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Saturday, September 22, 2012

Dica de estilo do dia: ocasiões especiais


Todas as mulheres têm festas ou outros acontecimentos sociais onde querem estar impecáveis. Se forem previdentes, preparam o outfit atempadamente e em detalhe: a roupa, os sapatos, os acessórios...
 Isto vale para quem tem um closet bastante completo (no caso das celebridades, por exemplo, acrescido de um personal stylist sempre à mão de semear para as ajudar a lidar com ele) ou para quem opta por comprar de propósito para a ocasião. Ao longo de anos a fio em que o trabalho e questões pessoais me empurravam para reuniões do género, aprendi alguns truques (muitos deles, com profissionais da moda e do espectáculo) que ajudam a lidar com o stress inerente a estas coisas. Um dos mais importantes é, a tempo e horas, escolher não um, mas dois a três looks que sejam igualmente adequados. Isto porque nem todos os dias estamos na mesma: há pequenas alterações hormonais, músculos que podem estar inchados por uma ida ao ginásio mais intensa, cansaço...e um vestido testado ao milímetro pode resultar bem num dia e menos bem no outro. Depois, porque pode haver desastres: já me aconteceu um zipper novo
estragar-se irremediavelmente antes de uma festa, sem uma costureira disponível num raio de quilómetros. A minha sorte foi ter dois outfits extra na bagagem com sapatos, meias, vestido e tudo. Mais que ser fashionista, é bom ser prevenida...

Cheap and chic: Rosie Huntington-Whiteley




Ou como um vestido Marks & Spencer pode fazer uma mulher parecer que gastou uma fortuna. Basta ter o ar e os acessórios certos - e Rosie Huntington-Whiteley, com uma beleza de English rose, um gosto impecável e o seu colorido pedigree não precisa de muito esforço - nem custos - para estar absolutamente fantástica.

Friday, September 21, 2012

100 crianças, uma funcionária

                                      

Há pouco, no noticiário da tarde, falava-se de uma escola algarvia sem refeitório próprio onde ainda por cima, só dispõem de uma pobre funcionária para levar a criançada a almoçar - num total de 100 pequenitos irrequietos e com fome, cada um a fugir para o seu lado, a querer ir fazer chichi ou a bater no coleguinha da frente. Não quero imaginar a responsabilidade. Sem desejos de ofender - que há pessoas muito picuinhas quando o assunto é catraios - estou a ver que a solução para não gastar muito dinheiro é arranjar um cão pastor, daqueles fofinhos pretos e brancos, habituados a conduzir rebanhos com centenas de cordeirinhos aos saltos, para acudir à senhora e guardar a petizada. 
Adoptem-me, que eu dou conta do recado e ainda sou giro!
Ou isso, ou chamar o flautista de Hamelin...mas vigiando-o de perto, não vá ele entusiasmar-se e levar a turma para a terra da senhora Merkel.

Gilles de Rais: serial killer, vítima ou um homem complicado?



Gilles de Rais, companheiro de Joana D´Arc, seria classificado aqui no Imperatriz Sissi como um sexy bad boy, não fosse a sua reputação - duvidosa, salientemos - mais digna de um filme de terror. O Marechal de França, e herói nacional, foi a inspiração para o famoso conto de Perrault, O Barba Azul. Juntamente com Erzbeth Bathory, a alegada Condessa Sanguinária, o nobre francês é considerado um precursor do serial killer moderno. Controverso, complexo, sensual, a sua história é um misto de bravura, descida aos Infernos e redenção: ingredientes obrigatórios para lendas.
 Membro da Casa de Montmorency-Laval Gilles, Barão de Rais, nasceu em 1404. Embora aparentemente tivesse tudo para ser feliz - era rico, poderoso, belo e inteligente, com uma sensibilidade aguçada - a morte dos pais terá sido decisiva para a sua personalidade futura, e para a consequente queda em desgraça. Aos 11 anos, ele e o irmão, René, de quem era muito amigo, ficaram à guarda do avô paterno, um homem  excêntrico e orgulhoso, que se dedicou a fazer de Gilles um monstro. Transmitiu-lhe os valores da soberba e do poder e aos 14 anos, 
armou -o cavaleiro. Nos primeiros tempos porém, o avô concentrou as suas atenções em René, o que permitiu a Gilles passar o tempo escondido na enorme biblioteca da casa, devorando sem supervisão todos os livros que lhe apeteciam: as histórias trágicas da Roma Antiga eram as suas preferidas. Mergulhado em tal ambiente, não tardou em mostrar tendências violentas - aos 15 anos matou um amigo num duelo, mas dada a sua condição elevada o crime ficou sem castigo. Pensou então em aproveitar os seus impulsos naturais para uma bem sucedida carreira militar: dizia-se que em batalha era transfigurado por uma fúria guerreira tal que nem os companheiros o reconheciam. Entretanto o avô manobrava nas sombras para lhe arranjar um casamento vantajoso. Após várias negociações falhadas a escolha recaiu sobre uma fidalga e herdeira bretã,  Catherine de Thouars. O casamento seria um fracasso: Gilles nunca escondeu não amar a mulher e apenas teve com ela uma filha, Marie. A guerra era o seu único amor: foi comandante do Exército Real e os seus feitos durante a Guerra dos 100 anos foram incontáveis. Lutou ao lado de Joana d´Arc, a quem idolatrava. Ela tinha o poder de dirigir os seus impulsos para o bem, de o inspirar ao caminho da rectidão. Rezam os mexericos do tempo que Gilles estava profundamente enamorado da Donzela: esteve ao seu lado quando foi posto fim ao Cerco de Orleães, e na coroação de Carlos VIINesse dia, foi elevado a Marechal de França, com direito a juntar a flor-de-lis às suas armas. O trágico fim de Joana  d´Arc, no entanto, deitou por terra os seus bons propósitos. Gilles terá dito que com Joana morrera a sua razão de viver. A partir daí lançou-se numa vida de dissipação febril, de desequilíbrio emocional e de conflito religioso. Um ano após a morte da Donzela, o seu avô, horrorizado com a fera que criara, deixou a sua armadura e espada ao neto René, num acto de desprezo público pelo comportamento de Gilles.
 File:Blason Gilles de Rais.svgRetirou-se da vida militar para se entregar a um estilo de vida excêntrico: a construção de uma capela, estranhamente dedicada aos Santos Inocentes, onde ele próprio oficiava vestindo estranhos atavios, e a produção de uma peça de teatro caríssima foram algumas das extravagâncias que depauperaram os seus bens. Começou a desfazer-se de terras e objectos de valor. Por essa altura ter-se-á envolvido com o Oculto - a princípio com a Alquimia, depois convidando bruxos e charlatães para o seu castelo que, a troco de somas elevadas, lhe prometiam a riqueza e a glória, alegadamente evocando demónios...sem resultados. Gilles terá no entanto, segundo os seus biógrafos, permanecido fiel à Fé Católica. A partir daqui torna-se difícil deslindar a verdade do mito, os factos das acusações interesseiras de inimigos.    

