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Saturday, December 1, 2012

Adivinhem...

                                      
...onde estive hoje, muito bem acompanhada por pessoas fofas que só ensinam coisas boas e num ambiente natalício? Amanhã conto-vos tudo.
  E já agora, recordo que o passatempo Concreto está mesmo, mesmo a terminar. Restam 8 dias para concorrer -  por isso, quem não se habilitou, ainda vai a tempo, mas é melhor apressar-se antes que a correria da semana comece...

Eu não sou supersticiosa, mas...

                                  
... a noite de ontem deu-me que pensar. Primeiro porque o meu adorado Farinelli, ao fugir desesperado do gato do vizinho (pela segunda vez no mesmo dia; é obra) bateu contra o saco de compras que tinha acabado de chegar e partiu uma garrafa de vinho, e vinho bastante razoável, inteirinha. Não contente com isso, quando eu estava a guardar na despensa as garrafas que escaparam ao massacre, uma Coca Cola de dois litros salta da prateleira de cima com uma velocidade alucinante e vem esborrachar outro dos vinhos sobreviventes, que estava pousado, sossegado, aguardando a sua vez. Se tentasse ter tal pontaria de propósito, não seria capaz. Imaginam a maçada - além do desperdício, a cozinha ficou com um cheirinho bonito, que nem parecia casa de gente honesta...
Valha-nos que, para quem acredita em presságios, este é bastante auspicioso. Se entornar um copo de vinho é alegria, imaginem a coisa fenomenalmente boa que está para me acontecer, benza Deus. Não contente com isso, depois de me deitar tive um sonho tão maravilhoso, mas ao mesmo tempo tão vívido, que nem quero contar nada com medo que não se realize. Como estão sempre a suceder-me acasos estranhos - e felizmente, alguns não são prejudiciais, só dignos de figurar numa fábula qualquer - eu já não torço o nariz nem ergo as sobrancelhas a nada deste mundo para não me desdizer depois. É claro que se isso for verdade, hei-de partilhar o acontecimento extraordinário e os seus benefícios com os meus queridos seguidores - que as alegrias não têm metade da graça se não forem divididas com os nossos amigos. 

Friday, November 30, 2012

Cuidado: tomei o soro da verdade


De há alguns dias para cá não sei que bicho me mordeu, mas tenho de lhe agradecer porque foi um bicho deveras libertador. Apesar de eu nunca faltar à verdade acontece-me, como já vos tenho contado, morder a língua em prol do orgulho, da diplomacia, etc, etc, etc. Sucede que de um momento para o outro acordei virada para o outro lado e decidi não deixar nada por dizer, que isto o Ano Novo está à porta e não convém levar coisas atravessadas. Devo estar a passar por um trânsito astrológico estrambólico, porque o carácter virginiano não é nada assim - normalmente prefiro estar caladinha e usar de subtileza, mas o meu ascendente ariano ou Vénus em Escorpião devem estar a fazer das suas. Ou então é alguma coisa que anda no ar. Não sei onde fui buscar o atrevimento, mas que sabe bem desatar o saco, lá isso sabe. Tem sido uma limpeza completa - rua com as dissimulações, com as meias verdades, com os mal entendidos, com suportar fretes insuportáveis, com o nim e com o assim assim, a criar teias de aranha, complicações, trastes, arrependimentos e macaquinhos no sótão. 

Aqueles dias...



...em que uma pessoa bem se esforça por trabalhar e ter tudo pronto a tempo, numa autêntica corrida de obstáculos, mas está como em certos sonhos - em câmara lenta, com a gravidade ligada no máximo - e nada sai como deve ou quando sai, é tarde e a más horas?

