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Friday, April 27, 2012

Very Stylish ladies


Jane Birkin x Kate Moss
Existem as raparigas da moda. E depois há as mulheres com estilo. Ícones cuja elegância transcende o passar do tempo e o mero aspecto físico: uma combinação de carisma, luz interior, inteligência, gosto, imaginação, classe e saber estar. Décadas depois, os seus retratos continuam a fazer sonhar designers, artistas e fashionistas em todo o planeta. Há várias musas incontornáveis - como Twiggy, Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor -mas destaco as minhas favoritas: 

Marilyn Monroe



Mais importante do que a sua aura de sex symbol supremo, é o seu estilo. Este pode parecer elaborado ou glamouroso, mas era construido em passos simples e eficazes. Marylin sabia como vestir: tirava partido dos seus pontos fortes e da espectacular figura de ampulheta, combinando como ninguém sensualidade, elegância e fragilidade.
" Gosto de estar bem vestida ou inteiramente despida: não me preocupo com o meio termo" era o seu lema.

Looks e peças chave

O figurinista William Travilla e o maquilhador Whitney Snyder foram responsáveis pelos looks de Marilyn na tela, mas não restam dúvidas quanto à habilidade da talentosa actriz para aplicar esses conhecimentos no seu dia a dia. Saias lápis, camisolas fofas de boa qualidade, decotes amplos, sheath dresses bem cortados, saltos altos Ferragamo, vestidos de algodão cintados, casacos cingidos ao corpo, jeans ou calças clássicas e adereços em pele
compunham o seu visual. Marilyn também preferia cores sólidas e clássicas : encarnado, creme, bege/champagne, verde escuro, branco e preto. Consciente do impacto do cabelo e pele clara,  procurava manter a cútis imaculada e usar sempre uma peça luminosa (creme, bege ou champagne) perto do rosto: pérolas ou uma estola de pêlo nesses tons.



Brigitte Bardot

 Começou a sua carreira como bailarina - o que lhe garantiu um porte gracioso - mas tornar-se-ia uma verdadeira musa europeia ao longo das décadas de 50 e 60. BB era a imagem da fescura e sex appeal. Também ela representava a fórmula olhos grandes + cabelão fabuloso + lábios de almofada. As suas curvas e beleza super feminina valeram-lhe a alcunha de "sex kitten". Ajudou a popularizar o bikini. A sua influência na moda mantém-se até hoje e foi uma inspiração para outros ícones, como Kate Moss.
                                                                  Looks e peças chave
O seu estilo era uma mistura entre o chic francês, classe e sensualidade. Bardot insistia em usar peças feitas por medida, tipo alfaiataria, que evidenciassem a sua cinturinha minúscula. Também preferia peças simples e clássicas e trouxe para a rua alguns elementos do ballet, como as sabrinas, as meias pretas e as fitas de cabelo. Casacos assertoados com vários botões, cintos grandes, vestidos de dia amorosos, skinny jeans, calças capri, polka dots, riscas náuticas, estampado vichy, blusas de camponesa, cardigans, calções e saias de balão marcaram os seus visuais. O famoso decote que expõe ambos os ombros, e que usava tantas vezes, ficou conhecido como "Bardot neckline". Botas overknee, peças pretas e blusões de cabedal também fizeram parte da sua imagem durante os anos 60.


                                  Jackie Kennedy



































A mais famosa primeira-dama dos EUA é uma referência intemporal de estilo, graça e elegância. Jacqueline Lee Bouvier nasceu na elite da sociedade nova iorquina, no seio de uma família de origem francesa, irlandesa, escocesa e inglesa. Frequentou a Sorbonne e trabalhou como jornalista.  Em 1953, casou com o futuro Presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Em 1960 tornou-se a mais jovem primeira dama do país, com 33 anos de idade, imprimindo um novo estilo à Casa Branca: era imensamente popular não só junto do público americano como entre as individualidades estrangeiras, artistas, escritores, cientistas e diplomatas, que eram convidados frequentemente para cocktails e festas descontraídas na residência presidencial. O seu estilo pessoal - espartano, requintado e sem direito a erros- foi inicialmente inspirado em Audrey Hepburn. Fascinada pela imagem Old Hollywood da actriz, Jackie encomendou à casa Givenchy o design do seu guarda roupa, que rapidamente adaptaria aos seus gostos e personalidade, como uma segunda pele.



