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Saturday, August 18, 2012

Maldade suprema do dia: grande galdéria

Mais ou menos assim...mas para pior. É que eu não quero
 imagens ordinárias nem vulgaridades por aqui.
Onde vivo, há uma gata vadia (sem trocadilhos, vive mesmo na rua) que é a maior ordinária que já se viu. Tudo lhe serve: gatos novos, velhos, bonitos ou feios, de raça ou rafeiros, bem na vida ou sem eira nem beira. É um desassossego, porque ao contrário das outras, tem o descaramento de aparecer por aqui a desencaminhar os bichanos alheios, que estão quietos em casa. Depois não tem meios para cuidar dos gatinhos que vão nascendo: semeia tudo de crias carenciadas e silveiras que ninguém consegue civilizar. Até a caminhar se bamboleia, a desavergonhada. Sem lhe saber o nome, apelidei-a de "gata galdéria". Olhem, a Gata Galdéria esteve aqui ontem. A Gata Galdéria andou no jardim a "fazer-se" ao Segovax. A Gata Galdéria virou-se ao contrário, para chamar a atenção do Chiquinho (que coitadinho, ainda não dá atenção a coisas dessas).  A Gata Galdéria anda de volta do Farinelli. A Gata Galdéria estava a fazer festas ao Mata-Gatos. Percebem a ideia...a alcunha foi ficando. Mas como já vou conhecendo o animalzinho, estou a pensar pôr-lhe nome de gente. Não deve ser difícil arranjar madrinha, a julgar pelos exemplos que vejo para aí.

Pigalle e Blade, yay or nay?

Pigalle, Louboutin


Anda toda a gente encantada com os Pigalle, de C. Louboutin, e stilettos semelhantes. A versão da Zara deste sapato clássico promete ser um enorme sucesso. Pessoalmente, em matéria de saltos muito altos prefiro os pumps compensados e arredondados, e espero sinceramente que tenham vindo para ficar: dão outro apoio, têm mais graça, prestam-se a designs invulgares...
Blade, Casadei
 Mas acho muito refrescante que se voltem a ver as biqueiras aguçadas e os sapatos delicados, para variar. Se não conferem tanto suporte como os modelos com plataforma - e provocam mais facilmente dores na base dos dedos -  têm a vantagem de alongar visualmente a perna, e ficam fantásticos com saia lápis.  É bom que se possa optar por um ao outro, consoante a toilette, a ocasião e a anatomia e/ou sensibilidade de cada mulher. O modelo Blade, da griffe italiana Casadei, que faz as delícias das celebridades,  tem mesmo uma pequena plataforma incorporada para tornar o stiletto tão cómodo (salvo seja) como um sapato compensado. Ter atenção a esses pormenores, bem como à inclinação - que não deve arquear demasiado o pé, nem forçar o tornozelo - e à  maleabilidade do sapato são condições imprescindíveis para os usar sem sofrer desnecessariamente. Há dias lembrei-me que tenho uns sapatos idênticos aos Casadei que trouxe do estrangeiro e que ficaram guardados (como todos os sapatos bicudos). Na altura só encontrava por cá saltos sem graça e encarreguei-me de comprar alguns diferentes, que sem dúvida vão dar jeito para usar agora - uma vez por outra. Curiosamente, também são equipados com umas almofadinhas invisíveis  na parte frontal, para absorver o impacto. Ajuda imenso, e um sapato que mete medo torna-se assim muito mais agradável de calçar...





As coisas que eu ouço: à tua espera, eu?

