Recomenda-se:

Netscope

Saturday, March 9, 2013

Aerofobia ao cubo

A mãe da Sissi vem aí? Accionem medidas de emergência!
                          
Conta a S* que o namorado tem medo de aviões e que por isso mesmo, ganhou o gosto a ver programas sobre desastres aéreos. E quem percebe a contradição muito bem, quem é? A minha pessoa, que já lida com as esquisitas formas de sublimação de uma mãe com caso agudo de areofobia desde que se conhece por gente. Vá lá que a mamã, coitada, até tem desculpa. Tinha ela seis anos, e estava a brincar tranquilamente num cenário idílico da Beira Alta, quando uma avioneta lhe passa por cima da cabeça, bate contra as árvores e vai despenhar-se mais adiante, ficando em fanicos. O piloto, coitado, foi desta para melhor ali mesmo e a criança que viria a ser   autora dos meus dias ficou em estado de choque. Em vez de a levar ao psicólogo -  que naquele tempo não havia cá dessas contemplações com os pequenos -  o avô, que era um grande brincalhão e adorava voar (perdia-se por tudo o que tivesse motores e andasse rápido)  divertia-se a levar a família a espectáculos e festivais aéreos. A coitadinha corria a esconder-se debaixo dos carros logo que se ouvia o rosnar dos jactos e era um castigo para sair de lá, por mais que a família a chamasse literalmente de joelhos. E qual é a coisa mais lógica que uma mulher com uma aerofobia do piorio faz a bem da sua tranquilidade mental? É casar e ter filhos com um oficial da Força Aérea, pois. Mas a fobia da mamã, valha-nos, não é das piores: só é accionada se ela própria estiver no avião. Relativamente aos outros tem um medo normal, pelo que até encorajou o papá nos primeiros saltos de pára - quedas e voos tácticos, via telefone. Chegar-se a coisas com asas é que não. Mas claro, com esse estilo de vida é impossível não viajar uma vez por outra. De modo que eu, ainda sem idade para aturar filmes desses, tive de sofrer maus bocados, vulgo hospedeiras a colocar-se estrategicamente à frente do nosso lugar, para que os outros passageiros não julgassem que aquela senhora estava a choramingar por saber alguma coisa que eles não sabiam, que havia uma bomba no avião ou coisa parecida, e se amotinassem todos. Ou quando uma hospedeira húngara, trombuda como só uma húngara sabe ser e de sotaque esquisito, nos trouxe toalhas quentes para as mãos, a mãe percebeu que eram para pôr na cabeça e zás, achou que íamos todos morrer e que aquele era um último conforto para aguentar a pressão atmosférica ou algo do género. Não, a fobia não desaparece com umas valentes horas de voo. Nem sequer quando um familiar nosso sobrevive a um acidente de avião aparatoso e mediático. Nem acenando com férias na Malásia ou recepções em Marrocos (tudo convites recusados, digam-me se isto são coisas que uma senhora no seu perfeito juízo se negue a fazer para não passar umas horas numa "lata de sardinhas"). Planear uma viagem é uma complicação, em suma. E por mais que eu lhe diga "se cair caiu, que quem morre no ar vai direitinho para o céu" ou "que parvoíce"  não há maneira. Como eu própria não gosto muito de voar (detesto a pressão atmosférica, a desidratação, o facto de estar fechada e sim, há um vago receio de que não corra bem) desenvolvi técnicas: pensar no destino e não na viagem, mentalizar-me de que vou passear, apreciar a comida, ou, como prefiro viajar pouco mas decentemente, os mimos da classe executiva...truques baldados. Tem medo, tem medo, tem medo, e já ameacei que não há mais negas e que da próxima vamos e vamos mesmo, nem que ela se entretenha sei lá, a rezar o terço ou tome meio frasco de valerianas e um cocktail qualquer e seja o que Deus quiser, se tiver um surto finjo que não a conheço e caso arrumado. 
  Há dias então, tivemos aqui uma cena linda. Estava um vento horrível, alerta laranja e até julguei que fossem novamente cair árvores. Eis que passa um helicóptero mesmo por cima da nossa casa, o vento empurra-o para baixo e as pás bloqueiam, com um barulho esquisitíssimo. Ergui a sobrancelha e fui ver o que se passava, porque se caísse não passava do jardim e no pior dos cenários, ficávamos com um decor ao melhor estilo The Walking Dead. Acabou por não ser nada - bom para a tripulação e para o meu sossego, pois se o pior sucedesse não faltavam aí quantos jornalistas há a registar o acontecimento, a espreitar pelas janelas e a pisar-me as alfaces, as roseiras e os coentros, coisa que não me convinha nem um bocadinho. Entretanto, a minha pobre mãe sobe as escadas, branca como a cal, "ai que me vai dar uma coisa, ai que desta vez foi quase"...
...e no meio disto tudo, não há filme, notícia ou documentário sobre desastres de avião que ela não devore, interessadíssima. Mas isso é para quê? Para ficar com mais medo? Para encarar de frente e ao detalhe o cenário dantesco? Para ter desculpas razoáveis e cientificamente comprovadas que a impeçam de voar de todo? Go figure.

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...