Recomenda-se:

Netscope

Sunday, March 3, 2013

Ana e Maria: as escolhas de uma mulher nunca são fáceis

                
As duas irmãs eram muito bonitas. Ana inteligente, ponderada, astuciosa. Maria alegre, cheia de vida, de cabeça leve. Em França, onde foram educadas, Ana observava e aprendia estilo, maneiras, graça; absorvia os hábitos galantes sem tomar parte neles. A irmã, por seu turno, vivia as experiências ao máximo, conquistando uma reputação de "mulher fácil" na corte francesa. Terá tido vários casos amorosos, partilhando mesmo o leito real. O monarca, Francisco I, não a tinha em grande conta: referia-se a ela como "a minha égua inglesa" e ""una grandissima ribalda, infame sopra tutte"" (uma grandessíssima galdéria, a mais infame de todas").  Regressadas à pátria, Maria foi conquista fácil para Henrique VIII, rival do rei francês. Henrique  depressa se cansou dela e tratou de a casar com um rico cortesão, Sir William Carey. Ana continuava a observar os desvarios da irmã e a guardar as lições para seu governo. Poucos anos depois, o Rei virou-se para Ana (que hoje, os historiadores acreditam ser a irmã mais nova). E esta, que não queria cair nos mesmos erros, fez o que uma jovem de bem deveria fazer: recusou os avanços do todo poderoso soberano. O resto sabe-se: a relutância da presa acicatou-lhe a determinação, e ele não descansou enquanto não fez dela sua mulher, movendo mundos e fundos para isso. Maria, agora irmã da rainha consorte e cunhada do ex-amante, enviuvou subitamente. E quatro anos depois, enfureceu o cunhado e a irmã ao anunciar o seu casamento de paixão (e obviamente, não autorizado) com William Stafford, um soldado plebeu, sem nome nem fortuna, de condição muito abaixo da sua. 
"Podia ter escolhido um homem de nascimento mais elevado, mas nenhum tão honesto, nem que me amasse tanto; prefiro pedir esmola com ele do que ser a maior rainha da cristandade; e acredito que ele jamais me abandonaria, nem que fosse para se tornar rei". A explicação não convenceu a família: Maria foi banida da corte, os pais
 deserdaram-na, o Duque de Norfolk, seu tio, recusou dar-lhe qualquer ajuda e só  Ana intercedeu por ela, mandando-lhe algum dinheiro,  embora recusasse recebê-la de volta.       As duas irmãs nunca mais se veriam. A paixão de Henrique VIII teve o preço  elevado que todos conhecemos. Maria, essa, herdaria algumas propriedades com a execução dos irmãos e a morte dos pais, que se seguiu cerca de dois anos mais tarde. Morreu na obscuridade, num conforto relativo ao lado do homem que escolheu, longe das pompas da corte, mas (crê-se) apaixonada e feliz. 
 Reviravoltas que nos fazem pensar que uma mulher tem sempre escolhas muito complicadas pela frente -  cálculo ou espontaneidade, viver ou ponderar, amar ou pensar -  e que as recompensas, além de muito relativas, estão onde menos se espera...




1 comment:

Diligentia said...

Já para não falar no enorme jogo político que se alcançou com a dança destas duas ilustres senhoras no leito real...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...