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Saturday, December 15, 2012

A Bela - e fatal - Otero

                              
"As mulheres têm uma missão na vida: ser belas"

Ela tinha olhos negros de derreter uma pedra, uma figura escultural e um sex appeal que levava os homens a matar ou morrer por ela. Agustina - mais tarde Carmen, ou Carolina - Otero dizia-se filha de um fidalgo espanhol e de uma cigana andaluza. Verdade ou mentira, os seus admiradores compravam a lenda, e estavam dispostos a pagar a peso de ouro cada olhar da perturbante beldade. Nasceu num lar empobrecido; trabalhou como criada; na infância foi vítima de um ataque brutal que a deixou estéril - e talvez por isso, decidiu nunca se deixar dominar por homem algum. Aos treze anos, fugiu de casa com o seu namorado e parceiro de dança, Paco, para iniciar uma carreira como bailarina nos salões de Lisboa. Aos catorze, terá casado com um conde italiano que a perdeu num jogo de cartas. Mas foi em Paris, nas Follies Bèrgere, que criou o seu próprio mito: em poucos anos, era uma das mulheres mais desejadas da Europa. Os homens mais poderosos do planeta lançavam-se, literalmente, aos seus pés.
Os Reis da Sérvia, de Espanha, de Inglaterra, os Grão Duques Pedro e Nicolas da Rússia e o Duque de Westminster foram alguns dos seus amantes ilustres, dispostos a abrir mão de tudo por ela. Cobriam-na de jóias, de casas luxuosas, de carruagens, de banquetes de caviar e ostras com as respectivas pérolas...por volta de 1894 era tão rica que recusou 10 mil francos a um milionário americano para lhe dar o prazer da sua companhia. O infeliz suicidou-se...um de vários a preferir uma bala à humilhação da sua recusa - ou do seu abandono. Detinha sobre os homens que a amavam um poder hipnótico, intoxicante. Diziam que uma vez tendo reparado nela, era impossível desfitá-la. Por volta dos cinquenta anos, A Rainha das Cortesãs ainda continuava a destroçar corações. Morreu aos 97 - levava então uma existência relativamente  modesta e solitária, embora sem cair na miséria como a maioria das suas colegas. Ficou o ícone - que podemos ver a executar uma das suas famosas danças numa das primeiras produções cinematográficas da história.



Eu digo o que me apetece...ou maldade do dia


Chic? Fail!
Tento ser tolerante com quem me rodeia e posso fazer vista grossa a certas grosserias alheias, desde que sejam genuínas e não me incomodem ( até porque tenho mais que fazer do que reparar na vida dos outros). Mas se há coisa que me deixa de pé atrás é gente arrivista e trapalhona, que tenta passar pelo que não é. Irrita-me porque sim, 
dá-me enjoo, para não usar um termo mais descritivo, e não consigo estar perto...nem estar perto de quem convive com.

1 - Grosseironas de marca maior, sem um pingo de chá ou de educação, a imitar senhoras benzocas. Não é só o verniz da delicadeza que estala ao primeiro ataque histérico (e em geral, são muitos) revelando a linguagem boçal, o vocabulário do piorio, o timbre de varina e as ambições doentias; nem mesmo os tiques de mulher mal amada ou os hábitos lorpas (más maneiras, calotes dados publicamente com a maior das latas, tentar impingir as filhas ou sobrinhas a um diabo que as carregue, engraxar babosamente quem está acima, pisar quem está abaixo, exigir ser tratada por dótora mesmo que não o seja, fazer mexericos de comadre, and so on...). O próprio visual - madeixas por retocar semanas a fio, maquilhagem mal posta, mau ar disfarçado por camadas de tralha, trapinhos duvidosos - as denunciam sem dificuldade. Dá vontade de lhes dizer, amenamente: my dear, you are not a lady - deal with it. A boa educação é o pior desmancha prazeres que existe...

2- A versão juvenil das mesmas: têm um vocabulário do piorio, gostos e companhias que não passam pela cabeça de nenhuma pessoa educada, conhecem religiosamente os participantes da Casa dos Segredos, sonham casar com o Cristiano Ronaldo, frequentam todas as espeluncas com gente que Deus nos livre, têm um "livrinho preto" que parece uma lista telefónica... mas acham que se puserem um vestido de poliéster, conseguirem um diploma sabe-se lá por que artes, admirarem os trapos da Pippa Middleton, passarem pelo cabeleireiro e falarem mais baixo ninguém dá por nada. Ninguém consegue ser casca grossa num dia e outra coisa no outro. Não é possível. We can take the girl out of the trailer park, but you can´t take the trailer park out of the girl...