 Looks e peças chave:

Jackie regia-se pelo conforto e simplicidade.  O seu sentido de requinte e de ocasião - sabia sempre vestir-se conforme o evento e os convidados, mesmo nas situações mais delicadas- continuam insuperáveis. Quando visitou a Índia, optou por um outfit mais conservador do que em qualquer evento americano: esta sensibilidade e capacidade de adaptação tornaram-na sinónimo de classe. O seu guarda roupa, embora adequado à sua idade e figura esguia, não permitia fantasias nem exageros. Usava pouquíssimos padrões, embora ocasionalmente vestisse peças com riscas, um windowplane plaid ligeiríssimo ou aplicações brilhantes em tons pálidos. Preferia as peças por medida e suavemente estruturadas: casacos Chanel, trench coats, sobretudos cintados, vestidos com poucos adornos e sem mangas, saias de linha A Dior, calças de cintura subida ou os famosos jeans brancos (combinados com blusas, camisolas de gola alta ou sweaters de cachemira) longos vestidos cai cai, de decote barco, portrait ou decotados nas costas, vestidos sheath (simples para odia, longos e acetinados para a noite) fatos de saia casaco neutros ou escuros. Era igualmente parcimoniosa nos acessórios:  lenços Tiffany sobre os ombros, longas luvas brancas, pumps, grandes óculos escuros, pérolas, pregadeiras, os pequeninos chapéus "pillbox", cintos de cabedal, carteiras sóbrias, algumas pulseiras e brincos compunham a sua colecção, mas raramente usava mais do que dois em simultâneo. Rosa, amarelo, encarnado, marfim, preto e azul marinho eram as suas cores de eleição.






Marisa Berenson




Rompeu os cânones das modelos gélidas e reservadas, de maçãs do rosto altas, típicas dos anos 50 e assumiu-se como a cara dos anos 60 e 70. Marisa era filha de Robert Lawrence Berenson, um diplomata judeu convertido em homem de negócios, e da Condessa  Maria Luisa Yvonne Radha de Wendt de Kerlor (mais conhecida como Gogo Schiaparelli). Os seus avós maternos eram o Conde Wilhelm de Wendt de Kerlorde - famoso medium e teósofo- e Elsa Schiaparelli, fidalga napolitana e couturier incontornável, rival de Coco Chanel.
 Era inevitável que Marisa tivesse estilo a correr-lhe nas veias. Com traços exóticos ( combinação de sangue lituano, suiço, italiano, francês e egípcio)  corpo delicado e enormes olhos verdes, rapidamente se tornou uma das modelos mais bem pagas da indústria- amadrinhada por Diana Vreeland, a lendária editora da Vogue-  e a incontestável " Queen of the Scene". Era uma grande amiga de Diane Von Fustenberg e Andy Warhol. Fez sucesso em momentos icónicos do cinema (A Morte em Veneza de Visconti, Cabaret de Bob Fosse e Barry Lyndon de Kubrick) e Yves Saint Laurent chamou-lhe " the girl of the 70s" . Hoje mantém-se fabulosa (em 2011, desfilou para Tom Ford) e uma inspiração para modelos e designers por todo o planeta. Top models como Carla Bruni, Christi Turlington e Natalia Vodianova foram fotografadas com looks a recordar Marisa Berenson, ou mesmo apontadas como suas sucessoras.

Looks e peças chave:
A maior qualidade de Marisa era a sua versatilidade: encarnava com graça diversas tendências. Podia ser andrógina, aristocrática, feminina, rebelde, bem comportada, uma swinging girl ou hippie. Padrões ricos e vibrantes (como os de Emilio Pucci) brocados, veludos, rendas, fatos Chanel,  túnicas, cores fortes (lima, verde água, melancia, laranja, roxo, fuchsia...) tanto nas roupas como na maquilhagem, chapéus floppy e turbantes, casacos estruturados linha A, casacos de cabedal, lenços e acessórios fantasiosos faziam parte de um look, trendy e divertido, que oscilava entre o puro clássico e o bohemian chic sem nunca perder a sofisticação. As cores fortes e muitas camadas de máscara nas pestanas também faziam parte da sua imagem de marca.