...em que temos de lidar com as loucuras dos outros - once again -  e concluímos que por mais lógica que os nossos argumentos tenham, por mais verdadeira que seja a nossa versão, por mais que tenhamos razão, as pessoas só acreditam no que querem, na imagem distorcida que formaram na sua cabecinha, mesmo que isso lhes doa a valer? Até parece que preferem acreditar no lado negro da vida, sofrer, ver drama e perfídia em todo o lado, só pelo prazer de descarregar nos outros. Era preferível que deitassem tudo cá para fora de uma vez e caso arrumado, mas nada disso - bater no ceguinho, aos bocadinhos e de forma codificada, para assegurar que o cérebro de quem os rodeia começa a deitar fumo, é que é bonito. E mais uma vez se conclui que com os malucos não se discute...why bother? Boa pergunta.

...em que mal nos levantamos da cadeira para lançar mão a outra coisa, o *x#%#** do telefone começa a tocar...e lá se vai meia hora à vida?

...em que o gato vai para a rua sabendo que não deve ir, desata à tareia em cima do telhado com o gato do vizinho e uma pessoa corre para lhe acudir e escorrega - só para descobrir, dali a minutos, que o bicho se desenrascou perfeitamente e já está à porta com a maior cara de pau, como quem diz "mas o que é que andaste a fazer para demorares tanto a abrir a porta a uma pessoa?".

                         (Realmente, valha-nos Santa Sexta Feira...)

Tire partido do seu tipo

                           
              "Primeiro, descobre quem és; depois, veste-te de acordo"
Epicteto, filósofo grego (55- 135 DC)

Felizmente a beleza e a moda estão cada vez mais democratizadas, e no século XXI - mau grado as campanhas pró ou anti magreza extrema - já não há um só tipo considerado "ideal".  Esta tendência - consequência da evolução da sociedade e da reflexão sobre épocas idas -  permite uma maior diversidade, com silhuetas, idades, cores de pele e estilos de vestir muito diferentes a ser  considerados "bonitos" ou "inspiradores". Mesmo assim há muita gente insatisfeita, suando as estopinhas para caber numa determinada imagem. É certo que por vezes, somos incapazes de ver as nossas próprias qualidades e ninguém está 100% contente com o que Deus lhe deu. Mas qualquer mudança, seja a nível de styling ou de forma mais profunda (com recurso à cirurgia ou tratamentos estéticos) só surtirá bom efeito se estiver em harmonia com os traços originais. É preciso apreciar o que se tem, considerando que tudo pode ser melhorado dentro da beleza própria de cada um (a). Só assim a "nova" imagem parecerá confortável e natural. 

                  
Norma Jean Baker era uma rapariga americana bonita e bem feita, de traços regulares e cabelo louro - acastanhado, aparentemente igual a tantas outras. Mas bastaram retoques e uma pequena mudança de visual - tirar partido do seu tipo claro para se transformar numa loira platinada, criar uma maquilhagem específica, trabalhar a postura corporal e escolher as roupas certas - para que o seu carisma irresistível viesse à superfície. E assim nasceu um mito, Marilyn Monroe. 
                   
O mesmo vale para Audrey Hepburn, que devia a sua figura delicada à subnutrição causada pela II Grande Guerra. Foi preciso ver a questão por outro ângulo, realçar o seu porte aristocrático...e surgiu um ícone de estilo intemporal. Nenhuma delas tentou afastar-se demasiado da natureza...nem precisou. 
O visual de cada celebridade que vemos é pensado e trabalhado profissionalmente como se uma criação artística se tratasse, sempre tendo em conta os atributos naturais. É claro que a maioria das pessoas comuns não vive da imagem, mas pode mesmo assim criar a sua imagem de marca - um estilo próprio que lhe permita estar sempre bem sem muito esforço, gostar do que vê e transmitir confiança. Não há nada mais atraente do que uma pessoa que gosta de si mesma, nem segundas oportunidades para criar uma boa impressão. Quer isso nos agrade ou não, as aparências contam - e já que nos vão julgar de qualquer maneira, convém que possamos ter algum controlo sobre esse julgamento. Como se diz em marketing, se não criar a sua própria imagem, o público encarrega-se disso por si. Isto não quer dizer que tenha de ter um aspecto artificial ou embonecar-se muito se esse não é o seu estilo, antes pelo contrário.
 Ao escolher o "cartão de visita" com que nos apresentamos ao mundo há que ter vários aspectos em consideração: 

  - O nosso tipo de corpo
                                                       
As roupas certas podem transformar uma rapariga "cheiinha" numa bombshell ou uma jovem desajeitada numa manequim. Um homem grande ficará ridículo em roupas demasiado juvenis mas fabuloso de fato ou sportswear elegante e um rapaz magro tem muito a ganhar com um look dandy ou boémio. A figura com que nascemos não só determina  as proporções das peças certas para nós, como pode dar-nos pistas valiosas sobre o estilo que nos fica bem.


