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Saturday, October 13, 2012

Quando eu era pequenina...

Não se iludam com o ar santinho...quando tiver tempo vou digitalizar algumas que mostram o verdadeiro eu da Sissi miniatura.

               ...ouvia inúmeras vezes os adultos gritar do outro extremo da casa:

                 - Sissiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

                 - Sim, avozinha/mamã/papá? (com mais ou menos sotaque, conforme a época; aprendi a falar muito rápido e só nos primeiros tempos dava pontapés no português: por exemplo, dizia "manana" em vez de "malandra", adjectivo que como podem imaginar, me atribuíam com frequência).
                                 
              - O que é que tu estás a fazer?
                                                       
               - *Glups* Eu? Nada, nada...porquê?
                          
               - Hummmm.... é que estás muito calada.

E geralmente, tinham razão. Quando eu andava silenciosa muito tempo era sinal de estar entretida, e estar entretida significava geralmente tramar alguma: fazer experiências científicas que acabavam com tubos de ensaio partidos e coisas a deitar espuma, trepar a bancos e estantes para brincar com os cosméticos, subir ao sótão sem licença, fugir para o pinhal, esgravatar na terra, deitar fogo a qualquer coisa...
  Ainda hoje, quando estou muito calada "não a estou a fazer boa" (ou estou, depende) e é desses momentos de introspecção que saem as minhas ideias mais peregrinas - prova da personalidade vincada de certas crianças...

                                                    

O fim de Gossip Girl (e dos gossips da vida)


Parece que a série que apaixonou adolescentes e jovens adultos - responsável pela disseminação de uma certa loucura fashionista e por inspirar muita cabeça oca à escala global - vai finalmente chegar ao fim, depois de arrastar a sua agonia ao longo de seis anos e cinco temporadas. A final season, de dez episódios, dá o golpe de misericórdia nas aventuras de Blair e companhia. Confesso que no início achei uma certa graça ao enredo (claramente baseado em Cruel Intentions e portanto, em Les Liaisons Dangereuses, um dos meus livros/filmes preferidos) à fotografia e é claro, às fatiotas - mas percebi logo que seria uma história boa para filme ou mini série. As personagens perderam motivação, carácter, substância; mantinham-se por ali não se sabe para quê, a fazer coisas cada vez mais distantes do propósito para que tinham sido criadas. Andavam pela trama a pisar ovos muito depois daquilo que devia ter sido o seu clímax. Se Gossip Girl tivesse durado três temporadas seria uma série perfeita no seu género. Assim, foi uma seca: é impossível prolongar ad nauseam uma história que assenta em...tricas e mexericos. Tal como na vida real, aliás. As coisas superficiais têm a sua piada, mas se não possuírem outro conteúdo acabam por se tornar monótonas. A perversidade e a futilidade sempre, cansam. São como a pimenta: sabe bem em pequeninas doses. As pessoas têm mais que fazer. Sinceramente, quem no seu perfeito juízo quereria ter relacionamentos daqueles e estar rodeado de gente em quem não pode confiar? Good riddance, Gossip Girl...e gossip people da vida. Não fazem cá falta nenhuma.

Patetice do momento

Não sei se é da proximidade do Halloween, do consequente início da nova temporada de The Walking Dead ou de tantos espantalhos que andam por aí, a mexer-se só por ver andar os outros, mas estou com uma vontadinha de fazer a coreografia do Thriller que nem imaginam. Can I have volunteers?

               

               

I always feel like somebody´s watching me...

                                                               
                                     

Who´s playing tricks on me?


Já tiveram essa sensação desagradável? 
Sentirem-se observados, ou saberem de fonte limpa o que é dito...ou conspirado. Uma pessoa de bem é como os três macaquinhos: see no evil, hear no evil, speak no evil.  Outra pessoa de bem, mas dada aos seus pecadilhos, age da mesma maneira - porém,  faz vista grossa às pequenas transgressões, suas e dos outros, que não prejudicam ninguém, que isto a vida são dois dias. Mas uma pessoa de bem, dada ou não a pecadilhos (que ninguém tem rigorosamente nada a ver com isso) mas com algum mundo e capacidade de se defender pode não ver mal em tudo, mas não ignora que ele espreita às vezes. Por isso, tem um arsenal à mão para o que der e vier. Mesmo que pareça muito calada e quieta a tratar dos seus assuntos, sabe exactamente o que possam andar a urdir nas suas costas. Quando lhe ocorre aquela estranha sensação "alguém me anda a observar" (ou a tramar alguma) nunca é apanhada desprevenida. Pode não ver mal em tudo,não dar ouvidos a maledicências nem alimentá-las, mas sabe muito bem distingui-lo quando o vê ou ouve na boca ou nos actos de alguém. O mais extraordinário é que quem o pratica, quem o vê em todo o lado, quem lhe dá ouvidos e quem o semeia cada vez que abre a boca toma os outros por cegos, surdos e mudos. Ser discreto não é ser parvo, muito menos uma vítima fácil. Valoriza-se muito a basófia e pouco a subtileza. O que dá muito jeito às pessoas de bem que embora não façam o mal, não têm contemplações quando ele espreita.  

