Recomenda-se:

Netscope

Saturday, May 12, 2012

Da lealdade

Jessica Lange e Liam Neeson (Rob Roy)

"No Inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise"

Dante Alighieri
                                                                          
A lealdade foi um dos primeiros valores que me incutiram: indiscutível, incontornável, escrito em pedra. 
A mais importante, claro, é para com a família de sangue: sentido de clã, ancestral e entranhado. As coisas de casa não se discutem com os de fora. Defendemos aquilo que nos pertence. Trata dos teus.
Isto não significa cegueira quanto aos defeitos ou erros daqueles que amamos, mas que olhamos uns pelos outros, não tolerando qualquer ataque exterior. Segue-se, nos mesmos moldes, a lealdade para com aqueles  a quem queremos bem e que adoptamos como nossos. 
Quando oferecemos a nossa amizade, o nosso amor, dedicação ou esforço a alguém - ou mesmo a uma entidade, causa, organização - esperamos legitimamente que essa firmeza seja recíproca. Em tempos idos estimular a lealdade do exército era uma das maiores preocupações de um general competente. Embora este possa parecer um conceito ultrapassado, está muito em voga actualmente falar de " lealdade à organização" e estudar as melhores estratégias para a obter. Não fica bem a um funcionário da Pepsi ser visto em público a beber Coca Cola, por exemplo. E nenhuma empresa vê com bons olhos colaboradores  a dizer horrores do seu local de trabalho na rua, ou a partilhar alegremente informações com a concorrência. 
Não há ligação (seja profissional, de amizade ou amorosa) que resista sem lealdade, sem privacidade, sem a segurança de saber que as pessoas em quem depositamos a nossa estima estão dispostas a proteger-nos, tal como faríamos por elas. E quanto mais próxima a ligação, maior segurança se exige. A protecção e a confiança são necessidades básicas do ser humano: para estabelecer laços, precisamos de sentir que as pessoas chegadas constituem um refúgio, um pequeno mundo privado. Constantes interferências do exterior, muitas misturas e muita gente a opinar destroem qualquer relacionamento. 
Há situações em que não se consegue ficar neutro como a Suiça e permanecer honrado. Tal como Jesus disse, não se pode servir a dois senhores. Existem ocasiões na vida em que podemos flutuar airosamente sem tomar partido, sem nos comprometermos: são aquelas que não nos dizem directamente respeito, ou que não têm grande importância. Em todas as outras, é necessário escolher lados, ter uma só palavra de honra, saber onde está a nossa lealdade e agir de acordo. Quem não o faz, mente quando afirma importar-se com as pessoas de quem gosta: quem é amigo de todos, não é amigo de ninguém. Nem merecedor, por sua vez, de fidelidade e confiança. É impossível, por uma simples questão de lógica, ser adepto ferrenho do Benfica e do Sporting ao mesmo tempo; juntar vinagre com leite e esperar um bom resultado; ser um Católico devoto e uma cumpridora Testemunha de Jeová. Não podemos ter afeição a alguém e em simultâneo, pactuar com indivíduos que lhe são odiosos com justa causa. O amigo do meu inimigo, pior inimigo é. Das duas uma: ou escolhemos o lado oposto com todas as consequências que isso possa acarretar -é legítimo escolher um lado, mesmo que seja o lado errado - ou decidimos (principalmente se houver motivos sólidos para tal) que quem se queixa está dentro da razão, que é essa pessoa que nos merece respeito - e tratamos de defender quem de facto nos importa.
 Não existem áreas cinzentas. Não há meios termos. Temos de ir para onde o nosso coração está. 
     Manter um pé em cada margem, desvalorizando os sentimentos de pessoas supostamente queridas, relativizando acontecimentos graves, é falta de coragem, egoísmo, indecisão e implica perder a face. Nada mais simples.




Benjamin Franklin dixit



“Three can keep a secret if two of them are dead 


Ou, na língua de Camões...


 Segredo entre três? Só matando dois; Vinho e medo descobrem segredo;  Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades;
Não há segredo que tarde ou cedo não seja descoberto; 
Dize ao amigo segredo, pôr-te-á os pés no pescoço;Para um traidor, dois aleivosos; Dobrada é a falsidade feita com cor de verdade; Quando a verdade entra pela porta da frente, a falsidade sai pela dos fundos;

Segredo muito encoberto é sempre sabido;Uma mulher que chora, um homem que jura, um cavalo que soa, tudo imposturaA quem confiaste segredo, fizeste-o senhor de ti.



