Lillith foi, segundo a mitologia judaica, a primeira mulher de Adão: criada do mesmo pó e do mesmo barro, para ser a companheira de pleno direito, e em pé de igualdade, com o homem. Era linda, inteligente, vibrante, cheia de amor à vida e paixão dos pés à cabeça. Tão intensa, tão interessante, que era inevitável lançar a desarmonia no Paraíso. Reza a tradição que os problemas conjugais com Adão começaram cedo: ele esperava uma mulher dócil, submissa, obediente. Não admitia réplica e na intimidade, queria fazer tudo à sua maneira. Lillith não concordou: porque devo ser dominada por ti? Por acaso não fui criada, do pó, como tua igual? - questionava ela. Adão escandalizava-se com tanta ousadia, e apesar de todos os seus esforços e da força bruta, era incapaz de a submeter à sua vontade. A primeira história de amor da criação começava, assim, a arrefecer irremediavelmente...
As coisas estavam neste estado quando a beleza atrevida de Lillith chamou a atenção do poderoso Anjo Samael, o Veneno de Deus, um dos Sete perante o Trono. Foi uma atracção fulminante, incontrolável, e Lillith não tardou a ser seduzida por ele: Samael era belo, forte, possuía o conhecimento divino e amava-a na totalidade; com a sua doçura feminina, mas também com o seu lado negro e rebelde - era, em suma, em tudo diferente do brutamontes que lhe coubera por marido. Apaixonadíssimo, Samael prometeu-lhe que em troca do seu amor lhe transmitiria todos os conhecimentos mágicos, incluindo o Nome Secreto de Deus. Lillith aceitou a troca; e num dia em que não pôde suportar mais a tirania do marido, num dia em que se sentia mais agastada do que em todos os outros, enfim, num dia em que concluiu amar-se mais a si mesma do que a uma vida num aparente Paraíso, invocou o Nome Inefável que Samael lhe ensinara - e com isso voou dos braços dele, transpôs os portões do Eden e foi esconder-se, na companhia do amante, no Mar Vermelho. Adão deu pela sua falta e ficou desesperado: foi queixar-se ao Criador, em lágrimas, da fuga da mulher, sem reconhecer os motivos que a teriam levado a escapar. Deus teve pena de Adão e mandou três anjos no seu encalço, com a missão de a convencerem a regressar ao lar. Mas Lillith, ardilosa, usou as próprias leis divinas para fugir, mais uma vez, ao destino que lhe desejavam impor. Fingindo-se pesarosa, argumentou com os Anjos: mas eu desonrei os meus votos conjugais...como posso regressar agora? Era verdade, tudo verdade. Vencidos, os mensageiros não tiveram outro remédio senão voltar com a resposta. Lillith ganhou assim a tão desejada independência e tornou-se a primeira Feiticeira da Humanidade. Fugiu à sua condição humana, reclamando o seu poder para se tornar uma Deusa, associada desde então à noite, à sensualidade e ao perigo.
Adão estava inconsolável e pediu ao Pai que lhe desse remédio. O Todo Poderoso considerou então que a bem da ordem das coisas, seria melhor criar uma Mulher realmente obediente, que fosse uma só com o Homem, carne da sua carne e completamente devotada, um ser com muita beleza mas pouca capacidade para pensar pela própria cabeça, que não constituísse uma ameaça e fosse capaz de ser vista, mas não ouvida. Esperou que Adão adormecesse e retirou-lhe uma costela: pela manhã, Eva estava ao seu lado. Uma coisinha bonita, tímida, fácil de manejar, que dava risadinhas e fazia que "sim" a tudo, uma cabecinha de vento graciosa que só falava para dizer o que Adão queria ouvir. O Primeiro Homem não cabia em si de contente: aquela sim, era uma esposa adequada. Nada de opiniões. Não havia nada que a indignasse, que lhe fizesse perder a paciência ou responder-lhe, mesmo quando não se portava bem. Eva estava por tudo. Foi um idílio. Nos confins do Mar Vermelho, rodeados de vasta prole, Lillith e Samael riam-se da ingenuidade de Adão. "Veremos, pois, se uma mulher tonta é a mulher ideal". Armaram-lhe um ardil: e perante falinhas mansas e bonitas promessas, ai que se eu te der o Fruto da Árvore do Bem e do Mal tu e o senhor teu marido serão como Deus, Eva caiu nos braços do Anjo-Demónio, tal como a sua antecessora - não em plena consciência porque lhe faltava o entendimento para isso, mas por ser fácil de enganar. Não contente com a infidelidade, comeu o fruto e ofereceu-o ao marido, que não desconfiava de coisa alguma ... com as consequências que todos conhecemos. (Em algumas versões da história, o traidor Caim é fruto dessa ligação extra conjugal).
Quando Deus Nosso Senhor se apercebeu que algo estava errado no Paraíso, e encontrou o casal vestido, com ar de culpa e rodeado de caroços e cascas do fruto proibido, ficou furioso: e perante as perguntas do Criador, que indagava quem fora o autor da brincadeira, Adão, muito pouco cavalheirescamente, apontou Eva: foi ela que me obrigou! Cansado de tantos desmandos, Deus ordenou ao Arcanjo Gabriel que os acompanhasse à saída.
Infelizmente, não chegou até nós se Adão alguma vez se arrependeu de não ter dado ouvidos à primeira esposa, ou se aprendeu à sua custa que uma mulher tola é mil vezes mais perigosa do que uma dotada de espírito e inteligência...