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Saturday, March 24, 2012

Lita Superstar

A famosa bota de Jeffrey Campbell já celebrou o 1º aniversário. Não me recordo de um modelo de calçado que tenha despertado tantas discussões apaixonadas: a Lita ou se ama ou se odeia. Ao início, não percebi a novidade, nem o sururu, nem que tanto as originais como as reproduções de outras marcas esgotassem à velocidade da luz. 
  Repare-se: é um botim simples, inspirado nos anos 70 (e parece-me, nas botinas do século XIX, apenas com um salto de 12 cm). O design espartano, mas bem construído, é como uma tela em branco para inventar com diferentes cores, texturas e materiais. De certa forma, isto proporciona uma identificação junto das potenciais consumidoras: há uma lita a condizer com cada cliente. Raramente um produto statement é tão transversal.
  O que me espanta, de facto, são os comentários dos críticos da bota: "sapato ortopédico", "bota de circo", "salto de stripper" já ouvi de tudo. Não percebo a estranheza uma vez que, nos últimos cinco anos, temos assistido a um tudo ou nada no que respeita à altura dos tacões e tenho visto sim, verdadeiros saltos de stripper pelas ruas portuguesas: altíssimos, finos ou ligeiramente côncavos no meio, acompanhados de uma plataforma que inclina o corpo para a frente; ou os inenarráveis pumps inspirados nos Loubotin, mas sem qualquer cálculo quanto ao conforto ou ergonomia (e volto a dizer, usados em plena luz do dia, de forma constrangedora). Comparadas com esses exemplos, as Lita são relativamente discretas. Mantêm o pé equilibrado, com uma inclinação próxima do natural (isto é muito importante) e não são tão diferentes de outros chunky heels considerados casuais. Acrescente-se que apesar da extravagância de alguns materiais, o salto é sempre preto ou de madeira, o que torna a bota divertida de usar, mas descontraída. 
 O facto de ter cordões e de não empurrar o pé para baixo - note-se que a biqueira termina a direito, e a curva ascendente da plataforma por baixo dos dedos permite calçá-las sem o esforço de outros saltos - é uma possível razão para a sua popularidade. Acrescente-se que -  embora exijam algum cuidado, como qualquer peça exuberante - são versáteis, prestando-se a uma panóplia de combinações equilibradas: com vestidinhos, calças skinny ou pata de elefante, saias maxi...
 Quem me conhece sabe que sou adepta de um estilo clássico e depurado. Raramente arrisco nos formatos ou em grandes novidades. Saltos assassinos não fazem o meu género. Mas detalhes com o seu quê de boho, como estas botas, podem dar vida a um outfit sem muito trabalho. São daquelas peças chave que falam por si, e pedem algum olho na coordenação dos elementos. 
 Claro que o resultado final depende não só da combinação, mas também da figura de quem usa, da Lita em si, e da ocasião. Este tipo de calçado recomenda-se para acontecimentos sociais de pouca formalidade (jantares de amigos, concertos, discotecas, desfiles, lançamento de produtos). Em alguns meios profissionais (publicidade, televisão, moda) poderão ser usadas em reuniões ou eventos, desde que não se esteja muito tempo de pé - embora sejam confortáveis dentro do seu género, convém não pedir demais.
 Não são decerto botas para levar para o liceu ou para passear pelo bairro às 10 da manhã. 
 Finalmente, será que representam um bom investimento? Cerca de 150 euros (preço médio) é relativamente acessível tendo em conta a celebridade da botinha. Há que ter em conta, no entanto, a frequência com que se usam saltos desse género; se a Lita veio para ficar ou se será constrangedor usá-la dentro de um ano ou dois; e se nos adaptamos ao formato. O mais sensato será experimentar primeiro, ou comprar um ou mais modelos em versões acessíveis para tirar a prova dos 9. Mas isso são aventuras para outro post. Entretanto, deixo-vos alguns looks amorosos ( e razoáveis) para usar as botas superstar:









Gold Diggers à paisana

Paulette Goddard, Celestine em " O Diário de uma criada de quarto" (baseado no romance de Octave Mirbeau)

Não há nada mais cómico do que uma aventureira a (tentar) fazer-se passar por uma mulher honesta. Ou uma malcriadona a dar-se ares de grande senhora. Para os mais distraídos, aqui fica um pequeno criminal profiling:


- Fala muito baixinho para esconder o timbre de peixeira, o vozeirão e/ou o sotaque rústico. Ou pior, fala à bebé para tentar parecer "fofinha".