- Os nossos gostos, inspirações e estilo de vida
A nossa actividade social e profissional cria necessidades específicas, que influenciam boa parte do nosso guarda roupa. Mas além disso, é preciso usar o nosso instinto e imaginação. Que figuras ou personagens se parecem connosco? Há alguma pessoa/ época/ambiente que nos fascine ou inspire? Uma fã de Tolkien não achará prático andar mascarada no dia a dia, mas pode escolher roupas com uma certa aura pré rafaelita -  cores claras e bordados, por exemplo. Apesar das mudanças nas tendências, é natural que nos inclinemos mais para determinado tipo de visual. Podemos cultivá-lo com as devidas actualizações e adaptações às circunstâncias, criando uma "personagem" que sem ser artificial, diz muito de nós. É bom lembrar que o ser humano está programado para responder a "tipos" que possa identificar à primeira vista, reagindo de acordo.  A personalidade também conta: uma pessoa tímida pode sentir-se melhor com tons discretos, evitando a monotonia com apontamentos de cores vivas. Clássico, elegante, desportivo, criativo, romântico ou dramático, o estilo ideal para cada um é sempre influenciado pelas suas crenças, hábitos, gostos e expectativas.

- O nosso fototipo

É importante tirar partido da cor do nosso cabelo, pele e olhos. As pessoas mais bonitas, ou que possuem uma beleza realmente original, sabem realçar a paleta com que a sábia Mãe Natureza as dotou. É aconselhável fazer como Marilyn Monroe e escolher um estilo que, sendo próximo do seu natural (logo, simples de manter) crie uma imagem marcante. Cabelo e maquilhagem consistentes com o seu tipo associados à roupa certa para o seu corpo compõem imediatamente uma imagem, criam associações na mente de quem vê. É assim que funciona, e é preciso jogar com isso. As louras transmitem vulnerabilidade e inocência. Podem ser delicadas e altivas (Grace Kelly, Kate Blanchett) ou bonecas sensuais, como Marilyn, Jane Mansfield ou Brigitte Bardot. Uma rapariga alta e encorpada sair-se-á bem encarnando o tipo nórdico - a valquíria poderosa. Uma loura alta e magra pode brincar com o estilo "princesa do gelo" como Nadja Auermann. É preciso notar que quanto mais claro for o cabelo, mais cuidado deve ser o visual.


As morenas têm uma imagem forte, associada ao domínio, à novidade e ao exótico. Por algum motivo, a vilã dos contos de fadas, a espia ou a antagonista costumam ter cabelo preto. (A excepção é feita à Branca de Neve -a copiar por quem tenha um rosto angelical e grandes olhos expressivos). É um visual dramático, só aconselhável a quem é naturalmente assim ou está disposta a cuidar bem dele, porque tal como os louros platinados, exige um ar tratado e visual clean para não cair na vulgaridade. Raparigas que tenham o cabelo muito escuro podem optar por um "preto fingido" ou seja, um castanho que parece preto, normalmente mais "democrático" do que o asa de corvo. Há ainda look estilo Ava Gardner, para as mulheres de cabelo negro e tez clara; Elizabeth Taylor, para as meninas branquinhas e de olhos claros; Megan Fox, para quem tem olhos azuis ou verdes e pele cor de azeitona; já quem tem pele bronzeada, olhos e cabelos escuros pode transformar-se no protótipo da `morenaça´e exibir os seus encantos ciganos, como Salma Hayak. As asiáticas devem aproveitar a pele de porcelana com que nasceram. Agora estão na moda todos os tons de cabelo, mas o apelo exótico da `geisha´ ou da `China Doll´ continua a marcar pontos.