Ele acha que eu devo estar na prateleira...
Tenho uma amiga muito gira e desempoeirada, daquelas que dizem tudo o que lhes passa pela cabeça. Uma espécie de Samantha Jones em versão mais jovem e bem comportada, que teve a sorte - ou o azar - de encontrar o seu Richard. Ou seja, arranjou um namorado à sua altura, que parece o par ideal para ela. Bonito, bem sucedido, boa companhia, espirituoso e inteligente. Gostam das mesmas coisas, tiveram uma educação semelhante, desafiam-se intelectualmente, quando estão juntos irradiam vivacidade, a química entre eles é qualquer coisa e fazem um belo casal. Tudo seria perfeito se não fossem tão parecidos - o que os leva a andar às turras muitas vezes - e se o "Richard" não estivesse a passar a fase olhem para mim que eu sou tão bom. O rapaz, como tantos outros, levou uma existência de menino tímido e mimado até há pouco tempo e agora, que conquistou independência e autoconfiança, descobriu que tem jeito para as mulheres, que elas  - atraídas pelo seu sportscar reluzente e belas fatiotas - não o largam e que apesar de estar a beirar os early thirties ainda pode levar uma vida de playboy teenager.
E eu acho que isso não se faz...por acaso tenho cara de mulher da luta?
Até aí tudo bem, se ele não se tivesse apaixonado pela minha amiga, com quem anda num permanente on e off. Zangam-se, recomeçam, ela grita-lhe " desampara-me a loja de uma vez!" mas depois fraqueja de novo, a estória não ata nem desata. Ela não lhe quer tolerar os desmandos; ele não prescinde das maluquices, mas também não quer prescindir dela: queixa-se que encontrou a mulher da sua vida "cedo demais", quando ainda queria gozar uma vida sem responsabilidades. Mas não se decide nem por uma coisa, nem por outra: nega até à morte os seus pecadilhos, não os admite, mas continua a fazer asneiras na mesma.  Ou seja, anda a ver se a mantém na prateleira, espera que ela ande atrás dele (não vai acontecer) que guarde respeito (essa do "respeito" dava um livro) a uma relação que tecnicamente, não existe. E a minha amiga (que o adora e é paciente, mas não tem nada de mulher da luta) não está para fazer um papelão desses: age como solteira e boa rapariga, que é, e segue com a sua vida, o que o chateia imenso. Há uns dias, desabafou ela, ao contar a última cena de ciúmes do menino, que a acusou injustamente de doidivanas: então ele pode viver a sua vida e eu não? Mas julga que é o único homem à face da terra ou quê? A fila anda, meu querido. Anda lá, que fico mesmo aqui à tua espera!  So many men, so little time, diz ela, que não tem papas na língua...

Frase do dia: a ousadia masculina

                      (Antigamente, era assim...)                             
"Ao observar-se o que os homens fazem só porque os outros estão a ver, é de perguntar o que fariam se ninguém os visse: os piropos atirados a uma rapariga que passa (...) nunca seriam lançados se ele não tivesse dois ou três companheiros de auditório. Sozinhos, mostram-se muito menos atrevidos".

                                                                   Pierre Daninos

Friday, August 17, 2012

Coco Chanel: quase, quase a fazer aninhos...

File:Chanel.JPG

Controversa, criativa, genial: de nascimento humilde, Coco Chanel teve as primeiras figuras da sociedade e as celebridades da época a seus pés. Os homens adoravam-na, as mulheres copiavam-na. Foi a grande precursora  de bens de primeira necessidade como o pequeno vestido preto. Furiosamente independente, a sua passagem pelo orfanato marcou-a de tal maneira que no propósito de exorcizar o trauma, decidiu criar uma versão com estilo do seu uniforme de interna. Realizou assim o seu sonho de popularizar as roupas práticas, possibilitando às mulheres menos afortunadas vestirem-se de forma elegante com materiais acessíveis. As pérolas falsas, as camélias de tecido e  os casaquinhos que a tornaram famosa surgiram pelas mesmas razões. Já o penteado à garçonne também ficou na moda por obra sua: Gabrielle, como ainda era conhecida na altura, queimou o cabelo ao tentar frisá-lo para um evento. Sem outro remédio, cortou as madeixas esturricadas e acompanhou o novo visual com uma blusa às riscas e calças largas de marinheiro. Dias depois, as senhoras de sociedade reproduziam o look “escandaloso”. Todas nós, mulheres, lhe devemos muitas das roupas práticas, elegantes e de corte acessível tão comuns hoje em dia. E Chanel continua a ser sinónimo de discreto requinte. Merci, Mademoiselle Coco.




Makeup: uma questão de disciplina

Ontem foi a vez de dar uma reviravolta definitiva nas caixas de jóias e no toucador. Colares, pulseiras e afins passaram pela triagem e estão devidamente distribuídos por gavetinhas individuais. Já vos tinha contado que não sou grande fã de berloques e que prefiro adornos nobres, naturais e que tenham algum significado. Feito. 
O toucador foi outra estória. Há bastante tempo que a minha vanity table me acompanha: costumava fazer lá toda a minha rotina de cabelo e maquilhagem e quando mudei de casa instalei-a junto à janela, para ter luz natural, protegida por um biombo de madeira lavrada. Mas gostei tanto da minha casa de banho, e andei em tantas correrias, que passei a atafulhá-la com boa parte dos produtos de beleza e styling. Resultado: toucador cheio de coisas que uso menos, móveis da casinha atravancados de produtos e o péssimo hábito de me maquilhar e pentear de pé. Parecendo que não, isto provoca uma série de desconfortos: pouca paciência para o styling, menos divertimento no processo, cansaço...
 Após algumas hesitações, decidi-me: volto a tratar de tudo isso no devido lugar e acabou-se. Foi preciso ter paciência para me libertar de muitas palettes, para que coubesse o que de facto uso, mais secadores, rolos e artigos semelhantes. Mas fiquei satisfeita. Tudo é uma questão de hábito e disciplina. Tenho concluído que apesar de adorar a arte da maquilhagem, não sou boa cliente para novidades: as novas lojas com milhares de tons e nuances, texturas e caixinhas, são muito giras mas provocam-me certa confusão. Não resisto a bons primers, bases, pincéis, pós e máscaras (que precisam de ser renovados regularmente). Mas quanto a sombras, texturas novas, brilhinhos e por aí fora, não contem tanto comigo: bastam-me duas paletas de boa qualidade, uma com tons naturais (beges, pretos, castanhos) e outra com cores vivas para as ocasiões especiais, em que gosto de criar efeitos mais dramáticos. Mais cat eye menos cat eye, mais smokey eye menos smokey eye, olho preto ou bâton encarnado/nude e pouco mais...a prática é óptima conselheira, e pessoalmente prefiro adoptar os modelos clássicos e partir daí. O que não requer dezenas e dezenas de caixas, nem actualizações constantes....









