Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, March 26, 2013

A piadinha dos estágios profissionais. Ou a Expo-escravo.

                           
Ia jurar que já fiz um estágio profissional de um ano, mas ao que parece é notícia terem passado para doze meses. Que sei eu, que nestas coisas sou como os snobs: do mais distraído que pode haver. Não do género que deixa as contas acumularem-se até ser recebida pelo próprio gerente do banco, mas enfim, percebem a ideia. Ao que parece - e repito que não percebo nada disto, nem quero, pois quando algo não me agrada prefiro varrer os detalhes da memória para sempre, Amen  - as regras continuam, em essência, as mesmas. Ou seja, uma empresa ou organização pode "contratar" sucessivamente estagiários sobre estagiários, pagando uma ninharia, enquanto cada "eleito" só tem o augusto privilégio de fazer um, não beneficiando mais da dança das cadeiras, perdão, "apoios do Estado". Os estagiários trabalham um aninho a eito sem direito a férias - já não falo em férias pagas, mas uma "pausa lectiva" seria bem vinda e produtiva ao longo de doze meses em que se faz tudo menos estagiar ou brincar aos empregos. É vergar a mola, para usar a expressão mais literal, e ver o chefe muito cansadinho a tirar quatro semanas de férias depois de ter estado fora ainda no Natal. A ter a lata de achar muito estranho que o sortudo do estagiário ande exausto, e zás, a atirar o discurso  "quando comecei a minha carreira fiquei muito feliz de ter feito um estágio profissional" e uma pessoa a fingir que acredita mas com vontade de lhe dar chicotadas. Se preciso for - vi acontecer e não gostei - ainda se fazem quantas manobras há para roubar os poucos dias de folga a que se tem direito por horas extra ou incómodas (trabalho em fins de semana ou feriados, etc). Para não falar de - também vi acontecer, também não achei piada - entidades que "acolhem" (reparem no palavrão: acolhimento a pobres meninos carenciados que não têm lugar para ficar) estagiários sem condições para os receber. Ou seja, o escravo vem com extras: computador próprio, câmara própria, carro próprio. Melhor do que isto, nem no melhor stand da República Romana em dia de Expo-Escravo: oportunidades imperdíveis para qualquer paterfamilias, compre dois e leve três, oferecemos os acessórios. A diferença, já o disse por aqui algures, é que o escravo representava um investimento considerável, logo era muito mais caro de substituir, fazia parte da mobília. Pondo as coisas nestes termos, se calhar não é tão mau como isso que cada empresa possa usar estagiários e mais estagiários, mas cada estagiário só possa voluntariar-se para o mercado uma vez: uma vez chega.

2 comments:

Our Choices said...

É uma pena o estado do nosso país, há muito talento por aí, mas voltamos aos tempos da escravatura!

http://ourchoices4u.blogspot.pt/

Inês Torres said...

Entre estágios, Contratos de Emprego Inserção (CEI)- que de inserção têm muito pouco, ou nada - e outros que tais, tenho dado o litro,sempre com a esperança de que no fim terei a recompensa de um posto de trabalho (e depois iludida uma pessoa esforça-se sempre mais, não é verdade?). Enfim, tenho trabalhado como uma moura e admito que já paguei para trabalhar, só porque ou é aquilo, ou ficar em casa de papo para o ar. Ora, eu que até sou uma miúda esforçada e disponível,no mercado por uma pechincha...há lá melhores requisitos no "cardápio"?!

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...