Friday, May 11, 2012

Let´s talk about jeans, baby: a luta continua

Brigitte Bardot

A bem de um closet eficiente, a bem da minha serenidade, da arrumação e do pragmatismo, avante Sissi! O processo de indoor shopping e catalogação prossegue com valentia e sem hesitações. Agora, os jeans: a colecção que fui juntando tem verdadeiros tesourinhos vintage, clássicos eternos, calças-para -de -vez -em -quando, coisas que por acaso estão in nesta estação e (poucos) caprichos passageiros que eventualmente voltarão a estar na moda. Alguns jeans nunca viram a luz do dia, mas estão ansiosos. Missão: ter por perto somente aqueles pares que quero usar regularmente (coragem!). O problema está na quantidade, que torna complicado experimentá-los um por um, decidir os que ficam "para uso corrente"  e desses, os que pedem arranjos na bainha.  Em termos daquilo que gosto e não gosto, é fácil:

cortes boot e straight (para o dia a dia)classic  (para os meus dias fashion statementskinny, flare, algumas boca de sino, uns quantos corsários que este ano estão de volta e mais um ou dois pares de boyfriends ou outro modelo largo. Na sua maioria, com cintura subida ou média. Tenho cinturas descidas de que gosto muito, mas não são o mais prático. Detesto a sensação "estarei a mostrar a lingerie a alguém"?.  Ganga maleável, mas sem stretch exagerado  - não posso com gangas duras e desconfortáveis, nem aquelas que se colam à pele como pastilha elástica . Cores sólidas (azul muito escuro ou azul claro, sem manchas, riscas nem nada que se pareça).  Prefiro manter o denim simples para deixar brilhar o resto da toilette. Fácil, fácil, não é? A ver vamos se consigo levar a melhor, que isto dos jeans é uma verdadeira ciência. Quando vou comprá-los tiro uma tarde só para isso e já sei que é um sacrifício. Prefiro adquiri-los em certa quantidade e não pensar neles por bastante tempo. Vê-se o resultado....mas lá chegaremos. E as meninas? Como organizam os jeans no vosso guarda roupa? E que modelos preferem?












Os psicopatas são desmiolados (e começam cedo)

"O pequenito tem cá uma cara de mau que é melhor trancafiá-lo e deitar fora a chave antes que seja tarde demais..."  

Recordam-se deste post? Parece que se conseguiu  um avanço que poderá ajudar a identificar os psicopatas com mais exactidão. Segundo o Público, o cérebro deles tem menos massa cinzenta do que o normal.

Cientistas britânicos e canadianos afirmam ter confirmado, pela primeira vez, que a psicopatia está associada a anomalias distintivas do desenvolvimento cerebral. (...)Os psicopatas têm um défice patente de empatia e de remorsos e usam friamente a agressividade para atingir os seus fins. Não distinguem o bem do mal, não se arrependem dos seus actos, gostam de magoar os outros. (...)

Os cientistas utilizaram a ressonância magnética para obter imagens do cérebro de 44 homens adultos que tinham cometido homicídios, violações, tentativas de homicídio ou causado ferimentos corporais graves a terceiros. Desses, 17 correspondiam ao perfil do psicopata, mas não os restantes 27. Também estudaram os cérebros de 22 pessoas não criminosas. E quando compararam as imagens, viram que os psicopatas, e só eles, apresentavam volumes de matéria cinzenta significativamente reduzidos em duas áreas: na região anterior rostral do córtex pré-frontal e nos pólos temporais. Estas duas áreas são importantes na percepção das emoções e das intenções alheias e são activadas quando pensamos em comportamentos morais (...) E as lesões nessas áreas têm sido associadas à falta de empatia, de medo, de angústia e de sentimentos de culpa e de vergonha.