Da gente parva

Olá! Estou cercada!
Em geral, sou uma pessoa que se dá bem com toda a gente. Selecciono os meus amigos, gosto do meu sossego, sou reservada,  mas procuro ser gentil e educada para todos; dizem que tenho um ar muito sério, mas se me falarem é quase certo que esboço logo um sorriso. Fui educada assim e a não ser que tenha motivos, não gosto que ninguém se sinta mal por minha causa. Tenho um certo mau feitio, mas é preciso muito, muito mesmo, para que ele se manifeste. Ouço muitas vezes "nem sei como tiveste sangue frio!". Enfim, por hábito, consigo gerir as amizades ou conhecimentos com certa diplomacia. Gosto de ver toda a gente bem e acredito que para este mundo ser fantástico, não seriam precisas doses massivas de altruísmo e nobreza: bastava que cada um se metesse na sua vidinha e procurasse não chatear os outros. 
 Porém, há fases (estive a contar: esta deve ser a quarta na minha vida) em que pessoas parvas, a fazer coisas estúpidas, a atacar-nos deliberadamente, decidem sair da toca e fazer das suas. Aquelas alturas da vida em que uma pessoa pensa "mas quem é que abriu os portões do Zoo?" ou "de  que manicómio é que este grupo saiu"? Em que concluímos "caramba, não sabia que o planeta andava tão mau". Parece que meio mundo dispara, a controlar/espiar a outra metade, a rugir para os outros sem motivo, ou a inventar tramoias para destruir quem lhe aparece pelo caminho. Sem que alguma vez lhes dessem motivos ou abertura para abusos desses. A vantagem é que, aparecendo todos de uma vez, livramo-nos deles mais depressa. Mas que é tentador perder a serenidade, entrar em modo super malcriado, e perguntar: mas que é esta piiiiiiiiiii? Isto é da menopausa, da andropausa, da Lua, é  o Carnaval, são os caretos, ou a crise que está a pôr esta gente maluca, #&&&&####### piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii????...lá isso é.

Thursday, August 16, 2012

Nem Vénus escapa ao Photoshop

Cherubs still need work: Jean-Auguste-Dominique Ingres's Venus Anadyomene, 1848, is one of the painter's most celebrated works at the Musée Condé, Chantilly, France
A Vénus de Jean-Auguste-Dominique Ingres, antes e depois
A artista plástica italiana Anna Utopia Giordano criou o "Projecto Vénus" e submeteu algumas das maiores obras de arte representando esta Deusa ao Photoshop. Embora os critérios de beleza tenham variado ao longo dos séculos, sempre achei que algumas versões, como a de Boticcelli ou a de Velazquez, têm uma beleza intemporal. Quando muito, precisariam apenas de uns retoques ligeiríssimos para deslumbrar, sem questões, os mais exigentes pelos séculos dos séculos. Simonetta Vespucci, por exemplo, a musa de Botticelli, era uma beldade para ninguém apontar defeitos. Anna Utopia reduziu o tamanho dos membros, "levantou" alguns traseiros, aumentou bustos, definiu cinturas e reduziu barriguinhas. Um makeover à própria Deusa da Beleza...
    Se em alguns casos, a brincadeira resultou - a divindade ganhou um ar mais saudável e uma beleza consensual - outras imagens, uma vez reduzidas ao size zero, ficaram totalmente desproporcionais. O que me deixa na dúvida: ou a autora não tem noções de anatomia (estranho, dada a sua profissão) ou pretendeu satirizar os exageros dos programas de edição de imagem. Felizmente, no tempo de Rafael, Sandro Botticelli e Ticiano não existiam tais engenhocas, e podemos apreciar os originais em toda a sua glória...