Jane Birkin



A actriz e modelo britânica Jane Birkin é a verdadeira wild child dos anos 60, a mistura quintessencial entre o chic parisiense e a fleuma inglesa. Chegada da frenética Londres - meca da moda revolucionária daqueles dias- em 1968, La Birkin apaixonou imediatamente os franceses. A sua figura arrapazada, com membros esguios, o rosto pálido com grandes olhos espantados, a boca carnuda, um certo ar "complexo" - misto de arrogância e insegurança-  e a longa cabeleira castanha fizeram escola. A história de amor com o icónico Serge Gainsbourgh, que resultou na escandalosa canção "Je T´Aime...moi non plus" catapultou-a para a fama. A par com Twiggy, foi responsável pela popularização da figura andrógina. Em 1981, Jean - Louis Dumas, executivo-chefe da Hermès, inspirou-se nela para criar a incontornável Birkin Bag.

Looks e peças chave:
 
Quando estava vestida (alguns looks de JB poderiam dar multas por atentado ao pudor hoje em dia...sinais dos tempos!) Jane optava por um estilo relaxado e natural. Vestidinhos pretos ou brancos, bordados, crochet, botas overknee, cestos de verga, jeans boca de sino ou pata de elefante,t-shirts de manga comprida, grandes casacos de pele, alpercatas de corda, camisolões brancos de lã e algodão, meias longas, blusinhas de camponesa, tops curtos e t-shirts às riscas faziam o closet que marcou uma geração - mas que continua absolutamente actual.



Grace Kelly


Apelidada " O Cisne" durante a sua carreira no cinema, a Princesa do Mónaco será para sempre um símbolo inquestionável de graciosidade, sentido de estilo e sofisticação.
 Nascida numa família católica e abastada de Filadélfia - filha de um self made man irlandês e de uma aristocrata alemã - recebeu uma educação adequada e tornou-se a imagem do auto domínio. Sempre bela, reservada, serena, preparada, bem arranjada, amável. Hitchcock dizia dela " é demasiado perfeita!". O seu guarda roupa- um exemplo de depurada elegância - era o reflexo disso.
Sac à dépêches da Hermès foi re-baptizado "Kelly bag" a partir de 1956, depois de Grace ser fotografada muitas vezes a usar este modelo para dissimular a barriguinha de grávida.


Looks e peças chave:

 Grace Kelly é a principal referência quando se fala de puro estilo clássico e elegância impassível. A sua linha era simples, definida e impecável, com uma noção perfeita das proporções. Ela não flutuava entre estilos e investia num guarda roupa adaptado por medida às suas formas: tailleurs de alfaiataria cingidos ao corpo, saias rodadas, luvas brancas,  vestidos gregos drapeados em tons claros (ela era particularmente fã do azul-gelo) pérolas, vestidos-camiseiro, clássicos e day dresses (sempre a 3/4) calças capri, twinsets, jóias de boa qualidade, lenços Hermès, tops halterneck, blusas de laçada, algum chiffon, decotes portrait e em V...
 Também era conhecida por ter uma figura imaculada, que não necessitava de chumaços ou armações para resultar maravilhosamente em qualquer vestido. No entanto, esta compostura era acompanhada de um certo ar blasé, tranquilo e descontraído que poucas mulheres conseguem imitar. A gentileza e encanto que emanava para todos eram o seu principal acessório.  

Carolyn Bessette Kennedy

 
Criada em Greenwich, Connecticut, casada com John F. Kennedy Jr. e relações públicas da Calvin Klein, Carolyn encarnava na perfeição a corrente minimalista dos anos 90. A elegância da sua figura, a pele imaculada, os lábios escarlates e o cabelo louro impecável fizeram história e definiram o regresso a uma simplicidade chic.  Apesar da sua morte trágica em 1999, é impossível olhar com indiferença para imagens dos seus outfits. Carolyn não chegou a conhecer a sua sogra, Jackie Kennedy Onassis, mas tinha em comum com ela um estilo depurado e limpo que nunca passa de moda.

