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Saturday, May 26, 2012

BB Cream, bloggers e...amostras grátis




Este texto sobre o BB Cream tem sido um dos mais visitados cá no cantinho, principalmente na última semana. Fiquei intrigada e tive a surpresa de saber que a página da Garnier no Facebook me incluiu entre as suas "BB Bloggers". Serve isto para dizer às meninas que têm manifestado curiosidade pelos efeitos do produto maravilha que já podem obter a vossa amostra grátis, aqui. Nada como ver por nós mesmas o efeito desta fórmula de "boa cara" instantânea, não é?


                                        
                      A usar BB Cream (aplicado às 7 da manhã) ao fim de um dia e stress e calor.

Truque express com a latinha Nivea

Marilyn (ao centro) posando para um anúncio da Nivea (1947) nos seus tempos de modelo 

Marilyn Monroe e Lalla Abla bint Tahar (mãe do Rei Hassan II de Marrocos ) donas de uma pele invejável, eram fãs incondicionais do clássico Creme Nivea. Ambas defendiam que o centenário produto low cost superava em eficácia os cosméticos mais luxuosos. Composto à base de lanolina (uma gordura natural que impermeabiliza a lã das ovelhas) de água e de óleos essenciais, este creme rico foi feito para proporcionar nutrição profunda e  progressiva, que se mantém ao longo de todo o dia, além de manter a pele escudada contra as agressões exteriores. Apesar de todas as inovações e linhas lançadas pela marca ao longo dos anos - gosto especialmente dos produtos para o cabelo, que têm uma textura única no mercado - a icónica e charmosa latinha azul (criada em 1924) continua insubstituível. O Nivea clássico não precisa de publicidade - existe em quase todas as casas há gerações, vende-se a si próprio. 


Diz quem sabe que a velha receita contém, à excepção das algas, exactamente os mesmos ingredientes do requintado Creme de La Mer. A sua versatilidade é outra das razões para 100 anos de sucesso: há quem o use como creme de olhos, de rosto, de noite, de mãos, de corpo, após a depilação, contra queimaduras e cicatrizes, como desmaquilhante e outras hipóteses que agora não me ocorrem. É um produto que gosto de ter sempre à mão - na Schlecker vendem-se versões em miniatura que dão muito jeito para trazer connosco - um verdadeiro hidratante multiusos. 
 Por causa da minha pele sensível, que por vezes reage mal até às marcas mais sofisticadas, vou alternando um bom número de cremes consoante as necessidades de cada dia. O Nivea é um deles e posso afirmar que tem um elevado grau de tolerância e não entope os poros. A pele fica profundamente hidratada e luminosa.
 A minha forma preferida de o usar é ideal para quando estamos com pressa: após um bom tónico com propriedades exfoliantes ( Clinique ou Mary Kay, por exemplo) sobre o rosto bem seco. Aquece-se um pouco nas mãos - à semelhança do que se faz com o Creme de La Mer - e aplica-se espalhando bem, incluindo no contorno dos olhos. O que sobrar, vai-se esfregando sobre as mãos, que ficam fantásticas. A seguir, passa-se um bocadinho de papel sobre o rosto, para ajudar a absorver. Depois é só aplicar, com uma borla grande, pó solto mineral (ou base mineral em pó) pela cara toda. Et voilá, não é preciso mais corrector, nem fond de teint, mata brilhos, nem nada. Fixa que é uma maravilha e mantém-se impecável horas e horas. Com aquele cheirinho vintage a praia e a sol.

Techno chachada

Jennifer  "tive pavor de ficar para tia ou de ser enganada outra vez, por isso comprei este que é portátil e faz o que eu mando" Lopez
Há alguns anos, começou a moda de toda e qualquer canção pop ter hip hop, ou derivados, pelo meio. No início teve a sua graça, depois tornou-se insuportável. Ou ainda é, vá. Mas como o que está mau pode sempre ficar pior, o que está in agora é abafar toda e qualquer musiquinha sob uma camada de batidas techno que parecem saídas do canal VIVA (alguém se lembra?) no início dos anos 90. Ritmos que, sejamos francos, eram foleiros mesmo nessa altura em que eu ainda não tinha idade para ir a discotecas mas já distinguia que aquilo nem chegava ao mainstream. Ainda assim, nessa altura apareceram temas  bastante aceitáveis e que perduraram anos, como este  ou este. House comercial, que o pop era uma coisa à parte, mesmo que fosse fraquinho.
Hoje Katy Perry, Rihanna, Jennifer Lopez (que andou anos a apregoar que era "from the block" e agora virou uma clubber madura com um namorado escanzelado para sustentar) Jessica qualquer coisa, Nicki não sei quê e outras que uma pessoa não conhece, nem quer conhecer, todas se meneiam aos berros para fazerem ouvir letras com tanto significado como uma batata crua debaixo daquele "pum pum pum" intragável. Não é que isso conte para a minha felicidade, mas não andarão muitas coisas a tomar uma rota descendente em direcção à foleirada absoluta e socialmente aceite? Just a  thought.

Thursday, May 24, 2012

Eu vou lutar por ele!