E as meninas afro? Da mulata dourada e poderosa (Tyra Banks, Josephine Baker, Queen Latifah, Beyoncé ) à deusa de ébano (Alek Wek, Beverly Peele) o imaginário não tem limites. Por sua vez, o castanho é considerado um tom de confiança. Não tem, por isso, de ser aborrecido ou comum, uma vez que existem centenas de nuances riquíssimas. Uma mulher de pele rosada e cabeleira castanha pode fazer o tipo "English Rose", como Kate Beckingsale. Os tons mais frios de castanho, nas morenas claras, transmitem sofisticação e requinte: pense em Jackie Kennedy. E não esquecer o impacto dessa cor  em contraste com olhos claros, imortalizado por Vivien Leigh. Quem tiver curvas de cortar a respiração pode inspirar-se em Sophia Loren ou Raquel Welch - nesse caso, aposte no cabelo comprido, que pareça um pouco despenteado. As ruivas não têm meio termo - ou se amam, ou se odeiam - mas do laranja flamejante ao encarnado, passando pelo Ticiano, acobreado ou auburn, há muitas formas de realçar o tipo "cenourinha" tão imortalizado pelos pintores. Ou se nasce ruiva, ou é preciso personalidade de ruiva - e de preferência, pele e cabelo claro -  para manter o look com alguma autenticidade, já que esta cor está ligada a uma imagem apaixonada, de rebeldia e mistério, de mulher que "ferve em pouca água". É uma cor intensa - desejada por toda a gente em determinadas épocas, e motivo para arder na fogueira noutras. Da ruiva sexy (Rita Hayworth) à sofisticada (Julianne Moore, Nicola Roberts) o cabelo ruivo acrescenta uma nota enigmática e vibrante, qualquer que seja o estilo da mulher que o usa.
 Quanto aos homens, aplica-se a mesma regra: o moreno pálido e misterioso (Ben Barnes, Johny Depp) o louro dandy (Dorian Gray) o morenão (Javier Barden) o louro vicking...já perceberam a ideia. 
Tudo isto são apenas exemplos que falam ao imaginário colectivo - haverá muitos mais e cabe a cada um (a) descobrir o tipo que o (a) favorece e que fala por si, em vez de se lamentar por não encaixar num determinado ideal - que não é melhor, nem pior, só diferente.
















Princesa de Éboli, ou "nunca enfureças um homem poderoso"