As hipóteses levantadas até hoje são inúmeras: Gilles de Rais seria um louco? Um assassino cruel? Um inocente vítima da Inquisição às mãos de inimigos que cobiçavam os seus domínios? Um fidalgo excêntrico com interesse pelo oculto, ou um seguidor do paganismo, mártir do seu tempo? Nunca teremos a certeza. O que fica ao ler os relatos do seu julgamento é o retrato de um homem perturbado, profundamente espiritual, que apenas confessou os horrores de que era acusado perante uma excomunhão inevitável. Depois de um processo sensacional, o herói amado pelo povo confessou, entre muitas lágrimas, o horrendo assassinato ritual de cerca de 200 crianças. A confissão fez chorar a assistência, incluindo a família das vítimas, que lhe gritou palavras de perdão. Foi condenado a ser enforcado e depois queimado na fogueira. No patíbulo, fez questão de morrer antes dos seus seguidores, para que estes não perecessem julgando que ele escaparia ao destino para o qual os arrastara a todos, e confortou-os com palavras de esperança na redenção divina. Lá em baixo, a multidão gritava louvores a Deus, pedia perdão para os seus crimes e bradava " morrei em doce paz!". Não permitiu mesmo que o seu corpo fosse consumido pelas chamas: foi retirado do cadafalso e preparado por damas de alta linhagem para o descanso eterno. Com apenas 36 anos, desaparecia uma das personagens mais fascinantes do século XV. O resto fica à imaginação de cada um...














Decotes "maravilhásticos": the devil in the details

Colecção F/W de Salvatore Ferragamo
O decote bem conseguido é um dos pormenores que me fazem comprar uma peça: é decisivo no equilíbrio da figura e da toilette
       Muitas vezes as marcas apostam em opções demasiado fechadas e supostamente seguras -  como o decote Canoa subida ou Jóia, que não favorecem a 100% a maior parte das silhuetas. Outras vezes, pelo contrário, vêem-se muito à venda aberturas explícitas como o Half Breast (que não recomendo a quase ninguém) os Cai Cai a direito "esborrachantes" ( vestidos sem alças podem ser fabulosos ou desastrosos, dependendo da qualidade) ou uma mistura entre Halter neck e decote V profundo em tecidos fluidos, que desgraçam  muitos looks
   A importância da "engenharia" colocada no desenho e confecção da décolletage é proporcional à quantidade de versões de cada tipo, sendo por vezes complicado classificá-los e escolher o modelo correcto para nós. Muito olho, muita experiência e conhecimento do nosso tipo de silhueta  evitam esses enganos. Como digo sempre, a diferença reside em pequenos nadas: the devil is in the details.
Por isso, quando encontro uma blusa ou vestido com aberturas em U, V clássico, V Geisha/KimonoPortrait, Queen Anne, Bardot, PrincesaBarco, Quadrado, Redondo, Camponesa (também chamado Cigano ou Off the Shoulders) fico toda contente e é trazer enquanto os há. Já sei que é um investimento inteligente porque depois desaparecem e não volto a gastar dinheiro nisso durante um bom tempo.



 Podem então imaginar como estou satisfeita com os decotes anos 50/60 clássicos e elegantes, sensuais mas não demasiado abertos, que temos visto nas últimas colecções e que vamos continuar a encontrar nas lojas. O decote Off-the-shoulders, visto nas colecções de Salvatore Ferragamo  e Zuhair Murad, tem feito furor e é um dos meus preferidos: evoca a Renascença, as blusas de camponesa, é favorecedor e extremamente romântico.  Desde a adolescência que o adoro e eu e as minhas amigas apelidámo-lo de maravilhástico, porque ficava sempre bem e fazia um sucesso enorme. Com um decote assim uma mulher nunca está exposta: é sexy, realça o rosto, o colo e os ombros, mas não permite que se "espreite" para o busto. Espero que a moda pegue. Espero que pegue muitíssimo!