                   

          "Most girls don't know what to do with what they've got." 
                                          (Jayne Mansfield)

Por qualquer razão há muitas amigas, e amigas de amigas, que gostam de ouvir os meus conselhos. Dizem que eu tenho boa intuição (que tenho, é um facto, só opto por deixá-la a falar para o boneco uma vez por outra) e que sou uma pessoa sensata. Gaba-te cesto roto...
Sensatez não sei se possuo, acho que é uma questão fake it till you make it. O que tenho de certeza é muito respeito próprio - não confundir com presunção - e o hábito de pôr a lógica à frente das emoções, que me tem valido um cavalo na guerra mais do que uma vez.
   Por isso fico danada quando ouço uma mulher dizer, ao queixar-se da sua vida amorosa, o velho cliché "eu vou lutar por ele". Dizem-no com orgulhoso e sofrido ar de mater dolorosa, de mártir numa demanda sacrossanta. E eu tenho vontade de lhes dar um safanão a ver se acordam. Esse chavão novelesco, batido e estafado só é comparável no quesito foleirada ao horroroso, abrasileirado e hipócrita " vou tentar te esquecer" ( pronunciam-no mesmo assim, don´t ask) e ao lamechas "estou livre para amar".

" Vou lutar por ele" é um lugar comum usado nas situações seguintes:


a) Uma relação que nunca deu em nada, ou já deu o que tinha a dar, em que ele não está assim tão interessado, um tango a solo que a mulher vai levando como quem pisa ovos para não afastar o "precioso" de vez;


b) Uma relação com um indivíduo manipulador, que está indeciso entre duas ou mais mulheres (ou liberdade versus compromisso) e o demonstra com a maior das latas.


Não é que esta frase histérica e desesperada seja exclusiva do mulherio, mas é muito mais comum entre nós. As mulheres têm espírito de sacrifício e de espera: é genético, mas também adquirido. Séculos em suspenso à espera que eles voltassem da caça, da pesca, da guerra, a segurar o barco, a agir como regentes, a manter a família unida, deixaram as suas marcas. Esse reflexo condicionado manifesta-se actualmente da maneira errada, em situações que não o exigem, a favor de pessoas a quem não se deve - nem merecem - esse tipo de lealdade.


Juro que já ouvi senhoras (com filhos, com carreiras, com responsabilidades e idade para ter juizo) afirmar com fidelidade canina "ele diz que me ama, apesar de ter fugido com a mulher da limpeza: imagine que está com ela de Sábado a Quarta e comigo nos outros dias. Mas eu vou lutar por ele!". Outras, que se mantêm na prateleira há anos, à espera de dar o grande passo, vão suportando rompimentos sucessivos, traições, infidelidades, desconsiderações e afrontas apoiadas na bengala "ele acaba sempre por voltar para mim - eu vou lutar por ele!". Há inúmeros moldes em que a frase se utiliza, mas é sempre patética.

O modus operandi destas mulheres da luta, empenhadas na defesa de casos perdidos, pode variar entre:


a) Disputá-lo com as outras, com intrigas e provocações - chegando mesmo a cenas de catfight e peixeirada, para gáudio do idolatrado garanhão que goza o espectáculo e fica a sentir-se la crème de la crème.


b) Levar uma vida de monja, a adoecer, a chorar pelos cantos, a esquadrinhar masoquistamente tudo o que lhe diz respeito, sempre disponível para migalhas, a mandar mensagens de cortar o coração, a implorar, na esperança de que ele tenha pena e se decida por ela.

c)  Técnicas mais subtis, como o degradante amiguchismo, vulgo "sei que já não queres nada comigo, mas estou aqui se precisares de mim...sou apaixonada por ti, mas acima de tudo sou tua amiga". Amiga, o tanas. Esse tipo de eterna pretendente, ou ex- namorada- amiga-namorada-outra-vez-chifruda-profissional à espera de uma oportunidade é particularmente predatório. Tem vocação para capacho, não se importa de sofrer horrores desde que consiga o que quer: fica "amiga" das rivais (ou mais do que isso, se for preciso) atura ofensas, ouve os desabafos do ex sobre outras mulheres, finge de compincha por mais que lhe doa só para se manter por perto, chega ao extremo de não protestar quando ele, sem dó nem piedade, a impinge aos amigos. Vê o homem em causa como um troféu a alcançar a todo o custo e faz isto sem se preocupar nem com a felicidade dele nem com a própria sanidade mental, na tentativa de se aproveitar de um eventual momento de fragilidade. "Quando ele estiver mal, volta para mim - eu vou lutar por ele!". E ele, claro, vai gozando o panorama, sabendo que tem sempre uma rede para onde saltar em caso de escassez. Assustador.

                          
No fundo, as duas partes envolvidas não estão apaixonadas uma pela outra: ela porque se foca nele, nele, nele. Não ama aquele homem tal como ele é, mas uma imagem folhetinesca e idealizada que construiu na sua cabeça. Em alguns casos, a obsessão pode vir daquilo que a mulher imagina que obteria "conquistando" aquela pessoa específica (casamento, escape de outros problemas, segurança emocional, ascensão social). De uma forma ou de outra, é sempre uma relação unilateral e doentia: a "mulher que luta" põe a sua vida a girar em torno de um único pormenor, como se não tivesse outras áreas de interesse e não houvesse mais homens, com as mesmas qualidades ou melhores, disponíveis no planeta.

Da parte dele, é uma resposta automática. Os homens são menos complexos e mais instintivos do que nós: gostam ou não gostam, querem ou não querem, estão interessados ou não, ou se sentem disponíveis ou querem continuar solteiros. Quando querem uma coisa, querem mesmo e não há obstáculo que os demova. Não se movem por piedade, por gratidão nem por retribuição. Quando um homem faz "nim" ou "talvez" isso significa um não: ou não está apaixonado ou não está pronto (as duas coisas nem sempre andam juntas). Não é que sejam todos uns vis e uns malvados, simplesmente é assim que funcionam. E regem-se pela facilidade. Eles detestam complicar. "Se quero ter duas e posso, para que é que hei-de ter só uma?" ou "se ela está disponível assim, para que é que vou complicar a minha vida tão arranjadinha?". Perante isto, a única atitude com pés e cabeça é ir cada um à sua vida. Ele fica com as suas mulheres, as suas noitadas e sem dever explicações, ela fica com os seus amigos e amigas, os seus pretendentes, a sua vida social e o resto, tudo como dantes no Quartel de Abrantes, não se acaba o mundo lá por causa disso.