Looks e peças chave

mystique de Carolyn residia numa elegância sem esforço. O brushing perfeito num cabelo louro -açúcar (que viria a inspirar outras elegantes, como Gwyneth Paltrow) a maquilhagem simples e o porte elegante eram a base. O seu guarda roupa compunha-se essencialmente de casacos de lã cintados (camel, encarnado e preto) little black dresses, saias lápis ou longas em preto, beige e cru, jeans e calças de bombazina em tons terra, camisolas de cachemira e camisas brancas, acompanhadas de mocassins, mules e botas de salto alto. Prada, Narciso Rodriguez, Yohji Yamamoto e Calvin Klein eram alguns dos seus designers de eleição. CBK também adicionava alguns elementos vintage aos seus looks - foi uma das responsáveis pelo regresso da Birkin Bag, que na época era considerada quase démodé.







Kate Moss


Por vezes o mérito não está só em criar um estilo novo, mas em reinventar os clássicos, e Kate Moss fá-lo como ninguém. O seu estilo boho chic e a sua elegância sem esforço são constantemente copiadas por designers e it girls como Sienna Miller.  Desde que a sua imagem explodiu nos media, no início dos anos 90, a eterna top model tem sido uma verdadeira trend setter, herdeira por excelência de BB e Jane Birkin. Foi responsável por devolver à ribalta peças e looks como as botas longas sobre skinny jeans, as calças boca de sino de cintura subida, as ugg e as bailarinas. Com uma imagem e um lifestyle de rock star chic, Kate nunca procura a perfeição - nem precisa. A sua imagem é elegante, rebelde e actual, parecendo jovem sem nunca cair no ridículo. Entre as it girls dos nossos dias, ela será provavelmente a que vai perdurar, independentemente dos caprichos da fama.


Looks e peças chave

Kate é conhecida pelos jeans, e vai sempre ressuscitar modelos surpreendentes. Quando as calças de cintura descaída eram a regra, ela fez o contrário e trouxe para as ruas os flare jeans e as skinny de cintura alta. Consciente da qualidade das peças, foi uma das primeiras celebridades a colocar o vintage na moda: antes de se tornar manequim, já tinha o hábito de percorrer os flea markets à procura de roupas e acessórios antigos, com cortes e materiais de qualidade inatingível no panorama  fast fashion actual. O hi-lo fashion, tão em voga hoje em dia, foi também um dos estilos que ajudou a popularizar: misturar o novo com o antigo, o acessível com o exclusivo, o dress code com o inesperado-  investindo sempre no requinte rigoroso dos moldes, cortes e materiais - faz com que o seu look, ainda que desalinhado, seja sempre maravilhoso. E sem muita canseira. Quem sabe sabe.