Thursday, September 20, 2012

Nasci na época errada...

...digo-o muitas vezes, e a fase entre o período Vitoriano e a Belle Époque, em Paris pelo menos, era uma das que mais me convinha: pelo estilo de vida, pelas modas, pelos hábitos, pelo espírito, pela linguagem...e por outras coisas também.

Ora vejam como os jornalistas e escritores eram tratados nessa altura:

"Jaime Rival (...) o famoso cronista (...) ganha aqui trinta mil francos por ano para escrever dois artigos por semana. (...) Norberto de Varenne (...) o poeta (...) outro homem de grande cotação. Cada conto que nos dá custa trezentos francos e os maiores não têm mais de duzentas linhas".

Guy de Maupassant, " Bel Ami"

Curiosamente, algumas mulheres começavam nesse tempo a viver lindamente da escrita, às claras, e não só de romances elaborados no aconchego do lar. Alexandre Dumas Filho refere que uma das mais engraçadas folhetinistas de Paris ganhava mais com a sua pena do que as actrizes com a sua voz, as senhoras de sociedade com o seu dote e as cortesãs com os seus encantos. É certo que não havia cá Word, nem computadores, tablets, internet e outras engenhocas que tanto facilitam o nosso trabalho, mas olhem que não sei se não se evoluiu para pior...pergunto-me no entanto o que pensaria a boa sociedade desse tempo do fenómeno na blogosfera. Imaginam os grandes autores a blogar? Como seria o blog de Eça de Queirós? Chique a valer, decerto...

Nova regra cá em casa

                                     
Se mais alguém, com a mania das arrumações e das mudanças, me tira o material de pilates  do sítio vamos ter chatices, ai vamos. Já me cansei mais escada acima escada abaixo em busca  de um dos meus colchões de Ioga (e de todas as coisas que encontrei e larguei entretanto) do que numa hora de treino daquele puxadote. Quem terá sido o iluminado?

Outfit patriótico: Maria da Fonte e Padeira de Aljubarrota inspiram



Considerando o estado do País, lembrei-me que a Maria da Fonte e a Padeira de Aljubarrota seriam boas inspirações para o próximo Carnaval. E por causa disso, a canção abaixo não me sai da cabeça...


Mas como o Entrudo ainda vem longe (lembrem-me de arranjar uma pá e umas foices até lá) pensei que talvez não seja difícil encarnar o espírito dessas personagens com um look mais...actual, usando algumas peças em voga neste Outono, como as saias rodadas e as capas. Sou perdida por blusas de camponesa, como já devem ter percebido...
Basta trocar os sapatos de época à esquerda- ou as tamancas - por um pump bem alto e depurar um bocadinho o visual original. Claro que a Maria da Fonte é um pouco mal encarada e a Brites de Almeida não era nenhum prodígio de feminilidade, mas podemos sempre fazer uma versão mais amorosa.

Padeira de Aljubarrota meets Maria da Fonte


Mitos e gambuzinos blogosféricos

Cuidado, eles "andem" aí.

A Menina Lamparina chamou a atenção ontem para uma versão portuguesa (e mais amena) do Shame on you, Blogueira, e a propósito disso e de outras conversas que li/apanhei pela blogosfera nos últimos dias cheguei a  brilhantes e enevoadas suposições, sendo que a primeira é que devo andar a frequentar os blogues certos, de gente elegante, equilibrada e sensata, com a tonteria a passar-me ao lado:

- Existem realmente pessoas que tiram retratos nos provadores das Zaras e Bershkas para colocar nos blogs? Seriously? Onde, que eu nunca vi? Não que eu seja bisbilhoteira mas acho que ando a perder coisas estranhas. Sou distraída e vivo no meu mundo, bem sei...

- Estarei errada ou existe um submundo de blogs com bolinha que eu desconhecia? Ouvi falar de dois ou três afamados que, goste-se ou não do conteúdo, diz-se que são bem escritos e relacionados na "blogosfera mainstream" se é que isso existe...; depois há aqueles onde os profissionais das coisas para adultos contam as suas tropelias e publicitam o seu ganha pão - que isto enfim, blogs comerciais há-os de tudo, e esses normalmente não interagem com os bloggers ditos comuns. O que eu não sabia de todo é que há responsáveis de blogs impróprios para senhoras que se divertem a visitar e comentar blogs normais, principalmente femininos, para convidar as autoras a visitar o deles...e uma pessoa que lá vá depara-se com espectáculos pouco elevados. Alegadamente, alguns desses pseudo D.Juans têm a ambição de conquistar blogueiras para juntar à sua colecção. How twisted/sick/creepy is that? Não afirmo, não juro, apercebi-me do zunzum e achei um horror, até porque há bloggers muito novas...Pela parte que me toca podem visitar o IS à vontade e comentar como as demais pessoas decentes, não contem é com retribuição. Nunca percebi "cavalheiros" que em vez de se cingirem às pessoas do mesmo género gostam de desinquietar quem não tem nada a ver, nem quer, com os seus delírios.

- Já nasceu o conceito de "fashion blogger da aldeia", e não de uma maneira boa (sou muito a favor do rural, genuíno e pitoresco, de misturas híbridas de meter medo é que não...) ?

                                   E estas, hein? Cada dia, uma novidade.

Wednesday, September 19, 2012

Greta Garbo Dixit: sweet expectations





" Haverá algo melhor do que ansiar por alguma coisa, sabendo que ela está ao nosso alcance?"

