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Sunday, February 3, 2013

Love story: Samael e Lillith

                                   
Lillith foi, segundo a mitologia judaica, a primeira mulher de Adão: criada do mesmo pó e do mesmo barro, para ser a companheira de pleno direito, e em pé de igualdade, com o homem. Era linda, inteligente, vibrante, cheia de amor à vida e paixão dos pés à cabeça. Tão intensa, tão interessante, que era inevitável lançar a desarmonia no Paraíso. Reza a tradição que os problemas conjugais com Adão começaram cedo: ele esperava uma mulher dócil, submissa, obediente. Não admitia réplica e na intimidade, queria fazer tudo à sua maneira. Lillith não concordou: porque devo ser dominada por ti? Por acaso não fui criada, do pó, como tua igual? - questionava elaAdão escandalizava-se com tanta ousadia, e apesar de todos os seus esforços e da força bruta, era incapaz de a submeter à sua vontade. A primeira história de amor da criação começava, assim, a arrefecer irremediavelmente...
As coisas estavam neste estado quando a beleza atrevida de Lillith chamou a atenção do poderoso Anjo Samael, o Veneno de Deus, um dos Sete perante o Trono. Foi uma atracção fulminante, incontrolável, e Lillith não tardou a ser seduzida por ele: Samael era belo, forte, possuía o conhecimento divino e amava-a na totalidade; com a sua doçura feminina, mas também com o seu lado negro e rebelde - era, em suma, em tudo diferente do brutamontes que lhe coubera por marido. Apaixonadíssimo, Samael prometeu-lhe que em troca do seu amor lhe transmitiria todos os conhecimentos mágicos, incluindo o Nome Secreto de Deus. Lillith aceitou a troca; e num dia em que não pôde suportar mais a tirania do marido, num dia em que se sentia mais agastada do que em todos os outros, enfim, num dia em que concluiu amar-se mais a si mesma do que a uma vida num aparente Paraíso, invocou o Nome Inefável que Samael lhe ensinara - e com isso voou dos braços dele, transpôs os portões do Eden e foi esconder-se, na companhia do amante, no Mar Vermelho. Adão deu pela sua falta e ficou desesperado: foi queixar-se ao Criador, em lágrimas, da fuga da mulher, sem reconhecer os motivos que a teriam levado a escapar. Deus teve pena de Adão e mandou três anjos no seu encalço, com a missão de a convencerem a regressar ao lar. Mas Lillith, ardilosa, usou as próprias leis divinas para fugir, mais uma vez, ao destino que lhe desejavam impor.  Fingindo-se pesarosa, argumentou com os Anjos: mas eu desonrei os meus votos conjugais...como posso regressar agora? Era verdade, tudo verdade. Vencidos, os mensageiros não tiveram outro remédio senão voltar com a resposta. Lillith ganhou assim a tão desejada independência e tornou-se a primeira Feiticeira da Humanidade. Fugiu à sua condição humana, reclamando o seu poder para se tornar uma Deusa, associada desde então à noite, à sensualidade e ao perigo. 
   Adão estava inconsolável e pediu ao Pai que lhe desse remédio. O Todo Poderoso considerou então que a bem da ordem das coisas, seria melhor criar uma Mulher realmente obediente, que fosse uma só com o Homem, carne da sua carne e completamente devotada, um ser com muita beleza mas pouca capacidade para pensar pela própria cabeça, que não constituísse uma ameaça e fosse capaz de ser vista, mas não ouvida. Esperou que Adão adormecesse e retirou-lhe uma costela: pela manhã, Eva estava ao seu lado. Uma coisinha bonita, tímida, fácil de manejar, que dava risadinhas e fazia que "sim" a tudo, uma cabecinha de vento graciosa que só falava para dizer o que Adão queria ouvir. O Primeiro Homem não cabia em si de contente: aquela sim, era uma esposa adequada. Nada de opiniões. Não havia nada que a indignasse, que lhe fizesse perder a paciência ou responder-lhe, mesmo quando não se portava bem. Eva estava por tudo. Foi um idílio. Nos confins do Mar Vermelho, rodeados de vasta prole, Lillith e Samael riam-se da ingenuidade de Adão. "Veremos, pois, se uma mulher tonta é a mulher ideal". Armaram-lhe um ardil: e perante falinhas mansas e bonitas promessas, ai que se eu te der o Fruto da Árvore do Bem e do Mal tu e o senhor teu marido serão como Deus, Eva caiu nos braços do Anjo-Demónio, tal como a sua antecessora - não em plena consciência porque lhe faltava o entendimento para isso, mas por ser fácil de enganar. Não contente com a infidelidade, comeu o fruto e ofereceu-o ao marido, que não desconfiava de coisa alguma ... com as consequências que todos conhecemos. (Em algumas versões da história, o traidor Caim é fruto dessa ligação extra conjugal). 
 Quando Deus Nosso Senhor se apercebeu que algo estava errado no Paraíso, e encontrou o casal vestido, com ar de culpa e rodeado de caroços e cascas do fruto proibido, ficou furioso: e perante as perguntas do Criador, que indagava quem fora o autor da brincadeira, Adão, muito pouco cavalheirescamente, apontou Eva: foi ela que me obrigou! Cansado de tantos desmandos, Deus ordenou ao Arcanjo Gabriel que os acompanhasse à saída.
Infelizmente, não chegou até nós se Adão alguma vez se arrependeu de não ter dado ouvidos à primeira esposa, ou se aprendeu à sua custa que uma mulher tola é mil vezes mais perigosa do que uma dotada de espírito e inteligência...





