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Wednesday, November 14, 2012

Odiozinho de estimação: pseudo intelectuais


                                         
A Menina Lamparina recordou hoje um luminoso texto dos seus. Nele, aborda um tema que veio várias vezes a talhe de foice e que já tenho aflorado à ligeira por aqui: um fantasma que assombra qualquer mulher (ou homem) que assuma gostar de moda mas 
que - pasme-se - tenha dois dedos de testa e alguma cultura (condições essenciais para realmente compreender a moda, a arte, a literatura ou qualquer exercício de imaginação e de espírito). É que além dos brutos de serviço, que alardeiam aos quatro ventos ser muito responsáveis e só pensar em "ganhar a papa" porque isto está muito mau, há sempre os pseudo intelectuais de carteirinha, espécie que eu corria a insecticida, se pudesse. Contagiada pelas palavras da Menina, comentei mais ou menos isto:

Tenho um ódio de estimação pelos pseudo intelectuais. Todos eles. Os chamados "pseudo intelectuais de esquerda" com a sua hipocrisia sem limites e teorias da conspiração para tudo, que metem política em tudo, então 
tiram-me do sério...principalmente quando decidem "tomar de assalto" certas organizações que não lhes pertencem. E o pior é que de todos esses, raramente se aproveita um, intelectualmente falando. Não há nada pior do que a cultura postiça, colada à pressa. No fundo, são tão paranóicos com a opinião alheia como a pior das fashion victims. "Se não me vestir mal, não andar meio sujo, não falar sem abrir bem a boca, estilo mistura entre filósofo doido com arrumador de carros com uma moca de caixão à cova, não sou intelectual nem profundo - o horror!". A sua "rebeldia" limita-se à conformidade, a imitar os seus pares. Não têm criatividade, nem imaginação, nem capacidade para sonhar, nem sentido de estética, nem espírito, nem génio, muito menos sentido crítico ou a coragem de ser eles mesmos, de se expressarem artisticamente: são umas cassetes, uns papagaios, uns...wannabes. E isso revela pouca inteligência. É uma cinzentona tacanhez, de quem não foi habituado de pequenino a exercitar o intelecto e depois procurou compensar isso à martelada...

 Tenho pregado vezes sem conta, de viva voz e por escrito, o verdadeiro carácter da moda como arte, indústria e como fenómeno social, a distinção entre o apreciar moda e a vaidade oca. É uma cruzada, meus amigos. Atrevam-se a falar de moda, ou mesmo a não abrir a boca mas ter um certo ar "composto" e verão que há sempre um chico esperto pronto a tirar conclusões precipitadas ou a apontar o dedo. "Tu não pensas em coisas sérias!", "tu sabes lá o que são dificuldades, andas sempre tão bem vestida", ou "aquela é lá pessoa para se levar a sério, deve perder duas horas só para se arranjar" são alguns disparates correntes, que levam uns bons meses a desmentir se a necessidade obrigar a travar essa luta tão difícil. Uma palavra de aviso para as "fashionistas" que acabam a licenciatura neste momento: a "boa apresentação" pedida em alguns anúncios é conversa da treta. Numa entrevista que não seja para uma empresa ligada à indústria de moda, preparem-se para fazer penitência: "tenho interesse por roupas e sapatos, mas também gosto de outras coisas...de quê? Literatura. Não, não li o Crepúsculo...cinquenta sombras de quê? Não, não levo o trabalho a brincar...etc, etc, etc". E não precisam de se apresentar com looks elaborados, como se fossem para a Semana de Moda de Paris. Qualquer coisa que fuja ao típico "primeiro - tailleur- da -minha -vida comprado -ontem -na Zara- de -propósito -para -a -entrevista" é imediatamente detectada. O mesmo vale para os tempos de faculdade. Ser o único, ou dos poucos, elementos de uma turma de Jornalismo ou Relações Públicas que quer seguir a área de Moda e não fazer coisas "sérias" como ser repórter de guerra ou responsável de comunicação da CIA (ou de qualquer coisa mega importante e crucial para a vida humana como o fabrico de caricas ou parafusos) é um factor de atracção para olhares de lado. Haverá sempre um espertinho que se põe a debitar política ou alta finança à vossa frente, esperando enterrar-vos. 
A vantagem é que ver a tacanhez alheia em todo o seu esplendor não deixa de ser divertido - sempre me deu um certo prazer trocar as voltas às pessoas que se julgam muito espertas com esta arte de camuflagem ... ou manobra de diversão, se preferirem.


7 comments:

Charmoso said...

What to say? Disseste tudo e mais alguma coisa deixando um tipo ignóbil como eu privado de palavras. Não posso concordar mais contigo!

Beijos com charme

Sérgio Saraiva said...

