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Wednesday, January 9, 2013

Diferenças irreconciliáveis: do not cross

                                                    
Saber lidar com as pessoas e interpretar as suas reacções faz parte do meu campo de estudos e área de actuação. Além disso sempre me interessei pelo comportamento humano. Apesar de me concentrar mais nas minhas coisas do que em reparar no que os outros fazem ou deixam de fazer, considero-me uma boa leitora das intenções, atitudes, sinais e expectativas emitidas por quem se aproxima de mim. E se por qualquer razão tenho intenções de - ou sou obrigada a - manter contacto frequente com determinada pessoa, tento que a convivência seja o mais harmoniosa possível. 
Mesmo com as pessoas de quem mais gostamos sabemos que há pontos fracos, ou explosivos, que não devem ser abordados ... ou que precisam de ser tratados de determinada maneira.

 Por exemplo, na minha família há um elemento com quem não vale a pena ralhar, ou responder um bocadinho torto que seja. É daquelas pessoas de quem só se consegue algo "a bem";  discutir, só em caso extremo. Há outro ainda com quem é inútil racionalizar quando está irritado, por muito que a razão esteja do nosso lado. Uma vez fora de si, começa a disparatar e cada argumento que se introduza é uma acha para a fogueira. Para evitar conversas de doidos que gastam latim e não levam a  lado nenhum, o melhor é esperar que acalme e falar mais tarde, não vá achar que no calor das negociações se tocou nalgum ponto sensível e dedicar o tempo a debater ad nauseam um detalhe que não interessa nada em vez do assunto que realmente levou à discussão. 
 Se queremos manter qualquer tipo de relacionamento com determinada pessoa, temos de ter em consideração aquilo que essa pessoa gosta e o que detesta ...e se conseguimos, ou não, gerir esses aspectos.
 Imaginemos um cenário simples: por qualquer razão, quem está a ler isto quer fechar um negócio importante com um senhor que é benfiquista ferrenho, e que anuncia, para quem quiser ver, a sua crença futebolística. Esse senhor não pode com o Sporting nem com molho de tomate. Qual é a melhor maneira de condenar, à partida e irremediavelmente, as negociações ao fracasso? 

Entrar pelo escritório do dito senhor com um cachecol do Sporting. Insistir em proclamar a  sua devoção ao Sporting de cada vez que se encontram. E não contente com isto, convidar a pessoa para tomar um cocktail no clube de Sportinguistas mais próximo, para selar o acordo, mesmo sabendo que o Benfiquista fica encarnado de raiva, trocadilhos à parte, só de pensar no assunto. (Não faço ideia se os clubes sportinguistas ou de qualquer outra cor servem cocktails; não percebo nadinha do desporto rei). Na óptica do leitor, o futebol pode até não ser importante para o negócio, pode não ser para ali chamado, e na sua perspectiva, não afectar em nada o futuro dessa parceria - ou seja, estar-se borrifando se ele se sente ou não ofendido com isso. Mas para o senhor benfiquista, há toda uma associação de ideias relacionada com o Sporting que lhe é insuportável. Esse senhor não negoceia com terroristas e muito menos com sportinguistas - assunto encerrado. .

Ante um cenário assim, temos de medir as nossas próprias expectativas, sentimentos e crenças, e raciocinar:

- Hipótese a)  Não ligo nada a futebol, logo, isso é irrelevante. Posso acenar que sim senhor para demonstrar simpatia por algo que o faz tão feliz sem que isso me cause um conflito interior e em todo o caso, questões desportivas não são tidas nem achadas para o que está em jogo.

- Hipótese b) Também sou Benfiquista (que maravilha negociar com quem é 100% compatível comigo) ou se não for posso perfeitamente acompanhá-lo a um jogo ou dois, pois até simpatizo com o clube.


- Hipótese c)  Sou tão fanático pelo Sporting como ele é pelo Benfica, logo não estou disposto (a) a ceder, e nem vale a pena arriscar a negociação, por muito vantajoso que isso fosse; cada um fica na sua.

O que não pode ser é esperar fechar o negócio sem conflitos mesmo berrando "SPOOOOORTING" a cada cinco minutos à frente do nariz dele, comparecendo à reunião acompanhado de uma claque sportinguista com ar de poucos amigos e ainda chamar doido, rezingão e pouco razoável ao homem por não gostar de negociar consigo. Mas é assim que muita gente parte para um relacionamento - seja afectivo, amoroso, profissional ou de negócios. Não mudam uma vírgula, não têm em atenção o que afecta os outros, não cedem um palmo pois acham-se o máximo e quem gostar minimamente deles é que tem de fazer todas as concessões. 

                                        

E quando as coisas dão para o torto, queixam-se de que os outros é que são teimosos.  Por vezes, cedendo em pequenas questões ("o meu namorado gosta de restaurantes italianos e eu não, por isso quando ele quer pasta eu vou jantar sushi com as amigas") é possível manter um relacionamento sem problemas. Há aspectos fracturantes, todavia, que não têm remédio: ou uma das pessoas cede - em particular, se a razão não estiver do seu lado - ou desiste, porque as duas partes estão em pólos opostos e as diferenças são de facto irreconciliáveis. O que não é possível é fazer violência psicológica sobre o outro, desvalorizando os temas que lhe são sensíveis, impondo a sua vontade em aspectos cruciais, e ficar muito admirado (a) quando corre mal. Cada um tem a sua "linha de fogo", os limites que não podem ser ultrapassados: e para lidar eficazmente com pessoas, é preciso compreender, identificar e aceitar (ou não) a linha da frente, a fronteira de cada um. Onde um não quer, dois não brigam; e para qualquer tango, são sempre precisos dois. 





2 comments:

André said...

é sempre preciso uma certa ginástica social, na qual a ignorância é por vezes melhor do que saber o que está do outro lado, isto referente apenas e somente a nível profissional ou com estranhos num café por exemplo.

No que toca ao espaço social mais intimo parece-me desnecessário, afinal, gosto de escolher quem tenho por perto.

Pouco mais de um ano atrás fui tomar café com uma mulher pela primeira vez que a segunda coisa que me diz é que não gosta de ler - e eu fiquei de imediato a pensar que nem valia a penar ir tomar o café porque estávamos perante uma diferença irreconciliável.

O exemplo do tango é bem conseguido, cada passo que o homem marca é acima de tudo um convite que a mulher pode ou não aceitar - dáva jeito, senão ficas parado no meio da milonga.

Jedi Master Atomic said...

Muito bom post.
De facto, a arte da negociação numa relação, é algo que temos que praticar ao longo das nossas vidas se as queremos levar a bom porto.

Muitas vezes temos mesmo que fazer "o jeitinho" ao outro e ir ver "o tal filme" que gosta apesar de nós não gostarmos nada daquilo. Não digo que seja sempre, até porque sou adepto do "Vais sair com amigos para um sitio que eu não gosto? ok, eu saio com os meus para um que goste", de vez em quando.

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