5 comments:

princesadepantufas said...

A história de Lilith é bem mais interessante do que a de Eva, a esposa perfeita a quem Adão acusou mal se sentiu ameaçado...

Kaia Kakós said...

Brilhante! É pena que poucas pessoas conheçam a história de Lilith, ou que a mesma seja tida como a sucubus, a demónio sensual que leva os homens ao pecado...

C. N. Gil said...

Pena que tenhas ido buscar esta história apenas aons anais judaico cristãos...

...até porque nem se sabe ao certo se foi Samael...
...ou se houve intervenção de algum anjo...

A história judaica de Lilith é, tal como seria suporto ser numa sociedade patriarcal, muito mal contada, e apenas existe esta tradição porque o nome dela aparece no livro do profeta Isaías e, qualquer nome na bíblia tem de ter um significado. É a única Deusa não judaica mencionada pelo nome...

Embora perceba a alegoria que fazes aqui, acho que farias muito melhor se lesses a lenda original, a suméria...

...mais rica, mais bonita, mais poética...

Anyway, nem sei como é que este post me passou na altura em que o publicaste...

...tenho algum interesse nesta história...
...o suficiente para isto:

http://www.wook.pt/ficha/lilith/a/id/12235403

Mas uma vez que te baseaste na versão mais corriqueira da lenda, tens toda a razão naquilo que dizes :)

Imperatriz Sissi said...

A tese «todos os demónios apresentados na Bíblia ou apresentados no folclore judaico-cristão são antigos Deuses» tem a sua validade e interesse, mas também tem sido tão estafada em tudo quanto é texto que começa a perder relevância.

Por exemplo, há quem aponte Ishtar como a origem ou forma original do nome Ester, quem atribua o Cântico dos Cânticos a uma cópia dos hinos a Ishtar, etc. Provável e naturalíssimo. Relevante para o andarmos sempre a repetir? Se calhar já não...

Perdi a conta aos livros que li -nomeadamente sobre figuras femininas incluindo Lillith - a bater na tecla da versão patriarcal e mimimi. Quase podemos assumir isso como óbvio, assim como é natural que povos com diferentes credos a viver como vizinhos, cada um teria a sua forma de contar o conto. É claro que existem várias versões, mas as descrições assírias-sumérias de Lillith - não há uma lenda oficial de Lillith, que me lembre- são igualmente vagas: chega a ser inclusive descrita com uma classe de demónios e não uma deusa em direito próprio. A interpretação de deusa da Lua, etc não é certa e começa a ganhar forma muito mais tarde, ficando a moda já no século XIX se estou recordada...

Quanto a haver Samael ou não, depende das versões também. Na minha interpretação pessoal, essa é a forma que tem mais pés e cabeça, mas a minha interpretação vale o que vale.

Em boa verdade,as lendas judaicas ainda são as que acabam por dar a Lillith alguma personalidade, com ou sem papão patriarcal. Fiquei curiosa para conhecer a tua versão...

C. N. Gil said...

Existe uma versão da lenda de lilitu, e que eu saiba a unica tradução para Português é a minha.

Vê o teu e-mail :)

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