Thursday, April 26, 2012

Somebody that I used to know



Já vos contei no Facebook: estou ligeiramente viciada nesta canção. Há muito tempo que um tema pop (a não ser talvez Video Games, de Lana Del Rey , mas esse versa sobre um amor obsessivo e doentio) não me intrigava tanto. É incrível como numa letra tão curta se resume o grande e complexo drama de muitos relacionamentos. A voz é maravilhosa, uma mistura de Sting com Peter Gabriel. A canção é belíssima, no seu espírito de melancólica resignação. Ali estão duas pessoas que se adoram, encurraladas na sua própria teia de culpa e orgulho.
In a nutshell: rapaz ama rapariga, rapariga ama rapaz. Juntos, sentiam-se capazes de morrer de felicidade, conta ele. A meio do caminho, o doce torna-se amargo, a relação é sufocante e cada um vai para seu lado jurando, por descargo de consciência, "continuar amigos". Claro que não há nada mais triste nem menos sincero do que permanecer amigo de alguém por quem ainda se é apaixonado...
De repente, a rapariga muda de ideias, manda recolher os souvenirs que continuavam amontoados em casa do ex e troca o número de telefone. E o ex, que até ali andava a saborear a liberdade com a consciência tranquila, repara que algo lhe falta. Começam as trocas de acusações (ansiedade e culpa, culpa, culpa): "não é que precise disto, nem do teu amor, mas escusavas de ser tão bruta e de me tratar como um estranho...é horrível como agora és apenas alguém que eu conheci".
É então que nos é revelada a outra face da moeda, ou a perspectiva da ex namorada ( despeito, mágoa, raiva):
"Quando me lembro das vezes que me fizeste mal fazendo-me crer que a culpa era minha...chego à conclusão de que não quero viver assim, a tentar decifrar cada palavra que tu dizes - e vai dar uma valente curva, porque se eu fosse só "alguém que tu conhecias" não estavas tão ralado"!
A música deixa-nos um final em aberto. Fica o tom passivo agressivo e magoado da história. A conclusão triste, mas verdadeira, de que por vezes, as pessoas que foram importantes para nós se reduzem a "somebody that I used to know"  ou pior, não chegámos a conhecê-las de todo. Em alguns casos, os danos que causam são tão grandes que não chegar a conhecê-las profundamente é uma benção. Ou como dizia o outro, "I love you and you love me, but some times we must let it be".

Wednesday, April 25, 2012

O poder do silêncio

Tece, tece, princesinha!

Esta semana caiu-me nas mãos uma velhinha edição dos contos de Hans Christian Andersen, com a sua belíssima prosa original (muitas colectâneas que vemos por aí são adaptações). Entre as histórias do livro encontra-se The Wild Swans (de Vilde Svaner), a interpretação de Andersen de um antiquíssimo folk tale europeu, provavelmente de origem alemã, recolhido pelos irmãos Grimm. 
  Este sempre foi um dos meus contos de fadas preferidos:  misterioso, violento, escuro e assustador - como é, aliás, a maioria dos contos em versão original, não "adocicada" para a sensibilidade dos nossos dias.
 Pessoalmente, prefiro esta variante, aqui adaptada por Jim Henson. Consoante o local e o autor, os elementos da história e as reviravoltas do enredo mudam um pouco: ora há cisnes, ora há pássaros, patos ou corvos, em número de 3, 7, 6, 11 ou 12. 