                     Centre of attention: The Birth Of Venus (1879), by William-Adolphe Bouguereau, at the Musée d'Orsay, Paris - and the modern 'size zero' version
                              A Vénus de William-Adolphe Bouguereau ficou muito bem....


Keeping afloat: The Birth Of Venus (1863), by Alexandre Cabanel - hanging in the Musée d'Orsay, Paris - is slimmed down dramatically in the 21st century
                         A de Alexandre Cabanel não precisava de tanto...

Wieight watchers: This 'before and after' shot shows a fuller-figure in The Power Of Venus, by Richard Westall, private collection. In Giordano's version, Venus looks like she relaxing after a gym session
                          A Vénus poderosa de Richard Westall está bem bonita.

Reclining and shrinking: Venus Of Urbino (1538), by Titian, in the Uffizi Gallery, Florence. Once again, Giordano has concentrated on the modelling industry 'problem areas' of stomach, thighs and breasts
  À de Ticiano, bastava tirar a barriga...o peito ainda vá. Mas que se passou na parte inferior?

Flattering mirror: Cupid might be wondering why he didn't get the Photoshop nip and tuck in Giordano's updated version Venus And Cupid, by Diego Velazquez (1648), at the National Gallery, London

                            Alguém me explica qual era o defeito da Vénus de Velaszquez?

Glamorous Venus: Giordano's version of The Sleeping Venus (1625-30), by Artemisia Gentileschi, looks more like a 1940s calender girl. The original hangs at the Barbara Piasecka Johnson Foundation, New Jersey
             A Vénus de Artemisia Gentileschi exagerou na dieta....se a pintora sonhasse ia aos arames!

                          No wrinkles: Even the folds of the sheet have been smoothed in Giordano's version of Venus Playing With Two Doves (1830), by Francesco Hayez, at the Cassa di Risparmio di Trento e Rovereto
                                Já a de Francesco Hayez é uma rapariga equilibrada.

            
                                        E a Simonetta é linda de qualquer maneira...


Post "mauzinho" sobre a blogosfera

Teve de ser. Tal como muita gente boa por essa blogosfera fora,  a minha posição não é umbiguista. Gosto de seguir outros blogs, de encontrar blogs com que me identifique, de comentar os blogs de que gosto, de ser seguida e receber comentários de pessoas de gente simpática e/ou que admiro.
De seguir blogs, alguns recém chegados, que tenham ideias que me agradem, onde se escreva bem, com boas imagens, com histórias giras, irreverentes, que me façam rir. Espaços que não escolho pela sua popularidade (embora a curiosidade já me tenha levado a espreitar, e eventualmente acompanhar alguns dos bloggers mais falados) mas pelo espírito dos seus autores. De estilos e temas muito diversos, uns mais leves, mais superficiais, mas giros, outros poéticos ou de conteúdo informativo, uns de moda, outros de crónicas, alguns de beleza, outros sobre história ou arte, a minha lista tem de tudo, como podem ver aí do lado esquerdo. É uma pena que a dita lista nem sempre funcione bem e eu fique, por vezes, sem receber novas dos meus preferidos.
Por isso, mas não só por isso, havia dois ou três blogs que andavam aí, geme aqui geme acolá, com constantes actualizações, a ocupar espaço e a complicar-me - cada vez mais - com os nervos. Comecei a segui-los quando decidi dar mais atenção ao Imperatriz e procurar coisas giras para ler. Algo, gostava de saber o quê, me chamou a atenção e lá cliquei "follow" sem dar grande atenção ao que fazia. Com isto foram ficando...ficando...sem que nunca tivéssemos qualquer interacção, nem boa nem má. Verdade seja dita, são pessoas que nunca vi responder a comentários nem comentar blogs de ninguém. Talvez frequentássemos blogs diferentes e a razão seja essa, mas tenho cá as minhas dúvidas. Foram ficando e eu, com uma curiosidade mórbida, lá ia perdendo uns neurónios de cada vez que os abria, talvez na vaga esperança de que me tivesse enganado, de que, uma vez por outra, aquelas cabeças publicassem algo menos tolo. Já aqui falei no que aprecio e não aprecio nos blogs de moda e estes eram, bem...blogs de trapos, como costumo dizer. Look do dia cada dia que Deus deita ao mundo, com retratos tontos sempre nas mesmas poses, roupas que se encontram por aí aos trambolhões e - estilo ou gostos à parte - savoir faire nulo. Erros de ortografia constantes, construções frásicas que não lembram ao mais pintado, visuais duvidosos  e fotos do estilo "olha aqui o meu look com gente super mal enjorcada atrás de mim a compor o cenário". É certo que nem todos temos os mesmos critérios nem preferências e que no seu blog cada um faz o que bem entende, mas se querem copiar as Chiaras deste mundo, há que esforçar-se um bocadinho. Claro que quem por aqui passa tem todo o direito de me achar do pior que há, na blogosfera estamos sujeitos a críticas (umas razoáveis, outras nem por isso...) gostos são gostos, cada um faz o que pode com os recursos de que dispõe e quem não aprecia...tem bom remédio. Foi o que fiz quando num deles, ao visitá-lo uma derradeira vez, me deparo com um texto pejado de erros de palmatória a elogiar um best seller de destruir cérebros. Das duas três: ou gozava impiedosamente com a situação (o que não faz de todo o meu género) dizendo "ok, está explicado" ou lhe apontava os erros construtivamente (trabalho que não me compete e que não me parece que fosse bem recebido) ou fazia o que espero que façam comigo se eu der bons motivos para não gostarem do que publico, ou seja, excluir todos os que não me interessavam.  Limpeza completa. Assim ninguém fica triste, nem sofre de vergonha alheia, nem eu recomendo inadvertidamente espaços que nada me dizem. Desculpem o desabafo, mas para quem estranhou a presença de blogs semelhantes por aqui, fica explicado...