3 - Pessoas que sejam isto tudo, e ainda decidam criar um blog. My eyes!

4 - Tudo o que foi dito acima, mas com uma camadinha de fama e euros. Piorou.

5 - Pessoas com gosto, distinção, idade e estatuto para ter juízo, que troçam de tudo e de todos... mas  concedem conviver, trocar gracinhas, acompanhar ou ser engraxadas por criaturas desta natureza porque acham tudo muito pitoresco. Quem nasceu assim até pode não ter culpa, mas quem os atura tendo obrigação para outra coisa...mamma mia!

Master Smoky: eu sei que jurei não comprar mais cosméticos...

            

...porque tenho MUITAS COISAS por gastar. Incluindo lápis de olhos de todas as cores, espessuras e feitios que têm de ser usados, alguns com esponjinha para smoky eye. Com excepção das bases e das máscaras (que se vão gastando) e dos pincéis (que são eternos, dão sempre jeito e nunca se tem o kit completo) tenho mesmo, mesmo de restringir, sob pena de desperdiçar produtos bons. Mas há algo neste lápis-maravilha da Maybelline que me está a despertar uma enorme e irresistível curiosidade. Parece tão pigmentadinho, tão bonitinho, tão prático e fácil de utilizar (espreitem aqui)...alguém já testou? 

Como eu detesto remendos: na roupa e na vida

                               
Estou como certos dandies: numa fase em que por vezes, me fica mais cara a manutenção e adaptação do guarda-roupa do que a sua própria aquisição. Prefiro as peças ajustadas até à perfeição e se for caso disso, personalizadas. Só assim tiro o máximo partido delas. E isso não se aplica apenas a roupas e acessórios: é verdade para muitas coisas na vida. A certa altura, começamos a não ter paciência para situações, coisas ou pessoas que não nos servem, que nos deixam desconfortáveis aqui, que arrastam pelo chão ali, que ficam largas demais acoli, que nos obrigam a andar em bicos dos pés ou a sentar-nos com cuidado para que não se rasguem . Defendo mais do que ninguém que o que não está está bem deve ser identificado, estudado, consertado e resolvido de uma vez por todas. Assim tem sido com o closet: houve coisas que tinha comprado e eram bonitas, mas como estavam não me ajudavam, ocupavam espaço precioso, não serviam um propósito, não tinham utilidade. O que tinha remédio, mandou-se arranjar e voilà. O que não tinha, levou outro destino. Mas em ambos os casos a solução foi definitiva: não tentei "desenrascar" com meias tintas nem com remendos provisórios, porque detesto remendos e coisas provisórias, que têm tendência a ser provisórias para ficar
  Já há anos que tenho no armário um sobretudo de feltro de alfaiataria, vintage, lindo e admiravelmente feito como nunca encontrei outro. Deve ter idade para ser meu avô, o maroto do sobretudo, mas parece novo. O único defeito foi que de estar tantos anos perdido no armazém de uma boutique lisboeta fechada desde o tempo da Outra Senhora, o forro - cosido à mão - ganhou manchas e começou a descoser-se. Hesitei sobre a solução a dar-lhe, porque gosto, sempre que possível, de manter as características originais das coisas. Depois de muito pensar e de consultar quem sabia do assunto (e nos entretantos, foi ficando pendurado, pois não tinha urgência nele) decidiu-se que não havia volta a dar: ou se fazia um arranjo em profundidade, ou o casaco não podia sair à rua decentemente. Não valia a pena mandar limpar, virar o forro (cor de marfim, um encanto) ou aplicar-lhe fosse o que fosse. Ou era a sério ou não era. Finalmente lá encontrei um forro de igual qualidade, numa cor linda, e o que lá vai lá vai...
  Mas há pessoas que são incapazes de reconhecer que o forro está roto, irremediavelmente perdido, com as linhas ressequidas, e que pequenos arranjos só vão adiar o inevitável: "isto ainda desenrasca, amanhã se verá"; vão remendando, passajando, colando apliques aqui e ali; não têm coragem para arrancar de vez o que está mal e começar do zero; desde que tenham um biscoito de quinze em quinze dias, não se dão ao trabalho de comprar a caixa para comer biscoitos à vontade. Contentam-se com remendos, não percebendo que a certa altura as costuras mal feitas já são tantas que o tecido fica pior do que já estava. Preferem andar desconfortáveis, a meter os punhos rotos e encardidos para dentro, porque nem querem perder o casaco de vista, nem querem dar-se ao trabalho de ir ao fundo da questão...
E não percebo porquê, pois embora reparações profissionais tenham o seu custo, o resultado é o único que vale a pena.