Doña Ana de Mendoza y de la Cerda, Princesa de Éboli, Duquesa de  Pastrana e Condessa de Mélito (29 Jun. 1540 – 2 Fev 1592) era - apesar de alegadamente um acidente de esgrima a ter deixado cega uma vista, o que lhe valeu a alcunha de La Tuerta (A Zarolha) - uma das mais belas damas de Espanha. 
 Outras fontes afirmam que não era realmente zarolha, apenas vesga, e que por vaidade usava com tanta graça  uma pala no olho direito. Nunca teremos a certeza: o que ficou para a história foi a sua formosura, acompanhada de um grande sentido de estilo e de gosto pelo luxo, de dimensões só comparáveis à sua queda em desgraça. 
Educada pela mãe, doña Catalina de Silva, filha dos condes de Cifuentes, desde cedo deu mostras de vivo espírito e inteligência, condições necessárias para representar a nobre família dos Mendonza, já que era filha única. Recebeu a educação que se destinaria a um filho varão: era uma esplêndida amazona e possuía uma cultura invulgar, interessando-se inclusive pela magia e esoterismo.  Os conflitos entre os progenitores - motivados pelos escândalos galantes do pai, D. Diego Hurtado de Mendoza - ajudariam a moldar a sua forte personalidade: orgulhosa, vibrante, de ânimo varonil e altivo. Com apenas doze ou treze anos de idade casou, em 1553, com um fidalgo portuguêsD. Rui Gomes da Silva, ministro e amigo afeiçoado de Filipe II de Espanha. A influência de D. Rui junto do soberano era tal que lhe foram concedidos os títulos de Grande de Espanha e Príncipe de Éboli, uma cidade no Reino de Nápoles. Por essa razão, era chamado Rey Gomez (uma corruptela de Ruy Gomez). O casal teria dez filhos ao longo dos anos. Entretanto, a beleza e vivacidade da princesa incendiavam a corte: a sua pele branquíssima, os traços correctos, a figura esbelta e modos encantadores, cheios de graça e sedução, viravam cabeças, tornavam-na popular. A jovem Isabel de Valois, terceira mulher do Rei, não ficou indiferente ao carisma de Ana: as duas tornaram-se tão amigas que a mãe da Rainha consorte, Catarina de Medici, chegou  a enviar presentes à Princesa. Porém, esta proximidade também permitiu que Filipe II  - então um jovem com menos de 30 anos, de bonita figura e grandes olhos azuis - se enamorasse perdidamente da Princesa de Eboli. Rezam as más línguas que Ana de Mendonza o detestava em segredo e que a régia paixão não seria correspondida.
Fossem quais fossem os sentimentos da Princesa, não havia como contrariar os desejos do monarca. O affair terá acontecido no maior secretismo, e D. Rui passou para o outro mundo sem se aperceber da dupla traição. Desgostosa, Ana encerrou-se num convento - mas o seu carácter vaidoso e soberbo não se coadunava com as regras. Acabaria por regressar aos seus domínios, depois de lançar a confusão no mosteiro com os seus desmandos e exigências. Regressou à vida pública após três anos de reclusão. Foi então que se cruzou com o substituto do defunto marido junto do Rei, Antonio Perez - e  o encontro com o jovem e atraente Secretário revelar-se-ia fatal para a princesa. Rezam os rumores que os dois, igualmente jovens, belos e ambiciosos, se envolveram num romance que terá chegado aos ouvidos de Filipe II. Ciumento, dominador, o Soberano terá urdido uma intriga política de tal forma intrincada - implicando o casal em acusações de tráfico de segredos de Estado e no assassinato de Juan Escobedo, antigo protegido do Príncipe de Éboli - que durou mais de dez anos, até ao fim da vida de ambos. Os dois foram presos sem acusação formada; Perez foi torturado e condenado à morte, escapando por várias vezes da prisão com a ajuda de amigos e partidários leais. Morreu em Paris na mais absoluta miséria, sem nunca obter o perdão real. Quanto à Princesa de Éboli, morreria em prisão domiciliária, na sua casa de Pastrana.
  O relacionamento entre a Princesa de Éboli e o Senhor das Espanhas nunca foi comprovado pelos historiadores, mas é apontado como causa provável para a perseguição de que a infeliz beldade seria vítima: Rei ou não, só um homem despeitado, possessivo, ferido no seu orgulho de amante atraiçoado, poderia proceder com tanto furor, com raiva incansável. 