É certo que algumas acabam por vencê-los pelo cansaço: por essa altura, uma relação será muita coisa, menos feliz. Não tem entusiasmo, não tem vida, a paixão foi-se. A "mulher que luta" será sempre o elo mais fraco, sempre a jogar à defesa, no permanente terror de ser deixada mais dia menos dia.

Eterno brinquedo, nunca adorada nem desejada com todas as forças.

                                    
Pessoalmente, sou old fashioned: o cavaleiro deve lutar pela donzela e nunca o contrário. Se o costume se manteve durante tantos séculos é porque funcionava bem, e em equipa que ganha não se mexe. Que um homem lute pela mulher que ama, isso é romântico. Não há nada de vergonhoso num rapaz que diz a outro, cheio de basófia "ou te afastas da minha namorada ou parto-te a cara toda". É o papel tradicional. É viril. Faz parte. Agora uma mulher nesses preparos, a esgatafunhar-se para defender quem não quer ser defendido, quem se está  nas tintas, vai contra todas as regras. Eles são grandes, o sexo forte... e nós, que somos pequeninas, o belo sexo, é que andamos à luta? Uma mulher com vida própria tem mais que fazer do que pelejar por um marmanjo com boa idade, bom tamanho e bom corpo para saber o que quer. Se tiver de lutar por alguma coisa que seja por si, pela família, por uma carreira, por um objectivo: burn for no cause but your own, como dizia o outro. 

Sempre achei que no máximo, um casal deve lutar pela relação. Juntos. Ou porque atravessam dificuldades que possam desuni-los, ou porque aconteceu uma crise grave que os ultrapassou mas acham que o que têm vale a pena.

Uma coisa é lutar por "ele" se estiver a ser raptado por aliens, cercado de ladrões ou num apuro semelhante. Outra é lutar para o tirar das alhadas em que se mete por livre e espontânea vontade, com férrea teimosia. Em boa verdade, homem que precisa que "lutem por ele" não vale o esforço em primeiro lugar. 


Wednesday, May 23, 2012

Sem comentar MET nem Globos de Ouro da SIC, mas já comentando...

Sara Sampaio (Jay Ahr): simples, clean e sem erro.

Não mencionei a gala MET por um motivo: os vestidos eram péssimos ou francamente sem graça. Não houve ali um único farrapo que me fizesse olhar duas vezes, nem mesmo o Ralph Lauren de Camilla Belle que foi tão elogiado à falta de melhor ( era um Ralph, só faltava que fosse mau, mesmo coleante e brilhante). Quanto aos Globos de Ouro portugueses, abstenho-me de analisar à lupa porque primo, meio mundo por essa blogosfera fora já o fez e eu pouco teria a acrescentar e secondo, porque não me parece que o evento tenha uma relevância por aí além. Já não falo na categoria de certos convidados, para não ferir susceptibilidades. Também não vou entrar por apreciações sarcásticas e mordazes. Por fim, creio ser inútil, maçador e cruel esmiuçar o mesmo: ano após ano (salvo honrosas excepções e vestidos com algum potencial, mas mal aproveitados) mais coisa menos coisa, a história repete-se.
 Assim, sem querer comentar mas já comentando, fico-me por alguns reparos, que cabem aqui ou em qualquer evento do género, seja público ou uma festa privada:

- As portuguesas têm um fraco irresistível por vestidos fluidos com lycra, nada a fazer, e num ano em que lamés e lantejoulas são permitidos, o terreno é fértil para gaffes. O vestido escorrido não é a opção mais sofisticada nem lisonjeira. Torna-se facílimo passar de uma elegância risqué à foleirada, bastando para isso ter o ar, a postura ou o sapato errado. Outra paixão a que se entregam fatalmente são as aberturas geométricas, estilo anos 90 - algo que quanto a mim, devia ficar guardadinho nessa década para não sair tão cedo.

- Adequar a toilette ao tipo e tamanho de corpo que se tem é uma regra incontornável- por mais modas que venham, por mais que um estilista faça por impingir (e exibir) a sua última criação. 

- Como sempre, predominaram dois cenários: o vestido das Modas Milu (com as suas organzas, corpetes mal enjorcados, tules e tafetás sintéticos ultra brilhantes) e o modelo emprestado ou comprado à pressa num costureiro a.k.a designer nacional emergente. Um vestido formal nunca é muito barato, mas também não precisa de ser caríssimo. Na dúvida, o melhor é optar por um estilo clássico e simples, bem forrado, com um decote mais aberto - uma vez que o evento tem lugar após o pôr do sol - e algum detalhe amoroso, feito em tecido de boa qualidade. O penteado e os acessórios, bem escolhidos e ensaiados com antecedência, fazem o resto. O essencial é que o outfit seja devidamente ajustado ao corpo, a tempo e horas. Bainhas, pinças e outros arranjos marcam a diferença entre um resultado soberbo e um saco de batatas. E isso precisa de tempo - mas os Globos de Ouro acontecem uma vez por ano, certo?

