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Tuesday, March 26, 2013

A bela Simonetta



                                                 

Olhem para este rosto. Ela tinha pele de porcelana, fartos cabelos acobreados, um nariz romano, lábios cheios, olhos amendoados e pálpebras em meia lua, emolduradas por delicadas sobrancelhas. Tinha pescoço de cisne e um corpo de acordo com as proporções clássicas. Ela podia - mais retoque, menos retoque - iluminar as capas de qualquer revista no século XXI. Mas também poderia inspirar Praxíteles ou Apeles, se a sua beleza tivesse surgido nas areias da Antiga Grécia. Nasceu tarde para isso (c. 1453 ) - mas Botticelli, que a pintou como Afrodite (ou Vénus) Anadiómene , e a voz do povo, que à falta de dados mais concretos atribui a Porto Venere (Porto de Vénus, na região de Génova) a honra de figurar como seu berço sobre as ondas do mar, encarregaram-se de adensar a lenda. Simonetta é, provavelmente, a primeira imagem que nos vem à ideia quando se pensa na Deusa do Amor e da Beleza. Foi-o, sem dúvida, para os artistas e estetas do seu tempo. Simonetta era  considerada a mais bela de Florença, a mais linda mulher da sua época e para muitos, é a mulher mais deslumbrante do Renascimento italiano. Passou à história como la bella Simonetta, nem mais nem menos, e era a it-girl por excelência.  Os génios queriam retratá-la, os homens queriam amá-la, as mulheres desejavam ser como ela.  
Curiosamente - ao contrário do costume - a beldade não era uma flor anónima de nascimento humilde, catapultada do anonimato para a eternidade pelo talento de um pintor apaixonado. Nasceu Simonetta Cattaneo de Candia, uma senhora das nobres Casas de Volta e  de Candia (logo, aparentada com outra beldade, Vanozza, por sua vez, mãe da belíssima Lucrécia Borgia).  Aos quinze anos, em Génova, casou por amor com Amerigo Vespucci - amor da parte do marido, pelo menos - bem relacionado em Florença com a família Medici, e deslumbrou de imediato a corte florentina.
Sandro Botticelli
Por essa altura encantou vários pintores, incluindo Sandro Botticelli, de quem se tornaria musa incontestável. Todos os nobres locais estavam apaixonados por ela -  mas o formoso Giuliano de Medici foi o eleito. Num famoso torneio, usou mesmo a imagem de Simonetta no seu estandarte, pintada por Botticelli como Pallas Atena, com a divisa A Sem Par, na melhor tradição (ou revivalismo...) do amor cortês
Vénus e Marte: alegadamente, Simonetta e Giuliano terão inspirado a obra.


 Infelizmente a celebridade, o amor e a alegria não durariam muito: la Bella Simonetta morreria de tuberculose inesperadamente, com apenas 22 anos de idade. Toda a cidade a chorou. Dali a dois anos o belo Giuliano segui-la-ia, barbaramente assassinado. O Nascimento de Vénus seria completado por Botticelli - possivelmente in memoriam - nove anos depois. Continuou a pintá-la, obra após obra, figura após figura, com a obsessão que só um artista inspirado pode sentir. Três décadas mais tarde, quando o pintor deixou este mundo, o seu último desejo foi cumprido: ser sepultado aos pés da bela Simonetta, na Igreja da família Vespucci, em Florença. 
A Beleza pode não ser tudo - mas é fundamental, o alimento do amor, da arte e de todas as coisas imortais neste mundo. E quando é verdadeira, perdura para sempre.

                                          

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