Friday, December 14, 2012

Quando magreza não era beleza...



Este blog, que é uma delícia, publicou há pouco um post que não resisti a roubar, e que me lembrou uma história de família. O artigo, ilustrado por imagens muito giras, recorda os padrões de beleza dos anos 50/60, quando - se ignorarmos o êxito de Twiggy, Penelope Tree e outras lá mais para o final da década - uma figura curvilínea era tudo e as mulheres recorriam a vitaminas ou artifícios para garantir um aspecto saudável e voluptuoso
 Estava na moda a silhueta muito feminina, com busto, ancas e rabiosque, a contrastar com uma cinturinha de vespa, e as meninas com figura "arrapazada" passavam um mau bocado. Cá para as minhas bandas, recebiam mesmo o nome pouco simpático de "frascos". Ora, a minha tia- avó era muito bonita e vaidosa, e como ainda estava a desenvolver-se (e tardava, no seu entender, em ganhar curvas como a irmã mais velha) não queria de modo algum passar por "frasco". A solução era enfarpelar-se em várias camadas de roupa. Como não lhe chegavam as camisolinhas, combinações e saiotes para obter o efeito desejado, "pedia emprestados" os das irmãs, que não achavam graça nenhuma à brincadeira.
É curioso olhar para os padrões de imagem corporal em décadas passadas. Tenho dito que o conceito da "figura curvilínea" é muito relativo, já que Raquel Welch - que anuncia um dos produtos citados no referido post - era tão magra como a maior parte das estrelas de cinema de hoje; Brigitte Bardot, idem;  e a própria tese "Marilyn Monroe era rechonchuda" falta à verdade: embora tivesse tendência a flutuações de peso, na maior parte do tempo mantinha-se bastante esguia para a sua altura, até porque seguia um regime rigoroso à base de proteínas e pilates. Embora fosse mais aceitável do que hoje ter algumas "gordurinhas supérfluas" o padrão tinha mais a ver com o biotipo, com a criação de uma figura de ampulheta (naturalmente ou com recurso a exercício, cintas e outros truques) do que propriamente com o tamanho...tal como hoje, afinal. Raparigas elegantes ou assim assim conseguiam facilmente dar a volta ao problema: só  as muito magras ou muito fortes tinham realmente dificuldades. E tal como hoje, as mulheres não estavam satisfeitas com o que Deus lhes deu. Se numa época tomam batidos para engordar, noutra tomam-nos para emagrecer - a insatisfação há-de estar impressa algures no código genético, eu aposto.









Homens insuportáveis... e mulheres com paciência de Job

George W. Joy - Griselda, 1903
É certo que as perspectivas e expectativas "oficiais" acerca da dinâmica homem-mulher mudaram ao longo dos séculos, mas, como já aqui tem sido discutido, os comportamentos fora do comum - ou que davam nas vistas por serem maus ou injustos - sempre foram assinalados pelos autores contemporâneos como censuráveis. Embora certas características femininas - docilidade, virtude e uma suposta obediência - fossem consideradas ideais, poucos seriam ingénuos ao ponto de afirmar que essa forma de estar seria a regra sem, pelo menos, uma ponta de sarcasmo. O Decameron, de Boccaccio, com todo o humor que o caracteriza, é uma obra que retrata lindamente a realidade: as mulheres, mesmo manietadas pelas regras sociais, levavam a melhor muitas vezes - ou porque tinham razão, ou por serem reconhecidamente mais inteligentes do que os parceiros que lhes tinham cabido em sorte ou, em alguns casos, por serem de facto dotadas de malícia e vontade de se "portar mal" - vontade essa que transcende tempos e géneros...
O próprio Shakespeare, no seu The Taming of the Shrew ("A fera amansada") objecto de tantas análises de feministas e não só, deixa-nos a pensar se a "verdadeira obediência" não terá uma pitada de ironia. E guerra dos sexos à parte, Caterina era uma peste, a precisar de se moderar um pouco, com marido ou sem marido. Quanto ao ciúme excessivo de Othello, não precisa de interpretação - é claramente pintado como tolice e sentimento de inferioridade, com graves consequências. Em nenhum ponto Desdémona é apontada como causadora ou facilitadora da possessividade injusta do mouro.
Waterhouse, A Tale from the Decameron:  " Este conto mostra que as donzelas devem aprender a ser totalmente submissas", dizem eles. " Não, não, é para ensinar os homens não serem imbecis" dizem elas.
Se é verdade que as mulheres sempre governaram nos bastidores, usando de astúcia e subtileza, deixando aos homens as honras e assados da História e não precisando de dar a cara - com pontuais e soberbas excepções -  também seria falso afirmar que as expectativas sociais existentes na Idade Média, Renascimento e mais além não davam azo, em caso de maridos equivocados ou cruéis e de mulheres demasiado gentis, a situações que escandalizavam pela sua estupidez ou crueldade. Reais ou obra de ficção, casos de mulheres maltratadas caíam na boca do povo e na pena dos autores, e eram empregados para entreter e moralizar. A moral do conto dependia muito das conveniências de quem ouvia, claro está, já que há sempre duas faces da moeda...