Sapatos, acessórios e postura:
Mais vale uma clutch discreta do que uma it bag para inglês ver que não combine com o resto. Clutch a tiracolo, principalmente cruzada em cima do peito, é mesmo para esquecer. A carteira deve ser usada na mão e aquando das fotos, coloca-se disfarçadamente sobre uma zona do vestido que não se queira realçar - em geral, logo abaixo da cintura ou de lado sobre a anca.
Quanto ao calçado, os pumps de salto vertiginoso estilo Louboutin (que tantas insistem em usar no dia a dia, sabe Deus porquê) foram criados para calçar nestes eventos. Ponto final. Peep toes e sandálias também são permitidos, uma vez que não se dança e não há risco de ter os dedos esborrachados.  Convém testá-los com alguma antecedência para não magoarem. Se mesmo assim fazem doer, pede-se a alguém que leve para os bastidores uma "bolsa de sapatos" com umas sabrinas para calçar aos bocadinhos, nos intervalos e em privado. Para a foto, convém mesmo que o calçado dê a melhor postura e eleve o mais possível o corpo. No entanto, parece que houve quem fizesse de propósito para levar saltos "assim assim" o que prejudicou alguns dos looks mais interessantes. O porte é tudo e noto que é sobretudo isso que falta a algumas figuras da nossa praça, quando comparadas com celebridades internacionais. Posar "sem pescoço", de ombros encolhidos e de barriga para a frente dá cabo da melhor produção.

 - Stick to the dress code: ser original e dar nas vistas pode custar caro. Senhoras e meninas, hoje em dia as oportunidades de usar um vestido de gala são tão poucas que não há desculpa para confundir vestidos de noite. Óscares, Globos de Ouro e eventos desse jaez pedem vestido comprido, formal (e de preferência, não "de baile") que quando muito pode ser "quebrado" com aberturas ou outros feitios. 3/4, mini saias, jumpsuits e vestidos de cocktail em geral são para outras ocasiões. E isso não se remedeia com longos véus, caudas traseiras, folhos nem saias de balão. 



Fifty shades of what? Uma breve análise.


Mal por mal, antes Bodice Rippers...pelo menos as capas kitsch têm a sua piada.

Parece que a  trilogia Fifty Shades of Grey, inicialmente uma fanfiction de Crepúsculo (o que nos permite adivinhar a tónica da coisa) tomou de assalto o mercado da literatura light com aspirações a obra séria e pseudo profunda e está a "revolucionar" a vida conjugal das jovens donas de casa desesperadas  nos E.U.A , e um bocadinho por todo o planeta. O sucesso viral do texto de E.L. James tem motivado os mais acesos debates e deixado as feministas de carteirinha à beira de um ataque de nervos. A crítica classifica a sua prosa como " pornografia para mamãs" básica e lamechas, embora reconheça a sua facilidade em "fazer virar rapidamente as páginas" . E para quem não conhece, o que é afinal Fifty Shades of Grey, que será brevemente adaptado às telas (deve ficar uma coisa gira, deve)
 
Nada mais que um cruzamento ligeiro, baratuxo, de fácil leitura e mais claustrofóbico - ou menos povoado - de contos como Histoire D´O (que aprecie-se ou não, é um clássico do género) com um romance de bolso da Harlequin. O tipo "ensaio sobre a obsessão" que nem chega à pornochanchada, para usar um termo do país irmão.
 Fique claro que eu não li Fifty Shades of Grey , tal como não li Crepúsculo, e muito provavelmente não me darei ao trabalho de pousar os olhos em tal. A minha análise do fenómeno é puramente na óptica de quem observa um circo à distância, mas já conhece o elenco.


Enredo : donzela inocente apaixona-se por homem complexo, sofisticado, poderoso, cheio de traumas emocionais  (típico) e assina um contrato cedendo-lhe controlo absoluto sobre a sua vida. Segue-se um festival de bondage e sado masoquismo cheio de artifícios banais e óbvios. Um modelo de gravata usado pela personagem esgotou em todas as lojas - prova que originalidade e criatividade estão em crise por esse mundo de Deus.

A julgar pela descrição do texto, recheado de detalhes gráficos e explícitos, Fifty Shades cairá no cesto da péssima literatura que pretende apelar aos sentidos. Não é preconceito meu, entenda-se: poucos são os bons resultados conseguidos dentro do género "livro proibido". Há os clássicos (Marquês de Sade, que é mais literatura de terror do que outra coisa qualquer, Lolita,  Anais Nin, Chin ping Mei, Fanny Hill, Lady Chatterley´s Lover, e meia dúzia de outros) e um punhado de obras obscuras com algum interesse -  mas na maior parte das vezes o resultado é tão cómico, ou tão maçador, que não chega sequer a chocar. O aspecto físico de um relacionamento é das coisas mais delicadas de escrever e quanto mais descritivo, pior. Atrever-me-ia mesmo a dizer que é mais fácil cair no ridículo ao retratar cenas de paixão por escrito do que no audiovisual. Exige-se muita elegância e subtileza, exige-se que o autor saiba de facto escrever - e convenha-se, raramente há autores geniais dispostos a mascarar o seu trabalho sob pinceladas de escândalo. 

 Assim, limito-me a meditar sobre o fenómeno. A única coisa que me causa confusão na hype gerada pelo livro é que tratem o tema como revolucionário; mas vindo de leitoras ávidas de "Crepúsculo"  e de amigas suas, provavelmente pouco lidas  - sem ofensa a ninguém - isso não deveria surpreender-me. Não há qualquer novidade na "transgressão" de Fifty Shades of Grey: é o facto de estar na moda que o torna polémico. Há quem lhe chame mesmo " um recuo de 50 anos nas conquistas da liberdade feminina" ou um "incentivo à violência e abuso doméstico".  A escritora e jornalista Katie Roiphe, da Newsweek,
 pergunta-se : " Mas por que é que o livre arbítrio há-de ser um fardo para as mulheres? Talvez o poder não seja sempre confortável, mesmo para quem cresceu habituada a ele; talvez seja algo que desejamos apenas em certos campos, ou que as exigências do poder se tornem aborrecidas". A escritora (e ex dominatrix) Melissa Febos defende que esta febre diz muito acerca das "actuais ansiedades das mulheres relativamente à igualdade" e que não significa "infelicidade ou invalidação do feminismo, mas um sinal de progresso - de que milhões de mulheres estão a procurar activamente as suas fantasias, independentemente dos homens".

