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Sunday, February 24, 2013

W.B Yeats dixit: a poesia relativa

File:William Butler Yeat by George Charles Beresford.jpg
"Poetry makes nothing happen"

Gosto de poesia; mas tal como a beleza, a poesia é uma das coisas mais relativas que há - e muitas vezes esconde-se em registos que nada têm a ver com poemas. Parece-me demasiado grande para ser contida num formato; faz parte da vida e pode manifestar-se com mais autenticidade em obras da natureza, ou noutras formas de arte, do que em algo criado de propósito para ser poesia. A poesia pela poesia, quanto a mim, perde a graça toda salvo quando é escrita de forma visceral por alguém que é, de raiz e sem querer, um poeta - outra das coisas mais complicadas de classificar por este mundo de Deus. Parece-me que mesmo os grandes poetas, os poetas confirmados, os poetas que a gente pedante cita quando quer mencionar um livro de cabeceira que fique bem no retrato, tiveram rasgos - nem todos seriam poetas vinte e quatro horas por dia, o que não é necessariamente mau. Creio que já o disse por aqui: se há coisas que respeito são a poesia, o cinema e o teatro (e muitas vezes, de propósito ou não, as três caminham próximas). Respeito-as tanto que quando ouço alguém intitular-se actor ou poeta me arrepio imediatamente. Porque das das duas, uma: ou a pessoa tem provas dadas do seu ofício (ou arte...) e nesse caso, não precisa de o alardear, ou estamos perante um poseur da pior espécie ...um poseur que não sabe sequer o que diz. Tremo quando ouço alguém dar a si mesmo o título de poeta só porque tem o hábito - e sem ofensa a ninguém, frequentemente o péssimo hábito -  de compor versos. Numa comparação mais que redutora posso apreciar sushi, posso saber fazer um sushi razoável para os meus amigos, mas não me intitulo mestre no assunto.  É o mesmo que alguém se denominar artista só porque borra umas telas ao fim de semana. Tais títulos são atribuídos naturalmente, pelo talento, e vêem de dentro - reconhecidos e confirmados por quem entende do assunto, ou pelas lágrimas e aplausos do público. (Nos nossos dias, poucos se sentam em roda numa sala, a ouvir declamar versos - e caso sentem, os versos poucas vezes ultrapassam as paredes desse edifício, por isso a verdade é que já não há público...). Pior ainda, podemos formar um pintor sem talento, se não um artista,  numa escola cara de Belas Artes - mas vão lá dar diplomas de poesia.  E depois, eu que não pretendo saber nada disto e partilho convosco apenas as minhas impressões, considero a poesia pela poesia, na época que atravessamos pelo menos, uma forma de arte diletante e ociosa, um luxo interior, um adorno sem grande aplicação prática. Parte da beleza da boa poesia sempre veio disso mesmo (sendo criada por um rasgo de génio, servir apenas para inspirar almas) mas por vezes, quando era realmente arrebatadora ou aparecia no lugar certo, transcendia a sua condição  de arrebique para fazer parte de algo maior. A música é uma das mais naturais, espontâneas e intemporais aplicações da poesia que não quer ser poesia pela poesia: vejamos Sérgio Godinho, Gabriel o Pensador, Zeca Afonso, Chico Buarque, só para nomear alguns na Língua de Camões.
 Then again, para que isso aconteça, para que a poesia faça bons hinos, boas máximas, boas peças, boas canções e em última análise, boas canções de protesto, tem de ser realmente poesia e nunca versos escritos a martelo. Pessoas sensatas com queda para a poesia, no meu entender,  não escrevem versos - fazem exercícios.  E desses poderá sair algo de belo. Um verdadeiro poeta é essencialmente modesto, ou antes distraído. Está demasiado ocupado a colocar cá para fora o que lhe vai pela ideia para gritar por aí "olhem para mim, sou um POETA! Onde estão os meus louros?". E há também outro ângulo da questão, que lamentavelmente se vê muito por aí: o poeta que até é verdadeiro, que até é genuíno, que ainda por cima escreve bem, mas que se apercebeu de que é poeta e se sente contaminado por essa noção (mau caminho!). Aí começa a derrocada, o que é de lastimar num indivíduo de talento: a condição de poeta injustiçado, de artista frustrado, de escritor ressabiado que substitui o espírito e rebeldia natural por um inconformismo pateta, a  inspiração por queixinhas permanentes, a veia por ataques gratuitos ao sistema (esse papão que lhe nega a devida glória...) e desata a publicar cada exercício que rascunha - a maioria dos quais não devia passar do desabafo, e por isso mesmo, da gaveta. Infelizmente as redes sociais, os blogs e o acesso fácil à edição de livros (que pouco lidos serão, para o bem ou para o mal, mas isso já é outra história) retiram tanto aos pseudo poetas como a alguns bons poetas desviados a possibilidade de seleccionar e reflectir. A poesia pode tomar aspectos práticos mas não é uma actividade funcional e se alguém pensou em fazer da poesia profissão, se calhar pensou mal desde o início. Quando se mistura poesia com política só porque sim, está tudo estragado.
 Existe ainda outro perigo real: é quando tanto o trovador como o público deixam que o poeta se torne um porta-estandarte de uma ideia, de uma ala, de um acontecimento, e não nos tiramos disso. Ontem ocorreu-me  este pensamento novamente, a propósito do aniversário da morte de José Afonso. Já perdi a conta às vezes que tentei dizer a quem lhe chama "o poeta da liberdade": o seu trabalho, tanto a nível de música como das letras, foi muito maior do que isso e transcende ideias de liberdade, de cravos, de esquerda ou de direita. Foi inovador em termos de arranjos, profundo na recolha de elementos quase esquecidos na música e lírica folk portuguesa, impressionante pela beleza pura e simples, pela mistura de complexidade e simplicidade, com a marca, a ferros, de algo de genial. Pode apreciar-se José Afonso mesmo que se discorde absolutamente das ideias políticas do Zeca. Colocá-lo na prateleira de uma certa mitologia da Liberdade, do 25/4, é redutor, é desmerecer o trabalho do poeta em prol da sua biografia, é impedir a sua voz de ser ouvida por quem  não se revê na Esquerda, ou naquilo que se associou à Esquerda. Eu bem falo e insisto na mesma tecla. 
Pois sim: atiram-me sempre com está bem, mas foi o cantor da Liberdade!
 E não nos tiramos mesmo disto. Um poeta precisa de ser cuidadoso: se a celebridade o apanha, fazem dele o que querem. E há sempre o risco da imortalidade, que é uma coisa ainda mais complicada.

1 comment:

menina lamparina said...

Gostei mesmo deste post. Não só por concordar com cada parágrafo, mas também porque não poderia tê-lo escrito melhor. :)*

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