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Wednesday, November 7, 2012

"Hás-de pagá-las, nem que leve 50 anos"!

Ficheiro:William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - The Remorse of Orestes (1862).jpg
William-Adolphe BouguereauO remorso de Orestes (1862
                                       

Já vos contei que passei ao lado de uma brilhante carreira 
como investigadora/profiler do FBI (a não ser que venham cá a casa raptar-me para me transformar numa Clarice Starling da vida...acontecem-me coisas tão extraordinárias que essa não seria a primeira, e vamos sempre a tempo de mudar de emprego; se sucedesse tal coisa, estão a imaginar como ficaria este blog?). Mas o bichinho, o instinto e a tradição de família para as "questões de armas" estão cá e volta e meia, dou por mim a ler sobre o tema, ou a deliciar-me com programas sobre o assunto. Por estes dias vi precisamente um que me fez lembrar um texto recente aqui do blog sobre justiça e vingança. 
   Numa noite fatídica em 1957, o jovem Gerald Mason entrou numa espiral de violência: atacou dois casais de namorados, agrediu-os, assaltou-os, cometeu uma violação e
 levou-lhes o carro. Na fuga, passou um semáforo e foi mandado parar por dois agentes, que não sonhavam que o veículo era roubado. Para não ser preso, baleeou-os sem pensar duas vezes. Um morreu instantaneamente; o outro teve sangue frio e pontaria para disparar três tiros certeiros contra o fugitivo antes de dar o último suspiro. Ambos os polícias (de 24 e 28 anos) deixaram mulher e filhos pequenos. Apesar do empenho das autoridades, que reuniram pistas importantes, os recursos da época não permitiram apanhar o criminoso. Mas nunca desistiram e numa reviravolta que supera os guiões da série Cold Case (´Casos Arquivados´) por uma mera coincidência, o crime foi esclarecido. Analisando com modernas tecnologias as impressões digitais retiradas do carro nos anos 50, as balas e outras provas forenses, os investigadores actuais chegaram a um respeitável avô de família e cidadão modelo, Gerald F. Mason. Confrontado com as evidências, Gerald declarou-se culpado e foi condenado a prisão perpétua em 2003.

                                                           
E qual foi a prova final para a sua condenação? A cicatriz da bala disparada pelo agente moribundo, Richard Phillips. Por acaso, Phillips era um dos melhores atiradores do seu departamento, e conseguiu marcar o assassino para o acusar publicamente do além túmulo. Foi como se o criminoso andasse perseguido, durante quase cinco décadas por um espírito vingador.  Ou seja, justiça poética...

O agente Richard Phillips disparou três balas certeiras antes de morrer.
E porque é que o caso me chamou a atenção? Pela lição que encerra.  Gerald Mason viveu 45 anos em liberdade,  comeu, bebeu, constituiu família, andou por aí todo contente. Mas como na Mitologia Grega, as Fúrias  não o deixaram em paz. As Erínias são Deusas Justas e nunca deixam de concretizar a maldição dos inocentes que as invocam. Eventualmente demoram mas nunca dormem, nunca se calam, nunca descansam e nunca desistem. Ainda por cima exercem o seu ofício com certos requintes de malvadez - que podem confundir quem espera por justiça e deixar os criminosos aparentemente descansados. Por vezes, gostam de desempenhar o seu trabalho quando o assunto parece encerrado, quando tudo indica que o culpado se safou à grande, surpreendendo todos os envolvidos. Ou como eu costumo dizer "o Diabo pode levar o seu tempo, mas apresenta a conta pelos seus serviços quando menos se espera".                                                  



9 comments:

Charmoso said...

Partilho do mesmo espírito das Erínias. Apesar de não ser vingativo, gosto de mostrar às pessoas que "sei das coisas" quando um assunto parece estar encerrado e toda a gente pensou que iria passar despercebido. A vingança serve-se fria não é verdade. Só espero é que a vida exemplar deste cidadão não sirva de atenuante, pois senão não seria realizada Justiça!! Justiça será julgar este individuo como se estivessemos nos anos 50, e ninguém soubesse que ele ia ser um pai atencioso e um avô carinhoso!

Diligentia said...

Até consigo perceber a moralidade que o caso encerra, a justiça finalmente encetada, as vidas perdidas, nunca repostas, mas perpetuadas na memória de um caso resolvido e levado à justiça. Porém, se há coisa que me causa comichão é o sistema penal americano. Não tem princípios, nem tão conceitos humanistas nos quais assente, não tem propósito da reabilitação do sujeito. Creio que os americanos nunca ouviram falar de prescrição de crimes e procedimentos penais...Qual é o sentido de estar a julgar um crime que ocorreu há 50 anos? O objectivo, o fim das penas nos paises civilizados é a revitalizacao do individuo que cometeu crimes e a sua reintegracao no meio social, já plenamente restaurado do seu 'estado mental perigoso'. Esse homem andou 50 anos a viver a sua vidinha como se nada fosse, o que é que vai aprender? De que é que vamos reabilitá-lo agora? Beats me...

Imperatriz Sissi said...

Quanto à primeira parte, estou totalmente de acordo. A segunda é mais delicada. Pela minha perspectiva, pondo-me no lugar da família das vítimas? Subscrevo. Não descansaria até obter justiça. De um ângulo mais abrangente há que considerar que as pessoas mudam, etc...mas é preciso recordar que ele só se mostrou arrependido depois de ser apanhado. Ele teve tempo de eventualmente mudar e corrigir-se - para as vítimas acabou tudo em 1957.

Imperatriz Sissi said...

