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Wednesday, February 13, 2013

As coisas que eu ouço: em águas de bacalhau

                      
Conta uma parente minha  - de quem gosto muito, claro -  que quando era adolescente, nos selvagens anos 70, tinha um namorado por quem andava assaz entusiasmada. O rapaz era giro, tinha o belo nome de Alexandre - próprio de façanhas e feitos de grande monta - e ainda por cima, usava a linha esguia e elegante, o estilo rebelde, o cabelão e os blusões de cabedal que andavam na moda. A paixoneta durou algum tempo e parecia correr sobre rodas. Até que um dia, por um pretexto tão insignificante que já ninguém se recorda dele, a estória arrefeceu e os pombinhos tiveram uma arrelia qualquer, igualmente perecível na teia das recordações. O que lhe ficou foi a última conversa que tiveram. Ambos iam lado a lado no autocarro do liceu para casa, algo arrenegados, sem saber o que dizer a seguir. Ela, que como todas as mulheres da minha família nunca foi menina de se calar com coisas mal explicadas, perguntou-lhe por fim:

- E então? Como é que a gente fica, afinal?

E ele, já de pé porque saía na próxima paragem, respondeu-lhe sem exaltação, com a  desfaçatez própria daquela idade:

- Como é que ficamos? Pois... em águas de bacalhau!

Ela não entendeu bem o significado da frase (que nunca mais lhe saiu da ideia) até perceber que as coisas tinham irremediavelmente findado, "como a muralha de Tróia,  o Império Romano e todas as coisas belas". E assim é muitas vezes, em que há "coisas por resolver". Até pode ser verdade que as haja, mas nem tudo o que ficou por resolver pode ou deve ser resolvido. Isso não é necessariamente mau - frequentemente, o que não tem remédio, remediado está.


2 comments:

O Sexo e a Idade said...

Essa é normalmente a minha conclusão com "as águas de bacalhau"; o que não tem remédio, remediado está!

lena said...

Pois é isso que significa a frase. E ainda se usa muito a expressão. Aqui em casa quando algo acaba por não poder acontecer, dizemos que ficou em "Águas de bacalhau".
Beijinhos grandes.

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