- Responde que "sim"  a tudo, não vá escapar alguma verdade ou uma asneirola das grandes 
 (qualquer chico esperto sabe que em boca fechada não entra mosca). Faz isto apoiando a cabeça nas mãos, inclinando o busto para a frente e batendo as pestanas, para parecer muito interessada e boa ouvinte.

- Esconde os brincos XXL e o excesso de bijuteria;

- Caso lhe perguntem se gosta de alguma coisa, responde "imenso!" mesmo que não faça a mais pálida ideia do que se trata. For all she knows, até lhe podem estar a oferecer aranhas fritas - mas há que fazer um esforço para agradar, e sem sacrifícios nada se consegue...

- Finge interessar-se por "causas" (pela paz, pela religião, pelos pobrezinhos...) e manifesta gosto por bens de luxo, sem nunca desenvolver a conversa. Pudera...

- Como não quer cair abertamente numa linguagem debochada, fica-se por insinuações picantes que ainda caem pior.

  - Cita frases " comoventes e profundas" daquelas que por aí andam na internet, acompanhadas de bonequinhos e pores-do-sol, para mostrar que é muito sensível e boazinha...

- Faz copy/paste de textos, mas nunca cita o autor (o que sendo plágio, às vezes é uma sorte - com o gosto desta gente, mais vale ficar na ignorância).

- Mantém permanentemente um sorriso parvo, que só tira quando a costa está livre (aí desforra-se).

- Se a insultam, provocam ou gozam com ela, mantém o sorriso parvo e as risadinhas (o ataque histérico fica para quando chegar a casa, pois então!).

- Concorda com tudo o que o seu objecto de interesse diga ou faça, nem que seja a pior alarvidade do mundo. É capaz de se atirar a um poço para acertar no alvo.

- Troca a cataplasma de maquilhagem pelo look cara lavada, porque não conhece meio termo. O pior é que os excessos da véspera não perdoam...

- Em vez de sapatos de verniz berrante, calça acrílico bege.

- Troca os penteados de catatua por um ingénuo rabo de cavalo. E arranja, à pressa, meia dúzia de peças/acessórios que passem por "sérios" : blazer, cardigan e/ou lenço de poliéster. Resultado: stripper a fazer "o número da bibliotecária".

- Em último caso - e porque ninguém consegue representar o tempo todo - entra em modo "que se dane" e mostra-se brejeira, tal como nasceu. 

                Afinal, há sempre quem goste de uma nota grosseira para animar a noite.

Friday, March 23, 2012

Violência


Descubra as diferenças: season finale de The Walking Dead e tumultos em Lisboa.