Por vezes, há tanta alegria numa boa expectativa como na realização do desejo.

Look icónico do cinema, #2: Shanghai Triad

                                   
Um dos filmes que mais me marcou, a todos os níveis, foi Shanghai Triad, de Zhang Yimou. A magnífica fotografia, a singular interpretação de Gong Li, a banda sonora requintada, o tema, a época em que a acção se desenrola e  - tinha de ser - um figurino magnífico, precioso mesmo, fazem de A Tríade de Xangai uma festa para os olhos. Vi-o numa altura em que consumia cinema asiático e europeu às pazadas e se já era fã de Gong Li, mais fã fiquei. Uma actriz com presença régia no écrã e uma beleza de mito, que aqui encarna o estilo Golden Age of Hollywood em versão oriental.
 Lembrei-me de Shanghai Triad  ao arrumar os brocados, sedas e bordados que quero usar nesta  estação, porque ao longo de toda a história a protagonista, Bijou (cantora de cabaret e amante de um mafioso) veste uma panóplia de toilettes de encantar qualquer fashionista com gosto por vintage e peças exóticas: uma mistura de vestidos e tailleurs dos anos 30, sensuais qipaos, casacos guarnecidos de peles, lamés, chapelinhos, capinhas, tecidos lavrados, acessórios fantásticos, cores ricas, enfim, um sem número de detalhes só possível num cenário de luxo tão opulento como a Xangai da década de 30.  A acompanhar tudo isto, um dos melhores trabalhos de styling que me foi dado ver: uma pele de porcelana, cremosa, imaculada, avivada por lábios escarlates. Efeito muito dramático que não descansei enquanto não consegui reproduzir, e que me levou a ter o primeiro primer de sempre, o branco-mais -branco- não- há da Galenic. Era espantoso, fresquinho, dispensava a base e infelizmente foi descontinuado, como tantas coisas boas. Quem nunca viu esta obra, veja - mais do que um bom filme, é um filme lindo. Deixo-vos a minha cena preferida, prelúdio para uma história de amor trágica:



A queimar os últimos cartuchos...(a twist in the dress, II)

Enquanto o Verão teima em ficar por aqui, com um calor impossível, tenho aproveitado para dar uso a todos os vestidos e saias leves. Não há paciência para roupa muito estruturada com estas temperaturas do deserto. E como daqui a nada chegam umas brisas frias, uns aguaceiros tímidos, e já se pode usar tudo (jeans, calças justas, saias e vestidos mais espessos) menos peças esvoaçantes e sedosas, há que aproveitar para dar uma volta na colecção inteira. Posso afirmar, sem gabarolice, que cumpri a minha jura de não ter coisas paradas no guarda roupa. O que ainda não foi usado está devidamente enquadrado na categoria certa, junto das novas aquisições, e com coordenados já planeados. Há retoques a dar (e na organização de casacos e sobretudos nem vos falo) mas isso fica para outra ocasião...
Reconhecem a peste à esquerda?

Para terem uma ideia, eis um dos vestidos longos que estavam guardados dos meus anos de liceu. Usei-o em dois eventos de trabalho (e talvez em algumas ocasiões privadas) era eu muito teenager, muito sonhadora e com um bocadinho menos de mau feitio. (Tenho pena de não ter encontrado uma imagem melhor, mas era a que estava à mão). Depois ficou arrumado, como novo. Eu sabia que as saias compridas haviam de voltar, era uma questão de tempo...e não me enganei. Este veio de uma das extintas boas lojas de Coimbra, a Infinito, antes de a maior parte das cadeias se instalar por cá (por essa altura havia a Zara, a Kookai e a Mango, o resto eram boutiques e lojas multimarcas). Na altura comprava fora boa parte da minha roupa, mas esta era uma das três casas onde costumava adquirir peças especiais. Curiosamente, quase tudo o que vinha dessas lojas está impecável, o que diz bastante acerca das roupas de qualidade. Quando vi os padrões florais - e mais concretamente, de papoilas - deste ano nas colecções Ferragamo, Yves Saint Laurent e Topshop, entre outras, lembrei-me logo dele. É um vestido cingido ao corpo, (bem) construído em partes, uma espécie de sheath dress longo. O mais engraçado é que pode ser usado dos dois lados. Desta feita virei-o, porque não me senti bem com o decote tão subido, e acrescentei-lhe um pormenor que era impensável na viragem do milénio: um cinto largo, estilo anos 80. Depois foi só desconstruir um pouco o ar riquinho da coisa com umas sandálias coreanas de cortiça que têm sido óptimas companheiras este Verão, et voilà...



Tuesday, September 18, 2012

De Fendi a reles em segundos

                                                        nicki-minaj-fendi-boot-september-2012
É uma pena que as marcas não controlem o que os clientes  fazem com as suas criações. Vai um director criativo imaginar todo um conceito, um designer desenhar umas botas e um top que não pediram para vir ao mundo, uma equipa de costureiras e sapateiros elaborarem-nos com tanto afinco,dar-se-lhes o nome de uma casa respeitável e pô-las numas caixinhas todas bonitas, e para quê? Para aparecer uma compradora assassina e fazer isto. Qual era mesmo a marca de carros que só os vendia a quem preenchesse certos requisitos, para que clientes endinheirados, mas sem gosto, não estragassem a sua mística? Havia de se fazer o mesmo com as griffes de moda, pois. Vulgo " não vendemos roupa nem sapatos a quem se apresentar em notório estado de embriaguez, insanidade ou pinderiquice". Mas como os tempos não vão para graças, temos isto. 


