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Friday, December 14, 2012

Homens insuportáveis... e mulheres com paciência de Job

George W. Joy - Griselda, 1903
É certo que as perspectivas e expectativas "oficiais" acerca da dinâmica homem-mulher mudaram ao longo dos séculos, mas, como já aqui tem sido discutido, os comportamentos fora do comum - ou que davam nas vistas por serem maus ou injustos - sempre foram assinalados pelos autores contemporâneos como censuráveis. Embora certas características femininas - docilidade, virtude e uma suposta obediência - fossem consideradas ideais, poucos seriam ingénuos ao ponto de afirmar que essa forma de estar seria a regra sem, pelo menos, uma ponta de sarcasmo. O Decameron, de Boccaccio, com todo o humor que o caracteriza, é uma obra que retrata lindamente a realidade: as mulheres, mesmo manietadas pelas regras sociais, levavam a melhor muitas vezes - ou porque tinham razão, ou por serem reconhecidamente mais inteligentes do que os parceiros que lhes tinham cabido em sorte ou, em alguns casos, por serem de facto dotadas de malícia e vontade de se "portar mal" - vontade essa que transcende tempos e géneros...
O próprio Shakespeare, no seu The Taming of the Shrew ("A fera amansada") objecto de tantas análises de feministas e não só, deixa-nos a pensar se a "verdadeira obediência" não terá uma pitada de ironia. E guerra dos sexos à parte, Caterina era uma peste, a precisar de se moderar um pouco, com marido ou sem marido. Quanto ao ciúme excessivo de Othello, não precisa de interpretação - é claramente pintado como tolice e sentimento de inferioridade, com graves consequências. Em nenhum ponto Desdémona é apontada como causadora ou facilitadora da possessividade injusta do mouro.
Waterhouse, A Tale from the Decameron:  " Este conto mostra que as donzelas devem aprender a ser totalmente submissas", dizem eles. " Não, não, é para ensinar os homens não serem imbecis" dizem elas.
Se é verdade que as mulheres sempre governaram nos bastidores, usando de astúcia e subtileza, deixando aos homens as honras e assados da História e não precisando de dar a cara - com pontuais e soberbas excepções -  também seria falso afirmar que as expectativas sociais existentes na Idade Média, Renascimento e mais além não davam azo, em caso de maridos equivocados ou cruéis e de mulheres demasiado gentis, a situações que escandalizavam pela sua estupidez ou crueldade. Reais ou obra de ficção, casos de mulheres maltratadas caíam na boca do povo e na pena dos autores, e eram empregados para entreter e moralizar. A moral do conto dependia muito das conveniências de quem ouvia, claro está, já que há sempre duas faces da moeda...

 Teófilo Braga, que recolheu e tratou muitos contos da tradição oral portuguesa e europeia, relata um dos meus preferidos no género. Conto-o de memória, e à minha maneira:

Havia um Rei que tinha vários leais servidores, a quem queria muito bem. Gostava de ver a sua corte adornava de caras bonitas, por isso, incentivou os seus barões a casar com as mulheres mais lindas que conseguissem encontrar. Ao fim de algum tempo, todos tinham casado, mas só um se recusava a levar a mulher ao Paço, desculpando-se com a frágil saúde dela. A pobre coitada nunca punha um pé na rua, era uma autêntica prisioneira. O monarca andava desconfiado de que a esposa do fidalgo não seria bonita, por isso armou um ardil: subornou uma criada da casa para que o deixasse entrar uma noite, na ausência do marido, para a ver com os seus próprios olhos. Assim fez: a camareira abriu-lhe a porta e deixou-o entrar na rica alcova, adornada de cortinas de damasco verde. O Rei abriu as cortinas, aproximou uma lamparina  e viu a dama a dormir profundamente, descomposta e de cabelos soltos. Achou-a formosíssima, mas teve de sair à pressa porque ouviu o fidalgo entrar. Com a correria, deixou cair uma luva no chão do quarto e como estava escuro, a camareira também não deu por nada. Pela manhã, o marido, achando uma luva de homem no quarto, ficou louco de ciúmes - pior do que já era, pois essa era a única razão de a esconder em casa - e tratou a esposa muito mal, acusando-a de o ter enganado. A partir dali foi um inferno. Recusou-se a partilhar cama e mesa com a ela e cobria-a de acusações e injúrias. Nisto passou um ano.
A criada, cheia de remorsos por ter causado um desgosto tão grande, foi contar ao rei o que se passava. Este ficou aflito e tratou de esclarecer o equívoco.
Chamou o fidalgo e disse-lhe:
 - Afinal, porque nunca trouxe a sua mulher ao palácio?
- Senhor, é que ela é muito doente.
- Pois amanhã, vou cear a vossa casa.
E o ciumento, que remédio...não podia negar esse pedido.
Na noite seguinte, a esposa, ao ver-se sentada à mesa com o marido - coisa que há um ano não acontecia - não se conteve e começou a chorar.
O Rei perguntou-lhe o que tinha.