Mas a essência mantém-se:
um rei bondoso perde a sua consorte e não querendo ver os filhos (vários príncipes e uma princesa) sem mãe, decide casar de novo. A escolhida é uma mulher encantadora, que rapidamente se revela uma bruxa má: o seu primeiro passo é livrar-se dos enteados. 
Isola-os numa casa de campo e faz um feitiço que transforma os rapazes - cujo número varia, como já vimos - em aves.
  A donzela consegue escapar para a floresta e é ajudada por um elemento sobrenatural ( em Andersen, a Feiticeira Morgana). Aí, a heroína fica a saber que para quebrar o encanto é necessário um sacrifício terrível:  terá de colher urtigas no cemitério, pisá-las com os pés nus e tecer com as próprias mãos uma camisa para cada irmão. Pior ainda, enquanto fizer este trabalho - três anos, três meses e três dias - não pode dizer uma palavra.
Aceita sem hesitar e no exílio, cumpre a dura prova com afinco. Os fantasmas do cemitério aterrorizam-na; as urtigas ferem-lhe os delicados pés e mãos até sangrar;  lágrimas silenciosas caem-lhe pela cara abaixo. Não pode lamentar-se, nem gritar, nem sequer rezar em voz baixa. Só a presença dos irmãos, que à noite regressam à forma original, a anima na tarefa. 
Vemos aqui fortes elementos mitológicos: a tecelagem esteve desde sempre ligada à magia, ao urdir do destino. Face à adversidade, longe da sua casa e exposta aos elementos, a protagonista assume o papel de Moira, ou Parca, fiando o curso da sorte.
  Um dia porém, quando está já adiantada no seu trabalho de fazer camisas, é encontrada por um grupo de caçadores. O mais belo de todos, que é o rei daquele país, apaixona-se loucamente pela desconhecida. Não sabe que está perante uma princesa - mas é conquistado pela sua beleza e vulnerabilidade. Apesar dos seus protestos silenciosos, leva-a para o palácio e casa-se com ela. A princesa ama muito o rei, mas não pode dizer-lho; e o casamento não é bem visto pela corte, que não aceita a ideia de ter uma rainha muda, de mais a mais com aquele estranho hábito de fiar urtigas...
 É aqui que nova intriga se arma contra a infeliz: os seus inimigos no palácio - em algumas versões, a madrasta que após a morte do primeiro marido, arranjara modo de enredar um novo rei, sendo agora sogra da princesa - acusam-na de bruxaria. Em segredo, substituem os filhos que vai tendo do rei ora por bonecos, ora por cães ou porquinhos, e culpam-na do mal feito. Bruxa! Sussurram em todos os corredores e aos ouvidos do real esposo. A rainha sabe que está perdida.
Meio louca de dor, caluniada por todos, aflita pela desconfiança crescente do marido e com vontade de morrer, a jovem rainha mantém o seu propósito: salvar os irmãos. Nada mais importa. Quando o amado a interroga, desgostoso, só pode olhar para ele com olhos suplicantes. Por fim, sem ter como se defender, é condenada à fogueira, para gáudio da populaça e dos seus inimigos. Quando tudo parece perdido, eis que as camisas estão prontas, os irmãos /cisnes surgem no ar e o encanto é quebrado. A verdade esclarece-se, o Rei pede-lhe perdão, os filhos são resgatados e a fogueira...bom, a fogueira está mesmo a jeito para queimar a vilã da história.
 Para além do ambiente sinistro do conto, o que sempre me encantou nele foi o exemplo de perseverança, coragem e união familiar a toda a prova. A princesa não usou palavras para se defender, nem para ganhar o amor do seu rei - manteve-se em silêncio, focada no seu propósito sagrado, com uma fé inquebrável. Quantas vezes o silêncio esconde as palavras mais belas, as realidades mais duras, os sentimentos mais sublimes - e fala mais alto do que muito palavreado...










Tuesday, April 24, 2012

Ambição: a Rainha dos 9 Dias


A execução de Lady Jane Grey (Paul Delaroche, 1833)

"A ambição é a riqueza dos pobres".
Marcel Pagnol 
                                                         
  "A ambição é o último refúgio do fracasso".
Oscar Wilde


Don´t bite off more than you can chew ,
dizem os ingleses. Em português, a melhor tradução será "não queiras dar um passo maior do que a perna". 
Quando penso em pessoas que procuram ascender vorazmente lembro-me de Lady Jane Grey, a trágica Rainha dos 9 dias.

     Ela uma das mulheres mais cultas do seu tempo, e sobrinha-neta de Henrique VIII: neta da sua irmã bem amada, Mary, e do seu melhor amigo, o Duque de Suffolk. Em testamento, o velho rei determinara a posição de Lady Jane na linha de sucessão: apenas herdaria o trono caso os seus três filhos ( os futuros Edward VI, "Bloody" Mary I e Elizabeth I) morressem sem deixar descendentes. Edward, protestante devoto, reinou perto de sete anos. A sua saúde delicada resultou numa morte prematura - e tornava-o um peão dócil nas mãos dos seus conselheiros. O jovem monarca não pretendia deixar Inglaterra cair novamente em mãos católicas e, influenciado por John Dudley, deserdou a sua irmã mais velha, Mary (por sua vez, neta dos Reis Católicos e filha de Catherine de Aragão). Para o fazer, apoiou-se num dos actos de sucessão assinados pelo seu pai entre os seus sucessivos casamentos e divórcios, que declarava tanto Mary como Elizabeth (filha de Anne Boleyn e protestante convicta) ilegítimas.
 Jane fora entretanto convenientemente casada com Guildford, o filho do conselheiro Dudley, que por sua vez conseguira a proeza inaudita de ser elevado a Duque de Northumberland.
Embora consciente do seu estatuto real e defensora da fé que escolhera, Jane não era ambiciosa - chegou a criticar abertamente a família pelos seus hábitos gastadores e alpinismo social. No entanto, a ganância dos pais e sogros era implacável. Jane casou contrafeita e morto o jovem rei Eduardo, foi pressionada para se assumir como rainha. Terá mesmo dito " quando me apresentaram o trono, eu via por trás dele o cadafalso" e recusado experimentar a coroa. Como Tudor orgulhosa, não quis  tornar o seu marido rei - frustrando os desejos da família presunçosa e arrogante.  Mas as guerras domésticas eram o menor dos seus males. O "reinado" de Lady Jane duraria 9 míseros dias.
 Pouco depois Mary Tudor reclamava o trono e entrava em Londres triunfante. A filha mais velha de Henry VIII detinha a simpatia popular devido aos maus tratos que tanto ela como a mãe tinham sofrido às mãos do Rei. No coração do povo, Catarina de Aragão permanecera sempre como a verdadeira Rainha - e não poderia haver outra sucessora que não a sua filha de sangue.  Após duas tentativas de rebelião por parte dos familiares da "jovem usurpadora"  Mary I foi forçada, por necessidade política, a mandar executar a sua infeliz prima . Lady Jane Grey foi decapitada em privado na Torre de Londres na manhã de 12 de Fevereiro de 1554. Tinha apenas dezasseis ou dezassete anos.

