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Monday, December 3, 2012

Como "achatar a crista" a um playboy: o episódio do chocolate

                                   
Já partilhei aqui algumas memórias da avó Tete, que podia ter escrito um excelente blog sobre comportamento se tal coisa existisse nos seus dias de juventude. As nossas intermináveis conversas davam material para muitas páginas. Uma das histórias que mais gostava de lhe ouvir era a do carnet de danças. Naquele tempo era costume, para angariar dinheiro para a organização do baile, ou para as obras da Igreja, leiloar-se um ramo ou um chocolate a oferecer à menina com quem se queria dançar. Um pouco como na famosa cena de Gone with the Wind em que Rhett Butler paga uma soma astronómica para fazer bailar Scarlett O´Hara apesar de ela estar de luto, o que causa grande escândalo, recordam-se?
  A certa altura da festa fazia-se um leilão para as danças de "carnet". Depois, em determinados "números" (músicas) o mestre-de-de- cerimónias gritava "Rester!" e a orquestra parava por uns momentos. Todos saíam, menos as meninas "leiloadas" e os seus pares. Quem tinha oferecido a contribuição mais generosa tinha a honra de abrir a pista. Além de servir para angariar fundos, o costume era uma espécie de concurso de popularidade - é claro que apenas as mais bonitas e/ou as que eram consideradas "bons partidos" recebiam ramos ou chocolates, em maior número consoante o cortejo e qualidade dos seus admiradores, que assim aproveitavam para chegar à fala ou mesmo declarar as suas intenções, sempre sob o olhar de falcão dos pais e restantes "paus de cabeleira". A avó e as irmãs, todas muito bonitas, nunca ficavam sem candidatos. Mas houve um baile em que a dança não correu como era esperado...
 A avó sempre tinha sido muito ponderada e ajuizada, ciosa da sua reputação. Por isso não gostou nada de ver que a irmã mais nova, que era bastante sonhadora e ingénua, andava apaixonada por um betolas lá do sítio - um rapaz muito alto, muito louro, espadaúdo, muito giro e de `boa família´, a quem chamavam o Nené. Como além de ser bem parecido e cheio de basófia tinha "alguma coisa de seu" todas as meninas tinham para ele um olhar doce, e o Nené achava-se o Rei da Cocada Preta, com direito a flirtar aqui e ali. Se havia coisa que ela não suportava - e contra a qual me avisou desde que comecei a ter dentes - era rapazes playboys. Não utilizava essa palavra, mas chamava-lhes "gozões" e "garotos".
Ser "gozão" ou seja, namoradeiro e sem palavra, era o pior defeito que um homem podia ter. Para cúmulo, o rapaz era "cheio de prosa": falava afectadamente pelo nariz, fazendo-se muito chic, e como nunca gostara de gente peneirenta, a menina Tete não podia com ele nem com molho de tomate. Não achou por isso graça nenhuma quando ele começou a aparecer por lá aos Domingos, à janela, com intenções de namoro para a irmã mais nova, sem contudo falar claro ou pedir autorização ao pai. 
A irmã, essa derretia-se só de olhar para ele e sendo um pouco distraída, muito jovem ainda, andava nas nuvens . O meu bisavô era duro que nem pregos, mas como o rapaz era simpático e havia sempre chaperone por perto, deixou andar. O pior é que o Nené não tardou  a fazer jus à fama de "gozão": vinha Domingo sim, Domingo não; ficava de aparecer e não aparecia; ora a punha na coroa da lua, ora fingia que não era nada com ele. Para agravar as coisas, a minha avó percebeu que quando ia lá a casa, tinha o descaramento de lhe fazer "olhinhos" nas barbas da mana mais nova. Percebeu a jogada e ficou furiosa. Até parecia que já o estava a ouvir a gabar-se aos amigos "eu sou tão bom, mas tão bom, que tenho duas irmãs a esgatanhar-se por minha causa; uma que parece a Elizabeth Taylor, outra que parece a Marilyn". Mas calou-se bem caladinha, fez o seu melhor sorriso e ficou a congeminar uma forma de lhe dar uma lição. A oportunidade não tardou e para isso, só precisou de deixar o Nené agir de acordo com a sua natureza de valdevinos. 
                              
  Meu dito, meu feito: foi grande a surpresa de todos quando o mandador anunciou ao microfone: "e este chocolate" (eram umas tabletes muito bonitas, embrulhadas em papel dourado...) "é oferecido, pela licitação mais alta da noite, à menina Tete pelo Sr. Nené, para a próxima dança" pois não era segredo para ninguém que o Nené andava de namoro com a mais nova. E esta a ver sem ai nem ui, que já ia "instruída" de casa. A minha bisavó, coitada, olhava apreensiva, receando que tudo terminasse numa grande vergonhaça. Os amigos do Nené galhofavam. 
Mas a menina Tete, na sua saia de balão "em canudos", aceitou o chocolate, fez o seu ar mais encantador, pôs o sorriso que lhe fazia aparecer covinhas na cara e reluzir os olhos verde-prateado, sacudiu os caracóis negros e seguiu o o par com toda a graciosidade. Dançaram todos contentes, com ele a dizer-lhe falinhas mansas. E a avó, a ferver por dentro, "espera que te arranjo". Até que se ouviu "Rester!" e se fez silêncio. "E agora" continuou o mestre-de- cerimónias, "é favor o par vencedor continuar o baile".
- Perdão! Eu cá não danço - ouviu-se claramente.
Todos se viraram para a minha avó, que estava parada no meio da pista, com ar de desafio. Calou-se tudo. 
-Não dança porquê? - perguntou o Nené, agarrando-lhe pelo braço a ver se disfarçava. - Eu paguei, tem que  dançar!
- Não danço porque não me apetece. Não danço e não danço! - respondeu ela friamente,
libertando-se com um repelão.
Lá atrás, os compinchas do mariola começavam a fazer-lhe negaças, e o burburinho crescia.
- E fique o senhor sabendo que só fiz isto para que aprenda a não fazer pouco de meninas sérias. A minha irmã é muito jovem e não se apercebe, mas se quiser andar em troças, procure outra família, não se venha meter com a minha - disse, com a maior serenidade.
O marialva fez-se da cor de um pimentão. Sufocado, humilhado, só conseguiu balbuciar:
- A menina merecia que lhe desse aqui duas bofetadas !...
- Pois dê! Ora dê, que ficam todos a saber quem o senhor é.
Não se atreveu, ora pois. A avó virou-lhe as costas, como um toureiro vitorioso, e assim desmascarou publicamente o playboy das dúzias.
 E o chocolate? - perguntava eu.
- "Comi-o!" - respondia invariavelmente a avó, que nunca perdeu o gosto por essa guloseima, nem depois de já ter netos...

            



6 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

vejo que a tua avó era uma grande mulher :)

Pusinko said...

Essa história bem podia ser um conto do Eça ou do Júlio Dinis. Não só pelo cenário como pela forma como contaste. Uma grande senhora a tua avó. Mais do que conselhos, deu bons exemplos :)

Fashionista said...

ah ah lindo! Tenho tantas saudades da minha avó e das suas histórias!!

Imperatriz Sissi said...

Ela era top :D

Imperatriz Sissi said...

Ohh, Pusinko, muito obrigada. Sim, a avó era uma verdadeira senhora e nunca dava sermões. Tinha uma forma mais divertida de ensinar. E conseguia dramatizar a história quando a contava, imitava as vozes...que saudades. Beijinho.

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada :D As avós são o máximo. Beijinho.

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