 Teófilo Braga, que recolheu e tratou muitos contos da tradição oral portuguesa e europeia, relata um dos meus preferidos no género. Conto-o de memória, e à minha maneira:

Havia um Rei que tinha vários leais servidores, a quem queria muito bem. Gostava de ver a sua corte adornava de caras bonitas, por isso, incentivou os seus barões a casar com as mulheres mais lindas que conseguissem encontrar. Ao fim de algum tempo, todos tinham casado, mas só um se recusava a levar a mulher ao Paço, desculpando-se com a frágil saúde dela. A pobre coitada nunca punha um pé na rua, era uma autêntica prisioneira. O monarca andava desconfiado de que a esposa do fidalgo não seria bonita, por isso armou um ardil: subornou uma criada da casa para que o deixasse entrar uma noite, na ausência do marido, para a ver com os seus próprios olhos. Assim fez: a camareira abriu-lhe a porta e deixou-o entrar na rica alcova, adornada de cortinas de damasco verde. O Rei abriu as cortinas, aproximou uma lamparina  e viu a dama a dormir profundamente, descomposta e de cabelos soltos. Achou-a formosíssima, mas teve de sair à pressa porque ouviu o fidalgo entrar. Com a correria, deixou cair uma luva no chão do quarto e como estava escuro, a camareira também não deu por nada. Pela manhã, o marido, achando uma luva de homem no quarto, ficou louco de ciúmes - pior do que já era, pois essa era a única razão de a esconder em casa - e tratou a esposa muito mal, acusando-a de o ter enganado. A partir dali foi um inferno. Recusou-se a partilhar cama e mesa com a ela e cobria-a de acusações e injúrias. Nisto passou um ano.
A criada, cheia de remorsos por ter causado um desgosto tão grande, foi contar ao rei o que se passava. Este ficou aflito e tratou de esclarecer o equívoco.
Chamou o fidalgo e disse-lhe:
 - Afinal, porque nunca trouxe a sua mulher ao palácio?
- Senhor, é que ela é muito doente.
- Pois amanhã, vou cear a vossa casa.
E o ciumento, que remédio...não podia negar esse pedido.
Na noite seguinte, a esposa, ao ver-se sentada à mesa com o marido - coisa que há um ano não acontecia - não se conteve e começou a chorar.
O Rei perguntou-lhe o que tinha.

                         " Eu era amada do coração; hoje não o sou, não sei porque não" - respondeu a pobrezinha.

                                " Quando em minha vinha entrei, restos de ladrão achei" - atalhou o marido, secamente.

Foi o que o soberano quis ouvir. 

" Eu fui esse tal ladrão
Que na tua vinha entrei; verdes parras arredei, 
lindos cachos de uvas vi; 
mas juro-te à fé de  Rei que nas uvas não buli".

A partir dali o fidalgo mudou o seu comportamento, e percebeu que era estúpido e inútil ser tão possessivo. A mulher passou a acompanhá-lo sempre à corte, onde era conhecida como a mais bela, esperta e honrada.

Apesar da lição e mudança de atitude do marido, dá que pensar por que terá a infeliz suportado tanto tempo, e com tanta paciência, tais desmandos...
 Boccaccio vai mais longe, no conto que passou à História como A Paciente Griselda - conto esse que se aos olhos da época causava indignação, para a sensibilidade moderna é verdadeiramente hiperbólico. A mais tradicional e tolerante das mulheres - desde que dotada de bom senso e amor próprio - terá vontade de bater na heroína.