                                  

                                         

Full metal jackets

Na Primavera passada trouxe para casa um blazer pequenino e cintado Fabrice Delfieu (costureiro dos anos 60 ligado a Christiane Bailly, designer da Chloe, e ao início do pret-a-porter). É a típica peça de boutique francesa, com um corte impecável e...metalizado, num tom de prata fosca. Praticamente igual ao de Blake Lively, mas prateado.Nada o meu estilo porque é raríssimo usar peças de cores espampanantes, mas foi um achado e pareceu-me tão original que não resisti. A minha ideia era limitá-lo a acompanhar vestidos ou trajes de noite discretos, porque - como comentei convosco - nem sempre é fácil encontrar agasalhos de que goste para smart dressing ou simplesmente, para uma saída informal à noite.
  O meu instinto estava mais apurado do que julgava, porque ao observar os resumos das tendências F/W 2012/13, reparei na trend dos tecidos metalizados. Se o barroco e oriental brincam sobretudo com dourados (em brocado, bordados ou dévoré) os  metalizados - do cabedal pintado ao lamé - oferecem um brilho despido de enfeites em tons de prata, ouro, cobre...ou mesmo verdete. 
 E surpresa, há quem os use de forma descontraída...mesmo antes do pôr do sol. Para evitar que uma peça bonita ganhe um aspecto "de circo" é preciso coordenar o metalizado com roupas e acessórios neutros  - ou pelo menos, com alguma sobriedade -  e manter o resto simples. Se assim não for, o look parecerá demasiado glam, e o que se procura é uma nota de atrevimento chic. Como se uma menina bem comportada roubasse o casaco de uma rockstar dos anos 80 e o vestisse por aí, misturado com a sua roupa habitual. O blazer será a forma mais versátil de investir na tendência sem grandes compromissos, mas por mero acaso um vestido muito parecido com o que Thalia Shedova usou em Veneza (abaixo, à dir.) veio parar ao meu armário...e um vestido longo brilhante é um investimento para anos. Afinal, é reservado a galas, digam o que disserem...e uma boa aposta para quem já tem alguns e quer fugir do preto. 
  Também há quem opte por uma saia, como Miley Cyrus de Moschino. Adoro o corte e a silhueta. A logomania e o resto...not my cup of tea, at all. Em todo o caso, esta é uma tendência a consumir com moderação - e exige parcimónia, especialmente se for misturada com outras. 


















Friday, October 12, 2012

Retrato de uma adúltera: a it girl crioula que conquistou Paris


Lembram-se de ter falado nos maravilhosos decotes de ombro-a-ombro da Belle Époque? Eis um dos seus mais belos exemplares, e a prova de que a elegância é intemporal: o vestido no Retrato de Madame X  podia perfeitamente brilhar em qualquer red carpet dos nossos dias.  Porém, quando  foi exposto no Salão de Paris em 1884 o Retrato de Madame X, de John Singer Sargent, causou um escândalo  e acabou de arruinar a já frágil reputação da socialite Virginie Amélie Avegno Gautreau - o protótipo supremo da parisienne sofisticada. Ela era uma beleza profissional (leia-se, uma mulher que usa os seus dotes para triunfar em sociedade) americana, mais concretamente de Nova Orleães - e toda a gente sabe o fatal encanto que se atribui às french creoulesTinha sangue italiano pelo lado paterno; por via materna, descendia de aristocratas franceses. Cresceu numa típica plantação sulista, a Parlange Plantation. Com a Guerra Civil Americana e a morte do pai, a mãe de Virginie levou-a para Paris, onde foi educada e apresentada à sociedade.Uma southern belle com o porte e a astúcia das meninas de boas famílias sulistas não podia deixar de perturbar Paris.  As feições delicadas, a pele alvíssima (que ela realçava com pó de lavanda) e a figura de ampulheta rapidamente a tornaram célebre. Aplicar henna no cabelo e nas sobrancelhas  era outro dos seus segredos de beleza. Os admiradores rodeavam-na, as homenagens sucediam-se: a beleza estranha, elegância e estilo de Virginie fascinavam os salões.
   Casou com Pierre Gautreau, banqueiro e magnata, mas nunca lhe foi fiel. Muito dada a aventuras adúlteras, comentadas à boca pequena nos salões parisienses, as suas indiscrições eram toleradas -  como era de rigueur naquele meio e naquele tempo. Mas a sociedade, que lhe perdoava os desvarios e os modos um tanto estouvados, não perdoou à beldade ter-se deixado pintar - uma senhora de sociedade não devia servir de modelo - muito menos tão decotada (as alças de brilhantes foram acrescentadas ao vestido após a exposição pública do quadro) e numa pose assaz sugestiva para os padrões daquele tempo. O escândalo provocado pelo retrato acendeu o rastilho dos mexericos que já a rodeavam e o bom nome de Virginie não recuperaria do golpe. Mas ela encolheu os lindos ombros e não quis saber: posaria para outros dois retratos. Um deles, de Antonio de La Gandara, era mais conservador e por isso, foi bem acolhido. Mas foi com o nome da obra de Sargent que Virginie passou à história: Madame X.
File:Antoniodelagandara- Madame Pierre Gautreau 1898.jpg
Madame Pierre Gautreau, Antonio de La Gandara, 1898
                                                       