Chávenas voadoras, bastonada...só violência esta semana. Neste país é tudo ou nada. Ou se comportam que nem carneiros para o matadouro, ou reagem assim, como baratas tontas para o Mundo ver. Bonito.
Qualquer semelhança com o season finale da série The Walking Dead é mera coincidência. Para quem não segue, eu explico: em pleno apocalipse zombie, o grupo de protagonistas refugia-se numa quinta onde, miraculosamente, os mortos vivos ainda não chegaram. Neste reduto há alimentos, água potável, geradores, cuidados de saúde e alguns meios de defesa. O que é gente sensata faz num cenário desses? Obviamente, procura fortificar os acessos (com armadilhas, arame farpado, preparação de linhas de fogo, barreiras, etc) reunir artilharia e criar um plano B para o caso de tudo isso falhar: um bunker e uma estratégia de fuga que inclua recursos de sobrevivência (um camião carregado de comida e armamento, por exemplo). Mas como é necessário ao enredo que aquilo seja uma casa de doidos, os nossos heróis dedicam o seu tempo a discutir entre si e a gozar o panorama, esperando que tudo corra pelo melhor e que possam construir uma vida naquele local apesar da aterradora realidade à sua volta (how crazy is that?). Nada de plano B. Amanhã Deus dará. Vamos é divertir-nos à batatada uns aos outros.
 O nosso país enfrenta uma situação semelhante -  embora eu ache que os zombies fomos nós, durante demasiado tempo. Fique claro que eu não engulo a tese do cidadão comum ser o responsável pela "crise", e o estribilho "viver acima das suas possibilidades" , de modo nenhum. 
 Acontece que enquanto alguma coisa podia ser salva, os portugueses ficaram a gozar o panorama. Ao longo de seis anos assistiu-se a uma escalada de insensatez sem precedentes, com o declínio do sonho da UE e do Euro como pano de fundo. Tudo isto era previsível, estava à vista de todos. As obras faraónicas, os projectos megalómanos, as dúvidas levantadas sobre a conduta  do então primeiro ministro, a desautorização de professores e forças de segurança, nada disso levantou o mínimo protesto. O povo gostou do Magalhães, do salto tecnológico, dos subsídios atribuídos no questions asked, das Novas Oportunidades, do facilitismo, do ar de certeza absoluta e de autoridade com que se dizia que o preto era branco e o branco era preto, e sobretudo, do constante ataque à classe docente e aos funcionários públicos, eternos bodes expiatórios do ressabiamento nacional. 
 Enquanto os zombies mordiam o vizinho do lado, que ficaria sem os supostos "privilégios" gambuzínicos ( que nunca ninguém viu, mas todos juravam existir) enquanto se divertiam com este pão e circo, os verdadeiros responsáveis faziam o que bem lhes dava na gana. Amanhã Deus dará.
 O português só começou a protestar quando viu as calças a arder - há cerca de um ano atrás, altura em já pouco podia ser feito. E agora descabela-se: casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Too little, too late.  Este é o momento para limpar a porcaria que foi feita; para (com serenidade e brio) recuperar os recursos possíveis; para nos orientarmos num cenário caótico e construirmos alguma coisa de novo, um lugar para viver com uma atitude diferente no futuro. Não é decerto altura para andarmos à cacetada, a apontar o dedo e a arremessar projécteis uns aos outros. Usemos o cérebro, que isso ainda nos resta.

Thursday, March 22, 2012

Hoje dava-me jeito um blog anónimo

Adam Levine

Dizer as coisas pelas costas não faz o meu estilo. Como este bloguito não é exactamente uma democracia e "a patroa" tem a língua bastante mais afiada do eu, vou desabafando o necessário. Nunca senti necessidade de lavar roupa suja, nem de me armar em ninja e cobardemente, colocar uma carantonha online com a devida legenda e dizer ao mundo, sem calúnia, "esta pessoa não presta". Não é que falte por aí quem o mereça. Mas tenho mais que fazer. Sou uma pessoa ocupada. E honrada. Os mexericos sempre me deram arrepios - e sono. Para sujidade, já basta o que basta. Para que fique claro, eu não sou mulher de andar por aí aos sopapos (nos dias que correm, as pessoas de bem já não o fazem) mas se tiver motivos para atacar alguém, mais facilmente lhe dou um safanão do que conto uma bisbilhotice a seu respeito.
 Hoje, porém, apetecia-me ter um desses blogues anónimos que destilam veneno para dizer umas boas verdades. É incrível que uma pessoa com quem se manteve sempre uma relação da maior cordialidade (e que diga-se, tem idade para ter juízo) decida dar ouvidos a um diz que disse ridículo e por causa disso, beirar a má criação. Não só isso é mau por acreditar numa mentirola sem fundamento - e que vinda de onde veio é caso para rir. A parte pior é que, mesmo que o conto fosse verdadeiro, não prejudicaria esta pessoa em nada. A ser verdade, era uma questão que só aos envolvidos dizia respeito e em que não lhe cabia tomar partido ou emitir julgamentos. Isso ultrapassa melindrar-se com rumores e meter-se onde não é chamado: é criancice, mesquinhez, falta de diplomacia e de chá.  É  no que dá pensar sempre o melhor dos outros, em vez de acatar a filosofia dos antepassados.
  " Nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" e "se queres ver o vilão, põe-lhe o chicote na mão" são processos de estereotipar - o que podendo ser injusto, agiliza a tomada de úteis conclusões, o que por sua vez poupa bastantes aborrecimentos.
  Uma pessoa que engraxa quem está acima e humilha a senhora da limpeza à frente dos convidados está automaticamente apresentada. Mas é-se tolo, dá-se o desconto. E embora se  perceba quando nos estão a  lamber as botas, dá-se o desconto a isso também, quanto mais não seja por achar que o engraxador não pode ter grandes vantagens nisso. 
  Isso acabou. Porque quem o faz, não hesita em nos cravar uma faca no pé logo a seguir.
          A seu tempo, tudo há-de ficar em pratos limpos, sem necessidade de anonimatos, nem cartinhas reles.
Não vou escrever aqui os insultos que se não fosse uma senhora, diria nas trombas de tais personagens (fica aqui um espaço em branco para vocês acrescentarem o piorio que vos vier à ideia) mas prometo que passa por- citando Eça- ascorosa lombriga e imunda osga, aqui te atiro ao focinho, etc.

