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Sunday, November 4, 2012

A "Sopeira"

Já abordei aqui o namoro dos meus avós. Foi uma história cheia de peripécias e a avó gostava de a contar às netas e sobrinhas como só ela sabia, imitando os gestos e as frases, o que nos divertia imenso. Mal sabia o avô como nos ríamos das suas tonterias de juventude quando ele não estava...
 O meu avó, como vos descrevi, era o rapazola mais cobiçado das redondezas. Além de ser um belo moço, com ar e cabelo à James Dean, era considerado um bom partido e tinha um charme irresistível. Mas assim que conheceu a minha avó, que era lindíssima, não teve coração para mais nenhuma. Toda a gente os considerava o casal perfeito e o namoro ia de vento em popa. O pior é que o avozinho era um homem do seu tempo, e assaz namoradeiro: achava perfeitamente comum ter uma menina delicada e de bom trato como sua noiva, e ir-se divertindo como lhe apetecia com as raparigas desmioladas que tentavam a sua sorte. Para piorar tudo, o pai da noiva não estava para brincadeiras: filhas dele só assistiam a festas e bailes muito escolhidos, e sempre com pau-de-cabeleira. De modo que além dos dias de namoro tradicionalmente permitidos (Quartas-feiras e com sorte, Sábados; nunca percebi porquê mas lá que lhes apressava a vontade de casar, isso apressava) só podia passear ou dançar com a namorada muito de longe em longe, o que lhe deixava muito tempo livre. A ociosidade é oficina do Diabo e como rapaz, ele não deixava de ir às festas e bailaricos, que eram "a noite" daquele tempo. Ainda por cima, uma vez que na época não se dançava sem par, o avô convidava esta e aquela. Tudo se sabia e a avó andava furiosa.
 - Mas que mal tem isso? - dizia-lhe ele com toda a sua retórica e meiguice. - Eu sou novo; você não pode acompanhar-me. Vou com os meus amigos e primos, mas não se passa nada...é natural que eu dance! Não a vou enganar por causa disso. É de si que eu gosto!
E ela, coitada, não tinha como contrariar esse argumento, por mais que lhe custasse. 
Porém, a certa altura, começou a saber que o namorado, apesar das suas juras e protestos de amor eterno, andava muito entretido com uma certa doidivanas. Uma rapariga um tanto saloia e pateta, muito vivaça, barulhenta, atiradiça e tão atrevida que lhe chamavam a Sopeira. Era em tudo o oposto da minha avó e nenhum rapaz de brio pensava nela a sério. Mas como estava pelos actos e as formas rechonchudas eram moda, o meu avô, como outros, achava-lhe certa piada. Para ele era tudo brincadeira, mas ela viu ali uma boa oportunidade e tratava de o engraxar ao máximo, a ver se o comprometia- com a ajuda da família ambiciosa, que não tinha vergonha de "empurrar" as filhas descaradamente se isso significasse um casamento jeitoso. 
 Quem não esteve para graças foi a noiva. Pensou "ná! aqui há gato!" chamou-o e disse-lhe das boas.
E ele, com a calma do costume, contou-lhe as costumeiras lérias:
- Eu? Só a vejo quando o rei faz anos. É só uma rapariga divertida. Não quero nada com ela! Eu lá podia ter alguma coisa de sério com aquela parola! É só para ir para os bailes! É por si que eu estou apaixonado!
Mas ela não acreditou, claro. Mandou-o ir namorar com a Sopeira, já que gostava tanto dela, e que não lhe aparecesse à frente, senão chamava o pai para lhe dar um correctivo, etc.
Ele meteu a viola no saco e lá foi à sua vida, muito desgostoso. Para piorar os males, os pais dele ficaram zangadíssimos, ao ver que - agora que estava solteiro - se fazia acompanhar da tal Sopeira, a ver se curava o coração partido. Tudo eram pândegas e folias. Tal casório - Deus nos livrasse! - seria uma vergonha das grandes. Esperta, a minha bisavó pôs-se em campo e proibiu o filho de parar por lá, não fosse a mãe da outra 
deitar-lhe algum filtro na comida, ou pior, arranjar um estratagema que o obrigasse a casar. Não foi preciso: o avó não era parvo e vendo tanta amabilidade, tanta lisonja, tanta peçonha e mel, tantas liberdades e facilidades, lá percebeu a marosca e fugiu dos encantos voluptuosos da moçoila como o Diabo da Cruz. Depois foi andar dois anos, feito um pobre diabo, a reconquistar a minha avozinha com muita serenata, muita choradeira, diplomacia, cartinhas, pancadaria russa nos rivais e súplicas de parentes. Ainda bem que conseguiu, ou eu não estava aqui a contar isto. Mas essa é outra história.





2 comments:

O Sexo e a Idade said...

Adooooorei!
Que história deliciosa!

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada :D
A avó era cheia destes episódios...hei-de contar mais alguns. Beijinhos.

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