Escovas Primark - at last

Já vos contei que gosto imenso das utilidades da Primark. Sou uma grande fã, por exemplo, dos toalhetes desmaquilhantes e do trio miniatura (escova, espelho e pente) para trazer na carteira, que não se encontra em mais lado nenhum. Há imenso tempo que queria comprar as escovas de cabelo com cerdas iónicas, sem sucesso. O facto de a loja de Coimbra estar a ter um êxito enorme não ajudou...sempre que lá voltei havia tanta gente que tive de encurtar o passeio. Esta semana fui duas vezes à procura - em dias úteis e de manhã, como costumo aconselhar a quem quer ver Primark com calma - e finalmente tive sorte. No primeiro dia só encontrei a Shampoo Brush (em baixo, à dir.).


O que eu queria mesmo era a versão Primark da Tangle Teezer (imagem à esq.) mas não havia. Não sei exactamente a diferença entre as duas - parece que as cerdas da escova desembaraçante são mais longas e maleáveis - mas não notei grande diferença entre a Shampoo Brush e a Tangle Teezer original, que testei no cabeleireiro. Ambas deixam o cabelo muito solto, liso e fofo. Alguém já experimentou a da Primark?  Na tentativa seguinte já consegui trazer comigo as escovas de dentes iónicos, que reduzem o frizz e dão brilho ao cabelo: duas cerâmicas e uma  larga para cabelos longos. A escovinha para ripar o cabelo também veio,porque ouvi excelentes críticas a esta pequena engenhoca. Com preços entre €1,50 e €2, vale bem a pena experimentar. Boas escovas nunca estão a mais...



Este blog não se chama Santa Sissi!


Nem Sissi, a Sabichona - ponha uma moeda no poço e conheça o seu destino! Ou Sissi, a Malvada - mordo, arranho e detesto toda a gente, não obstante a rubrica "Eu embirro com". Muito menos Imperatriz Sissi, a Majestosa e Venerável, prestem-me vassalagem e é se querem. Sou a Sissi, a Godmother/Patroa deste espacinho simpático que é o Imperatriz e já é muito, porque eu só gosto de mandar no que me pertence - reinar é uma responsabilidade muito grande. O caminho para a santidade é árduo, a vida já tem chatices de sobra e eu não tenho jeito para mártir. Para Sabe-Tudo não tenho paciência, nem pretendo tal coisa, até porque no one likes a know-it-all. E apesar de não ser santa, nem estar escrito em lado nenhum "este é oficialmente um blog fofinho e cuti-cuti" procuro dizer as coisas com uma certa delicadeza, porque não há nada mais feio que ofensas gratuitas ou gente sempre crispada, de mal com a vida. Dou a minha opinião; não afirmo "Eu Sou o Caminho - segui-me, que andais cegos!" tão pouco espero que a considerem como um estudo científico revolucionário, a adoptar pelos manuais e a impor à sociedade. Este blog é meu, já tenho dito que não é uma democracia e que  - dentro da decência e da Lei - coloco aqui os devaneios que bem me passarem pela carapuça, para citar uma cara blogger muito talentosa. Logo, considerando que não ando por aí a tratar mal as pessoas ou a dizer que sou a maior,  mas que também não sou santa, acho incrível que certos caramelos se sintam no direito de vir aqui dizer disparates contando que a peste da Sissi, para com eles e só para com eles, tenha um ataque de santidade e dê a outra face. Caladinha, superior e magnânima. Não queriam mais nada? E por aqui me fico, até ver. Espanta-me sempre a quantidade de pessoas chatas, amargas e mal amadas que andam a salivar e a rosnar pela blogosfera. E chá, não? Mais vale tarde que nunca, eu acho...