 De certo modo, estou com Katie Roiphe. Em poucas décadas, séculos de educação feminina foram virados de cabeça para baixo. As mulheres passaram de uma repressão exagerada (na aparência, pelo menos) para uma liberdade obrigatória. A ideia original - liberdade de opções - foi retorcida até se criar outro padrão igualmente difícil de preencher. O "poder" sobre a sua vida, emoções, carreira e intimidade tornou-se o status quo, imbeliscável e sagrado. As heroinas tradicionalmente femininas ( tímidas, subtilmente sedutoras, púdicas, inacessíveis, delicadas) foram ridicularizadas e substituídas por marias rapazes ultra independentes e predadoras. Não há nada de mal nisso - de frágil e de guerreira todas temos um pouco - desde que não se caia em extremos, porque nem todas as mulheres são iguais.

As protagonistas independentes passaram a ser politicamente correctas, condição sine qua non: não há nenhuma princesa Disney que seja salva hoje em dia, que desmaie nos braços do príncipe. Príncipe e princesa são actualmente dois alegres compinchas, o trabalho de matar dragões é fifty-fifty, nenhuma princesa quer ficar a dormir - o que é muito bonito, mas por ser repetido uma e outra vez, se vai tornando cansativo. Ai da mulher que assuma em voz alta a defesa de um papel mais tradicional: é considerada uma bruxa do tempo da outra senhora, uma Joana D´Arc que se atreve a usar saias, boa para a fogueira.
Hoje há que ser (ou parecer) forte, giríssima, um génio,  uma dona de casa exemplar capaz de criar 500 pratos diferentes na Bimby e elaborar refeições gourmet todos os dias, convencer os homens lá de casa a dividir tarefas, ter uma carreira de sucesso a tempo inteiro, dois ou três filhos amorosos, um marido que não fique mal no retrato, tomar a iniciativa no princípio de um relacionamento, telefonar, marcar os encontros, mandar SMS fofinhas e provocantes, ser super desinibida, ultra sexy e conhecer habilidades de fazer corar uma cocotte para tirar da cartola em privado. Se abrirmos uma revista feminina, veremos que os artigos para "apimentar" a vida conjugal estão recheados de habilidades intrincadíssimas, do tipo  "enlouqueça-o com 100 truques de contorcionismo de artistas tailandesas" ou " 50 segredos do esternomastoideu que ele vai adorar conhecer". Estão tão obcecadas para agradar como antigamente, apenas fingem que não - o que representa um esforço titânico. E reparem, nunca se vêem artigos que considerem normal que uma mulher seja envergonhada, que core, que aja segundo as normas ancestrais, que tenha uma certa reserva, reserva essa que é, no fundo, parte do seu encanto e parte do jogo de sedução. Qualquer jovem dos nossos dias é programada para agir como a mais descontraída cortesã, nem que até ali tenha levado uma vida de freira. Claro que depois, in situ, muitas vezes não bate a bota com a perdigota, e temos mulheres exaustas e frustradas, a consultar terapeutas para descobrir científicamente a equação do problema. 

A questão é que hoje se racionaliza demais, em vez de seguir a natureza. Física e emocionalmente, as mulheres foram desenhadas para Caixas de Pandora, com inúmeros segredos - charadas que cabia aos homens, fortes e decididos, decifrar. Os beijos roubados (com a mulher a ter um conveniente chilique) as fugas e raptos apaixonados, o cavaleiro em armadura reluzente representavam escape, entrega, confiança absoluta, aventura, o acto de se abandonar nas mãos de outrém, de delegar num ser mais forte e mais poderoso a responsabilidade de um comportamento que não era habitual numa senhora. O bom e velho "foi ele que me desinquietou" que eles aceitavam cavalheirescamente, não sem uma pontinha de orgulho, resolvia todos os complexos de culpa.

  Agora, porém, os homens estão praticamente proibidos de agir como tal, e se aparentemente não sabem o que dizer de tanta sorte (elas declaram-se, elas tomam as rédeas do relacionamento, elas são amantes diplomadas em Harvard, é uma alegria) por outro lado estão emasculados, super sensíveis, bonitinhos, a pedir licença a um pé para mexer o outro. 
Hipérboles, metáforas, modismos e artifícios baratos à parte, a mensagem que estas mulheres querem passar é simples e inofensiva: estão cansadas de controlar tudo, de decidir por eles, de não terem onde se apoiar, de fingir entre quatro paredes  um arcaboiço emocional que não existe - e uma vez por outra, querem ser conduzidas, delegar responsabilidades; libertar-se, mas não sozinhas.

No fundo, é um grito do Ipiranga invertido, uma maneira de dizerem "mexe-te e faz o que te compete, preguiçoso".  Não prestem atenção não, que não é preciso.

Tuesday, May 22, 2012

Do Facebook e dos Homens a sério

Priscillinha, dear, onde comprou esse havia mais?
Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, casou em segredo e sem alarde  (coisa mai´linda!) com a sua namorada de longa data, Priscilla Chan. É caso para dizer, como na cantiga, You were there when the money gone, you´ll be there when the money comes. A menina ganhou um homem rico e mais importante, um rico homem - que isto milionários há muitos, mas homens de carácter são cada vez mais raros.