Short story - A fórmula

Sean Bean e Joely Richardson 

 
Começou muito devagar - primeiro veio a alma, a viciar o resto. Ela apercebeu-se que ele a fazia desejar ser uma pessoa melhor, aperfeiçoar-se, triunfar. Até ali, todas as realizações eram para si mesma, cada vitória, cada elevação. Nunca lhe passara pela cabeça ter vontade de brilhar aos olhos de outrém, fazer um homem orgulhoso, nunca a existência de um ser amado pesara nas suas decisões. Os seus apaixonados eram entes externos - o objecto da sua afeição, a companhia, alguém que lhe fazia borboletas no estômago ou em dias maus, dores de cabeça. Os seus feitos e conquistas, o seu êxito, o orgulho que os outros sentiam nela eram dados adquiridos, um dom natural. Faziam-na feliz ou inquieta, conforme o investimento/esforço que representavam. Só isso.  E eis que de repente se via capaz de sacrifícios, capaz de heroismos, desejando - ela, a prudente, a pragmática, a cínica, a descrente nos prodígios do coração - devotar-se a alguém, porque sentia que ele faria outro tanto. 
 

E era verdade. 

 
Quando sentia os passos dela, quando ela o olhava de soslaio, os cabelos soltos sobre as costas, a mão presa na dele, a cabeça contra o seu peito, um meio sorriso...sentia-se como um miúdo que quer impressionar o novo amigo com os seus brinquedos. Não sabia o que mais lhe mostrar, o que mais oferecer- tinha as mãos e os braços abertos de par em par, o coração exposto. Até ali, as mulheres tinham sido como copiosas arcas do tesouro ou árvores do Éden - bastava-lhe colher o que lhe apetecesse, uma e outra vez, sem um segundo pensamento, sem um cuidado, sem um susto. Sabia que voltavam sempre, que nunca se ausentavam por muito tempo; e que uma vez gasto o número dos seus encantos, outras haveria, prontas a tomar o posto da rival derrotada, a tentar a sorte sem perguntas. Eram encantadoras na sua ingenuidade, como flores de estufa - e igualmente sem perfume. Nenhuma lhe levantara dúvidas, questões, angústias. Os rostos mudavam, mas as palavras e os postos eram os mesmos, tão certo como o sol todas as manhãs, o vinho ao jantar, a água na torneira. Quando havia cenas, súplicas, lágrimas, nunca meditava sobre elas: pareciam-lhe tão superficiais como os "amo-te" que ouvia a torto e a direito. Desconfiava vivamente que uma mulher era incapaz de ter um desgosto que não viesse da vaidade ferida, curável em dois dias quando devidamente compensado; de não mudar de amores, de valores ou de opiniões consoante as conveniências.
 "Amava" com ironia, tal como tinha sido amado até ali. 

A única diferença é que ao contrário delas, estava consciente do drama e não procurava sequer representá-lo. 