Thursday, October 11, 2012

Segunda pele: calças de couro


Créditos das imagens: Net a Porter
Lembram-se de vos ter falado nas calças saruel em couro, semelhantes às Givenchy? Agora que o tempo arrefeceu um bocadinho, pude finalmente levá-las a passear. Uma das minhas saias pretas de pele também já tinha dado uma voltinha, mas...as calças são menos cómodas, porque basta um pouco de calor para (mesmo sendo um modelo solto, como estas) se tornarem demasiado quentes. Coordenei-as com uma camisa branca de algodão, uns stilettos clássicos da minha colecção - que não magoam nem que se caminhe sobre pedras rolantes, e que já tinha saudades de usar -  e uma clutch vintage. Precisava de sair depressa de casa e essa é a vantagem do cabedal: uma peça basta para fazer a toilette, não é preciso mais nada.
                                          
Foi sorte adquirir, ao longo de várias temporadas, um número respeitável de peças neste material (não contando sobretudos e casacos)...e ter uma mãe que também as aprecia muito, logo, foi coleccionando. Algumas coisas do nosso acervo pareciam-me um pouco estranhas - como as saias largas, de formato tulipa - mas ainda bem que segui "the rule of the house": coisas de qualidade guardam-se, porque certos modelos em cabedal ou faux leather desta estação são francamente inesperados. Recordam-se da regra do smart shopping "compre quando há e pode"? Pois, foi o que aconteceu aqui. Para já ainda só usei preto, mas estou muito ansiosa por experimentar as calças em castanho: skinny ou soltas, como as de Ferragamo. Também em castanho ou verde, as saias, em versão pencil ou rodadas, como a de Olivia Palermo, permitem toilettes que não lembram a ninguém...mas muito giras. Por acaso apostei nas duas cores e não me enganei. (Logo vos mostro). E o que dizer dos vestidos e vários formatos de calças, corsários e calções? É claro que, para quem faz uma primeira aquisição em muito tempo, o casaco (com ou sem guarnição de pelo) a saia lápis ou as skinny pretas são a opção mais segura e intemporal...mas viva a variedade! E este é definitivamente um bom ano para escolher peças que vão durar bastante tempo...

           


                                         


As linhas de Wellington

Falem-me de um filme de época com grandes actores nacionais - e já se viu que Portugal produz bom cinema neste género - e um grande senhor que me convence a ver qualquer coisa, John Malkovich. É claro que eu não podia perder As Linhas de Wellington. Apesar de estar em exibição em Coimbra por apenas dois dias, a meio da semana, não quis deixar de assistir. Fiquei admirada por ver a sala cheia, com uma plateia maioritariamente jovem. O filme tinha todos os ingredientes para me cativar e não desiludiu. É curioso que eventos tão trágicos e recentes como as Invasões Francesas (1807 - 1814) apesar de fazerem parte do nosso imaginário, sejam por vezes pouco discutidos  - inclusive nas escolas - e, não obstante as reconstituições históricas que algumas localidades vão realizando aqui e ali, muita gente não se recorde, ou não se aperceba, do horror que representaram para os civis portugueses. A brutalidade, a escassez, as tragédias, a violência perpetrada por todas as facções envolvidas, as consequências fracturantes para o País e as histórias humanas geradas pela Guerra Peninsular são material para muitos guiões. Ao concentrar-se no êxodo da população para chegar às Linhas de Torres Vedras, Valeria Sarmiento maquilha - ou omite - alguns dos episódios mais sangrentos e horrorosos; o terror da guerra é sugerido, mas quem não conhecer os factos  ficará com uma visão muito ligeira da realidade. Por outro lado, tal opção oferece-nos a parte saborosa de um acontecimento dessa magnitude: histórias de pessoas, com perfis e origens muito diversos, envolvidas na mesma luta pela sobrevivência.
 Isso cria oportunidade, como não podia deixar de ser, para um grande elenco - Catherine Deneuve, Vincent Perez, Chiara Mastroianni, só para citar alguns, fazem cameos que levam as pessoas ao cinema e acrescentam panache à produção. Porém, um dos pontos fortes da história acaba por se tornar no seu calcanhar de Aquiles - com tanta gente, tantas estórias cruzadas, é inevitável que se perca o fio à meada, que surjam alguns plot holes e que personagens interessantes fiquem pelo caminho sem que se perceba como ou porquê.  Por outro lado, numa situação daquelas o mais comum seria perder de vista pessoas que se tinham conhecido na viagem - e talvez seja isso que a realizadora quis demonstrar. Numa óptica de simples espectadora, estas foram as únicas falhas que me saltaram à vista.
Diálogos competentes, excelentes interpretações - fiquei impressionada com Carloto Cotta, Marcello Ugerghe e Victória Guerra, cujo trabalho não conhecia; Nuno Lopes e Albano Jerónimo fantásticos, comme d´habitude, e Soraia Chaves...é Soraia Chaves. Só não percebi como uma vivandeira falava correctamente espanhol e inglês, mas pus a imaginação a trabalhar e concluí que tivesse aprendido com os soldados. A voluptuosa Martírio é sem dúvida uma das personagens mais simpáticas do filme. De resto, um ritmo agradável, boa fotografia, e um figurino que não é de desprezar. O casaquinho encarnado usado por Clarissa (Victória Guerra, abaixo) era perfeitamente "vestível" hoje. Passei o tempo a olhar para aqueles folhinhos e a imaginar o que faria tirando-lhe a touca e adicionando um vestido e umas botas. Se Anna Karenina pode ter uma linha de roupas Banana Republic, não sei porque as Linhas de Wellington não poderá fazer o mesmo. Não estou a brincar - o nosso cinema tem de gerar dinheiro, e isso não passa só por fazer filmes "para comer pipocas" mas por ter merchandising associado a grandes marcas. Eu comprava!
Camponeses