Há muito que Gualtieri, Marquês de Saluzzo, era pressionado pela família e pelo seu povo para casar, pois temia-se que a Casa ficasse sem herdeiro que governasse aquela terra. Teimoso, o marquês negava sempre, pois desejava ser livre. Por fim cedeu, mas deixou claro que não admitiria uma palavra de censura, escolhesse ele quem escolhesse. Ninguém se atreveu a contestar tão grande senhor e ele ficou livre para proceder como achasse melhor. A sua escolha recaiu sobre Griselda, filha de um lavrador que vivia nos seus domínios. Ela era lindíssima,sábia, toda graça e singeleza e com o parecer de uma rainha, mesmo vestida de pastora como andava. O marquês comunicou-lhe a sua decisão, e que seria seu marido desde que ela prometesse obedecer-lhe em tudo, sem ai nem ui, por mais estranhas que fossem as suas exigências. A modesta Griselda disse apenas que não se achava merecedora de honra tão grande, mas que estava de corpo e alma à disposição do seu senhor. À frente de toda a aquela gente, o marquês fê-la mudar de roupa para atavios mais adequados; casaram e ele levou-a para o palácio. A mudança de condição não tinha alterado em nada o bom carácter de Griselda, que se continuava a mostrar tão bondosa e serena como sempre fora - e não demorou a conquistar o coração do povo, que elogiava Gualtieri por ter escolhido uma tal mulher. Ao fim de algum tempo, Griselda deu à luz uma menina. O marido não se mostrou satisfeito e disse-lhe: o meu povo está descontente com esta herdeira, fruto de uma união tão desigual. Exigem-me que me desfaça da criança. Griselda ficou de coração partido: chorou em silêncio, benzeu o bebé e entregou-lho sem protestar. Mais tarde nasceu um menino, que teve destino igual; Griselda, que estava muito apaixonada pelo marido, a tudo se sujeitava sem queixumes, mostrando sempre boa cara por mais triste que estivesse. Assim se passaram catorze anos de casamento. Mas um dia, sem aviso, o marquês disse-lhe:
Griselda's first Trial of Patience, from The Canterbury Tales
- Tentei tudo, mas os meus vassalos e o meu povo não te aceitam como marquesa; eu próprio acho que a nossa união foi um erro de juventude. Vou casar com uma linda princesa de quinze anos, e hoje mesmo voltarás para casa do teu pai. Como não trouxeste nada, nada levarás.

- Sim, senhor; bem sei que estava como vim ao mundo quando me trouxe; mas peço-lhe que me deixe levar uma camisa em troca da minha inocência, que trouxe e não levo.

O marquês acedeu, virando-se para a parede, para que ela não o visse chorar. Os criados da casa e o povo da cidade, esses choraram muito ao ver a sua senhora, que lhes era tão querida, sair em camisa; e censuravam amargamente o marquês, que só podia ter enlouquecido para cometer tantas crueldades sem razão. Mas ela tranquilizou-os, dizendo que só Deus podia dar e tirar privilégios, logo não havia caso para aflições.
Voltou a casa do seu pai e vestiu as suas roupas de camponesa, que o velho guardara pelo sim pelo não, pois nunca se fiara nas bondades do genro. E continuou a viver como se a sua antiga vida não tivesse passado de um sonho. Mas as exigências do marquês não tinham parado por ali; parecia determinado a não a deixar em paz. Desta feita, exigiu que ela fosse tratar-lhe dos preparativos para o casório, pois só ela sabia organizar uma festa como ele gostava. Griselda, com o coração partido, submeteu-se a mais esta provação; e foi, mostrando-se animosa e tranquila como sempre. As damas do palácio condoeram-se dela e imploraram ao marquês que já que ali estava, a deixasse mudar de vestido para não destoar dos convidados; mas ele não permitiu e ainda assim, ela procedeu como a melhor dona de casa, e com a postura de uma verdadeira senhora. Quando estava tudo arranjado, Gualtieri veio apresentar-lhe a sua jovem noiva.

