Recomenda-se:

Netscope

Saturday, November 17, 2012

Henrique Monteiro dixit: carga policial


                               
Vi o início da carga policial em directo na RTP: os apupos, as pedras, o crescendo, as bombas de indicação de desordem pública e por fim, o avanço sobre a multidão compacta que se tinha formado em frente ao Parlamento.

Pensei dizer alguma coisa sobre o assunto. Mas no Expresso, Henrique Monteiro tirou-me as palavras da boca com uma excelente crónica. Eu que tenho medo de multidões e ajuntamentos (até em circunstâncias felizes, como a Serenata em Coimbra, fui arrastada por duas vezes...numa delas, tive de gatinhar até ao átrio de um prédio onde me refugiei até que a confusão dispersasse) não compreendo como é que quem já se manifestou ao longo do dia, já disse pacificamente da sua justiça e até está acompanhado de idosos ou crianças, se deixa ficar na zona de maior tensão, observando a polícia a ser apedrejada entre vaias e avisos mais ou menos audíveis. Mesmo que não se ouçam as advertências tim tim por tim tim o crescendo, a crispação que se avoluma, o berreiro e os empurrões têm de ser perceptíveis. Sabe-se que àquela hora os ânimos estão exaltados, que nem todos os manifestantes estão de boa fé ou razoavelmente sóbrios - na última manifestação aconteceu uma situação semelhante. Prudência e amor à pele nunca fizeram mal a ninguém. Não só por medo a eventuais cacetadas -numa confusão daquelas pode facilmente pagar o justo pelo pecador -  mas porque os acidentes acontecem e em apertos mais ainda. Foi uma sorte ninguém ter acabado esmagado aos pés no meio do pandemónio.


Há coisas do arco-da-velha. Uma delas é acreditar que um polícia, depois de hora e meia a levar pedradas, tem discernimento para, durante uma carga, saber quem prevaricou e não prevaricou.
Vamos a factos. Vários energúmenos (que nada tinham a ver com o espírito da manifestação, e já depois de esta ter acabado) começaram a apedrejar polícias em frente ao Parlamento. Vários manifestantes (entre os quais Daniel Oliveira, segundo o próprio relata na sua crónica) pediram insistentemente para não o fazerem, no que não tiveram sucesso e abandonaram o local.Um dirigente do PCP, que se encontrava a dar uma entrevista a uma televisão, condenou o sucedido e disse que ia retirar-se imediatamente daquele sítio, o que fez. Mais de uma hora depois, as pedradas continuavam. Alguns populares (ligados, presumo, à manifestação da CGTP) colocaram-se em frente da polícia tentando demover os delinquentes. De nada serviu, a chuva de pedras continuou. A polícia fez um aviso: retirem-se da praça que vamos carregar. Dois minutos depois repetiu o aviso. Cinco minutos depois, carregou. Quem ainda estava na praça sabia o que ia acontecer.
Bateram em pessoas que jamais tinham atirado uma pedra? É possível. O que não é possível é ser de outra maneira; o que não é possível é durante uma carga, um polícia que esteve sob uma tensão enorme durante horas, indagar e interrogar-se sobre a justeza da sua ação. Isso é lírico.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...