Aquelas que por caixotes volumosos...


  


...se vão da Lei da Tralha libertando!


80 mil querem ir à Casa dos Segredos

Nesta terra até pode faltar o pão, mas o circo....                    
Retirado daqui. Ou seja, todos juntos não cabem num estádio de futebol. São 80 mil alminhas a competir para fazer figuras destas. O que é que isto diz do estado do nosso país? Carência cultural, moral, de berço, económica, desespero a todos os níveis, necessidade de fama e dinheiro fácil, pouca vergonha, chico espertismo...you tell me.


Tio Karl e Farinelli atacam de novo


Sou o Karl Lagerfeld e digo o que me apetece, canta ele.
O tio Karl voltou a fazer das suas, ao chamar feia a Pippa Middleton
   A pequena é-me totalmente indiferente mas no meu livro isto é uma grande indelicadeza, e tais comentários são indignos do genial talento de Herr Lagerfeld.
Quando se é um ícone, deve agir-se de acordo e a excentricidade não é desculpa para tudo...
Por muito desconto que se dê às suas palavras, não deve ser nada agradável ver-se criticada perante o planeta pelo director criativo da Chanel. Foi uma coisa feia de se fazer e vá lá, mesmo que a visada não seja um prodígio de beleza ou um exemplo de refinamento, é certamente graciosa e arranjadinha. Imagine-se usar a griffe em público depois de uma ofensa dessas...
Preferia quando ele se dedicava ao seu ofício discretamente, sem dizer tantos disparates. Até porque os designers superstar, com mais protagonismo do que as marcas que representam - e a ofender publicamente potenciais clientes, como John Galliano - estão cada vez mais démodé. Gosto muito dele - do seu trabalho, da sua figura e excluindo estas tonterias, da sua forma de estar - e espero que se refreie um bocadinho, não vá ser afastado antes do tempo por passar dos limites. De mais a mais, recuso-me a acreditar que quem gosta de gatos seja má pessoa. E Lagerfeld é fofo nisso também: veja-se a coisa amorosa que é a sua gatinha, Choupette, a posar ao lado de Laetitia Casta:

Por falar em bichanos brancos, peludos e de ar angelical, quem voltou a casa - embora ainda não para casa - foi o meu persa. Remember Farinelli? Ele mesmo, o eterno rebelde...e cada vez mais lindo! Já me deixa fazer festinhas e pegar ao colo, vem procurar-nos com ronrons e mimos, pode ser que desta vez tenhamos sorte e ele abandone a comuna de gatos onde se instalou para regressar aos confortos do lar. Não terá duas aias e um jardim só para ele como a Choupette que eu não aturo esses caprichos, mas também não se está nada mal...