Onde é que eu já vi isto?


Isabel Marant, botas Milwaukee

As tendências confortáveis de usar ganham o coração das consumidoras e a julgar pelas colecções Primavera-Verão de 2013, que já começam a dar um ar da sua graça, não nos vamos despedir de pumps compensados, saltos chunky nem plataformas tão cedo. Mas como comentei aqui, os stilettos clássicos e as biqueiras aguçadas regressaram, com os dois estilos a conviver alegremente, o que é óptimo para variar e dar uso aos pares que ficaram arrumados logo que o hábito dos sapatos arredondados se estabeleceu. 
                               Fall-2012-pointed-toe-pumps
Retirado daqui

So far, so good, os clássicos nunca cansam. O que eu estranho é este regresso a 2005, mais uma vez - mas não só -  pela mão de Isabel Marant. As botas que andam nas bocas do mundo são as mesmas que nessa altura deliciaram  as senhoras  benzocas das minhas bandas que fazem o estilo  supertia-meets-milionária-texana-do -petróleo ( cabelo louro -milho com brushing, bronzeado todo o ano,  peças chamativas de boutique que são caríssimas mas nunca se percebe bem que alminha desenhou aquilo): bicudas, de salto fino, com aplicações. Foi um sarilho para as largarem e eu já não podia olhar para um visual tão datado. E eis que regressam - é certo que as fashionistas de serviço lhes darão outra interpretação mais fresca, mas com todo um mundo novo de calçado para explorar, quanto querem apostar que estes modelos se vão vender que nem pãezinhos quentes e andar nos pés do povo? Isabelinha, querida, aposte em Coimbra que não se arrepende. Dito isto, dificilmente comprarei umas, já que alguns exemplares semelhantes (embora um pouco mais discretos) estão encaixotados à espera que me apeteça sofrer um bocadinho. O mesmo vale para tudo o que lembre botas texanas curtas, como as encarnadas da Zara que estão a apaixonar muita gente. Been there, saw that, é uma recordação muito recente para que haja um revivalismo mas vamos ver o que acontece. Porém, este não é o único regresso a que se está a assistir. Quem é que não recorda botas de pele de cobra mais ou menos assim? Já Louis Vuitton foi buscar os formatos para as suas Mary Janes chunky Belle Époque aos anos 90. Looks familiar?
                         
                                               
                                                                                                                                            Botas Tatoo, Jimmy Choo

   

Monday, September 17, 2012

Boa desculpa para dar um salto a Espanha...






...ou ao Reino Unido. Ou para comprar online. A Dorothy Perkins tem sempre uma variedade tal de vestidos perfeitamente moldados, que caem exactamente como prometem, a preços disparatadamente simpáticos, que quase tenho pena que não exista por cá. Quase. É que o meu guarda roupa tem limites e já ando desesperada para pendurar tudo o que tenho, vale?