Wednesday, October 10, 2012

Não estupidifiquem as crianças


                                              

Ouvi dizer que uma personagem chamada Xana Toc Toc encheu o Coliseu. Quem não conhece, clique no link para se maravilhar...

                                       
Não pretendo com isto ofender, nem amesquinhar o trabalho de ninguém. Queiram desculpar, mas há um paradoxo que me custa entender. As crianças de hoje, no privado ou na escola pública, têm mais actividades extra curriculares do que eu alguma vez sonhei (e olhem que eu já não tinha poucas); são versadas em informática; vão para a primeira classe (perdão, primeiro ano que isto agora é muito politicamente correcto) já a saber ler, escrever e contar, pois a "pré" (termo detestável) mais parece a recruta do exército; são todas hiper activas, todas índigo, todas sobredotadas, ou pelo menos é o que os pais acham. Se antigamente "tudo se criava" e as crianças eram para ser vistas e não ouvidas, agora para criar um ser humano sem o traumatizar são precisos quilos de manuais de psicologia, infinitas técnicas, pinças cirúrgicas, vénias que nunca mais acabam. São super protegidas, super mimadas, super estimuladas. E no entanto...é preciso a Xana Toc Toc para as ensinar a bater a uma porta? Ora expliquem-me lá devagarinho, porque eu ainda sou do tempo da Ana Faria Brincando aos Clássicos, do José Barata Moura,

                                                                              D. Eustáquio Rebuçado

mais parece uma cebola
anda tão enfarpelado
que já não anda... rebola

Traz tantos tantos fatos
que quando passa agora
é uma bola de trapos
com o nariz de fora

Porque ele traz sempre vestido:
capa, capote e cachecol,
gabardine e sobretudo,
chapéus de chuva e de sol
e por baixo disto tudo: 
casaco, casaquinho,
casequeta e casacão;
camisa, camisinha,
camisola e camisolão.

do Avô Cantigas -  mas não desta versão esquisitoide, 3D e simplista do Fantasminha Brincalhão.  Na minha infância, o Avô Cantigas tinha um disco fantástico, Histórias do Corpo Humano, de produção musical extraordinária, com letras inspiradas e complexas o suficiente para nos fazer pensar. (Podem ouvir o resto deste tesouro aqui).
Cresci com os contos de Grimm, com as histórias da Formiguinha, de D.Ana de Castro Osório, com os contos tradicionais portugueses recolhidos por Teófilo Braga, com os livros de Alice Vieira e de Luísa Ducla Soares, entre tantos outros.

"(...)imaginam o que seria se uma omelete se erguesse do prato e vos desse uma bofetada, a sopa se atirasse sobre a vossa cabeça, a laranja vos desse um chuto ou se as amêndoas da Páscoa , irritadas, começassem às pedradas contra vocês?..."


