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Tuesday, March 19, 2013

O meio termo faz muita falta

                                                 

"Ou tudo ou nada, mulher do diabo", dizia-me a avó muitas vezes, um pouco para mim, um pouco para ela própria, já que ambas éramos dotadas do feitio siciliano-irlandês levado da breca daquele lado da família. Por sorte, herdei a temperança do lado materno, o que fez com que curiosamente, e felizmente, poucas coisas me tirem do sério. 
  O auto domínio a que a educação me obrigou sobrepôs-se quase sempre a essa minha faceta tempestuosa. É comum ver todo o mundo em pânico, a perder o controlo, e eu ficar tão calma como se não fosse nada comigo, a resolver o assunto com uma precisão cirúrgica. Ou enfrentar gente  malcriada e grosseira com a tranquilidade de um Clint Eastwood, uma altivez e uma impassibilidade zen que adoraria ter todos os dias. Como raramente me irrito, ou antes, as coisas com capacidade de me fazer perder as estribeiras são tão limitadas, dou por mim muito surpreendida quando de facto o mau feitio ancestral se manifesta e toma conta de mim. Porque tomar conta de mim é o termo exacto. Quando me assalta, tenho de dizer, porque tenho e tenho mesmo, o que me passa pela cabeça. É, nas palavras da avó, uma onda a subir por mim acima, que leva tudo à frente. 
Assim de repente, gente metediça que quer o que é dos outros, mulheres da luta atiradiças e pessoas repisadoras, que batem na mesma tecla over and over, insistem, insistem e insistem, discutem e discutem e discutem, ralhando sem parar até um cristão perder os seus princípios são talvez as três coisas que mais me enervam, a pontos de trespassar as muralhas de indiferença  tão cuidadosamente erguidas.
Já o tenho dito: o meu saco de paciência é quase infinito, mas quando rebenta é tarde demais para medir as consequências, ou para me importar com elas. E embora não rode exactamente a baiana, como dizem os brasileiros (o factor educação tem demasiado peso, não consigo fazer cenas assim tão libertadoras...) enquanto não tiro o peso do peito, enquanto não liberto o que me incomoda, não fico satisfeita. Utilizo, dentro da decência, os termos menos simpáticos para caracterizar os envolvidos, uso-os como um trapo vil, digo-as boas e bonitas. Por vezes, prefiro afastar-me mesmo do cenário, e deitar  a perder coisas, ligações ou planos importantes só para não ter de lidar com aquilo que me faz ferver. Ou tudo, ou nada. Ao olhar para trás, é de valorizar as pessoas que (apesar das suas asneiras) não só tiveram paciência para este meu lado, como até lhe achavam graça. A culpa nunca morre solteira. É-me mais fácil quebrar do que torcer, e analisando, dava-me muito jeito encontrar um somewhere in between a utilizar quando se me deparam exemplares daquilo que considero insuportável. Alguém tem um meio termo que me venda?




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