Apesar de muito jovem, Mark Zuckerberg soube dar um exemplo de personalidade e vontade firme. Mostrou que é de facto muito inteligente. Como eu digo sempre, dinheiro e poder são lupas que põem a nu quem realmente somos...
 Ele podia ter-se deslumbrado com o dinheiro, como qualquer papalvo novo rico, e aproveitar os milhões de pedidos de amizade de interesseiras (que sem dúvida deve receber) para se passear com namoradas troféu, vulgo ex-nerd que teve sorte na vida, levar uma existência de playboy, fazer figuras tristes por aí  e acabar "caçado" por alguma aventureira, playmate cavalona ou barmaid-aspirante-a-modelo chica esperta que urdisse um intrincado golpe do baú, da barriga ou da lágrima ao canto do olho.
No entanto, provou ser um homem à séria, com H, com tudo no lugar e sem dúvida, de sólida formação moral. Que não precisa de infantilidades , bajulações nem baixarias para provar a sua masculinidade e importância. Acima de tudo, Zuckerberg mostrou o destaque que a sua própria invenção deve ter na vida das pessoas - o Facebook é uma ferramenta útil, mas tem um pequeno lugar. Deve ser usado com parcimónia e cautela - nunca confundido com um meio, ou uma unidade de medida, para as verdadeiras amizades e amores. É virtual, artificial. Ilude.
A rede social apenas mudou um aspecto na vida de quem o inventou: trouxe-lhe fortuna. Não lhe alterou as ideias, nem as prioridades, não lhe tirou a serenidade. Mark Zuckerberg pôs a seu lado quem verdadeiramente o conhecia, quem lhe compreende as qualidades e os defeitos. Escolheu uma mulher discreta que o ama  por aquilo que ele é, não pela sua caricatura - e apesar de contar com milhares de "amigos" mantém o seu círculo privado e real, das pessoas que não hesitam em puxá-lo para a terra (condição essencial para não perder a cabeça).
Espero sinceramente que o simpático casal seja muito feliz, que bem o merece. E que muito boa gente que se descabela por situações "eu vou-te excluir do meu Facebook" como na canção pimba do outro, que arranja conflitos com o parceiro por adicionar ou manter quem não interessa (mais os Likes, e os comentários inconvenientes, e por aí fora) que classifica os amigos segundo a sua participação no mural ou sente necessidade de ventilar para lá a sua vida privada e cada passinho que dá, por imprudência e narcisismo bacoco, medite um bocadinho no ridículo disso tudo. Se Mark Zuckerberg se está marimbando para o monstro que criou, por algum motivo é.

Monday, May 21, 2012

Kevin? Maeglin? Príncipe das Trevas?





Ainda não fui ver We need to talk about Kevin mas estou curiosa. Li o livro de uma assentada e não sei ao certo se é bom ou formidavelmente mau - tenho alguma dificuldade em classificar livros "novos". Precisarei de o absorver melhor numa leitura mais atenta, quando tiver tempo. Num relance, o que me ficou foi a impressão de uma prosa diferente com laivos Nabokovianos, tema apelativo e no mínimo, de uma obra interessante, a que não se fica indiferente. Seria o adolescente Kevin um psicopata ou um simples criminoso anti social? A dúvida permanece, mas uma certeza ninguém me tira: parte da sua maldade seria controlada com umas palmadas bem assentes e limites mais claros. A moderna educação, em que muitos os pais se desdobram para obter o amor dos filhos (como se isso não viesse incluído no contrato) dá muito maus resultados. Pais bananas, filho que abusa - equação simples. Mas divago.
Para além da curiosidade pela adaptação cinematográfica e da sempre elegante Tilda Swinton, o meu motivo para ir ver o filme é o protagonista, Ezra Miller, que apesar de tão jovem me parece ter uma carreira promissora à sua frente.
 Ezra, de 20 anos, teve uma educação artística (a mãe é bailarina e o pai trabalha com a Disney) canta ópera, tem uma banda de rock e já foi preso por certos actos de rebeldia - o que condiz muitíssimo bem com o seu visual.


Este rapaz tem algo que eu não chamaria beleza, na verdadeira acepção do termo. Isso poderá vir com os anos, que este género desabrocha (ou destroi-se definitivamente) por volta dos trinta. É um apelo estranho, estrangeiro, de coisa selvagem, com um fundo exótico e perigoso. Não é o tipo de exemplar cuja atracção resida na virilidade ou na estatura, nem nos traços perfeitos e másculos, mas sim em algo de misterioso e astuto, manhoso e arriscado, lânguido, ligeiramente andrógino, suspeito, felino, sombrio e quase perverso. Este tipo de beleza masculina tão específica, se nos cingirmos aos traços per se, está presente noutras celebridades um pouco mais luminosas e ingénuas, como  Ben Barnes ou Freddie Mercury na sua juventude;  mas se olharmos para além disso, só encontramos a mesma promessa de trevas em rostos tão invulgares e olhares tão intensos - ou estranhos - como  os de Cillian Murphy ou Jonathan Rhys Meyers. Há ali uma frieza de fundo, uma limpidez cruel. Características  que quando adicionadas ao efeito dramático de cabelos e olhos negros contra uma pele de neve compõem um fascínio, um magnetismo que é bonito de ver no écrã, mas aconselhável evitar na vida real se a personalidade do rapaz acompanhar o resto. 
Maeglin
 No meu vocabulário, é o que chamo beleza Maeglinesca. Para quem não está familiarizado com o imaginário de Tolkien, Maeglin é uma personagem sombria do Silmarillion, a sua maior obra. 