                         Luísa Ducla Soares, O Vampiro que bebia groselha



Ilustração de Carlos Alberto Santos,
"Histórias do Avozinho"
                                                                 
Os meus livros infantis tinham ilustrações que se prezassem, não stick figures abstractas e parvas a imitar os desenhos infantis, como está na moda agora. Eu queria era ver desenhos que me fizessem sonhar e me inspirassem, porque para rabiscos bastavam os meus (e eu até tinha bastante talento para o desenho, não me contentava com qualquer coisa). Pelo meio, lia alguns livros não exclusivamente dedicados a crianças, porque os meus pais nunca me tomaram por idiota, não me permitiam que falasse à bebé e certamente, iam ficar horrorizados se eu achasse graça a coisas condescendentes e tolas como Viky, o Pequeno Golfinho, Ruca (que dá pontapés ao próprio pai) e outros horrores do género. Por isso, desculpem lá se não entendo como pais  conscientes - que ainda por cima consideram que as suas crianças são especiais, de uma super geração - levam  inocentes ao coliseu para os sujeitarem a uma sessão de terror supostamente pedagógico, a um espectáculo destituído de qualquer desafio intelectual, de humor remotamente inteligente, de espírito crítico e e última análise, de imaginação. Xana Toc Toc, a menina queira desculpar também - não é por mal, sou eu que venho mesmo de outro planeta.

O lado negro: impossible to love



Não se pode amar o impossível; é preciso que quem quer ser amado permita ser amado. Intensidade não basta. Paixão não basta. Desejo não basta. Irradiar tudo isso atrás de grades - eu quero, eu posso, eu comando - e não se deixar tocar anula toda e qualquer possibilidade de concretização, de certeza, de confirmação. Não se pode gostar do que não tem forma. E em alguns casos é pior ainda, pois não se pode amar o que está  irremediavelmente fragmentado, dividido em duas faces distintas. Lado negro todos temos, mas há quem tenha uma face lunar demasiado intensa, ou se deixe dominar por ela. Não é difícil reconhecer esse tipo de pessoas: à primeira vista exercem um estranho fascínio, como  plantas venenosas de bonitas pétalas. Como rosas negras. Têm um magnetismo estranho, semelhante ao de certas serpentes - parecem atrair, mas simultaneamente, repelem. Irradiam uma vibração de chumbo, que provoca a sensação de um narcótico suave. Pálpebras pesadas; peso no coração; tonturas; aquele pressentimento "eu não devia estar aqui" e de receio inexplicável. Têm o apelo estranho dos vampiros e dos demónios - um olhar penetrante, gestos lânguidos, gostos requintados. Esse é o momento de fugir - porque se não for nesse instante, é tarde demais. À luz do dia, essa estranha sensação atenua-se. A presença do sedutor estranho torna-se familiar, confortável, natural mesmo. Tão natural que parece que sempre se conheceu aquela pessoa. Mas a bonança dura pouco. É uma questão de tempo até que o lado negro leve a melhor, até que o gémeo malvado saia do seu covil, manipulador inato, destruindo-se a si mesmo e envenenando tudo à sua volta. Nessa altura, a presa está demasiado enredada para escapar...embora consciente de que não pode, nem poderá no seu juízo perfeito, amar com sinceridade quem transporta um passageiro negro dentro de si. Não há onde se agarrar, não há por onde se apegar, a estabilidade não pode existir, nada pode nascer ali. Obsessão, drama, delírios, excessos, angústia, uma força inexplicável que os prende um ao outro até à loucura - certo. Mas enquanto o lado negro reinar, nada de bom pode ser construído. Como na história de Oscar Wilde, há que destruir o retrato que encerra o monstro, quebrar o encanto satânico de uma ligação desse género. E isso pode levar anos, ou nunca acontecer de todo. A saída é uma fuga desesperada pelo meio do nevoeiro, até zonas mais luminosas e serenas. Ficar, na esperança de uma redenção que tarda em chegar, é um acto tresloucado. Mas esse é o grande problema destas histórias: a loucura é contagiosa.

Certo e errado: a tendência do couro

Meninas que vão aderir à tendência do couro* : eis uma inspiração para conseguir o efeito certo, sem excessos nem complicações. Na apresentação da colecção S/S de Vera Wang em Nova Iorque (11 de Setembro) a actriz Yao Chen deslumbrou na primeira fila. A receita foi simples e certeira: calças skinny de pele, uma t-shirt estampada da designer anfitriã, pumps pretos altíssimos sem qualquer adorno e uma clutch da colecção Anna Dello Russo para H&M. A maquilhagem básica e sofisticada fez o resto: qualquer vírgula que se acrescentasse ao look estragaria tudo.  Embora o cabedal apareça em peças inusitadas (ou há muito relegadas para os estilos alternativos) nas colecções deste Inverno, o material em si já é tão impactante que todo o cuidado é pouco nas misturas que se fazem. O visual de Yao Chen é trendy, mas também tem um chic intemporal. Algo que se obtém usando uma só "peça-tendência" e deixando o resto discreto. Neste caso, a clutch aponta para a trend barroca, mas sendo uma peça pequena, não briga com o resto.

