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Saturday, October 27, 2012

O triunfo da Beleza

                             
                                           Jean-Léon Gérôme, Frinéia revelada perante o Areópago (1861)
File:Cnidus Aphrodite Altemps Inv8619 n3.jpg
Cópia da Afrodite de Knidos.
Frinéia terá sido a  modelo.
Por vezes, tende-se a perpetuar o mito de que o mundo pagão era um misto de inocência e licenciosidade, palco de todas as libertinagens. Aponta-se o dedo à moral cristã por "mergulhar a civilização nas trevas" instituindo a ideia de pecado e consequentemente, de moderação. Não será bem assim - os conflitos de opinião são tão velhos como o tempo, e algumas das imagens românticas  ou chocantes que chegaram até nós sobreviveram durante séculos...simplesmente porque espantaram o suficiente os seus contemporâneos para os levar a deixá-las por escrito. Leis da decência, leis sumptuárias, da moral e dos bons costumes sempre existiram aqui e ali, razoáveis ou não, aplicadas com mais ou menos justiça. O caso da deslumbrante hetaera Frinéia, musa (e amante) do grande escultor Praxíteles é bem ilustrativo disso. Frinéia era uma das mais famosas cortesãs de Atenas; tão linda que os homens se lançavam aos seus pés, extasiados. Acumulou por isso, muito nova ainda,  uma imensa fortuna. A graciosidade e ausência de pudor eram outros atributos que contribuíam para a sua celebridade: nos festivais de Eleusis e de Poseidon costumava tirar as roupas e mergulhar no oceano perante o olhar siderado dos convivas, hábito que inspirou ao pintor Apeles uma das suas obras mais famosas, a Afrodite  Anadyomene, nascida do mar. (Uma das versões, pelo menos, já que noutra o pintor usou Pancaspe, amante de Alexandre Magno, como modelo). Ora, a riqueza e poder da jovem, uma simples mulher e cortesã demais a mais, há muito que irritava os figurões da cidade. Ela tivera mesmo a audácia de se oferecer para pagar do seu bolso a reconstrução das muralhas de Tebas, com a condição de que nelas ficasse escrito " destruídas por Alexandre o Grande, reerguidas por Frinéia, a cortesã". 
                                       
As autoridades recusaram. Contentou-se então em oferecer a Téspies, sua cidade natal, também arrasada pelo grande conquistador, uma magnífica estátua de Eros - assinada por Praxíteles, claro. Tanta ousadia não podia ser tolerada. Reuniram-se, conspiraram e arranjaram um pretexto para a acusar de corromper os bons costumes. Alegadamente, a beldade teria profanado os sagrados festivais dos Mistérios de Eleusis. A acusação era falsa, mas se fosse considerada culpada, seria condenada à morte. O orador Hipérides, um dos seus fervorosos apaixonados, veio em seu auxílio. Após um discurso inflamado que não comoveu os juízes, o advogado de defesa - que bem conhecia os encantos de Frinéia - arrancou-lhe a túnica e apresentou-a, em todo o seu esplendor, perante o tribunal. Foi absolvida de imediato: tão espantosa beleza só podia ser um sinal de divindade, e nenhum juiz se atrevia a afrontar os Deuses que tão maravilhosamente tinham dotado aquela linda mortal..."beleza é dote e virtude" - para os Antigos Gregos, pelo menos.


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