                         " Eu era amada do coração; hoje não o sou, não sei porque não" - respondeu a pobrezinha.

                                " Quando em minha vinha entrei, restos de ladrão achei" - atalhou o marido, secamente.

Foi o que o soberano quis ouvir. 

" Eu fui esse tal ladrão
Que na tua vinha entrei; verdes parras arredei, 
lindos cachos de uvas vi; 
mas juro-te à fé de  Rei que nas uvas não buli".

A partir dali o fidalgo mudou o seu comportamento, e percebeu que era estúpido e inútil ser tão possessivo. A mulher passou a acompanhá-lo sempre à corte, onde era conhecida como a mais bela, esperta e honrada.

Apesar da lição e mudança de atitude do marido, dá que pensar por que terá a infeliz suportado tanto tempo, e com tanta paciência, tais desmandos...
 Boccaccio vai mais longe, no conto que passou à História como A Paciente Griselda - conto esse que se aos olhos da época causava indignação, para a sensibilidade moderna é verdadeiramente hiperbólico. A mais tradicional e tolerante das mulheres - desde que dotada de bom senso e amor próprio - terá vontade de bater na heroína.

Há muito que Gualtieri, Marquês de Saluzzo, era pressionado pela família e pelo seu povo para casar, pois temia-se que a Casa ficasse sem herdeiro que governasse aquela terra. Teimoso, o marquês negava sempre, pois desejava ser livre. Por fim cedeu, mas deixou claro que não admitiria uma palavra de censura, escolhesse ele quem escolhesse. Ninguém se atreveu a contestar tão grande senhor e ele ficou livre para proceder como achasse melhor. A sua escolha recaiu sobre Griselda, filha de um lavrador que vivia nos seus domínios. Ela era lindíssima,sábia, toda graça e singeleza e com o parecer de uma rainha, mesmo vestida de pastora como andava. O marquês comunicou-lhe a sua decisão, e que seria seu marido desde que ela prometesse obedecer-lhe em tudo, sem ai nem ui, por mais estranhas que fossem as suas exigências. A modesta Griselda disse apenas que não se achava merecedora de honra tão grande, mas que estava de corpo e alma à disposição do seu senhor. À frente de toda a aquela gente, o marquês fê-la mudar de roupa para atavios mais adequados; casaram e ele levou-a para o palácio. A mudança de condição não tinha alterado em nada o bom carácter de Griselda, que se continuava a mostrar tão bondosa e serena como sempre fora - e não demorou a conquistar o coração do povo, que elogiava Gualtieri por ter escolhido uma tal mulher. Ao fim de algum tempo, Griselda deu à luz uma menina. O marido não se mostrou satisfeito e disse-lhe: o meu povo está descontente com esta herdeira, fruto de uma união tão desigual. Exigem-me que me desfaça da criança. Griselda ficou de coração partido: chorou em silêncio, benzeu o bebé e entregou-lho sem protestar. Mais tarde nasceu um menino, que teve destino igual; Griselda, que estava muito apaixonada pelo marido, a tudo se sujeitava sem queixumes, mostrando sempre boa cara por mais triste que estivesse. Assim se passaram catorze anos de casamento. Mas um dia, sem aviso, o marquês disse-lhe:
Griselda's first Trial of Patience, from The Canterbury Tales
- Tentei tudo, mas os meus vassalos e o meu povo não te aceitam como marquesa; eu próprio acho que a nossa união foi um erro de juventude. Vou casar com uma linda princesa de quinze anos, e hoje mesmo voltarás para casa do teu pai. Como não trouxeste nada, nada levarás.