   Jessica Biel, por seu turno, misturou três tendências (pelo menos) ao vestir Isabel Marant da cabeça aos pés. Nem a carteira escapou, benza Deus. É encarnado. É couro. É tachas. É aplicações douradas. São as botinhas da moda. Um overkill, já que as peças se abafam umas às outras. Deve ter sido divertido sair à rua mascarada de rockstar. Se é um look correcto ou que a favoreça, isso já é outra história...


*(mais sobre o assunto daqui a pouco)

Tuesday, October 9, 2012

Pergunta da noite: ex namorado




Apesar de estar a ter uma noite ocupada, uma dúvida que não me larga 
fez-me vir aqui pedir a opinião às minhas amigas leitoras. Os meninos que se queiram amavelmente voluntariar também têm a minha gratidão. Ora aqui vai: 

Se um ex namorado vosso, bem apessoado, sem defeitos de maior e que sempre conheceram como rapaz são, escorreito e selectivo, desata de um momento para o outro a aparecer com um chorrilho de namoradas do piorio - verdadeiros camafeus, com mau ar e uma proveniência a tender para o reles - qual é a vossa conclusão?


Hipótese a) Vaidade: Sou mesmo o melhorzinho que já lhe aconteceu!

Hipótese b) Vendetta: é muito bem feito; não é mais do que mereces, crápula.
Hipótese c) Medo: o que é que isto diz de mim???
Hipótese d) Remorso: Meu Deus, dei cabo dele! Nunca mais foi ninguém desde que nos separámos!


   You tell me....







Inspiration: Pace Wu

                          
O Extremo Oriente tem uma tradição secular de elegância e não é de admirar que as beldades asiáticas nos surpreendam de vez em quando com visuais lindíssimos. Depois de Fan Bingbing deslumbrar em Cannes este ano, a actriz e modelo Pace Wu, de Taiwan, tem arrancado os maiores elogios na Semana de Moda de Paris. A saia Chloe que partilhei no IS esta semana foi apenas um dos muitos looks interessantes que passeou pela Cidade-Luz. Mas não se julgue que a conquista de Paris foi ocasião única: a menina aparenta um gosto imaculado (e/ou um stylist competente) e ao que parece, conta com o carinho de algumas das maiores griffes da indústria. E percebe-se porquê...pessoalmente, gosto-lhe muito não só das toilettes, mas do styling depurado, a deixar brilhar as roupas e a sua beleza natural. E nisso, já vimos que as it girls chinesas não erram. Luxo sim, mas com simplicidade. (Imagens com legendas retiradas deste altamente recomendável site).

Pace Wu Clothes


Alexander Skarsgard + Calvin Klein = true sexy is back

Alexander Skarsgard, o vampiro viking de True Blood, juntou-se à bela Lara Stone para a campanha do perfume Encounter, de Calvin Klein, que já está espalhada por tudo quanto é montra. A imagem - apesar de assinada por Steven Meisel - não me entusiasma por aí além. É muito romântica, mas poderia ser melhor, mesmo tratando-se de Calvin Klein que como todos sabemos, prefere um minimalismo elegante a exuberâncias desnecessárias . Acho uma pena que se veja tão pouco de dois dos corpos e caras mais bonitos da actualidade, mas isso sou eu que não gosto de desperdícios. Do short film (ver abaixo) já gosto mais....traduz a tensão que antecipa um encontro muito desejado, com os elementos da natureza a acompanhar violentamente o rendez-vous. No todo, é de aplaudir o esforço. Ao fim de anos de campanhas imberbes e um pouco sem graça a dominar a mensagem das marcas, eis que voltamos a ver suportes protagonizados por celebridades com substancia, que fazem sonhar. Ele parece um homem, ela parece uma mulher - belezas muito másculas e muito femininas, a recordar as divindades gregas. Too sexy is dead - true sexy is definitely back.

   

Net - a - Porter: o Diabo veste básicos




Estou convencida de que revista da Net-a-Porter, que mencionei noutro post, só pode ser uma invenção do demo. Não está certo que uma pessoa abra o mail a pensar em coisas sérias e se depare com roupas que são um caso sério à distância de um clique. A tentação não se deve só às peças que vendem: o gosto dos editores é soberbo. Desencantam combinações lindíssimas para nos deixar rendidas logo pela manhã e os conteúdos são informativos in a nutshell. Desta vez, lembraram-se de ilustrar seis básicos indispensáveis num guarda roupa com peças de casas que os popularizaram, ou que os fazem magistralmente: o smoking de senhora Yves Saint Laurent, o trench coat Burberry, o vestido de cocktail Lanvin, o day dress Chloe, o fato bem cortado Stella McCartney e  as power pants Isabel Marant. Estas últimas - independentemente de eu não lhes achar piada - não faço ideia como são consideradas básicos. Básico seria a calça cigarrette preta ou os jeans escuros, mas ninguém é perfeito. Perfeitos, perfeitos, são os exemplos escolhidos. Obras de arte! E como toda a gente sabe, the Devil is in the details....