Jasão, o homem ingrato

Há dias mencionei  a Demanda do Velo de Ouro, o que me recordou um dos casais mais trágicos da mitologia grega - Jasão e Medeia.  O seu mito, que se insere no ciclo dos Argonautas contado por Apolónio de Rodes, foi amplamente divulgado na sua versão mais famosa e horripilante - a de Eurípedes - e tem fascinado inúmeros artistas e estudiosos ao longo dos séculos. É uma história que diz muito sobre as mais viscerais paixões e o lado negro do ser humano, mas também sobre a dinâmica dos relacionamentos... e a reciprocidade que deve existir neles.
Jasão, o líder dos argonautas, encarnava na perfeição o ideal do herói grego: grande, belo e louro  como um Apolo, com sangue real e divino a correr-lhe nas veias. O seu pai, Éson, Rei de Iolco, na Tessália, fora destronado pelo irmão, Pélias. Jasão foi afastado e educado pelo sábio centauro Quíron. Ao atingir a maioridade, dirigiu-se à terra natal para reclamar o trono que lhe fora usurpado e no caminho, perdeu uma sandália. À chegada o  povo de Iolco não reconheceu o seu legítimo Rei, mas pasmou ante a beleza e imponência do desconhecido de longos cabelos de ouro, que se apresentava em tão estranhos preparos -  e instintivamente, abria-lhe caminho entre murmúrios. Quem não ficou nada satisfeito ao vê-lo foi o tio: não só o aparecimento do sobrinho o obrigava a cumprir o juramento de lhe entregar o trono quando chegasse à maioridade, mas fora-lhe profetizado que perderia a vida às mãos do homem "que se apresentasse diante dele com uma só sandália". Apavorado, recorreu a um ardil: anunciou a Jasão que só lhe restituía a coroa quando ele provasse o seu valor, trazendo-lhe o mítico Velo de Ouro - a pele e os chifres de um carneiro dourado, consagrado primeiro a Zeus, depois a Ares, que se encontravam na Cólquida, protegida pelo Rei Aertes. A tarefa era suicida, mas o desafio foi aceite e mensageiros percorreram toda a Grécia para reunir a mais espantosa tripulação alguma vez vista: Orfeu, Hércules, Castor, Pólux e Teseu, foram alguns dos cinquenta heróis que aceitaram a arriscada missão. Para entregar o Velo de Ouro, o Rei da Cólquida impôs uma série de condições impossíveis, que incluíam lutar com exércitos sobrenaturais, dragões e touros cuspidores de fogo. 
Trabalhos que se revelariam fatais, não fosse a filha do Rei - a linda Medeia, neta de Hélios (o Sol) sobrinha da famosa Circe e sacerdotisa de Hécate, feiticeira de poderes reconhecidos em toda a Grécia - ter-se apaixonado perdidamente pelo herói. Encantado com a beleza da princesa e  a possibilidade de vitória, Jasão prometeu que se conseguisse o desejado tesouro, casaria com ela e reinariam ambos sobre Iolco, felizes para sempre. É certo que os truques dos Deuses não foram alheios ao romance: Hera, protectora de Jasão, convencera Afrodite e Eros a provocar em Medeia, até aí sensata, uma paixão devoradora, fulminante, que lhe toldava os sentidos. Obediência, princípios, dever filial, tudo a princesa desprezou para ajudar o homem que amava. Atraiçoou a casa paterna -  e graças aos seus poderes, os argonautas obtiveram o talismã, pondo-se em fuga. Medeia partiu com o seu príncipe e levou como refém o irmão, Apsirto.
Vendo que os navios do pai a perseguiam, não hesitou em matar o próprio irmão, e cortá-lo em seus pedaços que lançou ao mar, pois sabia que o pai não deixaria de os apanhar para lhe prestar as honras devidas. O execrando acto atraiu a ira de Zeus, que ordenou ao casal que visitasse Circe, a tia de Medeia ,para se purificar. Esta não se atreveu a desobedecer ao Deus dos Deuses, mas não gostou de Jasão, e admoestando a sobrinha quanto ao homem com quem se envolvera, exigiu que a estadia fosse curta. Apaixonada, Medeia ignorou os conselhos. Uma vez regressados a Iolco, Pélias recusou-se a cumprir a sua palavra. E foi mais uma vez Medeia que salvou a situação: fez-se amiga das suas filhas e convenceu-as a matar o pai num ritual de magia aterrador para, supostamente, lhe devolver a juventude. Pélias morreu, mas o escândalo foi tão grande que o casal se viu obrigado a fugir para Corinto. Lá casaram, tiveram dois filhos e viveram juntos durante dez anos...até Jasão a repudiar para casar com Gláucia, a filha do Rei. Afinal, para um rei exilado, era melhor negócio desposar a princesa local do que viver com a outra -  estrangeira, bárbara e deserdada...Os crimes e traições que Medeia cometera que em nome de um grande amor eram agora sacrificados, num piscar de olhos, à ambição frívola do herói. Eis a recompensa de tantos sacrifícios! Circe adivinhara a natureza fraca de Jasão, mas a sobrinha não lhe dera ouvidos, e agora era tarde. Restava-lhe viver na degradante posição de concubina - ou partir, sem eira nem beira, para junto de amigos que a acolhessem, a ela e aos filhos. 

Desesperada, fingiu aceitar a situação e enviou os pequenos com um magnífico vestido para oferecer à noiva. Era um feitiço, claro - e assim que a infeliz o experimentou, caiu fulminada. O pai, que tentou ajudá-la, teve o mesmo fim, e as chamas não tardaram a devorar o palácio. No meio da confusão, Jasão correu para casa, para confrontar a mulher e tentar salvar os filhos, mas tarde demais. A versão mais popular conta que Medeia, para se vingar do marido infiel, os assassinou numa vingança premeditada. No entanto, diz-se também que o povo de Corinto se vingou nos pobrezinhos, linchando-os, sem que a mãe os conseguisse salvar na fuga ou que o pai tivesse vontade ou poder para os impedir. Os cidadãos abastados de Corinto, não querendo ficar com as culpas do infanticídio, terão subornado Eurípedes para reescrever a história, lançando-as sobre a cruel Medeia. Esta, de qualquer modo, escapou para Atenas, onde casou com o Rei Egeu e teve um filho famoso, Medo, que viria a reinar sobre a Cólquida - a terra que Medeia abandonara por um homem ingrato. Ao longo dos séculos, estudiosos da mente humana debruçaram-se sobre a história, retirando dela as mais variadas ilações. Pessoalmente, sempre achei que a maior lição a tirar dela é que nunca é boa ideia anular-se, deixar para trás os seus sonhos, os seus confortos, para os depositar aos pés de homem algum. Ao longo da história, Jasão usa os conhecimentos de Medeia, os seus poderes, para chegar os seus objectivos - mas nunca o vemos preocupado com os sentimentos ou vontades dela.  A promessa de reinarem juntos nunca é cumprida. Medeia obtém muito pouco em troca da sua dedicação. Só quando se liberta dele- de maneira horrível e dolorosa - é que reclama de volta o seu poder, a sua liberdade, e obtém não só um trono, mas dois. Sem ajuda.


                                                                   








Sunday, September 16, 2012

Canção do dia: Seven Nation Army

Por vezes, há aquela sensação de que a Força está connosco. Tudo parece sossegado, e estamos completamente focados e tranquilos. No entanto, sabemos que até agora foi só um ensaio: o espectáculo ainda mal começou.









 

A Duquesa vai nua?