Infelizmente já me cruzei com seres assim. São indivíduos com traços muito específicos, que a algumas pessoas passam completamente despercebidos, mas a outras causam uma inexplicável aversão. Muitas vezes conseguem manipular terapeutas, pois possuem um instinto para se moldar ao que os outros querem ouvir e para detectar fraquezas alheias. Alguns deles têm sido assim toda a vida; na primária eram useiros e vezeiros em arranjar intrigas entre os colegas, pôr os amigos à pancada e sair ilesos, ou ainda culpá-los pelas suas asneiras. Na idade adulta, perante a falta de talento e de capacidade de trabalho para se saírem bem, procuram satisfazer a sua convicção de "merecimento" através de golpes e esquemas. Um psicopata acha sempre que tem direito às coisas que ambiciona: seja matar, torturar, usurpar o lugar, emprego ou mesmo a vida/ identidade dos outros. E como tem a mania das grandezas, acha sempre que está além do castigo. A culpa é sempre de outrém, e se lhe perguntarem mil vezes, é capaz de inventar mil desculpas diferentes. Parasita, manipulador e mentiroso até à medula, é o tipo que arma confusão, provoca desentendimentos entre as pessoas e sai com um sorriso de orelha a orelha. Até que o "fumo" começa a ser demasiado, e alguém se lembra de que os distúrbios só começaram com a chegada do inocente, fofinho e prestável psicopata. Coincidência?

Também a Sábado aborda o assunto, explicando que os sinais começam a manifestar-se na infância, como já tinha mencionado aqui. A revista conta o caso de um mini psicopata português:

 "No jardim de infância não tinha amigos, todas as crianças se queixavam de que ele lhes batia. Mas nunca havia provas. Ele sabia como os magoar: agredia-os na cabeça, onde não ficavam marcas. Perto dos pais, ou sozinho comigo (terapeuta) parecia um santo. Era altamente manipulador. (...) Além de não sentirem empatia pelos outros, os miúdos com perturbações do comportamento também são alheios à culpa. Inteligentes, conseguem manipular as ideias que fazem deles; calculistas, planeiam as maldades para não serem apanhados”.

Numa coisa os profissionais da área parecem ser unânimes: psicopatas e sociopatas podem ser diagnosticados, não tratados. " Não há tratamento para um psicopata - as únicas pessoas que podem beneficiar de terapia são as suas vítimas". Dotados (?) de um "cérebro reptiliano" são incapazes de cooperar com os outros ou procurar obter os seus objectivos sem prejudicar ninguém. São frenéticos, com um instinto oculto de auto destruição. No fundo, detestam-se e querem que alguém os obrigue a parar.  Amigos especialistas na área confirmaram-me essa informação. "A única defesa contra um psicopata é ficar longe dele, não permitindo qualquer tipo de contacto. Pessoas assim inevitavelmente acabam na cadeia ou pior ainda".  O que nos deixa um pouco mais descansados. Ou não.
 

Thursday, May 10, 2012

Catfight na carruagem de Luís XIV‏

Luís XIV (Samuel Theis)

A multidão de maîtresses en titre dos Reis franceses é uma colorida amálgama de nomes e peripécias, capaz de pôr à prova a memória dos mais empenhados curiosos. Entre elas, uma das poucas que considero respeitável e admiro francamente é a inteligentíssima e deslumbrante Diana de Poitiers, o grande amor de Henrique II (1519-1559). Não só era uma grande dama - por nascimento e por mérito - como soube sempre colocar-se no seu lugar, gerindo hábil e diplomaticamente as (justas, apesar de tudo) provocações de Catarina de Medici, senhora que ninguém gostaria de ter como inimiga.  Mas essa verdadeira e sincera paixão aconteceu numa outra época, em que o ideal do amor cortês, não deste mundo, ainda estava na moda...
Falar da vida pessoal de Luís XIV (1643-1715) e Luís XV (1715-1774) é um assunto inteiramente diferente: é necessário observá-las à luz do tempo e dos seus costumes. Este foi um tempo de sonho e pesadelo febril, dourado e frenético, em que ideias de tempos idos - naturalidade, simplicidade, varonia, suavidade - eram preteridas em prol do requinte, da graça de maneiras, da riqueza de linguagem, da subtileza e sagacidade de raciocínio e de um luxo elaborado. No caso da corte, isto traduzia-se numa complicadíssima etiqueta e num modo de vida alegre, mas claustrofóbico. Senhor absoluto, o Rei não tinha o mais elementar direito à privacidade. As suas tarefas mais íntimas eram asseguradas e observadas por cortesãos ávidos dos seus favores. Um passo em falso podia ditar a caída em desgraça. Numa época em que os jogos de poder político passavam oficialmente pelo leito real, os amores do Rei já não se tratavam de se agradar espontaneamente de fulana ou beltrana, e enveredar por um affair mais ou menos clandestino: as "distracções" reais tornavam-se um assunto de Estado, e como tal eram tratadas. A libertinagem estava instituída, com uma formalidade nunca vista.
A primeira paixão de Luís XIV foi a impetuosa Maria Mancini, que não passaria de um amor platónico. Seguiu-se Louise de La Vallière, uma jovem religiosa e tímida, colocada no seu caminho para contrariar os rumores de adultério do Rei com a cunhada, a bela e escandalosa Henrietta de Inglaterra. Ao longo de cinco anos, Louise terá sido mais uma amante secreta do que uma maîtresse en titre: não era extravagante, nem exigente. Por escrúpulo, recusou mesmo um casamento de fachada, prática comum para dissimular este tipo de ligações.