- Deus a salve, senhor; é muito linda. - respondeu Griselda - Só vos peço, em nome do amor que tivemos, que não  a trateis tão mal como à vossa primeira esposa; quem sempre viveu rodeada de mimo não tem a mesma força para suportar penas tão grandes.
Neste momento, Gualtieri não aguentou mais; muito comovido, contou-lhe a verdade: aquela menina não era a sua noiva, mas a filha de ambos, que ela julgava morta mas que ele mandara, tal como o irmão mais novo, educar em casa de uma duquesa sua tia. Todos os horrores a que a submetera não tinham sido mais do que provas para averiguar se apesar do nascimento humilde, Griselda estaria à altura da sua posição. Pediu-lhe perdão das suas desconfianças, e dos testes a que a tinha sujeitado: muito lhe tinha custado tudo aquilo, mas agora que via a mulher excepcional que Griselda era, tudo faria para a compensar dos sofrimentos passados e a para a honrar como sua mulher. E viveram felizes para sempre...

Se há que admirar a serenidade, bondade e classe com que a pobre Griselda encara as provações - e  a tranquilidade à prova de bala é algo que cai sempre bem a uma senhora - dá que pensar o motivo de ter suportado tantos horrores, uma vez que claramente, a personagem não é caracterizada como orgulhosa nem ambiciosa. Quanto ao amor, calha mesmo bem que isto seja um conto, porque nem a maior paixão resistiria a abalos destes.
 A questão é: Griselda nunca o tinha procurado (limitou-se a  obedecer-lhe desde o princípio) logo, quem se julgava Gualtieri para a "testar"? E isto são partidas que se preguem? Confesso que a primeira vez que li a história, há muitos anos, estive até ao fim à espera que Griselda, ao saber a verdade, agarrasse nos filhos e saísse orgulhosamente da casa daquele doido - decisão que, em qualquer época, ninguém lhe levaria a mal. Obviamente, a fábula tencionava ensinar às mulheres as virtudes da paciência e da tolerância, que são sempre recompensadas; resta saber como as mulheres desse tempo reagiam ao conto: pensariam "que bonito, também hei-de ser paciente?" ou "Deus me livre; para recompensas dessas mais vale dizer e fazer tudo o que me passa pela cabeça"? Deixo isso à vossa imaginação.


















Mini wishlist Sissiniana


"És mauzinho, mas tens gosto!"
Ter um blog e não fazer uma wishlist é como ir a Roma e não ver o Papa, creio eu. Hoje dei-me conta de que nunca tinha feito nenhuma, por várias razões. A primeira é que acredito que os desejos são coisas secretas e que se eu os contar, não se realizam. Há sempre os desmancha prazeres e os invejosos de serviço dispostos a pensar "não querias mais nada? Pois vou rezar a todos os diabinhos para que nunca venhas a ter tal coisa". Desejos são coisa muito nossa, a ser protegida como segredo de Estado. A segunda...é que hoje em dia há tantas opções de tudo que não faz muito sentido descabelar-se e suspirar a não ser por artigos excepcionalmente raros. Como não sou menina de me encantar por trapos comuns ou bugigangas...eis um desses casos excepcionais: as possibilidades de vir a descobrir um tesouro romano que me seja permitido guardar e usar são muitíssimo remotas, mas pode ser que os bons museus deste mundo se lembrem de reproduzir as jóias do seu acervo. (Já uma vez o Museu de Conímbriga fez algo parecido; estupidamente não aproveitei, nunca mais repetiram a brincadeira e arrependo-me até hoje de não ter trazido comigo a gargantilha e a pulseira mais especiais que já vi). Tenho fé na máxima "uma senhora deve usar jóias boas - e/ou com significado - ou nada". Ora vejamos:           

                                                 
Anel Imperial romano em ouro e ametista gravada com a figura de um actor (séculos I - III D.C). Ametista é uma das minhas pedras preferidas e este tem de ser o uso mais interessante que já vi dado a uma. Imaginam isto com um simples vestido preto? Qual cocktail ring, qual carapuça.

                          

      Pulseira e medalhão em ouro e ametista, século I. Porque adoro motivos de serpente...

                             Roman Necklace
Colar romano, data e material não especificado. Esmeraldas ou peridoto e pérolas? Seja como for, é absolutamente espantoso e pede um decote amplo.

                                                   
Peça de joalharia não especificada, representando o Imperador Augusto (o filhote da minha querida Átia, pois...) com coroa de louros e bastão. Vejo ali marfim, pérolas, ametistas, ágatas e um topázio, creio...não sei exactamente para que serviria originalmente, mas como pregadeira ficava um espanto. Mesmo a condizer com uma capa que ali tenho. 