Era filho de Aredhel, uma princesa élfica dos Noldor e de Eol, um Elfo Escuro que a raptou - ou seduziu, vá lá - contra a sua vontade e contra todas as regras. Uma ligação irresistível, maldita e proibida, daquelas que nunca trazem nada de bom. Nasceu na floresta sem nunca ver o ar e o sol,  e 
tanto ele como a mãe viviam prisioneiros, o que lhe valeu a alcunha de Lómion (filho do Crepúsculo). Mais tarde - por iniciativa de Maeglin - ambos fugiram para a terra dos seus antepassados maternos, a cidade escondida de Gondolin. Esse acto valer-lhe-ia a morte de ambos os pais, já que o possessivo Eol não tolerou a fuga e acabou por matar a mulher, sendo executado por esse crime - e amaldiçoado o filho desnaturado antes de morrer. Não contente com isso, apesar de ser tratado como um príncipe de pleno direito entre os Noldor, Maeglin desenvolveu uma paixão obsessiva pela sua prima, Idril ("Brilho faiscante") filha do Rei Turgon. Ela era em tudo o oposto dele - alegre, cintilante, extrovertida - mas um casamento entre parentes tão chegados era considerado anti natural e por isso, Idril não aceitava o amor de Maeglin. Com a insistência dele, acabou por ganhar-lhe uma indisfarçável aversão. Quanto a ele, nada fazia para combater as suas perversas inclinações, e vendo que com súplicas e rogos nada conseguia- e que Idril se apaixonara por um príncipe dos Homens, louro e valoroso- encheu-se de ódio e acabou por vender a cidade ao inimigo com a condição de ficar com Idril para si. O resultado foi a queda de Gondolin, um verdadeiro massacre, e a sua própria morte. Assim são os homens maeglinescos - há sempre algo de patife e de facínora no seu encanto, com o potencial de virar a vida da mulher amada de pernas para o ar, ou coisa pior. Não é à toa que Ezra vai interpretar o patifório Léon Dupuis na próxima adaptação de Madame Bovary . Enough said.

Sunday, May 20, 2012

Short story - as três palavras


                                                                                 












As mãos, suaves e tratadas, repousavam no regaço, sem ter onde agarrar. Os cabelos brilhantes, esparsos pelas costas em canudos de um louro luminoso, contrastavam habilmente com o impecável vestido azul marinho. Os olhos claros e maquilhados com requinte estavam secos. Toda ela era compostura, a condizer com o ambiente à sua volta - testemunho de uma elegância que conhecera melhores dias há não muito tempo. Resistência à prova de bala. Coração de leão e palavras refreadas, escolhidas. Há um encanto, particular e lânguido,  num certo esplendor decadente - seja no amor, na opulência ou no êxito - no registo daquilo que passou a correr, que poderia ter sido maravilhoso. Faltavam apenas detalhes, mas esses eram essenciais para a construção da estrutura, traves mestras. Por vezes, amaldiçoava a sua boa educação, que lhe criava reflexos pavlovnianos:  nunca dissera tudo (mas cairia em saco roto, em orelhas moucas, alguma vez teria valido a pena?) nunca esvaziara o coração das punhaladas infligidas. Sempre fizera o seu melhor, correspondera àquilo que era esperado, e havia tantas coisas que estava disposta a tolerar, em que seria flexível, em que faria sacrifícios de boa vontade, sem um queixume, apenas para ver aquele sorriso a iluminar-lhe o rosto. Nunca o conhecera de todo? Ela julgava que sim, até certo ponto, quando ele lhe parecia uma estrada solarenga com um mapa detalhado, as curvas sinuosas e os precipícios inevitáveis, mas devidamente sinalizados, as inclinações suaves, as paragens para descanso e cada recta, cada planalto, cada momento de calmaria. Enganara-se redondamente - ou fora descaradamente enganada. Ou então não se explicara bem. Porque havia tanta coisa que ele podia ter feito, tantos erros que ela perdoaria, tantas falhas que lhe seriam perfeitamente indiferentes, ele sabia bem disso. Mas de todas as coisas estúpidas, cruéis e destabilizadoras, ele tivera de fazer aquilo, logo aquilo que nunca poderia ser compatível, perdoado ou tolerado.

                                                                                         
Veronica Lake




Saberia? Não a conhecia como o seu reflexo ao espelho? Não tinha ele acesso a cada pensamento seu, a cada lampejar de tristeza ou júbilo nos seus olhos, a cada estremecimento dos seus músculos, a cada suspiro de resignação ou dúvida, a cada instante dos seus dias? Ele conhecia o seu coração, porque sempre lhe tinha sido dado conhecê-lo. Julgaria que ela era como as outras mulheres, que dizem uma coisa mas não se importam, a bem do conforto e das conveniências, de fazer outra? Que mudam de ideias como de vestido, a quem cada lágrima cristaliza em pérola ou diamante, cada dor de alma se afoga em champagne, cada tristeza profunda desaparece numa viagem, como no romance de José Rodrigues Miguéis -  como se aquilo que vai cá por dentro não viajasse connosco? Mulheres a quem basta a admiração alheia, exterior, para se sentirem felizes e em paz, mesmo que o mais importante esteja irremediavelmente poluído? 
 