Thursday, November 29, 2012

Coisas que me metem medo: leite com nata

Visão traumática
Há pouco fui fazer um chocolate quente e por uma fracção de segundo, arrepiei-me toda: pareceu-me que o leite tinha uma nata, uma malfadada de uma nata. Afinal era só um grumo de chocolate - mas bastou para me dar a volta ao estômago e disparar-me, em grande velocidade, para o passado. As natas do leite são coisa cada vez mais rara hoje em dia (para mim, pelo menos) talvez devido ao hábito de aquecer as bebidas no microondas, ou talvez porque lá em casa aprenderam depressa que as natas só tinham paralelo, no quesito de me horrorizar, obrigar-me a fazer caretas e entrar em modo gremlin, com a clara do ovo (long story, um dia conto a saga). Depois de muito blheeeeeec, de muita cena, de muito "é só uma nata, espera que eu filtro o leite, mas é preciso esse escândalo todo?" enquanto eu saltitava em pânico à volta da mesa, acharam mais prudente deixar-me tomar o pequeno almoço e lanchar da maneira que me parecia melhor. Leite frio com Ovomaltine acompanhou muitos dias da minha vida. O pior é quando lanchávamos fora, muitas vezes em casa de uma das minhas tias: ela servia sempre bolo de Ançã quentinho com manteiga e café e eu, que não gostava lá muito de comer, achava a maior das graças àquilo tudo -  talvez pelo cheiro do bolo acabado de cozer, talvez pela companhia ou pelo ar puro que me abria o apetite. E a tia oferecia-me café, coisa que lá em casa, temendo ataques de mau génio, não se dava às crianças sem mais aquelas. Por mais que se insistisse que não era café, mas Mocambo, teimavam comigo que a hipotética cafeína tinha de ser cortada com leite. Leite acabadinho de ferver...e com nata. Eu tentava fazer cerimónia mas era mais forte do que eu. Lá acontecia o arrepio, o blheeec, o nata não, nata não, nata não, com o meu irmão e os meus primos a fazer coro por contágio "o quêêê, se o leite tem nata também já não o bebo!"  apesar dos avisos " modera-te senão os teus primos também não querem lanchar!" e a outra tia "deixe lá, se ela não quer a nata, não quer a nata!" e já não sem quem a dizer que encontrar nata até não era mau de todo, só para nos arreliar ainda mais, o que lançava um blhec geral. Acabei por ganhar e o Mocambo ficou, a bem do sossego, que para desatinos já bastavam os tios a discutir futebol e política... 
Tenho para mim que obrigar pessoas a beber tal coisa devia ser considerado uma eficaz e atroz forma de tortura, de deixar os chineses envergonhados.
Ainda hoje prefiro acompanhar bolos e coisas semelhantes com café preto, e não consigo olhar para um galão sem que me assalte a tentação de perguntar ao empregado de mesa "é sem nata, não é?". Natas só batidas, em chantilli ou em pastéis...

O ciclo das relações em quatro canções

                                
Eu tenho a mania de me apaixonar pelas canções consoante a letra. Uma melodia invulgar capta-me logo a atenção, arranjos extraordinários cativam-me e dão-me vontade de ouvir mais, mas são as letras (pela história que contam, por versos marcantes ou pela situação que retratam) que decidem se um tema fará ou não parte da banda sonora da minha vida. Algumas até podem ser de artistas que não me dizem muito, de um qualquer one hit wonder da vida ou de um género que foge aos meus preferidos, mas se me tocam ou traduzem ideias que gostaria de expressar, cá ficam. E no que respeita aos amores, tema estafado ad nauseam por poetas e cantores mais ou menos bafejados por Apolo, a música é particularmente eloquente. Poder-se-ia contar uma história de amor (princípio, meio e fim, seja o final feliz ou não) com uma mão-cheia de cantigas - e nem precisamos de ir aos clássicos, o pop é óptimo para isso.

1 - See it in a boys eyes, Jamelia: flirt que não ata nem desata
Esta canção sempre me encantou, talvez por ter tido a mão de Chris Martin (Coldplay) que emprestou uma profundidade inesperada a um simples tema comercial. Há poucas situações tão angustiantes como duas pessoas que gostam realmente uma da outra, mas não avançam por uma série de complicações. Quando uma rapariga se encontra numa situação assim, de jogos e enigmas, só pode tentar ser razoável e procurar pensar como um homem. (Gosto muito de canções em que o narrador tenta colocar-se no lugar da pessoa amada, como verão). O videoclip é genial e tanto ele como a canção inspiraram Beyoncé Knowles a escrever um dos seus temas mais interessantes, If I were a Boy...que retrata um tema parecido: põe-te no meu lugar e saberás como me sinto.