Oh, a alma! Como a sua cotação é baixa neste século! 
 Porque no fundo - pensava para si, nos momentos em que a sobriedade o atingia como um raio de clareza, a dar passos furiosos no quarto - o que é que se procura hoje, numa mulher? A vista, a sensualidade, um pouco de inteligência que funcione, habilitações para o mundo prático, meiguice, hábitos em comum...e por dentro...que seja "boa pessoa", vá. Não se busca além disso - nem a beleza elevada das amantes ideais de outras épocas, capazes de levar um homem à poesia, ao resgate ou ao suicídio; nem o sonho, nem o requinte de sentimentos, muito menos a profundidade do espírito. Não há tempo para gozar esse lento fascínio, para cultivar essas delicadezas, esses luxos interiores que transformam as alegrias terrenas numa amostra do paraíso. 
 Cuidado com o que pedes, sempre ouvira dizer - eis que a fada, a ninfa, o anjo (com tudo o que essas figuras comportam de puro, de tentador e de perigoso) que verbalizara nesses instantes de patético idealismo o abraçava agora. Ali estava ele, sem que  ela alguma vez o tivesse tentado: nem um gesto de carência ou reprovação, a porta sempre aberta. Livres, ambos, mas unidos por algo de misterioso, magnético, sem artifícios, instintivo.
 Não faziam por agradar, mas desejavam ser agradáveis um ao outro. Ela moderava a sua impetuosidade. Já não sentia o peso de conduzir o seu próprio destino, mas desejava ser perfeita, porque se sabia adorada como um ídolo e ambicionava corresponder à expectativa. Ele tranquilizava-se sob a sua suave influência. Sem que ela precisasse de o censurar, tomara uma pureza de costumes, uma disciplina que nunca antes tivera. Desejava recolher-se a uma existência mais íntima e mais familiar; a estúrdia, as pândegas e as noitadas intermináveis provocavam-lhe a erosão e o vazio. Era um desafio mudo, espontâneo:  a fórmula alquímica que  trazia à superfície as mais belas qualidades de cada um.
E no meio desse idílio perfeito, faltavam as palavras que nenhum pronunciara, por medo de quebrar o encanto. Por isso havia ciúmes loucos e inconfessados, delírios exagerados, angústias insones - como um ganancioso que descobre a gruta dos tesouros e não se atreve a sair para os transportar para casa, com medo de não reencontrar a entrada. Ambos receavam colocar à luz aquele amor - e chamá-lo pelo nome - com receio do que viria a seguir. Faltava tão pouco, mas o pouco era vital. As delicadas rendas que os prendiam rasgavam-se aos poucos na ventania - mas nenhum ( mãos e coração abertos, lábios fechados) queria mostrar-se primeiro. A catástrofe aproximava-se, e estavam paralisados para a impedir. Todas as noites, partilhavam sem saber a mesma oração: que pudéssemos trocar de corpo, de mente e de coração por um dia só. Saber o que tu sentes, saber como o sentes. Como pareço aos teus olhos, como é que a tua pele reage à minha, como soa  a minha voz aos teus ouvidos. Um dia só, estar no teu lugar. Assim seria tão fácil. Por favor, Meu Deus. As almas já as trocámos, só falta o resto - eu prometo que devolvo tudo, inteirinho, intacto, ao fim das 24 horas.

Wednesday, March 21, 2012

Dicionário

Hans Matheson, Bathory

Se o meu coração tivesse
Um tradutor simultâneo
Pouparia tanto tempo
Muito mais que um dicionário
De português - mandarim
Online, completo, instantâneo.

E nem andaria às voltas
Com gestos simplificados
Evitando o dilema
De te fazer um desenho.

 (Feliz dia da poesia, minha gente...)

BB Cream, I love you

 



Depois de hesitar um pouco decidi-me a testar (at last!) o BB Cream da Garnier. Apesar da curiosidade que demonstrei inicialmente, a demora em disponibilizarem o tom claro e o aroma  activo
desencorajaram-me. Cremes perfumados nunca são boa ideia para peles delicadas como a minha, que fazem reacção a qualquer coisa. Mas achei que por 9 euros não vinha mal ao mundo e trouxe-o comigo.
 Quando o testei, não achei nada que dizer quanto à textura: é confortável e muito hidratante, com uma absorção relativamente rápida. Usei um lencinho para retirar o excesso, mas quase não era preciso. A cor é que me pareceu uma desilusão, pensei: à primeira vista, dava a impressão de uma pele mais mate, ligeiramente bronzeada. Disse comigo " lá vem mais outro para usar só no Verão" e fui arranjar o cabelo. Surpresa das surpresas, quando voltei para finalizar a maquilhagem o pigmento tinha-se adaptado à minha (não) cor- como podem ver pela foto da Godmother aí do lado direito. Se fosse mais branquinho não se perdia nada, mas que se funda numa tez tão transparente já é um feito. O que me espantou foi a cobertura do produto, superior a muitos fond de teint que conheço. Todos os cremes com cor que tive eram translúcidos, exigiam no mínimo anticernes e pó. Este BB cream uniformiza à séria.
Eu usei-o  apenas para isso mas ele é  bastante espesso e acredito que esconda as  imperfeições mais chatas sem dificuldade. Matifica completamente a pele e fecha os poros, com uma textura aveludada que é um amor. A melhor parte é que dura o dia inteiro, como uma base média/pesada de boa qualidade. A única cautela a ter é na quantidade que se aplica: para quem como eu gosta da pele com ar "fresquinho" e natural, e não tem muita coisa para disfarçar, é preciso mão para não ficar embonecada demais.
 No conjunto, o creme é perfeito. Cumpre o que promete e permite, com um produto só, conseguir um ar cuidado em tempo recorde. Estou muito curiosa para experimentar o da Kiko, e para encomendar  um daqueles coreanos very white. Mas que a fórmula é viciante, isso é. Bases lá de casa, cuidem-se: a concorrência está brava.