File:LouiseDeLaValliere01.jpg
Madame de La Vallière




 Mas a sua piedade religiosa - que lhe causava terríveis remorsos - e discrição (recusou-se a revelar ao Rei as relações da sua cunhada com o atraente Conde de Guiche) acabariam por ditar a sua queda em desgraça. Inimigos na corte levaram o romance aos ouvidos da Rainha, que passou a tratar Louise duramente. O escândalo público levou-a a ser temporariamente afastada. Porém, o pior estava para vir: por esta altura, Luís começava a interessar-se pela perturbante Madame De Montespan, que tanto Louise como a Rainha tinham considerado até então uma verdadeira amiga, e que era em tudo diferente de La Vallière. Louise reagiu inicialmente com lágrimas; mas perante o inevitável, quis afastar-se;  procurou por várias vezes refugiar-se num convento. Debalde: possessivo, controlador, o Rei não queria abrir mão dela e impediu-lhe os movimentos uma e outra vez. Podia já não lhe ser fiel, mas desejava mantê-la por perto. Para evitar mexericos - e as queixas do Marquês de Montespan, que queria a mulher de volta - o Rei exigiu inclusive que as duas rivais ocupassem os mesmos apartamentos. Quando viajava, obrigava as três mulheres da sua vida- A Rainha Maria Teresa, Mme. De Montespan e Mme. de La Vallière - a seguir na mesma carruagem. Podemos imaginar o ambiente prazenteiro destas jornadas...



Madame de Montespan

 Extravagante e caprichosa, Montespan chegou a pedir que a pobre Louise lhe servisse de aia. Mortificada, mas obediente ao ainda amante, Madame de La Vallière aniu com graciosidade. Incessantemente, fazia penitências e implorava a Luís XIV para que lhe permitisse deixar o palácio. Mas o monarca, se a cobria de presentes de consolação (concedeu-lhe o título de Duquesa e legitimou a filha de ambos perante o parlamento) parecia determinado a fazê-la sofrer todas as afrontas e humilhações. Quando foi obrigada a ser madrinha da primeira filha do ex amante com Athenais de Montespan, a sua saúde começava a dar sinais preocupantes. Foi a gota de água que fez transbordar o copo: em 1671, tentou fugir para o convento de Ste Marie de Chaillot, mas obrigaram-na, por ordem régia, a regressar mais uma vez. Só três anos depois lhe foi dada permissão para ingressar num convento Carmelita de Paris, com o nome Irmã Luísa da Misericórdia. Quando Madame de Maintenon (que viria a ser a mais querida companheira de Luís XIV) lhe perguntou se não receava os rigores da clausura, Louise respondeu, com mágoa, "quando estiver a sofrer no convento só terei de me lembrar do que me fizeram penar aqui para o sofrimento parecer leve". Antes de partir, ajoelhou-se aos pés da Rainha, pedindo "perdão público pelos seus públicos crimes". O trauma e os remorsos assombra-la-iam pelo resto da vida. Quando o seu  filho morreu, disse "choro mais pelo seu nascimento do que pela sua morte".   
 Anos mais tarde, quando já tomara os votos finais, a rival que lhe amargurara a existência, Madame de Montespan, viu os papéis inverterem-se, ao ser atormentada pela atrevida Madame de Fontanges. Athenais sentia agora na pele o que fizera sofrer Louise e Maria Teresa. O desespero leva-la-ia ao escândalo do "Caso das Envenenadoras" e ditaria o seu afastamento do Rei. Arrependida e infeliz, foi visitar a antiga inimiga - que lhe perdoou as afrontas e a aconselhou sobre os meios de procurar a Graça Divina.
 Louise nunca se arrependeu de uma mudança de vida tão radical. Segundo a própria, a sua fraqueza "não lhe trouxera alegrias algumas, mas apenas grandes desgostos". 
 A história não nos diz o que ia no coração de Luís XIV - mas sabe-se que as contendas que fomentava entre tantas mulheres lhe perturbavam a paz de espírito. Chegou a pedir a Mme. de Maintenon que o ajudasse a acalmar os ânimos exaltados das favoritas. A única que não lhe causou dissabores foi a legítima esposa, de quem disse " o único desgosto que me deu foi este" no dia da sua morte. 
 Mesmo vendo os factos à luz do seu tempo, interrogo-me se uma prisão dourada valeria sofrer tais torturas. Há coisas que não podem ser compensadas pelo prestígio, pelo luxo, nem pelas riquezas deste mundo...







