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Sunday, November 18, 2012

Eça de Queiroz dixit: jornalistas amargos

"Juízos ligeiros, vaidade, intolerância - eis três negros pecados sociais que matam uma sociedade! (...) foi incontestavelmente a imprensa, que com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros. (...) todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões".

 in A Correspondência de Fradique Mendes

A dada altura da minha adolescência, pensei que o Jornalismo seria uma boa maneira de dar forma ao meu hábito de escrever. A minha avozinha não achou graça nenhuma à ideia - já me estava a ver para lá de Bagdad em grandes, profundas e arriscadas reportagens de guerra, e não queria netas dela nesses preparos. Ficou mais tranquila quando lhe disse que a ser jornalista de alguma coisa, seria de moda. Ou cronista, para poder dizer da minha justiça. Informação nunca me seduziu muito. Eu delirava com a revista Grande Reportagem e adorava conversar com alguns amigos da casa, repórteres intrépidos que montados na sua mota de alta cilindrada, percorriam as zonas mais conflituosas da Europa com minas a rebentar atrás deles. Achava tudo aquilo delicioso, mas conhecia-me o suficiente para saber que embora não me faltasse coragem, não arriscaria a pele  para simplesmente observar e relatar um acontecimento.
 Nunca gostei de ser a rapariga a quem dizem "saia do caminho, menina, que isto vai cair tudo". Para ir à guerra, teria seguido a tradição de família e optado por uma carreira militar - seria a primeira rapariga - mas essa hipótese nunca foi bem acolhida lá em casa e se não ia para zonas de conflito para fazer alguma coisa que jeito e acção tivesse, muito menos lá poria os pés para observar, indefesa e de microfone na mão. Gostava de intervir, de ter um papel activo nas situações, de tomar partido e não me via a ser neutra como a Suiça, a desempenhar funções de (com todo o respeito) bisbilhoteira, privada mesmo de emitir opinião sobre o assunto. Sempre tive demasiado conteúdo na cabeça (a qualidade desse conteúdo já é outra história) para servir de simples veículo de informação. Com a minha imaginação, era uma tortura limitar-me a relatar o que via sem conduzir, de algum modo, a história à minha maneira.  E esse conflito interior veio a atingir-me em cheio quando, mais tarde, trabalhei como jornalista na imprensa local. Por mais maçadora, revoltante, desinteressante ou inútil que a história fosse (de abóboras gigantes a inaugurações de casas mortuárias que eram, simultaneamente, salão de festas, apareceu-me de tudo) por mais que me apetecesse gritar "que ridículo que é isto tudo!"  convicta e cheia de verdade, respeitava demasiado o meu dever como jornalista de informação para me mostrar minimamente tendenciosa. O efeito que isso tinha na minha psique não era muito agradável, mas trabalho é trabalho.
Ora, creio que este é precisamente o problema de alguns jornalistas que há dias, a propósito da manifestação, vi acusados de falta de profissionalismo, de inventar e de acrescentar pontos, "bocas" ou pareceres.
 Querem sol na eira e chuva no nabal - adoram o protagonismo que os minutos em directo ou as páginas do jornal lhes conferem, mas não aceitam que o seu papel não é opinar e sim transmitir o que se passa. Ponto. Borrifando-se para o facto de o público, esperando de si isenção e imparcialidade, tomar à letra os seus bitaites, atiram para o ar ideias superficiais, consolidam rumores, apontam o dedo, conjecturam, imaginam, sem se darem ao trabalho de verificar a situação sob todos os ângulos. Nem todos os bons jornalistas escrevem ou reflectem excepcionalmente - e nem sempre quem pensa bem e escreve melhor é necessariamente um bom jornalista.
Depois, temos um defeito de profissão que encontro muito por aí: o jornalista amargurado. Batido nos meandros da profissão, habituado a furar à força os muros da reserva alheia, exercitar o seu faro para a verdade e a conseguir a desejada "verdade" nem que seja à marretada (muitos dariam saltos de alegria se lhes facultassem os instrumentos de tortura do Santo Ofício para uso quotidiano) sofre de uma desconfiança e cinismo permanentes, é furiosa e necessariamente anti poder e anti tudo, vê vigaristas, injustiças, artimanhas e conspirações em toda a parte; não é capaz de desligar esses mecanismos, de descontrair, nem mesmo quando despe a camisola, calça os chinelos e se senta tranquilamente ao computador, ao comando da sua rede social de eleição. Refastelado, do alto do seu estatuto de "pessoa com acesso a uma suposta informação privilegiada" escandaliza e cansa os seus amigos não jornalistas com constantes novidades e acusações acerca disto e daquilo. Quer a verdade - mas se a verdade não contiver nada de escandaloso, de sombrio, nada de manhoso, então não interessa. Poucos são os que escapam ao vício de procurar, desesperadamente, a toca do escândalo e da podridão. Tudo lhes merece ser medido, peneirado, dissecado. Menos ainda - felizmente, conheço alguns - são os que se divertem a divulgar boas notícias, os que não perdem o seu tempo com crispações diárias. 
 De modo que jornalismo por jornalismo, antes o que se ocupa das coisas belas - onde não corro o risco de me afligir diariamente com os pecados da humanidade - ou o de opinião, onde desabafo no lugar certo, não me expondo um potencial ressabiamento profissional e vicioso...

 " Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás pecadores: e quando entre eles reconhecesses S. Francisco de Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciúncula, taparias a face para que tamanha santidade te não amolecesse, e gritarias mais sanhudamente: `lá anda aquele malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!´Todo o jornal destila intolerância, como um alambique destila álcool, e a cada manhã a multidão se envenena aos goles..."

                                                             idem


Passatempo concreto a decorrer:  http://jessi-aleal.blogspot.pt/2012/11/passatempo-concreto-sissi.html . Participem!

3 comments:

Tamborim Zim said...

Sim, andamos a Leste da objetividade. Mas, a bem da verdade, esta é cada vez mais complicada de conceber e transmitir...

Tamborim Zim said...

Belíssima a imagem de Sissi indefesa e de microfone na mão, em cenário dantesco!

Maria Pitufa said...

Eu confesso que ainda hoje dou comigo a pensar porque não abraça o jornalismo...mas confesso que gostava de ser a menina do " saia da frente menina que isto vai cair tudo!" Confesso que neste momento dou comigo a imaginar o que seria se estivesse na fronteira entre Gaza e Israel e quase que tenho inveja dos jornalistas que lá estão, mesmo sabendo os riscos que correm! Mas acho que nenhum orgão de comunicação me aceitava se eu lá fosse bater a porta: " Olá ou a Maria Pitufa, tenho outra profissão mas adorava ir fazer a cobertura do conflito entre Israel e a Palestina... Já agora sou boa para ir porque não tenho filhos!"... Sim podem me chamar de tola...já estou habituada! :p

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