Percebo muito pouco do assunto - principalmente para o discutir com a Diligentia :D mas de facto o sistema penal americano é complexo e
parece-me assentar em princípios um pouco diferentes. Coloca mais ênfase nos direitos da vítima, no saciar da sede de justiça do que por vezes, na reabilitação do indivíduo. E como a justiça é cega, por vezes corta a direito. Se por um lado isso pode dar origem a erros legais muito graves, mesmo irremediáveis (é o caso da pena de morte, e a razão principal por que não concordo com ela)por outro, permite que a sociedade confie na justiça, o que não acontece em Portugal, por exemplo. Penso que será um caso de "closure", de demonstrar que a justiça tem o braço longo, mais do que ensinar alguma coisa ao homem. Por um lado concordo, ele pode ser uma pessoa totalmente diferente hoje. Por outro, também não me parece bem deixá-lo ir à sua vida, sem receber o resultado dos seus actos. Quanto mais não seja para dar o exemplo.

Charmoso said...

Se o julgamento levar em conta a vida correcta deste cidadão após o crime, então teríamos de dar a mesma oportunidade a todos os criminosos. A oportunidade de poderem demonstrar que serão bons cidadãos apesar do delito. Daí que, em minha avaliação, isso deve ser ignorado do julgamento. A directriz deveria ser um individuo de vinte e poucos anos que acabou de cometer crimes horrendos, inclusivé o assassinato a sangue frio de dois agentes.

Diligentia said...

É esse 'dar o exemplo' que não encaixa com o espirito da propria constituição deles. Se fundam um país com base na liberdade individual e na prosperidade das pessoas, se esse sistema é baseado nas pessoas (que pena os comentarios não permitirem sublinhar palavras) como é que na execução dos principios à vida pratica eles são esquecidos? É o Homem que importa no sistema penal, arguido ou vitima. O Homem na veia do principio de proteccao dos seus direitos. Ok, já me estou a esticar. Só acho absurdo que permitam a prescricao das dividas e não permitam a prescricao de crimes.Não aborreço mais ninguém com conversa juridica :)

Imperatriz Sissi said...

A perspectiva jurídica é interessante, já que a minha vem da observação pessoal ou quando muito, será influenciada por uma visão histórica/antropológica da realidade. Quando se fala na cultura americana, é necessário considerar que a dimensão e circunstâncias em que a nação foi formada (um grande território selvagem, com gente de muitas culturas diferentes) influenciou bastante a sua mentalidade. As pessoas viviam (e vivem) em territórios vastos, não vigiados - precisavam de ter meios de auto defesa. Daí as armas não serem estranhas para eles como poderão ser para um europeu, por exemplo. Quando a Europa começava a voltar-se para um pensamento politicamente correcto, ainda eles tinham de lidar com questões bem mais básicas.Tenho sempre a impressão que princípios que são obsoletos cá, por lá ainda se mantêm, com tudo o que isso tem de bom e de mau. Depois, a presença de povos como o irlandês e o italiano, fora outros, que mantêm alguma tradição de retaliação, pode ter dado o seu contributo (isto é uma opinião puramente pessoal, claro). Escrevi algo sobre isso aqui:

http://jessi-aleal.blogspot.pt/2012/02/vendetta-honra-e-omerta.html


Pessoalmente identifico-me com alguns desses aspectos, por motivos culturais e outros. Quanto à prescrição de dívidas e não de crimes, nisso estamos de acordo - é estranho. Mas não sei se é assim em todos os estados.

Imperatriz Sissi said...

Independentemente de tudo o resto, seria insultar as vítimas não castigar o culpado. Mas essa é a minha forma de pensar. Até posso sentir pena pelo novo homem que ele se tornou, mas o criminoso que ele foi deve enfrentar a justiça como um homem. E se realmente se tornou num cidadão cumpridor da lei, esse é o seu dever e a única forma de encontrar de facto a redenção.

Just José said...

Concordo totalmente contigo, Sissi. Sou totalmente contra a prescrição de crimes de sangue. Acho até de um cinismo atroz e algo que foi criado para aliviar os tribunais e os nossos senhores juízes. Mas então faz algum sentido que um homicídio prescreva?! E prescreve quando? 10 anos? Porque não 15? Ou 20? E se os investigadores chegam ao criminoso passado 1 dia do prazo o que faz o criminoso? Ri-se na cara deles?

E mais chocante é ainda quando os crimes prescrevem durante os procedimentos judiciais, por atraso dos tribunais... O problema é que as pessoas se habituam a tudo, até às práticas ilógicas, inexplicáveis e iníquas como esta da prescrição dos crimes, passando a considerá-las como "normais" e fazendo parte do "humanismo". Mas que "humanismo" é esse se os homens tantas vezes se comportam com uma perversidade que não tem paralelo no mundo animal? Esse "humanismo" muitas vezes não é mais que cinismo coberto com uma capa de valores judaico-cristãos, que protegem os fracos, os criminosos e os iníquos, porque devemos perdoar e dar-lhes o "reino dos céus"...

Os animais é que deviam ter o "animalismo" pois não assassinam gratuitamente nem cometem massacres. A justiça não se pode afastar da natureza humana e tratar os criminosos como coitadinhos. Senão acabamos num ponto em que um tipo mata 76 pessoas e tem direito a hotel de luxo durante 21 anos, tudo pago...

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/950696-atirador-da-noruega-pode-ficar-detido-em-cadeia-de-luxo-veja-fotos.shtml

E Sissi, não é nada estranho que prescrevam dívidas e não crimes de sangue! Ou estamos a colocar bens materiais e vida humana no mesmo plano?! É isso que fazem os "humanistas"?!
Só mesmo os atores do nosso sistema judicial se podem espantar com o facto de haver um país no mundo em que se possa perdoar dívidas e não homicídios... Que absurdo! Património é mais importante!

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