Eu não tenho sentido estético visual apurado e portanto não sei andar na moda. Gostava de ter mas não tenho. Fico pelo meu gosto minimalista feito de formas e cores simples. :p
Aceito e vivo com isso. Em compensação tenho uns colegas machos todos metro que explicam o que uso mal, como sendo se o cinto condiz com os sapatos, etc... Pior que as mulheres :p

Uma vez ia com um colega meu para o Estoril Open, e ele embirrou com as minhas calças. Que tinha que ir a casa mudar porque sei lá por que... Não deviam ser intelectuais... Lol... Para ver jogos de tenis? Mas... Nem toda a gente vai ao Estoril Open para ser fotografado, ou para tentar aparecer nas fotos tipo emplastro... Ainda há uma minoria que vai lá para ver os jogos mesmo (e da comida já agora que é bastante boa...)

Sou um engenheiro, está nos meus genes: penso primeiro na utilidade e só depois na estética :p

Uma vez numa entrevista de emprego, a pessoa que estava a fazer e entrevista comigo, perguntou ao candidato se estava naquele momento a ler algum livro. O candidato respondeu com um livro qualquer que não me lembro, ao que o meu colega respondeu que... No caso dele, a leitura de cabeceira dele naquele momento era a... Playboy... ahahahahah... Nem tudo é o que parece.

menina lamparina said...

«Ser o único, ou dos poucos, elementos de uma turma de Jornalismo ou Relações Públicas que quer seguir a área de Moda e não fazer coisas "sérias" como ser repórter de guerra ou responsável de comunicação da CIA (ou de qualquer coisa mega importante e crucial para a vida humana como o fabrico de caricas ou parafusos) é um factor de atracção para olhares de lado. Haverá sempre um espertinho que se põe a debitar política ou alta finança à vossa frente, esperando enterrar-vos.»

Mesmo! Ou então, balbuciam nomes como Kafka e Tolstoï numa vã tentativa de intimidar aqui a fútil. Temos mesmo grandes paralelismos nas nossas vidas.

Há dias tive que marcar presença num jantar de amigos do João... e a melhor amiga dele (oh God, as melhores amigas!!) é daquelas que usa a outra táctica para revelar toda a opinião que formou a meu respeito só com um olhar: subestimou-me. Então só falava comigo sobre os vários penteados que já tinha arriscado fazer. E sobre os meus sapatos. Bom, com as outras pessoas, falava normalmente, mas quando se virava para mim, toca de arranjar qualquer assunto básico e superficial como o verniz das unhas or something like that.

Não há pachorra.

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Charmoso. Ainda bem que há quem entenda. :)

Imperatriz Sissi said...

Acredito que a simplicidade cabe em todo o lado. E não acho a mínima piada ao fenómeno "metro" como tenho dito muitas vezes. É certo que determinadas ocasiões sociais têm o seu dress code (hoje em dia cada vez menos rigoroso, o que só complica- antigamente toda a gente sabia o que vestir em cada tipo de situação...se estava fantástica ou assim assim dependia das posses e do gosto, mas dificilmente se via gente muito fora do contexto). Não tenho rigorosamente nada contra quem se está marimbando para a moda (eu própria sou um pouco anti trendy, por vezes) embora ache importante que se tenha um guarda roupa clássico, normal e composto para diferentes situações. Quanto ao sentido estético, ele também se treina ;) E pessoalmente, gosto de roupa funcional, ou de uma estética funcional, por isso percebo o teu ponto de vista. Dificilmente me vêem por aí com muitos enfeites ou com um acessório que só sirva para decorar ou "encher" o look. Mais facilmente uso um cachecol ou boá. Se uso um colar, tem e estar ligado às cores ou equilíbrio de proporções ou coisa semelhante. Por vezes lá vejo um visual com mais elementos e fico a pensar "olha que está giro, como se lembraram daquilo?" mas por minha auto recriação dificilmente o faço. Uma mulher já tem de andar com carteira, guarda chuva, sabe-se lá mais o quê...penso que sou um tanto maria rapaz nesse aspecto.

Imperatriz Sissi said...

Lamparina, acho que é uma "maldição" que partilhamos. Mas já deu origem a boas conversas e momentos de "retaliação" muito divertidos ;)
E essa melhor amiga, das duas, três:

- Quer agradar, é um bocado limitada e não sabe como;
- É uma pseudo intelectual completamente idiota e acha que assim fica melhor com ela própria - como se tivesse miolo ou autoridade para ser paternalista e condescendente com alguém...OMG.
- É uma mulher da luta recalcada e ressabiada (nesse caso, estou a pensar em partidas lhe pregaria, porque detesto mulheres intrometidas).

Beijoca


Julie D´aiglemont said...

Concordo inteiramente contigo. E cada vez tenho menos paciência para ideias feitas. Apesar de não ser particularmente vaidosa, gosto de andar decentemente vestida (por decente entenda-se vestida com algum cuidado com a estética). Com a idade (e maturidade) aprendi a desvalorizar a opinião de quem se atém a ideias estereotipadas. Afinal, não é o tempo de perco a combinar as roupas que me fazem ler menos.

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