Comrade I don't feel the same
With my foot to the floor

Hear my key turn in the door
Holding back what's in store
When a girl wants a little bit more



What's a girl like me to do
When she don't get a thing from you
I wanna go where you're going to
Have to do what you have to do
What's a girl supposed to try
When all you do is criticise
Pretty soon you'll realise

I can see it, I can see it in a boy's eyes


2 - Bad Romance, Lady Gaga: tudo ou nada
Goste-se ou não da nova Rainha/Princesa (whatever) da pop, é inegável que as algumas das suas canções têm mais que se lhe diga do que parece à primeira vista. Bad Romance é uma delas. Uma história de amor pode ser imperfeita, ter todos os defeitos e inconvenientes à face da terra, mas quem está de facto apaixonado prefere um romance de cordel, um amor-ódio, à indiferença de uma amizade morna. Só a ausência de paixão permite uma amizade verdadeira entre duas pessoas que estiveram emocionalmente ligadas. Sustentar o contrário é hipocrisia, e Bad Romance traduz isso muito bem:

I want your love


I want your drama, the touch of your hand
I want your leather studded kiss in the sand
I want your love
Love, love, love, I want your love
You know that I want youAnd you know that I need youI want it bad, bad romance

I want your love, and I want your revengeYou and me could write a bad romanceI want your love, and all your love is revengeYou and me could write a bad romance
I want your love, and I want your revengeI want your love, I don't wanna be friends
Oh, caught in a bad romance


3 - Running up that Hill, Kate Bush: desaparecer no outroOutra canção do ciclo "põe-te no meu lugar" esta com uma tónica um pouco mais tangível, que aborda tanto o lado físico como o emocional . Num relacionamento avassalador, há a vontade de compreender profundamente as emoções e sentimentos do outro. Quanto mais se tem, mais se quer - as coisas tomaram forma, mas é preciso moldá-las. Quando os sentimentos estão à flor da pele, qualquer falha de compreensão pode ser fatal, ditar a comunhão absoluta ou uma tempestade de consequências imprevisíveis. Não é a minha canção preferida de Kate Bush (prefiro os seus trabalhos anteriores, que se afastavam mais do mainstream) mas o poema é belíssimo: 

It doesn't hurt me. 
Do you want to feel how it feels? 
Do you want to know, know that it doesn't hurt me? 
Do you want to hear about the deal that I'm making? 
You, It's you and me. 

And if I only could, 
I'd make a deal with God, 
And I'd get him to swap our places, 
Say, If I only could, oh... 

You don't want to hurt me, 
But see how deep the bullet lies. 
Unaware, I'm tearing you asunder. 
Ooh, There is thunder in our hearts. 

Is there so much hate for the ones who love?
Tell me we both matter don't we?


3 - Sick and Tired, Anastacia: o desgaste
Anastacia não é o meu tipo de cantora: como a maioria das intérpretes com excelentes vozes, por vezes cede à tentação de canções comerciais muito semelhantes entre si, que têm mais acrobacia vocal do que significado. Mas Sick and Tired foi, para mim, uma das melhores canções da década passada. Não só a trilha musical está muito bem pensada como se nota o fôlego, a emoção real por trás da sua composição. Nenhum relacionamento (na vida real, pelo menos) sobrevive só com base no "amor" inicial que une duas pessoas. Mesmo que um dos envolvidos seja mais forte, mais sereno ou mais persistente, quando há um desequilíbrio (um dá mais do que o outro) padrões de comportamento destrutivo que se repetem, egoísmo ou incapacidade para ouvir os sinais de alarme e corrigir o que está errado, o desgaste acaba por levar a melhor - sem combustível, até o maior incêndio se transforma em cinzas; desgostos e desilusões sucessivos acabam por se sobrepor a qualquer afecto ou emoção forte. Não há paciência que sempre dure, ou como se diz na terra da minha avozinha " a `escândala´ aparta amor". E quando se tenta reparar o estrago, às vezes é tarde.

'Dil La Liya Be-parvah dey naal'  
('I gave my heart to someone who does not care')
My love is on the line 

My love is on the line 
My love is on the line 
My love is on the line 

A little late for all the things you didn't say 
I'm not sad for you 
But I'm sad for all the time I had to waste 
'Cause I learned the truth 

Your heart is in a place I no longer want to be 
I knew there'd come a day 
I'd set you free 
'Cause I'm sick and tired 
Of always being sick and tired 

Your love isn't fair 
You live in a world where you didn't listen 
And you didn't care 
So I'm floating 
Floating on air 





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