As últimas semanas têm sido de pouca roupa e muitos aborrecimentos para a Casa Real inglesa. Muito poderia ser dito sobre o assunto, sobre a falta de respeito ou de ética dos "jornalistas" del coracion e redundâncias desse jaezmas vou abster-me do óbvio e cingir-me, em dimensão, à importância que o tema merece. Grande nau, grande tormenta. Grandes honras, grandes responsabilidades, porque certas condições são leves de ter e pesadas de manter. Tudo tem um preço. Por muito que se venda a ideia de facilidade, de conto de fadas,  o papel de Catherine Middleton tem mais que se lhe diga do que posar em eventos de solidariedade, usar bonitas toilettes e receber aplausos. Pensar o contrário é uma infantilidade de mentes sonhadoras. Nem a Duquesa de Cambridge nem o marido são marinheiros de primeira viagem nestes meandros (tanto por experiência própria, como pelo exemplo) e a equação é simples: não se pode contar com a discrição de ninguém e quando se está numa posição de tanto destaque, com os devidos privilégios, é necessário abdicar de pequenos prazeres, como a privacidade total e o consequente direito de fazer topless à vontade. Vícios (salvo seja) privados, muito privados, e públicas virtudes. São escolhas, prioridades que se elegem ao dar um passo tão grande. O resto que se diga é pura ingenuidade...

Calças Isabel Marant: not again!



A boa notícia é que este Inverno está para as calças como o Verão esteve para as saias: há-as fabulosas, de diferentes materiais, tipos e feitios. A má notícia (para mim, pelo menos) é que as calças justas e corsários (e por arrasto, os jeans) com franjinhas, zippers, aplicações e cordelinhos voltaram à ribalta. Devia ter adivinhado quando as floral pants apareceram na estação passada, mas quê, sou uma rapariga optimista. Algo deve ter-me passado ao lado quando analisei os guias para este Inverno, porque ainda há dias me desfiz de uns pares exactamente assim - que diga-se de passagem, poucas vezes viram o meu honorável traseiro. Sempre achei que fecho-eclairs aplicados aqui e ali tornam as calças desconfortáveis, e que cordas e cordinhas não são a opção mais elegante. Quando por volta de 2005 surgiram os jeans com aplicações - muito por influência de Roberto Cavalli - só me deixei tentar por uns pares bordados, de uma marca francesa deliciosa que surgiu na altura e que de facto assentavam a matar, mas tenho-os bem guardados e não tenciono usá-los tão cedo. A memória de senhoras roliças com borboletadas, coroas e brilhinhos colados às nádegas e pelas pernas abaixo está demasiado gravada na minha memória para que me apeteça ver tal coisa pelas ruas. São peças demasiado impactantes, demasiado chamativas (e já há tantas alternativas extravagantemente chic nesta estação) que estas, assim com a cintura tão descaída, vão contra a corrente de elegância dominante. Fico-me pelas calças de pele pretas e castanhas e pelas outras opções de  vos falei, I guess. E desse lado?

Da inveja portuguesa: o rico, esse papão


                                              
Inerente, inata, doentia. Este caso, observado em Londres pelo meu talentoso amigo Luís Costa Pires, é bem prova disso, e da figura de urso que fazemos perante povos mais desempoeirados e bem intencionados do que nós. O português médio O-D-E-I-A o rico, o que tem mais êxito do que ele; detesta, teme e condena qualquer mortal que tenha alguma coisa que ele não tenha. Ainda que veladamente, sob os disfarces " não dão valor ao dinheiro", "não pensam nos pobres", "exploram o povo", "não são gente séria" etc, o rico, esse ser distante e vago, é um alvo a abater, o papão. O "rico" (ou quem ele acha que é rico) mesmo que a sua opulência seja a mais legítima, a mais honesta que pode haver, mesmo que o coitado do hipotético rico pague todo os seus impostos (há alguns que o fazem; a honestidade não é inversamente proporcional à riqueza que se possui) e seja o maior benemérito à face da terra, é sempre um malandro que devia ser expropriado e expulso do território nacional. Só cá havia de ficar gente aparentemente séria, mas sobretudo remediada, pobrezinha e trabalhadora. O português pensa assim até ele próprio enriquecer, está claro. Nunca se pensa que quem é pobre não pode dar nada aos outros nem contribuir. Que seria óptimo se fôssemos um país rico, cheio de portugueses ricos, que deixasse as pessoas crescer e enriquecer para não dependerem tanto do Estado, dos apoios, dos subsídios. Que este país estivesse a nadar em dinheiro, com toda a gente feliz, bem vestida, bem alimentada, bem cuidada pelos melhores médicos a tempo e horas, com meios para ajudar ONGs, para cuidar dos idosos, para construir abrigos para animais, para investir no cinema português, para ser mecenas de artistas, para dar dinheiro a ganhar aos construtores na edificação de casas bonitas, gerar emprego, criar valor. Como seria bom ver os melhores hotéis, lojas e restaurantes a abarrotar de gente gira, alegre, despreocupada, ocupada a ser bem recompensada pelo seu trabalho e/ou a gozar a vida. Gente que não estivesse em pânico com os impostos porque saberia que eram justos, uma gota de água no oceano, e não um castigo por se ter saído bem. Gente que não precisasse de trabalho escravo porque as empresas iam de vento em popa e não tinham necessidade de fazer de tio patinhas, de regatear cada tostão e de trabalhar à custa de estagiários, numa atitude mesquinha que nunca leva a lado nenhum. Um país que partisse do princípio " assumamos o que gostaríamos de ter e trabalhemos para isso" em vez de estar sempre de olho no que não tem, no que falta, nas coisas do vizinho. Mais do que qualquer outra coisa, essa atitude levou-nos ao buraco em que nos encontramos. Ninguém pode querer o mal dos outros sem atrair um bocadinho de azar para si mesmo. Ou como dizem os índios, " o barco que chega para o meu irmão também chega para mim".