Wednesday, August 15, 2012

As discussões fashionistas lá de casa

Tenho uma família que é uma inspiração. Lembro-me de ser pequena e ficar toda contente quando os meus pais voltavam das compras, para ver que fatiotas tinham trazido. Há peças desse tempo que ainda por cá andam e pelas quais tenho um carinho muito especial, como um casaco de pele de carneira que continuo a vestir...
Outras que ainda recordo bem desapareceram - algumas por mea culpa - como um cinto castanho e dourado estilo "corda" que era da mamã nos anos 70, uma asneira bem escusada que nunca perdoarei a mim mesma, já que nunca mais encontrei nenhum que fosse tão giro e tão versátil. Usava-o com tudo e mais alguma coisa, mas caiu-me num passeio e nunca mais o vi. Uns sapatos estilo Mary Jane tipicamente anos 50 e de salto alto, lindos, lindos, que a avó usou no dia do casório, esses estão para as curvas - apesar de as duas mulheres cá de casa já terem dado algumas voltas neles. A qualidade desse tempo era outra louça...
O casamento da avó (1957). Adoro o tailleur e esta foto é uma das minhas preferidas
Já o traje de casamento da outra avó (à esq.) uma das coisas mais elegantes em que já pus os olhos  - um tailleur creme com um pequeno fascinator, que ficava a matar na beldade que era a noiva - esse não chegou até mim, infelizmente. Mas o estilo dela e das minhas tias foi uma das minhas maiores inspirações.
O meu trisavô, esse era um verdadeiro janota da Belle Époque, e apesar de dândi e bon vivant, tinha entre os seus investimentos uma casa de alfaiataria (onde se ia abastecer, comme il faut). Uma bisavó do outro lado fez a sua formação numa modiste francesa, porque o pai queria evitar que ela metesse ideias "modernas" na cabeça e se limitasse a fazer um óptimo casamento, como era sua obrigação. Deu mau resultado e tudo acabou numa verdadeira tragédia romântica, mas em compensação as filhas vestiam sempre lindamente...e a paixão pela moda cá ficou. Acho que é por causa destes avós que sou tão picuinhas no que concerne a tecidos, moldes, cortes e acabamentos, apesar de nunca ter aprendido a costurar.

 De modo que na minha família cada um tem um estilo próprio. Os meus pais conheceram-se nos anos 70, quando estavam na moda as motos, os cabelos longos e o que por cá se chamava freak, um estilo rebelde a meio caminho entre o hippie e o punk. Divertiram-se à grande com as camisas justíssimas, as túnicas, os casacos de cabedal, as botas de couro envelhecido e brilhante (que vamos ver muito nesta temporada) e as calças skinny (que sucederam as bocas de sino e as pantalonas) alternadas, no caso das meninas, com jerseys de malha, vestidos muito femininos e saias por baixo do joelho. A carreira militar obrigou o papá a usar com grande garbo as fardas - casou de uniforme de gala - e hoje alterna algumas modernices preppy com um certo british style, que é o que gosto mais de lhe ver. Já a senhora minha mãe adorou os tempos da sua adolescência, as RGA e o idealismo romântico daquela época, pelo que conserva sempre algo de boho e hippie chic nas roupas que escolhe, embora eu a chateie  para manter o tipo de tailleurs por medida que eu adorava ver-lhe na minha infância.
Hair: os meus pais adoraram este filme e eu continuo a pasmar para alguns dos figurinos...                                                     
No entanto, é de uma correcção absoluta quanto ao que uma senhora deve usar a partir de certa idade, e nisso consegue um equilíbrio fabuloso entre o que não é aborrecido, nem excessivamente jovial. Por sua vez, ela arrelia-me dizendo que sou demasiado clássica, preferindo quando eu incorporo elementos góticos ou românticos no visual. Eu chamo-lhe permissiva com certas coisas - como a ganga com lavagem que ela gosta de ver em outras mulheres e que a mim me dá arrepios - ela não gosta quando pareço too uptight na opinião dela, puxando pelo meu lado artístico. Acabamos a acusar-nos mutuamente de ir vestidas de saco de batatas, mas são discussões construtivas que acabam por desafiar-nos a esculpir o nosso estilo pessoal, dentro dos gostos de cada uma. E têm acontecido bastante ultimamente, nas operações de logística que aqui tenho partilhado. Exemplo:

Sissi: mãe, outra vez com esses balandraus? (tradução: túnicas)
Mãe: fala quem anda com camisões e laçarotes peneirentos.

O resultado acaba por ser giro, porque nos esforçamos por harmonizar um aspecto polido com algo de arrojado e inspirador. Mas no quesito correcção e "estar impecável" não há ninguém como o meu irmão. Acho que nunca se deu ao trabalho de abrir uma revista de moda na vida, mas tem um gosto e uma percepção do que é próprio aguçadíssimos. Posso consultar o meu pai para perguntar se estou gira (e para ver se ganho botas rasas ou flats, que são das coisas que ele gosta de me oferecer) a mãe para tirar ideias, referências ou para saber se o vestido me favorece - porque se não favorecer um bocadinho que seja ela di-lo sem dó nem piedade, é do melhorzinho - mas para tirar réstias de dúvida entre o que é adequado, nada como Sua Alteza o mano. É a coisa mais depurada e exigente que já conheci. Distingue, num relance - e sem se interessar népia por roupa - se a toilette é realmente elegante ou roça ao de leve a pinderiquice. Se o mano diz que está bem, é porque está bem, e não há inspecção que me meta medo. Teria uma grande carreira como personal shopper, se não se recusasse terminantemente a pôr os pés nas lojas. É a genética, lá dizia o outro...





