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Saturday, December 15, 2012

Como eu detesto remendos: na roupa e na vida

                               
Estou como certos dandies: numa fase em que por vezes, me fica mais cara a manutenção e adaptação do guarda-roupa do que a sua própria aquisição. Prefiro as peças ajustadas até à perfeição e se for caso disso, personalizadas. Só assim tiro o máximo partido delas. E isso não se aplica apenas a roupas e acessórios: é verdade para muitas coisas na vida. A certa altura, começamos a não ter paciência para situações, coisas ou pessoas que não nos servem, que nos deixam desconfortáveis aqui, que arrastam pelo chão ali, que ficam largas demais acoli, que nos obrigam a andar em bicos dos pés ou a sentar-nos com cuidado para que não se rasguem . Defendo mais do que ninguém que o que não está está bem deve ser identificado, estudado, consertado e resolvido de uma vez por todas. Assim tem sido com o closet: houve coisas que tinha comprado e eram bonitas, mas como estavam não me ajudavam, ocupavam espaço precioso, não serviam um propósito, não tinham utilidade. O que tinha remédio, mandou-se arranjar e voilà. O que não tinha, levou outro destino. Mas em ambos os casos a solução foi definitiva: não tentei "desenrascar" com meias tintas nem com remendos provisórios, porque detesto remendos e coisas provisórias, que têm tendência a ser provisórias para ficar
  Já há anos que tenho no armário um sobretudo de feltro de alfaiataria, vintage, lindo e admiravelmente feito como nunca encontrei outro. Deve ter idade para ser meu avô, o maroto do sobretudo, mas parece novo. O único defeito foi que de estar tantos anos perdido no armazém de uma boutique lisboeta fechada desde o tempo da Outra Senhora, o forro - cosido à mão - ganhou manchas e começou a descoser-se. Hesitei sobre a solução a dar-lhe, porque gosto, sempre que possível, de manter as características originais das coisas. Depois de muito pensar e de consultar quem sabia do assunto (e nos entretantos, foi ficando pendurado, pois não tinha urgência nele) decidiu-se que não havia volta a dar: ou se fazia um arranjo em profundidade, ou o casaco não podia sair à rua decentemente. Não valia a pena mandar limpar, virar o forro (cor de marfim, um encanto) ou aplicar-lhe fosse o que fosse. Ou era a sério ou não era. Finalmente lá encontrei um forro de igual qualidade, numa cor linda, e o que lá vai lá vai...
  Mas há pessoas que são incapazes de reconhecer que o forro está roto, irremediavelmente perdido, com as linhas ressequidas, e que pequenos arranjos só vão adiar o inevitável: "isto ainda desenrasca, amanhã se verá"; vão remendando, passajando, colando apliques aqui e ali; não têm coragem para arrancar de vez o que está mal e começar do zero; desde que tenham um biscoito de quinze em quinze dias, não se dão ao trabalho de comprar a caixa para comer biscoitos à vontade. Contentam-se com remendos, não percebendo que a certa altura as costuras mal feitas já são tantas que o tecido fica pior do que já estava. Preferem andar desconfortáveis, a meter os punhos rotos e encardidos para dentro, porque nem querem perder o casaco de vista, nem querem dar-se ao trabalho de ir ao fundo da questão...
E não percebo porquê, pois embora reparações profissionais tenham o seu custo, o resultado é o único que vale a pena.

2 comments:

Colour my life said...

Que belo post, Sissi. E que verdades inabaláveis. Sei tão bem do que falas, também eu já tentei e continuo a tentar não me livrar daquilo que tem defeito. "Mais tarde penso nisso." E os problemas prolongam-se. O que me dava uma chatice de quinze em quinze dias, agora dá-me dia sim, dia não. Ou talvez todos os dias, não estou bem certa.

Imperatriz Sissi said...

É o mal da roupa que precisa de arranjo, e das pessoas nas mesmas condições...vai-se a ver, não servem para nada e ocupam espaço precioso na nossa vida. Muito obrigada :D
Beijinho.

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