 O marido e o sogro tiveram o mesmo destino.

 Se tivessem ficado quietinhos no seu canto, levariam uma vida feliz e privilegiada. Mas insistiram em tentar um movimento perigoso, numa corte onde tão depressa de ganhava a coroa como se perdia a cabeça. Há jogos e lugares para os quais nem toda a gente é feita. Recebê-los legitimamente é um fardo - usurpá-los é uma sentença de morte.

  
As águias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupação com o seu trinado alegre, certas de que com a sombra das suas asas poderão
 reduzi-los ao silêncio.

William Shakespeare

Acredito que sem projectos, nem sonhos, nada se faz. Para chegar ao meio da montanha é preciso apontar ao topo, e todas essas belas máximas. Ter imaginação, sentido de missão, de propósito, lutar por aquilo que se acredita, esforçar-se para obter o estilo de vida desejado, aplicar dons e aptidões em algo que valha a pena são as mais salutares aspirações humanas. Porém- e já se estava mesmo a ver que havia um "mas" aqui - é preciso ter humildade e bom senso. Podemos ser grandes sonhadores mas a sensatez tem de ser incutida desde o berço, às colheradas. É legítimo ter ambições, desde que acompanhadas de noção do lugar de onde se partiu, dos próprios direitos, fraquezas, talentos e pontos fortes, dos conceitos básicos de educação e bom comportamento.

Por grande e digno que seja o ideal a que se aspira, se aquele que pretende alcançá-lo se vale de meios miseráveis, é sempre um miserável.  
Henri Lacordaire

O perigo está nas pessoas que se acham com direito a tudo e mais alguma coisa, ambiciosas por passatempo, preguiçosas, descaradas e sem noção dos limites. Aquelas que querem fama, prestígio social e "boa vida" sem terem nascido com as condições necessárias, nem vontade de se esforçar. Um exemplo são os jovens que querem ser "actores" mas não são abençoados pelas musas, nem têm consciência do trabalho, estudo e sacrifício que espera um actor que honre a profissão. Cesare Pavese classificou a ambição de "sentimento de inferioridade que origina todos os pecados". Por vezes, quanto mais de baixo se parte, maior a cupidez. A desvantagem inicial é proporcional à avidez e sofreguidão de subir a todo o custo, doa a quem doer.
Talvez a cultura pop actual seja responsável por muitos desastres: coloca-se ênfase no "quem não arrisca, não petisca" na "fama" no "glamour" na ostentação de bens materiais ou notoriedade sem valores (ou valor) subjacentes. Tudo acontece a uma velocidade tão alucinante que obter fortuna através de um golpe baixo, de um crime ,estratagema, burla ou escândalo - mesmo que toda a gente saiba - já não representa o mesmo estigma social. Afinal, amanhã já ninguém se lembra como é que aquele indivíduo ficou rico ou famoso. Nota-se mesmo uma admiração incontida pelos malandros espertalhões. Há apenas 100 anos, era socialmente mais desculpável matar (desde que por um forte motivo) do que roubar. Era preferível viver em genteel poverty, mas com um bom nome, do que sujá-lo em associações indignas. Um cavalheiro ou uma senhora sê-lo-iam sempre, mesmo que a tragédia os atingisse. Um malandro seria sempre um malandro, por mais que a fortuna o bafejasse. Hoje em dia, um figurão que lá tenha chegado através do crime, da prostituição velada ou da sabujice mais reles pode ousar- ou exigir -  ser  respeitado. Vivemos tempos de grande elasticidade moral, ou assim parece.