Pensamento do dia: all or nothing

Peter O´Toole

Se faz quaquá como um pato e caminha como um pato, então provavelmente é um pato.
 Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele. 
Antes sê-lo que parecê-lo. 

Então, grasnar para quê? Uma pessoa de bem devia sempre querer dizer o que parece que diz, e não andar em diálogos do estilo eu sei que tu sabes daquilo que tu sabes que eu sei. Haja paciência para puzzles ou trava línguas. Eu que nunca fui boa nisso, sempre fiz jus ao que a minha avozinha dizia de mim: é tudo ou nada!  Prefiro mãos a abanar, pontes queimadas e liberdade para começar do zero a meias palavras, meias impressões, meios contratos, meios esclarecimentos, coisas que não são carne nem peixe, antes tofu. Sou como o outro: não gosto de tofu e já travei muitos combates...

Ó povo que saíste à rua

                                    
Apesar do IS não ser um blog pesadão e solene, também se falam aqui de coisas sérias. Por isso, talvez um ou dois leitores tenham estranhado que nos últimos dias, eu me tenha cingido a temas mais rosados ou pessoais. Por escapismo, por cansaço de ouvir falar sempre no mesmo e sou-vos sincera, por não saber o que dizer acerca do assunto. Há um ano escrevi este texto. Dedicado a um povo que vai em cantigas, que é assim, que acorda sempre tarde, que adora que lhe digam o que quer ouvir e só se levanta quando alguém, talvez não da melhor maneira, talvez sem as melhores soluções, talvez tão atado de pés e mãos como eles - lhes diz a verdade.  E só age quando, à melhor moda "se vai um português assarapantado, vão logo dois ou três e está o caldo entornado", os outros levantam hoje de novo os murais do Facebook
Foi bonito (se excluirmos as cenas de cobardia e violência causadas por agitadores, profissionais ou não, de garrafa de cerveja em punho) ver o povo a sair à rua, a intervir. É bonito, arrepia, ver os portugueses unidos num belo momento de consciência cívica, de união e (aparentemente) de solidariedade. A mandar passear o poder estrangeiro que, com falinhas mansas, nos tem metido em maus negócios, nos tem dado peixe em vez de ensinar a pescar, nos deixou reféns de guitas tão distantes, tão invisíveis e tão emaranhadas que ninguém sabe como desatar. A reclamar a sua vida, a sua independência, o direito a sonhar, a ter esperança. Foi muito bonito. E triste de observar- por tardio. Por  (para boa parte dos envolvidos, pelo menos) não serem os melhores motivos que os empurraram para a rua. Onde estavam todos estes valentes portugueses quando, durante seis anos, tudo caminhava para o abismo? Quando as provas de desonestidade, de desperdício, de desprezo pela liberdade tão amada, pela situação "do povo", pela autonomia e liberdade de acção dos portugueses eram, uma a uma, vendidas por feijões? Andavam contentes, muitos deles. Estávamos com a suposta Esquerda, estávamos com Deus. Independentemente das minhas ideias ou simpatias políticas, não gosto de fanatismos nem de dogmas. E em Portugal, este é um mito enraizado. Quem fala muito bem, com muita autoridade, quem jura que o preto é branco e que o branco é preto, quem afaga a inveja e os medos do povo, quem promete mundos e fundos e faz lembrar os "bons tempos" da Revolução, é fofinho e amigo, nem que acredite tanto na fraternidade e seja tanto de Esquerda como eu sou da Cientologia. Entrevistei muito boa gente, gente "do povo", do povo crédulo, sincero e analfabeto, que me disse "voto nele porque este é o meu Partido, e hei-de votar sempre nele porque sempre votei nele" sem olhar às ideias nem aos actos. Enquanto se dividiu para reinar; enquanto houve Magalhães, RSI sem olhar a quem, Novas Oportunidades, tareia para os malandros dos professores e rédea curta para os odiados funcionários públicos, esteve tudo bem. Só calhava aos outros. Só quando se admitiu "estamos mal" e o mal bateu à porta de todos, é que finalmente, o povo viu as suas esperanças por terra. E isso é a pior coisa que política e socialmente falando, se pode fazer à população, principalmente num país de ideias românticas como o nosso. Agora o povo já não éramos só "nós", que chatice, que aborrecimento, o povo éramos todos. E o povo saiu à rua. Quando gritar já pouco resolve.Por desespero e por já não acontecer só aos outros: maus motivos.  Eu não acredito que medidas a estrangular a economia resolvam coisa alguma per se, por uma simples lógica de dona de casa. Também me parece que, boas ou más, as "soluções" não tenham sido comunicadas da melhor maneira. Creio que estamos desnorteados e reféns de directrizes que nos ultrapassam. Com a nossa liberdade de acção tolhida. E é isso que me deixa triste. Quatro ou cinco anos antes, esta manifestação poderia mudar alguma coisa. Poderia mandar uma mensagem lá para fora. Tal como outras formas de intervenção cívica. Votar em  vez de ir à praia, por exemplo. Intervir nos locais certos. No seio dos partidos, para quem é militante de um partido, mas só lá aparece quando o rei faz anos. Nos órgãos locais. E até nas redes sociais, mas em tempo útil. Com genuína preocupação por todos, porque é isso que faz a força de um povo. 

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