Brilhante conclusão do dia





Gelado caseiro é uma invenção do Demo. Qual sundae, qual Carte D´Or, qual carapuça.

La Paiva: uma it girl do piorio


Vou ser sincera convosco: hesitei bastante em escrever este post e em classificar Esther Lachmann - que passaria à história como Marquesa de Paiva, ou "A Grande Horizontal" (alcunha simpática!) - como it girl


Porque não me revejo na máxima as meninas más vão para todo o lado, porque não desejo enaltecer os maus exemplos, porque a sua história é tão obscura e tem tantas versões que quase ganha a dimensão de lenda, tornando-se difícil relatá-la com veracidade. Por fim, estive quase a desistir porque entre as cocottes - essas extraordinárias criaturas que arruinavam amantes, atiravam diamantes para a lareira e quase sempre terminavam os seus dias na mais sórdida miséria - houve muitas que empurradas para a vida galante por uma infância de pobreza e abuso conseguiram ter êxito e ser elevadas ao estatuto de celebridade da mais velha forma do mundo, mantendo apesar disso alguma pureza de espírito. É o caso da graciosa Marie Duplessis, a.k.a A Dama das Camélias imortalizada por Alexandre Dumas Filho, e de outras mais. 


Mas não o de "La Paiva", a mais bem sucedida das cortesãs parisienses do século dezanove - que na minha modesta opinião, era um verdadeiro diabo de saias:  excessiva, egoísta, despudorada e sem escrúpulos, de uma ambição voraz, febril mesmo. Era esperta, sensual, bonitinha - de uma forma fria e exótica - e tocava muito bem piano. Mas as suas virtudes quedam-se por aí. Porém, a sua história é tão extraordinária que bem merece ser contada, embora a protagonista seja, no mínimo, uma anti heroína.



A pequena Esther nasceu pobre, em 1819, no guetto judaico de Moscovo. Filha de um humilde casal de refugiados polacos, o pai, tecelão, poucos ou nenhuns luxos lhe poderia proporcionar. Aos dezassete anos, casou com um homem de profissão semelhante à do progenitor, e teve um filho pouco depois. Mas a união seria breve: a ganância de dinheiro e fama levaram-na a abandonar o infeliz marido e o filho pequeno para se instalar nas espeluncas de Paris, perto da Igreja de Saint Paul - Saint Louis. Trocou o nome verdadeiro, tipicamente judaico, por um mais fashionable Pauline Thérèse (pela vida fora usaria vários nomes diferentes, ao sabor das conveniências...) e mergulhou numa vida de deboche. 

  Enquanto se sustentava, com grandes dificuldades, à custa dos seus encantos, abriu-se-lhe uma janela de oportunidade: arranjou modo de ser apresentada ao pianista Henri Herz, iniciando quase de imediato uma liaison que começou bem...mas acabou em chacota. Juntos tiveram uma filha, ele apresentou-a à sociedade como uma senhora honesta e viviam como marido e mulher. Mas a verdadeira natureza desta relação, que provocara inveja e curiosidade, foi descoberta. Ao chegar a um evento, foi -lhe dito "perdão, madame, enganou-se na porta" - uma forma subtil de a pôr no olho da rua. 


A esta vergonha acresciam os gastos descontrolados de Thérèse, que depauperavam a fortuna do pobre Herz a uma velocidade alucinante. Aproveitando uma ausência do pianista (que fora à América tentar pôr ordem nos seus negócios) a família dele, cansada, exasperada já, expulsou-a categoricamente de casa. Foi então que uma amiga a aconselhou a munir-se do esplêndido arsenal de couture que conseguira reunir e a tentar a sorte em Londres. 

Armada com pouco mais do que um monte de roupas fabulosas e uma vontade de ferro, instalou-se em casa de uma senhora que hospedava mulheres da sua condição, mas a sorte tardava em chegar. Doente, frustrada, desesperada, vendo o dinheiro derreter-se entre os dedos, mostrou intenções de se matar. A senhoria, que se afeiçoara a ela, veio em seu socorro. "A menina é jovem, bonita e ainda dispõe de vestidos lindíssimos. Eu tenho um camarote na ópera. Ponha aquela toilette branca que lhe fica a matar e mostre-se em público. Se correr mal, pode sempre suicidar-se amanhã". Therese aceitou o conselho e na manhã seguinte "tinha dez fortunas a seus pés". 