                                             
"Bulla" (locket - pendente oco que servia para guardar talismãs, orações, perfume em creme -  os romanos já conheciam isso, e nós a achar que os nossos cosméticos são coisa muito recente... - e muito provavelmente coisas menos recomendáveis, como venenos). Ouro gravado (Sec. V AC) representando Ícaro de um lado e Dédalo do outro. Adoro lockets e gosto muito de guardar orações medievais lá dentro, mas os mais românticos podem utilizá-los para colocar madeixas de cabelo do ser amado, retratos, whatever...este faz um efeito fabuloso.

                                             
Não uso brincos (um dia conto essa saga, que foi linda...) mas fazia o sacrifício por estas belezas etruscas (sec III-IV AC). Ou mandava convertê-las numa cuff  *sacrilégio, mas sonhar não é pecado*.

                                        Roman Gold Jewelry
Colar do período Imperial. Geralmente prefiro a moda da República Romana, que era mais graciosa e um pouco menos ornamentada, mas os statement necklaces estão na moda, e...esperem aí, as it girls romanas já os usavam, olha a novidade.

E pronto, Pai Natal, o seu trenó viaja no tempo?



Thursday, December 13, 2012

O último ninja? Oh não!

Dizem que este senhor pode ser o último ninja à face da Terra. Se isto é verdade, lá se vai um dos meus sonhos de infância. A dada altura achei que ser ninja, ou pelo menos aprender a sua arte, era o máximo e até cheguei a mascarar-me a rigor um par de vezes. Depois arranjei outras coisas - não necessariamente mais divertidas - para fazer, mas sempre achei que se tivesse um golpe de sorte e me reformasse ultra cedo, poderia experimentar tornar-me perita em artes marciais, conhecer os truques da invisibilidade, atirar estrelas da morte e fazer desmaiar (ou coisa pior) as pessoas só de lhes tocar num meridiano secreto qualquer. E agora vem este senhor dizer que não aceita mais discípulos? Mestre!!!! Não está certo. Será que não o convenço ao menos a ensinar-me o truque de fazer gente chata cair para o lado sem que ninguém note? Esse, só esse, dava jeito. Oh well...

Mambo nº 5 : dica para doidivanas

                            
Sempre ouvi dizer que quem leva uma vida de beija flor - ou seja, não é fiel e gosta de ser namoradeiro - deve adoptar o costume sensato de não tratar ninguém pelo nome, antes dirigir-se a todas as suas conquistas por "querida (o)" . Suponho que para pessoas da qualidade que têm sido mencionadas por aqui, o inenerrável "môr" servirá o propósito melhor ainda: é parolíssimo, unissexo, curto de dizer e tem a garantia de derreter os corações mais tontos, mais saloios e por isso, mais fáceis de arrebatar. Não é aconselhável, sobretudo, que uma qualquer Samantha Jones das berças diga a um dos seus amados "Oh Eduardo, és tão jeitoso" quando na realidade, se trata do Francisco...
É que isso soa tal e qual como uma das minhas canções preferidas para momentos de celebração, o genial one-hit-wonder Mambo Number Five.  Por isso, os D.Juans e Messalinas de gosto e imaginação serão capazes de inventar designações neutras, que sirvam a todos os seus adoradores ou adoradoras. Para quem carece disso tudo, serve o môr, que sendo horroroso e estando instalado na sociedade actual, há-de ao menos ter alguma utilidade...

Heathcliff, don´t you know I always come back?

Ontem falou-se em Wuthering Heights, e lembrei-me desta imagem que tinha encontrado e que achei perfeita. Ainda estou para compreender os paralelismos e coincidências que este livro traz, volta não volta, à minha vida. Nunca me canso dele. Até lhe consigo perdoar o sacrilégio horrendo de as últimas edições virem com uma capa à Crepúsculo, e um selo encarnado a dizer " O romance preferido da Bella não sei quantos" , como se fosse preciso um livro mau para devolver popularidade a um livro soberbo, como se uma das maiores, mais enigmáticas e avassaladoras paixões da história da Literatura mundial, que continua a intrigar leitores até hoje, tivesse algo  a ver com aquela coisa choné, boazinha e desenxabida de história de amor, "gosto de ti porque sim, és vampiro mas eu não e vamos ser felizes para sempre". Eu perdoo, não sei se Emily Brontë perdoaria, mas com tantas desgraças que lhe sucederam em vida se calhar mais uma, menos uma, o desastre não será grande. Bad girl loves bad boy - não porque é romântico ou bonito, não porque é conveniente, dá jeito, é compatível, funciona ou está à mão, mas porque não se pode evitar, porque não pode ser de outra maneira - está escrito desde o primeiro instante e faz parte do próprio ser, no corpo e na alma, destrua o que destruir ao longo do caminho pois sem isso, nada mais resta. I cannot live without my life, I cannot live without my soul. Tentar passar por cima disso, adaptar-se às coisas bonitinhas e correctas é atraiçoar o próprio coração; e quando se trata de uma paixão que destrói tudo o que toca, que nem os homens nem os Deuses podem conter, desafiar isso é acender um rastilho fatal. São essas paixões, e apenas essas, pelas quais se faria tudo, se viria a correr desde o Outro Mundo, se poria tudo em causa, que realmente valem a pena. Em literatura, pelo menos.