- Sim, senhor; bem sei que estava como vim ao mundo quando me trouxe; mas peço-lhe que me deixe levar uma camisa em troca da minha inocência, que trouxe e não levo.

O marquês acedeu, virando-se para a parede, para que ela não o visse chorar. Os criados da casa e o povo da cidade, esses choraram muito ao ver a sua senhora, que lhes era tão querida, sair em camisa; e censuravam amargamente o marquês, que só podia ter enlouquecido para cometer tantas crueldades sem razão. Mas ela tranquilizou-os, dizendo que só Deus podia dar e tirar privilégios, logo não havia caso para aflições.
Voltou a casa do seu pai e vestiu as suas roupas de camponesa, que o velho guardara pelo sim pelo não, pois nunca se fiara nas bondades do genro. E continuou a viver como se a sua antiga vida não tivesse passado de um sonho. Mas as exigências do marquês não tinham parado por ali; parecia determinado a não a deixar em paz. Desta feita, exigiu que ela fosse tratar-lhe dos preparativos para o casório, pois só ela sabia organizar uma festa como ele gostava. Griselda, com o coração partido, submeteu-se a mais esta provação; e foi, mostrando-se animosa e tranquila como sempre. As damas do palácio condoeram-se dela e imploraram ao marquês que já que ali estava, a deixasse mudar de vestido para não destoar dos convidados; mas ele não permitiu e ainda assim, ela procedeu como a melhor dona de casa, e com a postura de uma verdadeira senhora. Quando estava tudo arranjado, Gualtieri veio apresentar-lhe a sua jovem noiva.

- Deus a salve, senhor; é muito linda. - respondeu Griselda - Só vos peço, em nome do amor que tivemos, que não  a trateis tão mal como à vossa primeira esposa; quem sempre viveu rodeada de mimo não tem a mesma força para suportar penas tão grandes.
Neste momento, Gualtieri não aguentou mais; muito comovido, contou-lhe a verdade: aquela menina não era a sua noiva, mas a filha de ambos, que ela julgava morta mas que ele mandara, tal como o irmão mais novo, educar em casa de uma duquesa sua tia. Todos os horrores a que a submetera não tinham sido mais do que provas para averiguar se apesar do nascimento humilde, Griselda estaria à altura da sua posição. Pediu-lhe perdão das suas desconfianças, e dos testes a que a tinha sujeitado: muito lhe tinha custado tudo aquilo, mas agora que via a mulher excepcional que Griselda era, tudo faria para a compensar dos sofrimentos passados e a para a honrar como sua mulher. E viveram felizes para sempre...

Se há que admirar a serenidade, bondade e classe com que a pobre Griselda encara as provações - e  a tranquilidade à prova de bala é algo que cai sempre bem a uma senhora - dá que pensar o motivo de ter suportado tantos horrores, uma vez que claramente, a personagem não é caracterizada como orgulhosa nem ambiciosa. Quanto ao amor, calha mesmo bem que isto seja um conto, porque nem a maior paixão resistiria a abalos destes.
 A questão é: Griselda nunca o tinha procurado (limitou-se a  obedecer-lhe desde o princípio) logo, quem se julgava Gualtieri para a "testar"? E isto são partidas que se preguem? Confesso que a primeira vez que li a história, há muitos anos, estive até ao fim à espera que Griselda, ao saber a verdade, agarrasse nos filhos e saísse orgulhosamente da casa daquele doido - decisão que, em qualquer época, ninguém lhe levaria a mal. Obviamente, a fábula tencionava ensinar às mulheres as virtudes da paciência e da tolerância, que são sempre recompensadas; resta saber como as mulheres desse tempo reagiam ao conto: pensariam "que bonito, também hei-de ser paciente?" ou "Deus me livre; para recompensas dessas mais vale dizer e fazer tudo o que me passa pela cabeça"? Deixo isso à vossa imaginação.


















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