A exigência de um lugar ao sol é conhecida. O que é menos conhecido é que este se põe mal foi conquistado.
Karl Kraus

   Os malandros não são uma novidade do século XXI. Adulação, ganância, arrivismo, baixos instintos e falta de talento a par com ambição desmedida sempre existiram, embora dessem mais nas vistas e tivessem a vida dificultada: vivia-se numa sociedade estratificada; a instrução formal, os bastidores da política, da finança e das artes eram mais fechados; não havia reality shows, nem youtube, nem redes sociais; ser "cromo" não era um conceito vigente, muito menos aceitável; o ridículo era mais temível e o raio de alcance reduzido. Enfim, para o bem e para o mal existia um filtro que dificultava a mobilidade, a notoriedade e a ascenção vil ou legítima. Nos nossos dias as fronteiras entre o certo e o errado são ténues e as vias de acesso multiplicaram-se. O usurpador ou o vigarista de hoje tem menos trabalho - o que não significa que passe impune.
 Grosso modo, estes figurões dependem de si mesmos e são menos espertos do que se julgam.
 Veja-se o exemplo das cocottes: muitas eram celebradas apesar de vistas como imorais. No entanto, foram pouquíssimas as que não acabaram na miséria. Não é difícil chegar a algum lado - difícil é manter uma posição. Isso exige talento legítimo, uma educação de raiz, inteligência, savoir faire, um valor real. As ambições são belas quando estão de acordo com as qualidades; quando se aproveitam as oportunidades concedidas por mérito; e quando se está mais consciente dos deveres que dos privilégios. O resto resume-se ao estado de "sem noção", ao ridículo e a uma derrocada mais rápida que a subida. É matemático.

                     Aquele que se eleva nas pontas dos pés não está seguro. 

(Lao Tse)


Deixamos de subir alto quando queremos subir de um salto.

(Marquês  de Maricá)

Monday, April 23, 2012

Breathing



Jesus Christ Superstar (1973)
Este fim de semana foi muito agitado. Teve desde trabalho duro a elogios inesperados (incluindo os de uma antiga modiste das melhores casas de Paris, imaginem...é para uma pessoa ficar peneirenta dias a fio!) tertúlia e a visita de amigos muito queridos. Pelo meio decidi conceder o benefício da dúvida a umas botas giríssimas, de salto chunky e com ar vitoriano que tinha comprado o ano passado. Dão uma postura linda, mas bem me enganaram: são demasiado rígidas e obrigam o tornozelo a manter-se numa inclinação impossível. Em suma, nem parecem coisas minhas. Ainda vou experimentar uns truques a ver se as consigo usar, mas o mais certo é irem parar aos pés de alguma amiga mais corajosa do que eu - ou cuja anatomia se adapte melhor àquele bruxedo em forma de calçado.
Conheço muito boa gente que as guardaria só para colecção, mas eu não sou esse tipo de apreciadora, pelo menos não nesta fase da minha vida. Não preciso de tralha. Não preciso de invasões nem prisões de ordem alguma. Nunca mais.
Não quero nada que me incomode: calçado que aperte, roupas que fiquem largas, objectos que ocupem espaço para inglês ver, situações que me sufoquem, pontas soltas, circunstâncias que me constranjam, peças que não me sirvam, a empatar a minha existência. Livre! Tenho tantas coisas boas e bonitas que seria um pecado gastar tempo e espaço com inutilidades...

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