Lord Stanley, Conde de Derby, foi um dos alegres voluntários. Nessa altura ela jurou que havia de ter, nem mais nem menos, o mais magnífico palácio de Paris. As tropelias de Thérèse eram lendárias: conta-se que exigiu a um certo banqueiro vinte notas de mil francos para dormir com ele. O D.Juan da alta finança fez as contas e achou que valia bem a despesa: entregou-lhas. E ela devolveu a gentileza...entretendo-se a queimá-las alegremente, uma por uma, em pleno acto amoroso. Outra versão relata que o banqueiro devia 
queimá-las, para que ela lhe fizesse a vontade: mas o homenzinho era tão forreta que as substituiu por falsas; ainda assim, a mera visão de queimar dinheiro refreou-lhe a paixão, livrando a bela de cumprir o acordo...


Uma soireé em casa de La Paiva, por Monticelli
    Rica, regressou a Paris triunfante e comprou uma casa luxuosa, onde estabeleceu um salão frequentado pelas celebridades da época, como Richard Wagner. Entretanto, o pobre diabo com quem casara na Rússia fez-lhe o favor de morrer de tuberculose, deixando-a livre para caçar um nome respeitável. E a próxima vítima não tardaria: num spa em Baden, conheceu um jovem fidalgo português, de sangue apaixonadiço, estouvado e de cabeça leve - Albino Francisco de Paiva-Araújo, luzindo o algo discutido título de Marquês de Paiva, que andava pela Europa derretendo a herança paterna numa vida de estúrdia. O dândi fez-lhe a corte, ela resistiu fingindo um pudor que nunca tivera - e rapidamente o enredou. O jovem titular não tardaria a arrepender-se de oferecer a sua mão a tal aventureira. 

Após a noite de núpcias, ela dirigiu-lhe palavras pouco próprias de uma recém casada: "queria dormir comigo, e conseguiu-o fazendo-me sua mulher; deu-me o seu nome, eu absolvi-me a noite passada; portei-me como uma mulher honesta - queria uma posição e consegui-a, mas tudo o que tem é uma prostituta por esposa. Não me pode levar a lado nenhum; não pode apresentar-me a ninguém. Por isso, devemos separar-nos: regresse a Portugal que eu fico aqui, usando o seu nome e continuando a ser uma meretriz"

E assim fez, embora contasse já com outra fortuna, com um título e o nome honrado (menos, depois de ela o usar...) com que passaria à história: Marquesa de Paiva, conhecida em Paris por La Paiva.  Humilhado e traído, o bon vivant matou-se com um tiro. Célebre, milionária, festejada, a endiabrada mulher continuou a despedaçar amantes, a organizar orgias - dizia-se à boca pequena que por vezes mandava as convidadas embora, para gozar sozinha a companhia dos cavalheiros presentes - a receber magnificamente, a gastar melhor, a maltratar os criados e a cometer crueldades de enfiada. Certa vez, matou a tiro um cavalo só porque o animal teve o bom senso de a atirar por terra...
 A  última conquista da alegríssima viúva negra foi um magnata prussiano, o conde Guido Henckel von Donnersmarck, 11 anos mais novo. A paixão do conde, que tinha algo de perturbado e de excêntrico, foi fulminante: casaram.

Restaurant at La Paiva mansion

 Foi a seu lado que tornou a sua mansão nos Campos Elíseos, o Hôtel de La Paiva, uma das casas mais extraordinárias do seu tempo, um prodígio de luxo e de um gosto muito particular (as "casas de banho eróticas" com banheiras de ónix e prata e torneiras para leite ou champagne, eram particularmente célebres). Ele ofereceu-lhe um castelo e jóias de valor incalculável- algumas que tinham pertencido às senhoras da fina flor da nobreza, que anos antes lhe haviam fechado as portas na cara - como os famosos diamantes amarelos Donnersmarck. 

Com os seus pecados ocultos por uma fina camada do melhor verniz, retirou-se com o marido, loucamente apaixonado por ela, para o seu castelo de Neudeck, sob acusações de espionagem. Apesar disso, tinha finalmente tudo o que sempre desejara - quando a morte a surpreendeu. O seu destino final, diz-se, foi tão estranho como a sua vida. Quando anos mais tarde a segunda mulher de Henckel entrou inadvertidamente numa divisão oculta do castelo, deu com o corpo nu da sua antecessora, preservado em formol. A pobre senhora teve um colapso nervoso - e quando regressou a si, La Paiva foi posta fora uma derradeira vez, recambiada para o jazigo de família. No Hôtel de La Paiva, reabilitado e devolvido à sua antiga glória, funcionam actualmente o British Travellers Club e um restaurante muito procurado pelos turistas. O que aquelas paredes devem ter visto e ouvido...
                                    

                                          

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