por disciplina e pela exposição a conteúdos que estimulem a imaginação e a inteligência. Foi isso que me transmitiram em casa e não acredito que mude por uma questão biológica.

Sérgio Saraiva said...

A questão do "nota-se que não és mãe", aplica-se a ti, no sentido que veres toda esta questão do desenvolvimento de uma criança como uma certa trivialidade, onde existe o bom que era antigamente e o mau de agora. Onde educar uma criança é "apenas" dar-lhe disciplina e estimular-lhe a imaginação e a inteligencia. Mas conheces algum pai ou mae que discorde disso?... É como dizer que achas que os miudos devem crescer saudáveis e não com problemas de saúde... Óbvio... Era bom que fosse sempre assim. O problema é que esse "apenas", é exactamente a parte complicada... Lol... Era bom que fosse fácil, e só ter de fazer assim e assado... Desculpa mas é aqui que se nota...

Cada coisa na sua idade. Eu conheço casos de miudos pequenos que são capazes de falar de temas muito avançados para a idade como planetas e dinosauros, mas depois não sabem o que é uma maçã ou uma laranja. Nestes casos os pais não substimam em nada a inteligencia dos miudos, muito pelo contrário, dão-lhes conteúdos até mais avançados para a idade. Agora será isso saudável?...

E depois cada criança é um caso pelo que devemos ter alguma flexibilidade em lidar com cada uma: não penso que exista uma formula exacta ou correcta, existem sim linhas orientadoras melhores ou piores. Se queres que te diga até acho perigosa a tua convicção e as tuas certezas absolutas sobre algo que convenhamos não conheces bem.

Eu acho que é tudo uma questão de equilibrios: repreender demasiado pode tornar as crianças inseguras, tal como não repreender descontroladas. Como te digo, era bom que fosse fácil acertar ali no ponto exacto.

A minha filhota acho que já ouviu o Viky quando tinha para aí 2 anos. É isso mau? Hoje com 3 anos pediu-me para por Strauss (ela não sabe quem é mas conhece a música), para adormecer, isto porque segundo ela, "se não meteres essa música não vou conseguir adormecer e assim vou ficar acordada para sempre". É isso bom? Epá, mas o mundo não é feito de diversidade?

Bom, hora da soneca que já se faz tarde. Não leves a mal o que digo que não é pessoal. Boa noite.

Joana come a papa said...

Concordo que os putos de hoje estejam a se sobre-estimulados e pressionados pelos pais, e condeno-o. Mas as crianças precisam justamente de estupidificar, de coisas simples, e brincadeiras parvinhas.
Não conhecia esta Xana, faz-me lembrar a Floribella, que foi campeã de audiências, inclusive entre adultos. Por isso sugiro antes algo sobre a estupidificação dos adultos, porque a das crianças é normal e inerente à idade.

Jedi Master Atomic said...

A educação que se dá hoje é diferente da que nós recebemos, mas acho que à coisas que estão a ser levadas ao extremo. Antes era toda a gente na rua a apanhar todas as doenças possiveis e hoje é ninguem na rua para não se apanhar doenças. Acho que temos que encontrar um meio termo.

A Flor said...

Obrigada Sissi! Tenho cá em casa um bebé - que, obviamente, não é meu - que, graças à avó, adora Xana Toc Toc. Eu, que costumo adorar canções e programas de miúdos, já não posso com aquilo à frente. Uma coisa é criar músicas de compreensão fácil, outra, muito diferente, é cantar para as crianças como se elas fossem retardadas...

Imperatriz Sissi said...

Sérgio, baseio-me na educação que recebi. É essa que pretendo transmitir a eventuais rebentos. Muito descontraída no que é necessário e com disciplina e regras noutros aspectos. Há conteúdos descontraídos e leves para crianças que não as tomam por idiotas. Se te aparecesse a Xana Toc Toc à porta, o que pensarias? " Esta mulher é maluca" com certeza. Não quero filhos meus a imitar aqueles gestos e aquelas caretas. Mas cada um sabe de si...

Imperatriz Sissi said...

Joana, a minha noção de descontrair, de brincar, não passa por estupidificar. E inclusive, eu sempre detestei livros ou conteúdos "didácticos" que pretendiam ser "divertidos". Soava-me tudo a trabalho de casa pretensioso. Há tantos desenhos animados giros que não embrutecem...do meu tempo lembro-me da Bia, a Pequena Feiticeira; os Amigos do Gaspar; e tantos, tantos outros...

Imperatriz Sissi said...

O que é mais esquisito é que exigem horrores dos miúdos, não os deixam dar um passo, mas para os descontrair dão-lhe uma coisa destas, como se sofresse de distúrbios cognitivos. Eu ia ter medo da Xana Toc Toc a sorrir e a saltar para dentro de casa das pessoas daquela maneira. E se os meus eventuais filhos a imitassem morria de vergonha! Antes o Popas e o Cocas!

Imperatriz Sissi said...

My thoughts exactly, Flor! Eu dou por mim a ver desenhos animados (e nem todos reposições de séries da minha infância) e adoro essas coisas, mas isto é insultar as criancinhas.

Imperatriz Sissi said...

E apesar de tudo (do pouco que vi) a Floribella sempre era baseada nos contos de fadas. Era uma treta mas não era o pior possível, os guiões não me pareceram horrendos. (O pior veio depois com as entrevistas e persona da Luciana Abreu). Claro que o Sítio do Pica Pau Amarelo é beeem melhor, mas é baseado numa grande obra...

Urso Misha said...

Sou pai e acho excessivo o retratamento que fazes à Xana, pois crianças de 3/a anos não percebem bem aquilo e acho que não vão querer imitar ninguem (mas percebo que tem a ver com a mensagem que ela tenta passar).

tenho a certeza que se fores até esse pormenor também encontravas alguns desenhos animados do "nosso" tempo também estranhos.

Tamborim Zim said...

Este mundo está tão estupidozinho q qqer dia precisamos de comprimidos p o enjoo antes de sair de casa. Ou melhor, logo após abrirmos os olhos.

Tamborim Zim said...

N sei quem é essa Xana e n estou em dia de querer conhecer.

Carla said...

Quem é essa "personage"?

Imperatriz Sissi said...

Desenhos animados estranhos sempre houve. Mas agora parece haver uma tendência para fazer as crianças de parvas. Uma moçoila de olhos esbugalhados e sorriso tresloucado está melhor para filme de terror. E as crianças, pelo menos se não forem bem orientadas, absorvem tudo. Uma vez caí de um trólei da estação de comboios para imitar a Candi Candi. Tinha três anos...mas enfim, antes dar um trambolhão do que imitar a toc toc!

Imperatriz Sissi said...

Carla e Tamborim, é a moça do retrato acima. Cliquem no link do 1º parágrafo para verem um dos vídeos, mas aviso: pega-se. Acho que até sonhei com a personagem a bater-me à porta...

Alix said...
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Bárbara Godinho said...

O teu post fez-me recuar no tempo uns 20 anos. Que saudades dos livros das Histórias do Avozinho. Até os desenhos eram duros como as histórias.
Quando os meus pais me levavam a passear lá tinha que passar pelo "Centro Comercial" após muita insistência e umas lágrimas de crocodilo para trazer um livro da colecção.

Há pouco tempo encontrei uns volumes destas Histórias e uns volumes da colecção uma casa na pradaria na Loja dos Chineses. Os Chineses e as suas lojas são um tanto ou quanto hardcore.

;)

Sissi, já pensaste em fazer um poste com uma lista dos teus livros preferidos?

beijinhos

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