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Tuesday, February 5, 2013

Dos cinemas a fechar

                                 
É com certo sentimento de tristeza que ouço falar no encerramento de tantas salas de cinema. Não que vá ao cinema tantas vezes como antigamente - tal como outras pessoas não o faço, pelo que concluo que o fecho também seja culpa minha. Ou antes, um sinal dos tempos. Para reflectir sobre o problema, basta olhar para a nossa infância. Quem cresceu nos anos 80 ou 90 recorda decerto que a quantidade de divertimentos disponíveis era muito menor. Quem queria ver filmes novos, tinha forçosamente de ir ao cinema. Um filme demorava séculos a chegar ao vídeo...e mais alguns a ficar disponível. A antecipação e o impacto de cada novidade eram muito maiores. Os encargos das famílias com questões de entretenimento, por sua vez, eram menores: nada de despesas fixas com internet ou canais por cabo. Era outra magia, outro ambiente, outro tempo. E na realidade de hoje não podemos esperar que o cinema funcione nos mesmos moldes. Se a demanda não é a mesma, os preços não podem continuar a ser os de antigamente: uma família de quatro pessoas dificilmente estará disposta a desembolsar, com regularidade, cerca de 30 euros fora pipocas e o resto, para uma saída. Mesmo para quem tem meios, o cinema é, actualmente, uma opção entre muitas. Depois há a questão da oferta: cinema independente, europeu, oriental, de culto - enfim, tudo o que fuja ao mainstream - não tem lugar nas salas comerciais. Quis ver O Milagre Segundo Salomé. Veio para as salas de Coimbra? Não veio. Por fim, o ambiente já não é o que era: muitas salas, mas com pouco espaço; nada dos bonitos camarotes de antigamente; alguns dos melhores espaços (como o belíssimo Teatro Avenida, na minha cidade, que foi tristemente "remodelado" para dar lugar a um mamarracho, tendo sobrado apenas as salas de cinema à moda da outra senhora) encerraram, tornando-se salas fantasma. Não há um lounge onde se possa descontrair nos intervalos. Ou se fica sentado no lugar, ou se fica de pé à saída. E pondo de parte o politicamente correcto, esta é a realidade: nada de espaços para fumadores - quem quiser um cigarrette break para discutir o filme no intervalo tem de correr à esplanada do centro comercial (quando há) e voltar esbaforido antes do recomeço do filme. Perdeu-se o aspecto social da ida ao cinema. Perdeu-se o convívio entre as pessoas que frequentavam regularmente às mesmas salas. Em última análise, por mais prático que seja o modelo  algo claustrofóbico de shopping, fazem falta os bons, velhos e glamourosos edifícios de cinema com as suas fachadas trabalhadas, os cartazes e as luzes. Ao quererem massificar, tiraram-lhe a graça toda. É necessário criar novos formatos, novos preços e todo um revivalismo daquilo que dava sabor ao cinema em primeiro lugar. Assim, não tem piada.

2 comments:

Jedi Master Atomic said...

Posso concordar com muito deste post, mas há uma coisa da qual não se pode escapar por mais voltas que se dê: os preços.

Pagar €6 por um bilhete para ir para uma sala pequena, em que as cadeiras não são muito confortaveis e a fila da frente não está rebaixada o suficiente para que se uma pessoa mais alta se sentar à nossa frente nós consigamos ver bem o filme, é um abuso. E sim, estava a descrever as salas Castelo Lopes.

Pura e simplesmente não conseguem concorrer com as salas Lusomundo, que são espaçosas e confortaveis, por mais filmes mainstream que tenham (e mesmo estas viram os seus lucros descer vertiginosamente). E ainda há a facilidade do cartão MyZonCard que me dá um bilhete à pála se comprar 2.

Isto e aquilo said...

Pois eu não dispenso o cinema no cinema, gosto muito das salas do El Corte Inglés e para quem tem UCI Card não fica assim tão caro, porque se acumula pontos e de vez em quando até há um bilhete grátis. A oferta também é muito diversificada (em Lisboa, pelo menos...)

Ou seja: desta vez não estou de acordo...

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