Tuesday, March 20, 2012

Risky business?

Tenho uma colecção interessante de saias. São peças duráveis, representam um investimento moderado e permitem ousar um pouco - ou actualizar completamente o visual - sem grande dificuldade nem compromisso. Sempre achei que se queremos vestir uma tendência passageira ( e não nos apetece limitar o seu uso a tops ou pequenos acessórios) é preferível optar por uma saia, que é relativamente discreta e pode reinventar-se com diferentes coordenados.
   Quanto às fishtale ou mullet skirts, que têm feito as alegrias de muita fashionista (e wannabe) por aí, considero-as a excepção à minha regra: a funcionalidade e execução são muito importantes para mim. Um feitio não deve ser apenas um feitio; mas parece-me que é disso que se trata.
Ainda não compreendi o conceito por trás do modelo, nem a sua utilidade. Não vejo ali especial arte de confecção ou design. Usar a bainha mais longa atrás é um truque muito velho para alongar a figura, empregado pelas boas costureiras de antigamente. Estrelas de cinema como Glória Swanson recorriam a este artifício. Mas uma discrepância tão grande não servirá esse propósito. Logo, ou o modelo pega e se torna habitual ( o que eu acho improvável) ou é uma saia que vai ficar datada num instante, sendo impossível vesti-la daqui a pouco tempo. De repente, lembram-me aquelas calças boca de sino com abertura lateral que apareceram e desapareceram num ápice (felizmente) em meados dos anos 90.
   Algumas versões understated, no entanto, não diferem muito de outras saias assimétricas que surgiram em colecções passadas, e parecem-me mais aceitáveis. A ver vamos.
 Outra "novidade" arriscada (e efémera, atrevo-me a profetizar) são os skinny jeans em tons pastel, especialmente em verde menta.
Têm a sua piada numa revista, mas creio que vão ficar desvirtuados quando invadirem as ruas, como todas as peças que exigem uma figura esbelta e que todo o mundo faz questão de usar, mesmo que desfavoreça horrores. Ontem passei por uma volumosa senhora que trazia uns. Palavra que me pareceu um jarrão ambulante. Espero que não tenhamos aí outro síndroma da legging, mas já não digo nada.

Tendências de Primavera, ou o regresso da saia

Alexander McQueen
 



Estamos quase, quase no equinócio de Primavera, e embora ainda não tenha organizado o armário na totalidade, já defini quais as peças chave para interpretar as minhas tendências favoritas para a estação. 
Os anos 50 continuam em evidência, com cortes impecáveis, cinturas vincadas, vestidos requintados, saias em balão ou lápis, calças cigarrete e perfectos, permitindo-nos vestir duas personagens: a socialite sofisticada do pós guerra ou a starlet rebelde. Presentes estão também elementos dos swinging 60s , com linhas direitas e colour blocking.
Da tendência Anos 20, vou retirar algumas inspirações nos acessórios, tecidos, bordados e aplicações. A silhueta sinuosa, que esconde a cintura, não se adequa tanto a mim - mas a riqueza dos materiais é perfeita para  as adeptas do vintage.
 A par com os básicos ( eis uma boa estação para nos abastecermos de lindas camisas brancas) os padrões (étnicos, naturais, do fundo do mar a lembrar art nouveau, geométricos) conferem alegria ao visual. A consumir com a moderação - duvido que me adapte à sobreposição muito evidente de estampados, mas escolhi alguns desenhos intemporais para um toque colorido.
O cru, as peças delicadas, o bordado inglês e as rendas mantêm lugar cativo para um look suave e romântico. Também de estações anteriores, a inspiração guerreira de várias épocas ( do cavaleiro medieval às fardas de gala) continua a dar um ar da sua graça, com vestidos e tops estruturados, em tons escuros ou metálicos. As calças clássicas (largas e fluidas, ou com pinças) prometem uma elegância fácil.
 Mas a estrela da estação - a meu ver - é a saia, que regressa às ruas em vários comprimentos, texturas e feitios (lápis, midi, maxi, balão) e sobretudo, com uma utilização diferente do que tem sido visto na última década: sem esforço, com cintos, t-shirts e camisas, à guisa de calças, impondo-se como básico para o dia a dia.
Ou seja, neste semestre a brincadeira de estações passadas continua e evolui, com formas clássicas temperadas com cores, padrões e combinações inesperadas. Haja imaginação (e organização) e não nos vamos aborrecer nem um bocadinho. E as meninas, já escolheram os visuais chave para os dias de sol que aí vêm?

