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Monday, March 4, 2013

Os jovens só têm futuro na emigração?

                    
Pergunta o Público. E pergunto eu, porque me enfurece ouvir "ah, vocês têm é todos de ir embora" como se fosse "ah, vocês, jovens, não comem alface", como se emigração (ou exílio) forçado mascarado de "oportunidade de internacionalização" fosse ir ali à esquina, e nos tivéssemos andado a formar para aventureiros. Irrita-me o estereótipo: todos os jovens querem mais é ir ver o mundo, deixar a família, relacionamentos e amigos para trás, são todos uns Indiana Jones da vida, uns ganda malucos sempre em parte incerta, esse meu filho é como o vento, nunca se sabe onde anda, liguei-lhe ontem a julgar que estava em Londres e o malandro andava pela China. Como se uma pessoa fazer a sua vida do outro lado do planeta fosse dado adquirido, coisa de nada, e Portugal uma fábrica de cérebros fresquinhos para exportação, o eldorado é em toda a parte menos aqui, lá fora é só facilidades e ainda muito obrigada por cima. O mais curioso é que quem o diz (frequentemente com boa intenção, mas zero sensibilidade) acompanha-o muitas vezes de "os meus pais também emigraram, e que remédio" e a seguir canta Grândola Vila Morena do alto da sua todo poderosa razão -  mas eu estou equivocada ou o propósito disso tudo não foi impedir que os jovens fossem `para a França´ ou para o Ultramar? Algo deu para o torto, pois deu - e fala-se em andar para trás e aplicar o mesmo remédio. Muitas tolices diz esta gente quando não sabe o que dizer. Creio que nem o mais caseiro desses jovens, ou a mais menina da mamã das licenciadas, que sempre tenha sonhado ficar e constituir família na terra que a viu nascer, recusaria uma eventual oportunidade de ouro lá fora. As pessoas querem sempre mais do que aquilo que têm. Eu própria nada tenho contra "expedições" sazonais ao estrangeiro. Faz parte do mundo em que vivemos e é benéfico. O que me revolta é sentir que partir, pura e simplesmente, é normal, obrigatório e nada de estranho. Não gosto nada que estejam, literalmente, a pôr os filhos e netos deste país no olho da rua. E que os jovens não se possam queixar disso pelo glorioso motivo   antigamente toda a gente emigrava (não era toda a gente, mas pronto) e cara alegre. É a coisa mais insensível, mais conformada e mais sem coração que se pode dizer a alguém. E eu, que de idealista não tenho nada, e não canto cantiguinhas de protesto (sem reflectir antes, pelo menos) digo que esses "jovens", esses filhos os outros, esses aventureiros, têm de ser do contra, como é apanágio deles. Havemos de ir se quisermos, era só o que faltava. Se nos apetecer - não sou dada a rebeldias juvenis mas acho que neste caso é preciso. Se o país não nos serve, repare-se o que for preciso até servir. Se a fortuna não nos favorece, temos de lhe bater até que ela ceda. Não é simplesmente dizer "que remédio". Por opção, tudo muito lindo. Agora "abandonem o país que isso é o máximo"  vão contar essa a outra. Ou cantar, a ver se me alegram.

4 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Também não suporto esse pensamento. E se formos todos embora, quem fica? Um país sem capacidade para sustentar os seus pensionistas? Um país sem jovens e sem vida?
Eu nunca quis sair do país. Espero nunca ter de o fazer.

A Bomboca Mais Gostosa said...

Pelo menos não por obrigação, ou seja, se tiver de sair, que seja por opção e não porque não tinha mais o que comer.

Pusinko said...

Eu decidi continuar a estudar fora, 1o Holanda e depois Alemanha. Saí há 8 anos, concluí e fiquei mais uns tempos. Era algo que sempre quis. Infelizmente muitos amigos e/ou conhecidos têm vindo a deixar Portugal nos últimos anos. Pessoas muito menos interessadas em sair com bilhete de ida (ou a longo prazo), sem lutarem por novas oportunidades de conquistar espaço onde lhes pesa mais o coração. Sofrem muito mais com a distância e com a realidade no país de acolhimento que, não raro, é um balde de água fria.

Su said...

Eu também estou farta deste discurso. Já vivi em 4 países diferentes e, de certeza, que não me vou ficar por aqui porque não consigo estar parada.
As primeiras vezes que saí fui olhada de lado, como se fosse maluquinha e com a mania que era diferente, principalmente quando fui para um destino "menos habitual".
Agora estou em Portugal porque, neste momento, a minha "cena" é aqui. E volto a ser olhada de lado. Mas agora com um misto de pena e de censura. Agora que está toda a gente a sair, eu fico cá.
Irrita-me sobretudo a visão de que os melhores se vão embora e quem fica é quem não consegue ir. Eu acho exactamente o contrário. Quem é mesmo bom (e não assume que não tem o espírito aventureiro que agora parece obrigatório ter), consegue oportunidades cá.
Enfim...

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