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Wednesday, October 10, 2012

O lado negro: impossible to love



Não se pode amar o impossível; é preciso que quem quer ser amado permita ser amado. Intensidade não basta. Paixão não basta. Desejo não basta. Irradiar tudo isso atrás de grades - eu quero, eu posso, eu comando - e não se deixar tocar anula toda e qualquer possibilidade de concretização, de certeza, de confirmação. Não se pode gostar do que não tem forma. E em alguns casos é pior ainda, pois não se pode amar o que está  irremediavelmente fragmentado, dividido em duas faces distintas. Lado negro todos temos, mas há quem tenha uma face lunar demasiado intensa, ou se deixe dominar por ela. Não é difícil reconhecer esse tipo de pessoas: à primeira vista exercem um estranho fascínio, como  plantas venenosas de bonitas pétalas. Como rosas negras. Têm um magnetismo estranho, semelhante ao de certas serpentes - parecem atrair, mas simultaneamente, repelem. Irradiam uma vibração de chumbo, que provoca a sensação de um narcótico suave. Pálpebras pesadas; peso no coração; tonturas; aquele pressentimento "eu não devia estar aqui" e de receio inexplicável. Têm o apelo estranho dos vampiros e dos demónios - um olhar penetrante, gestos lânguidos, gostos requintados. Esse é o momento de fugir - porque se não for nesse instante, é tarde demais. À luz do dia, essa estranha sensação atenua-se. A presença do sedutor estranho torna-se familiar, confortável, natural mesmo. Tão natural que parece que sempre se conheceu aquela pessoa. Mas a bonança dura pouco. É uma questão de tempo até que o lado negro leve a melhor, até que o gémeo malvado saia do seu covil, manipulador inato, destruindo-se a si mesmo e envenenando tudo à sua volta. Nessa altura, a presa está demasiado enredada para escapar...embora consciente de que não pode, nem poderá no seu juízo perfeito, amar com sinceridade quem transporta um passageiro negro dentro de si. Não há onde se agarrar, não há por onde se apegar, a estabilidade não pode existir, nada pode nascer ali. Obsessão, drama, delírios, excessos, angústia, uma força inexplicável que os prende um ao outro até à loucura - certo. Mas enquanto o lado negro reinar, nada de bom pode ser construído. Como na história de Oscar Wilde, há que destruir o retrato que encerra o monstro, quebrar o encanto satânico de uma ligação desse género. E isso pode levar anos, ou nunca acontecer de todo. A saída é uma fuga desesperada pelo meio do nevoeiro, até zonas mais luminosas e serenas. Ficar, na esperança de uma redenção que tarda em chegar, é um acto tresloucado. Mas esse é o grande problema destas histórias: a loucura é contagiosa.

6 comments:

Sérgio Saraiva said...

Hum... Já pensaste em escrever ficção?... Cheira-me que tens jeito para criar personagens densas...

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Sérgio. Já publiquei ficção infanto juvenil, para adultos está no prelo.
As personagens densas e com um parafuso solto fascinam-me. Depois queixo-me... ;)

Barmaid said...

há semanas com um problema, a pensar nele, a dar-lhe forma, usando até algumas das expressões aqui contidas, como lado lunar e outras que tais, e de repente, ler assim tão explicitamente aquilo que andava a rebolar pela mente há tanto tempo...

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, cara Barmaid :) . Seja muito bem vinda ao nosso salão.

Barmaid said...

já andava por cá há algum tempo, gosto da generalidade do que por aqui se escreve, simplesmente nunca tinha sido tão "close to home" que provocasse o comentário.
Keep up the good writing

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