Wednesday, May 9, 2012

A Venerável (e elegante) Teresinha

Venerável Maria Teresa Gonzalez-Quevedo y Cadarso

Há dias, quando comprava um armário antigo, deparei-me com um caixote de livros velhos. Entre eles estava uma biografia (Imprimatur de 1960) da Venerável  Maria Teresa Gonzalez-Quevedo y Cadarso. Teresita jurou ser santa, morreu tragicamente antes de completar 20 anos de idade e actualmente são-lhe atribuídos vários milagres.
Fiquei imediatamente fascinada, não só porque o livro faz jus à prosa característica destas publicações, a que eu acho imensa graça,  mas também pelos deliciosos retratos que contém. Um amor!
A avó Celeste incutiu-me a curiosidade pelas vidas de santos, que ora me contava (com o seu talento especial para dar vida às histórias) ora me apresentava através de livrinhos e pagelas que trazia dos seus passeios. Alguns são francamente edificantes, outros encantam pelo contexto histórico, pelo pitoresco, pelo aspecto humano. O hábito ficou. 
"Essa vida (de Teresinha) é a prova fulgurante de que a santidade não anda de relações cortadas com as diversões honestas (...) não é com extravagâncias e esquisitices que se alcança a santidade"  dizia o prólogo da edição portuguesa. Pareceu-me muito bem, até porque estamos precisamente no mês de Maria, e veio comigo para casa. 


Para quem não conhece, a lindíssima Teresa nasceu em 1930 numa boa família madrilena. Teve uma infância e uma adolescência perfeitas, com todos os mimos e confortos. Era muito alegre, embirrava com os livros do colégio, tinha mau feitio ( em pequena chamavam-lhe "o venenozinho") e sobretudo, um gosto irrepreensível. " Prefiro ter um vestido bom do que dois medianos" era uma das máximas de quem, segundo a irmã, se mostrava sempre exigentíssima no requinte da apresentação e do saber estar. Impressionava pela beleza, pela simpatia e sobretudo pelo porte gracioso, digno, a que não faltava"  um fundo de certa majestade e respeito" . Era igualmente exigente com os dotes do espírito. O seu ardente desejo de se aperfeiçoar e uma enorme devoção à Virgem Maria - o seu modelo - levaram-a a deixar para trás as festas, as férias, as belas toilettes, a família e os amigos, para se tornar noviça das Irmãs Carmelitas da Caridade. Estava decidida "a ser Santa". Porém, até ao momento de tomar o véu, espantou todos com a fantástica elegância da sua pessoa e do seu traje " do mais irrepreensível figurino".
Entrou no convento "serena, alegre, belíssima" de " vestido escocês e capote azul marinho". " Gosto muito de usar roupas elegantes. Muito mundo, muito mundo, mas quando entrar no noviciado acabou-se!" confirmou às amigas, sem pena, embora tivesse gracejado ao ver-se de hábito vestido: "pareço uma dessas caixas de amêndoas, com tampa de mola, de onde sai um boneco...". 



