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Wednesday, December 12, 2012

A girl like you

                             
Tenho reflectido, por mais do que uma vez, sobre a temática da independência interior. A nossa liberdade de movimentos, acção ou decisão pode estar limitada, a independência financeira pode perder-se temporariamente, por vezes é necessário recuar ou ceder; mas a nossa mente é livre, se permitirmos que seja. Acredito que acabamos sempre por ir para onde a  mente está. Mesmo que não haja meios à disposição no imediato, quando temos um propósito firme o caminho acaba por abrir-se, os recursos aparecem.
 É por isso que bato tanto na tecla "não adianta tentar controlar ou vigiar o outro, quem quer fazer disparates acaba inevitavelmente por levar a sua avante por mais que o tentem impedir, etc". E isto também funciona no aspecto positivo: uma intenção  alimentada com frequência ganha invariavelmente forma, creia-se ou não em filosofias metafísicas. Quem tem a ideia fixa de emagrecer, por exemplo, muito provavelmente vai interessar-se por dieta, exercícios, e rejeitar coisas que engordem. Pode levar o seu tempo - mas se mantiver um objectivo com entusiasmo, é muito difícil que no mínimo, não proceda de acordo. É claro que pensar pela própria cabeça, agir com firmeza, manter decisões e rejeitar a bajulação, manipulação ou intromissões alheias tem o seu preço: requer coragem. Obriga-nos a algumas atitudes impopulares, que aos olhos de almas irmãs ou de quem admira uma "voz de comando" serão carismáticas (há sempre quem goste de um enfant terrible) mas aos da maioria sem espinha dorsal, cheia de pavor pela opinião alheia, ou ansiosa por agradar com segundas intenções, parecerão um verdadeiro repelente. Good riddance. More´s the pitty. Tanto melhor. Um espírito livre - desde que temperado por uma certa sensatez - pode não ser popular, mas granjeia respeito em toda a parte.
Por mais diplomacia que se tenha, porém, possuir uma personalidade vincada e fazer uso dela gera alguns confrontos. Quando se é mulher, pior ainda... ainda que não se defenda, de todo, a ideia da "generala" mandona e barulhenta e se seja toda pela feminilidade, doçura e subtileza. 
É difícil ter independência mental e simultaneamente, relacionar-se com pessoas dominadoras, possessivas, que prezam o protagonismo acima de tudo e desejam ser bajuladas, nem que se saibam odiadas intimamente pelo poder de que usam e abusam. Para alguém que é assim, o indivíduo de espírito livre, dono do seu nariz, honesto, que não receia nada nem se deixa deslumbrar ou intimidar pode parecer fascinante. Uma mulher assim...soa diferente de todas as outras.  É interessante na medida em que constitui um desafio: a única que não consente ser subjugada e por isso, aquela que mais desejam dominar e dobrar. Mas como vamos sempre para onde a mente está, um espírito independente não pode ser dobrado, nem quebrado. Poderá moldar-se - se sentir que é feliz assim - mas não consegue ser submisso, mesmo que a aparência ou ilusão de submissão o divirtam. E a longo prazo, aquilo que atraía fatalmente pelo seu encanto transgressor, subversivo, proibido, torna-se perigoso. Gerador de medo, de ódio. Dizia José Rodrigues Miguéis, o gelo atrai o fogo, mas para o consumir.
 Do alto do seu trono, do seu poderio, não pode compreender  aqueles que preferem reinar no Inferno  a servir no céu. Aos seus olhos, esse indomável desejo de liberdade, de respeito mútuo, de sinceridade para consigo e para com o outro, não pode advir da simples luz interior, de um pensamento justo e esclarecido - tem de ter um motivo oculto e sinistro. E a mais angelical das filhas de Eva transforma-se, assim, na sua visão, numa Dalila, numa Lillith, numa Mulher Escarlate a carregar a destruição em cada curva sinuosa, a acordar-lhe os demónios interiores, a trazer consigo o potencial aterrador da transformação. Por outro lado, qual foi o crime de Lillith? Atrever-se a dizer "querido, estou cansada da mesma rotina" e quando não foi ouvida, voar para fora do Paraíso e nunca mais me procures, que eu também não te volto a incomodar... Ter asas é um problema.

3 comments:

Sérgio Saraiva said...

Não sendo eu do Jet7 :P o tipo de experiência que tenho, destas coisas é mais no meio profissional especialmente nos momentos de avaliação que acontecem regularmente nas empresas. É claro e sabido que muita gente muda o seu comportamento para com os seus superiores/avaliadores nessas alturas do ano especialmente quando da avaliação pode depender um aumento, progressão, etc. E, apesar de me fazer de desentendido claro que percebo quando estou a ser... engraxado.
Mas essas coisas a mim não me fazem qualquer confusão: nem gosto nem desgosto. Para ser sincero estou-me um bocado nas tintas...

E mesmo em relação à questão das avaliações e progressões a coisa é muito relativa e pouco linear. Já me aconteceu ter de escolher entre dois técnicos (um rapaz e uma rapariga), para um lugar de coordenação. Nesse ano dei melhor avaliação a ele, mas contra toda a lógica aparente, o lugar de coordenação a ela. Não porque me tivesse feito "olhinhos" até porque em relação a isso tenho a sensibilidade de uma pedra (nem ela era pessoa para essas coisas), mas porque a avaliação era de trabalho técnico, e a vaga para coordenação, e um bom técnico não implica obrigatoriamente um bom gestor. Aliás, eu próprio sou um técnico de vocação e um suposto gestor "fabricado" que teve de assumir outras funções porque "teve de ser" e não por ter qualquer dom natural nesse sentido.
Depois descobri que uma das dificuldades que ela tinha era o facto de alguns dos seus novos subordinados machos (não a pessoa anterior) não lidarem bem com passarem a ser coordenados por uma fêmea (inocente que era). Mas também não fiz nada em relação a isso afinal se ela queria o lugar então que aprendesse a gerir essas coisas, e a equipa tinha passado a ser dela e já não era minha... :P

Maria Araújo said...

Simplesmente adorei este texto. Adoro a tua inteligente organização de factos e ideias e a moldura que lhes atribuis. É um prazer e consolo ler esta clarividência nos dias que correm, plasmada num cantinho da blogosfera. :)

Imperatriz Sissi said...

@Sérgio, a dinâmica homem/mulher nas empresas tem que se lhe diga. Ms é verdade que cabe às mulheres imporem-se, de modo que os seus subordinados esqueçam o sexo de quem os lidera e vejam só a liderança. Ouvi dizer que se uma mulher em posição de destaque se quiser impor o melhor que pode fazer é contratar um assistente masculino. Por alguma razão será...mas lá está: nem todos os homens são dominadores porque sim. A ti o facto de ela ser mulher foi-te indiferente...

@Maria
muito obrigada! Nem sei como responder a um elogio tão amoroso, vindo de alguém que escreve bem...fico muito contente. Esforço-me por organizar as ideias, mas às vezes os textos ganham vida própria e é sempre uma alegria saber que a nossa intenção foi compreendida. Beijinho.

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