Monday, March 19, 2012

Eu não sou casmurra, mas...


Elizabeth Taylor, The Taming of the Shrew 


"If I be waspish, best beware my sting." (Shakespeare II, i. 208)
 
 
Até me considero uma pessoa flexível e se o motivo da teima não é grave ou fracturante, sou adepta do "leva lá a bicicleta!". Apesar de orgulhosa, se não tiver razão, ou a culpa for minha, sou a primeira a dar o braço a torcer. Cedo imensas vezes, em imensas coisas, para fazer as pessoas de quem gosto felizes, para o bem de um projecto e por vários motivos semelhantes. 
  Não teimo por desporto. Não embirro por embirrar. Não faço questão de ter razão (mas infelizmente, quando estou convicta é raro enganar-me).  Logo, quando bato o pé e dali não arredo é porque o caso é sério/importante/perigoso/incontornável, uma questão indiscutível em que não estou disposta a negociar. 
Se digo "não aceito isto" ou "enquanto este problema existir não dá"  - é porque é assim, porque já analisei a situação sob todos os ângulos e o meu infalível instinto continua a buzinar-me aos ouvidos. É inútil aligeirar a coisa (não brinco com assuntos sérios) saltar por cima do ângulo espinhoso e agir como se ele não estivesse lá, passar uma esponja, andar de lado para o evitar, tentar que eu aceite engolir o sapo com promessas, subornos, ameaças ou pressões. Ter uma vontade firme é uma chatice. À primeira vista, pode parecer que perco mais do que ganho, mas sucede que me conheço muitíssimo bem: há coisas com que lido impecavelmente, há outras que chocam com os meus valores. Quando o problema é de fundo, não sou capaz de diplomacias - sei à partida que é inútil tentar, e nem todas as situações se prestam a soluções radicais. Não é má vontade, mas quem tem espinha dorsal não nasceu para contorcionista. 
 Assim como assim, teimo tão raramente que o meu plafond ainda me vai permitindo ser cabeçuda de vez em quando.

Já não há pachorra...

Michelle Reis
...para ouvir "Someone Like you" 30 vezes ao dia. Once again, a culpa é das playlists, peritas em tornar detestáveis até as canções mais decentes. 
Sou franca, nunca gostei do tema; é demasiado xaropento para mim ( a própria Adele já veio dizer que quer escrever coisas menos dadas ao sentimento!!! daqui para a frente) mas não é disso que se trata.
 Ainda que gostasse, não se arranja paciência para tanto vira o disco e toca o mesmo, para esmiuçar o desespero da Adelinha que só percebeu tarde demais quem era o amor da sua vida. Se há coisa que me enerva é ver uma ex sem dignidade, a pedir batatinhas - especialmente quando já não há remédio, como parece ser o caso. Só me apetece dizer: ó mulher chata! Não tem vergonha de ir desinquietar o rapaz que está sossegado em sua casa? Quem foi ao ar, perdeu o lugar. Há muito peixe no mar, muito mar no peixe, e os homens são como o biscoito: vai um, vem dezoito.
 A fila anda, a vida continua. Get over it. Já todos partilhámos consigo o momento humilhante e embaraçoso, agora faça favor de cantar outra coisa. Grata.

Sunday, March 18, 2012

Frase do Dia

Charlotte Riley  e Tom Hardy
 

             I know of nothing more dangerous than a weak man, or a weak woman, given power. (autor desconhecido)


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