Tuesday, May 8, 2012

Não se negoceia com terroristas

David Bowie
Nem acerca de terroristas, ninjas da fruta, talibãs de província ou mânfios da loja dos 300. Simplesmente não se fazem prisioneiros, não se discute nem se regateia. Não é uma atitude lá muito subtil, muito menos ardilosa. Se calhar não é uma atitude esperta. Mas eu detesto chicos espertos armados em Richelieus de esquina. Prefiro a inteligência à esperteza saloia, obrigada. É sabido que honra e proveito não cabem no mesmo saco: tanto melhor. Dizem que não há glória fora de Deus, daquilo que é puro, justo, correcto e que tem luz própria. Se outros brilhos se apagarem na tormenta, resta esse para usar como um estandarte luminoso, como um diamante sem preço. Antes pontes queimadas do que atravessadas pelas hordas mercenárias. Mil vezes...

The Sensual Class





Tenho mencionado Gwyneth Paltrow e Kate Moss, mas Angelina Jolie  e Claudia Schiffer  também são mestres em manter um estilo sexy e juvenil, de forma sempre adequada - o que não é fácil. Simplicidade na maquilhagem e nos penteados, peças clássicas e acessórios intemporais, com um pouco de savoir faire e criatividade, asseguram um aspecto chic e airoso sem cair em exageros nem em looks trendy, mas efémeros. Perfection.


  



A atriz confessou que quer ter mais curvas no dia do seu casamento. - 1 (© © Wire Kevin Mazur)Claudia Schiffer Leaving Scotts Restaurant In London


A atriz confessou que quer ter mais curvas no dia do seu casamento. - 1 (© © Wire Kevin Mazur)A atriz confessou que quer ter mais curvas no dia do seu casamento. - 1 (© © Wire Kevin Mazur)

Monday, May 7, 2012

A Avó Zaida



Esta semana também teve um momento triste, em que infelizmente nos despedimos de uma pessoa querida. A avó Zaida, avó da minha irmã do coração, e de certa maneira avó de nós todos, que a todos brindava com toneladas de paciência e carinho a condizer. Dissemos-lhe adeus com a cerimónia mais linda que se possa imaginar. Com um dos serviços religiosos mais inspirados, lúcidos e confortadores que já me foi dado ouvir. "Deus põe à prova aqueles que quer para Ele, como prova do Seu amor" foram as palavras do Padre. Nem ele sabe o quanto me revi nesse discurso. O quanto tenho meditado em ideias semelhantes, durante meses intermináveis em que me senti testada, levada ao limite. O cinzel divino é doloroso e sempre ouvi dizer que a estrada que conduz ao Paraíso é escura e espinhosa; que as demandas do Graal, nesta vida, não são fáceis. Para sermos dignos, é preciso que a nossa alma se purifique, que se expanda para alcançar planos nunca imaginados. Numa perspectiva New Age, há quem lhe chame o despertar da consciência cósmica ou coisa parecida. Pessoalmente, sinto-o como um burilar do espírito: enfrentar o sofrimento com valentia e deixar para trás as roupagens que nos afastam do divino. Como Ishtar nos Infernos - atravessar as trevas para estar mais próximo da Luz. Acredito que não nos seja dada nenhuma cruz que não sejamos capazes de carregar, nenhuma missão além das nossas capacidades. 
 Mas com a partida da avó Zaida há um ciclo que se fecha. Não consigo pensar nela sem a associar às nossas loucas brincadeiras, a uma liberdade e despreocupação de adolescentes, que já não volta. Haverá outras coisas boas, mas iguais não. Crescer dói que se farta. 
Ainda me passou pela ideia propôr um lamento à moda irlandesa, em que as qualidades e peripécias da pessoa que deixa este mundo são enunciadas à vez, e todos respondem com um grito de pesar ("Óchon,Óchon, Ullagon!") . Mas todas as aventuras que tive na presença dela são  de fazer rir, chorar não, e na avó Zaida não havia nada de irlandês, só o nome de moura encantada e um pouco de salero espanhol.
Talvez alguns dos presentes estranhassem recordarmos aquela vez que ela se vestiu de fantasma para ajudar na nossa festa de Halloween; quando veio em camisa de dormir, a altas horas da noite, procurar-nos ao meio das hortas para onde nos tínhamos escapulido para "caçar ovnis" e nos pregou um susto de morte. Ou aquela em que nos apanhou em flagrante delito a pregar uma partida à padeira. "Vocês têm um descaramento!" era o seu brando raspanete. Há pessoas assim: deixam um rasto de bondade e suavidade pela terra.  E mostram-nos que é possível crescer para chegar a ser uma avó sem nunca perder a alegria e a imaginação. O que não é um contributo pequeno.