Mulheres de armas


                                
Numa das zonas mais pobres da exótica Índia há um grupo de mulheres que luta, literalmente, pela justiça. Chamam-lhes "o gulabi gang" ou "o gang dos saris cor-de-rosa" e estas mulheres têm vindo a ganhar não só a admiração da população mas o respeito (e o medo!) dos malfeitores e das autoridades. Armadas de "lathi" (varapaus de bambu) as justiceiras, lideradas por Sampat Pal Devi -  ex funcionária  pública que casou aos 11 anos e é mãe de cinco filhos-  combatem a violência doméstica e a corrupção local. Quando uma mulher procura as vigilantes a queixar-se de violência por parte do marido ou do sogro, o grupo tenta chegar a um acordo verbal com o agressor. Se este não cumprir...elas vão atrás dele e dão-lhe a provar do seu próprio remédio. Em três anos, o movimento ganhou 10 mil adeptas que têm evitado casamentos forçados, obrigado a que a polícia aja em casos de violação e impedido que a corrupção e a prática do suborno privem a população carenciada do fornecimento de água e comida.
Sampat, que teve de fazer frente ao sogro para não usar véu, ao pai para poder frequentar o colégio e ao marido pelo direito a sair de casa, considera-se valente e quer ensinar outras mulheres a reclamar o seu poder. É ela que as treina no uso do lathi para envergonhar publicamente - e caso não se retratem, sovar sem contemplações - os prevaricadores. Embora a causa apelasse inicialmente aos direitos das mulheres, já há muitos homens que pedem ajuda ao "gang cor de rosa" em casos de injustiça contra os mais fracos. Este é um exemplo de algo que já tenho comentado por aqui...não importa a posição inicial de cada um, e sim a sua vontade de não se deixar amesquinhar. O caso recordou-me dois contos tradicionais portugueses, recolhidos por Teófilo Braga, em que mulheres pegam em armas para auto defesa: prova que sempre houve mulheres inteligentes dispostas a questionar o status quo e o abuso de poder masculino. Reproduzo-o aqui por palavras minhas:
sampat pal devi and members of the pink sari or gulabi gang
gulabi gang member aarti deviNuma aldeia, vivia uma mulher que era muito amiga do marido, mas por mais que ela fizesse, o malvado arranjava sempre pretextos para lhe bater. Todos os dias a pobrezinha levava uma tareia, e na manhã seguinte ia chorar para junto da amiga que morava defronte. Esta tentou a princípio ajudá-la a agradar ao marido,mas sem resultado: ele enchia a companheira de pancadas e depois gabava-se aos colegas, incitando-os a fazerem o mesmo, porque nada contribuía tanto para a harmonia conjugal como sopapos frequentes. Até que um dia a vizinha se cansou e armou um ardil. Vendo a amiga chorar novamente, cheia de nódoas negras, disse-lhe: " à noite deixa a porta aberta: se ele te bater, grita pelas Onze Mil Virgens, e verás!". Secretamente, pediu às mulheres da vizinhança que arranjassem uns véus brancos que as cobrissem de alto a baixo e uns varapaus sólidos, e ficou à espreita. Naquela noite, o homem parecia que trazia o diabo no corpo. Arranjou um motivo qualquer e vai de espancar a coitadita como se não houvesse amanhã. Tantas pancadas lhe deu que ela, não suportando mais aquele martírio, desatou a gritar: "Valha-me minha Nossa Senhora! Valham-me as Onze Mil Virgens! Acudam-me as Onze Mil Virgens!". Ainda palavras não era ditas e onze moçetonas entraram pela casa dentro e vibraram tantas cacetadas no cobardolas que o deixaram mais morto do que vivo. Depois partiram como tinham chegado. O homem ficou muito tempo doente e aos amigos que o vinham visitar, dizia: "olha que tu nunca batas na tua mulher. Crê que as mulheres são santas. Bati na minha, ela chamou pelas Onze Mil Virgens e olha o estado em que me deixaram. Ainda bem que lhe deu para chamar pelas Onze Mil Virgens e não pelos Doze Apóstolos ou não estaria cá para contar a história...sempre era força de homem!".



  







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