Não se faz!





Tinha eu acabado de publicar o post de ontem, quando a página da menina no Facebook lança mais esta bomba. OK, isso já é abuso. Batota. O tom de azul-pozinho-de-arroz  deste Jenny Packham não passa pela cabeça de ninguém.  E os dois pedaços de cetim num azul muito ligeiramente mais escuro para realçar a cinturinha fina? Isso chama-se ciência. Ainda por cima o Coco Perez concorda comigo, e assegura que nunca a verá mal vestida. Isto é a coisa mais linda que já se viu. E para que não me invada o blog todos os dias, prometo que a partir de agora vou fazer vista grossa às suas coisas, tentadora desavergonhada! Esconjura, Mulher Escarlate! Must...fight...Satan...


Wednesday, December 12, 2012

Sissi e as crianças


                   
Hoje, a convite da Escola EB23 Eugénio de Castro, estive presente na Feira do Livro para conversar com os alunos sobre os meus livros, jornalismo, comunicação e o maravilhoso mundo da blogosfera. Fizemos duas sessões muito divertidas, nas quais recordei o meu percurso, como eu era na idade deles (a peste de cabeça no ar, cof, cof...) a comparação entre os livros da minha infância e o panorama literário infanto-juvenil actual, os recursos de que hoje dispõem para complementar o que se estuda na escola, a importância de aprender por si mesmo e a de não perder a criança dentro de nós. É um lugar comum, mas falo por mim - estaria muito mal se perdesse a fé, a imaginação, a capacidade de me entusiasmar ou encantar com pequenas coisas, a vontade de brincar e de dizer tudo o que me passa pela cabeça (mesmo que a boa educação nos obrigue a morder a língua, não quer dizer que uma pessoa não possa pensar à vontade com os seus botões)...

                       

Crónica Activa desta semana...e ainda a Dita Von Teese!

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A propósito do meu texto de ontem sobre a colecção de Dita Von Teese (que podem ler no site da Revista Activa) lembrei-me que apesar de a considerar uma das mulheres de estilo mais inspiradoras do nosso tempo, nunca lhe tinha dedicado nenhum outro post por inteiro. Injustiça das grandes, pois se esta senhora é hábil em libertar-se da roupa, é genial ao vesti-la. Transcendeu o seu nicho e tornou-se um verdadeiro ícone pop...e de estilo. Faz escola e está sempre linda de morrer.   Mesmo depois de uma longa festa ou sessão de pilates, aparece impecável, vá-se lá saber como. Devemos-lhe, em parte, o regresso dos sheath dresses, das saias de balão e das formas clássicas. Embora adopte muitas vezes o look total - que faz parte, afinal, do seu trabalho - tem vindo a demonstrar uma certa versatilidade, conseguindo um efeito understated, mas não menos glamouroso, quando a ocasião o exige e adaptando na perfeição as criações dos principais designers à sua imagem. Posso dizer, sem errar, que poucas vezes a terei visto com um vestido de que gostasse menos. Se eu não fosse uma pessoa honesta, pensava muito seriamente em lhe assaltar o roupeiro, que é verdadeiramente precioso. Mas ter roupas lindíssimas não basta: é preciso que sejam as roupas certas para nós, e - correndo o risco de me repetir - Dita sabe disso como ninguém. Para quê vestir algo assim-assim, quando cada look pode ser memorável? E como não ser memorável com estes detalhes, estas cores, esta confecção perfeita? 
O que é ter gosto! Vejam bem:


Dita Von Teese Clothes
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