                                         
Não podia ser - fingia atribuir-lhe essas características, mas lá no fundo saberia. Ela não jogava jogos - esses têm a sua utilidade no início. Não podem durar. Convinha-lhe crer nisso, por um capricho malvado e infantil de quem dorme para o outro lado, colocando a almofada a sufocar todas as angústias. A ela, restava-lhe respirar fundo e cobrir os ouvidos para ignorar o estilhaçar de cristais, vidros e espelhos, para - tal como ele...teatro estúpido - permanecer intacta. Um, dois, três, respira, como se fosse a primeira vez, caminha em frente, não olhes para os lados, não penses mais nisso que o que não tem remédio, remediado está, não desvies os teus pensamentos para o sorriso ou aquela madeixa sobre a cara que lhe fica tão bem, nem para quando ele parecia tão orgulhoso e poderoso e seguro de si, como se não fosses mais que uma boneca leve nos seus braços, não, anda mais depressa, endireita as costas como te ensinaram, finge que tens um livro equilibrado sobre a cabeça perfeitamente perpendicular aos ombros, olha os sapatos, cuidado com o tapete, ancas para a frente, não tremas, faz como se os teus piores inimigos estivessem aqui para te ver e criticar, não cedas nem perante o espelho, cantarola para não te lembrares de quando ele te dizia todas essas malfadadas, lindas, venenosas e sedutoras palavras, o que é dito nesses momentos nunca conta, o que ele está a sentir não existe, o que estás a sentir também é voluptuosidade e vertigem, respira, respira, finge que estás num lugar seguro. Para tudo acabar, para que tudo voltasse ao que era, como por encanto, bastariam três palavras: acabou. Nunca mais

Mas ele mais facilmente pediria perdão do que cederia numa vontade, por mais mesquinha que fosse - e ao contrário dele, ela nunca seria capaz de ignorar aquilo que conhecia bem, de fingir que alguma vez seria diferente. Podia ser uma coisa pequena, sem importância,  mas era de pedra e imutável (porque ele assim decidira, porque ele assim queria, porque lhe apetecia dessa maneira e todos tinham de obedecer ao imposto). Sem isso, tudo o que lhe restava era arrumar as malas novamente e partir. Entregou as chaves e assinou a nota de saída com um floreado de alívio. Mal ou bem, sentia-se livre - e isso também era uma forma de perfeita conclusão.

Livro novo, bonecos e museus

"O Segredo do Museu" com textos da minha pessoa e ilustrações de André Silva
Na passada Sexta-feira um projecto em que me empenhei com muito carinho viu a luz do dia: o meu novo conto, O Segredo do Museu, foi publicado no Dia Internacional dos Museus (que curiosamente calha a um dia 18, um dos meus números preferidos). Este foi um trabalho de equipa, numa iniciativa com o Museu de Arte Popular Portuguesa de Pombal - que tem sido a minha segunda casa de há alguns meses para cá - e com uma primorosa edição do Município de Pombal. Uma história em que o folclore, o maravilhoso popular e o colorido do artesanato português ganham vida - e de que maneira - perante quatro crianças que se portam mal durante uma visita à colecção do Celeiro do Marquês. Foi neste local emblemático que o livro foi apresentado na presença de muitas crianças, avós e professores. Podem ver as primeiras fotos do evento aqui


Cartaz da exposição alusiva ao livro, patente no Museu até Setembro

Days of our lives

Nicola Roberts
Há dias, um bom amigo recordava com saudades os tempos de estudante. Eu nunca tive muito empenho nisso: valeu o que valeuA bem dizer, nunca fui uma estudante despreocupada e tonta, sempre tive o detestável passatempo de pensar demais e de descartar o acessório. Apesar de prezar a estabilidade e a segurança nos aspectos importantes (família, afectos, carreira) em tudo o resto sou uma pessoa de viver o presente  - e na minha vida sucedem-se sempre tantas coisas em simultâneo, algumas delas tão extraordinárias, que acabo por apreciar cada divertimento com certa desconfiança blasé, vulgo " estou mesmo a ver que no que isto vai dar" "trazes alguma na manga" ou " isto ainda não é bem aquilo que eu quero, não está perfeito" numa insatisfação artística, como se houvesse sempre algo de melhor e mais fantástico ao virar da esquina (e na maioria das vezes, há mesmo) a exigir a minha atenção.

 Valorizo cada instante feliz, mas não me agarro a ele, o que pode parecer contraditório. Por outro lado, fujo da nostalgia como da peste porque é das poucas coisas que tem o condão de me fazer chorar. Não acho piada a retrospectivas, a efemérides das quais eu faça parte directamente, de olhar para trás, ainda que não lamente o que passou nem tenha sucedido nada de triste. O que lá vai, lá vai, venha mais. Sinto-me impotente e parte-se-me o coração só de contemplar o passar do tempo, mesmo que seja um passado recente. Para terem uma ideia, a canção "These are the Days of our lives" dos Queen, é coisa proibida perto de mim. Nunca fui capaz de a cantar em público, apesar de a considerar uma dos temas mais belos que já se escreveram. Recuso sempre porque é choradeira na certa. Pode ter-me acabado de sair a Sorte Grande, mas se ouvir tal coisa tremem-me os lábios, começo a morder as bochechas a ver se me controlo e dali a nada soluço como uma criancinha, sem que nada me possa consolar. Go figure. Em suma, o meu amigo estava melancólico com isso e eu não aguento a melancolia, que dali à nostalgia vai um passo e isso é contagioso, credo. E como não suporto ver ninguém triste, fiz ali uma promessa: que nos havemos de divertir tanto a partir de agora, ou mais - de preferência - do que há um par de aninhos atrás. Nada nos impede. Temos  o mesmo espírito, pouco do essencial mudou- mas com outra patine, outro savoir faire, mais sprezzatura e diferentes possibilidades para aplicar o nosso joi de vivre. Beleza, risos, alegria, música? É agora, nem mais cedo, nem mais tarde. Os bons momentos dão algum trabalho, precisam de ser alimentados para que se possam multiplicar - não voltam, mas podem ser melhorados e reinventados. Águas passadas não movem moinho e como dizia Tolkien, " Nenhum barco, nenhum remador; o que deixo para trás não dou como perda" . O que pertence ao nosso destino rema até nós, ao sabor da corrente. O resto apenas faz, ou fez, parte do cenário.

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