Arrrrgh, não posso lidar com isto agora!

Michael e Janet Jackson

Por vezes há fases em que todos os malucos, situações estrambólicas e momentos caóticos vêm ter comigo. Em simultâneo, que é para se despacharem mais depressa. E se em certas alturas até tenho cabeça e sangue frio para gerir tudo isso, há outras em que não dá. Não chateiem. Don´t push the envelope, que eu não sou imensa. E não venham largar bombas e destabilizar o barco, para depois ficarem muito descansadinhos enquanto eu faço acrobacias com a batata quente. Há certas coisas na vida que reunem pouca simpatia minha. Entre elas estão os pantomineiros (como já vos tenho contado) e as suas subclasses: vira casacas, cata ventos, galos doidos, malta sem espinha dorsal que muda de ideias como de camisa, pessoas sem palavra, a criar situações - ou pior, circos -  que nunca se sabe como vão acabar. Eu até tenho imaginação e jogo de cintura - certo - mas sou uma rapariga organizada, que gosta de uma estrutura bem definida, quase militar, de saber com que linhas se cose e de coordenadas para funcionar. Quando eu digo piu, é piu. Só gosto de falar uma vez e a minha palavra vale um escrito. Esta moderna flexibilidade de combinações dá comigo em doida. Parece que se tornou banalíssimo dizer uma coisa e fazer outra, voltar a discutir assuntos uma e outra vez como se nada tivesse sido falado antes, passar por cima de acordos (e até de contratos - já o tenho visto) com a maior desfaçatez. Assim a trouxe-mouche, oui-non, peut-être, nim, morde-e-assopra, num permanente "já aí vou", "espera aí" ou "logo se vê". Mas se uma pessoa se indigna ainda ficam muito admirados, estilo "olha esta. Está tão maldisposta por quê?". É a anarquia.
 

Sunday, May 6, 2012

Fim de semana express + carteira vintage



Há fins de semana em que não acontece nada, há outros em que me dava jeito ter um clone. Acho que em algumas das ocasiões quem esteve presente foi um holograma. Correria, correia, correria. Fiz umas boas centenas de quilómetros e encontrei metade dos meus amigos e conhecidos. Pelo meio ainda houve tempo de ir à minha terra, passar pelas capelinhas e ver a parentela. Nestas andanças - além das meus inseparáveis trench coats, que a chuva ainda deu um ar da sua graça - a minha fiel companheira foi uma carteirinha dos anos 60. Estava a precisar de arranjo e em vez de a mandar consertar, decidi pôr mãos à obra e substituir o painel de couro frontal por um tecido bonito. Tinha pensado em  brocado dourado fosco, mas depois, entre os milhares de paninhos e fazendas que tenho lá em casa, encontrei este cretone, que me lembra os motivos da Companhia das Índias. Pedi a uma pessoa muito talentosa com quem tenho a honra de trabalhar que partilhasse comigo a sua sabedoria e o resultado foi este:


Está como nova, é bastante mais versátil assim e foi muito elogiada...Aconselho vivamente a personalização, reciclagem e recuperação de peças antigas, de boa qualidade. Têm uma execução e materiais muito superiores ao que actualmente se encontra nas lojas e a vantagem de dificilmente alguém aparecer com coisas iguais. Podem ver algumas fotos deste weekend aqui, na página de Facebook do IS. (Não estão todas lá, que me faltou o tempo...).
Quem ainda não conhece, pode aproveitar para espreitar  - ou ser comunicativo e fofinho e deixar um Like.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...