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Sunday, April 21, 2013

Da vulgaridade, da beleza, e de fossos



"No crime is vulgar, but all

vulgarity is crime”

(Oscar Wilde)


Cada ser humano tem os seus limites, os seus medos ou mesmo fobias, em menor ou maior grau: coisas, situações ou imagens que o fazem saltar da pele, arrepiar-se, ficar perturbado, deixar mesmo de ir a determinados locais ou de desempenhar determinadas tarefas.

 Embora fosse educada para considerar o medo um atraso de vida, tenho os meus receios como toda a gente: os naturais e lógicos, úteis para a sobrevivência (que nem vale a pena mencionar pois suponho que sejam iguais aos vossos) e os que me ultrapassam. Factos ou pessoas que me roubam a serenidade, que me tiram do sério e que me impedem de raciocinar ou agir com a tranquilidade e sangue frio do costume. 
 E a vulgaridade, que tenho abordado bastante aqui no IS, é a maior das minhas fobias. Eu, o João - sem -Medo de saias, que me intimido com muito pouca coisa - entrevistas, falar em público, voar, escapar a algo perigoso, alturas, etc, etc - dou por mim aterrorizada - não é hipérbole -  quando me encontro na presença de comportamentos ou gostos ordinários, que revelem baixeza, brejeirice, grosseria ou pior ainda, boçalidade - que é algo mais profundo e permanente do que brejeirice. Isto não significa que me sinta mal num ambiente mais pitoresco ou descontraído, que não tolere um gracejo, que seja too uptight (antes pelo contrário - o pretensiosismo enerva-me quase tanto como a boçalidade). Mas a vulgaridade não é descontracção, modos menos refinados à mesa ou um palavrão ocasional. A vulgaridade é feia, monstruosa: abre portas para todos os vícios, para toda a sordidez. É um atentado à estética, à delicadeza, aos sentimentos elevados, a tudo o que é belo e valioso neste mundo. Ou se é vulgar ou não se é, ou se tem inclinação para exercer/ apreciar a vulgaridade ou não se tem, por mais que se tente disfarçar, que se façam esforços por proceder de outra maneira, que se finja gostar de outras coisas. A vulgaridade é uma tendência interior e não tem cura - pode tentar superar-se, mas há sempre réplicas. Perante a vulgaridade e a sordidez torno-me irritadiça, insegura, assustada. A minha vontade é fugir e esconder-me. É algo que não consigo desculpar ou ignorar.  É uma fobia para mim porque tem a capacidade de cavar um fosso intransponível.
                               
E o receio que a vulgaridade me provoca faz-me queimar a ponte levadiça. Posso gostar muitíssimo de uma pessoa, mas se ela me submeter a provações que envolvam a minha fobia, se me expuser a ela, se me desiludir com procedimentos, palavras, raciocínios, companhias ou gestos desse género, sou incapaz de voltar a vê-la com os mesmos olhos, de confiar da mesma maneira, de a admirar como antes, de sentir o mesmo. Há sempre aquela coisa pequenina: vulgar. Tu és vulgar, que me magoa, confrange e assustaO que é estranho pois sou capaz de compreender e tolerar, senão de desculpar, fraquezas que outras pessoas considerariam imperdoáveis. A raiva, os actos extremos, a própria deslealdade (que está no meu Top 3 do imperdoável) ainda posso tentar atingir, racionalizar. A vulgaridade, jamais. Cada um tem os seus medos. Cada um tem os seus fossos e conhece o limite que o leva a queimar as pontes, o seu ponto irreversível - este é o meu.





2 comments:

Ana C. said...

E quais são as características que a Sissi aponta para uma pessoa vulgar?

Imperatriz Sissi said...

Cara Ana, infelizmente há muitas: atrevimento, linguagem grosseira, trocadilhos, falta de decoro, intromissão em seara alheia, alimentar conversas inadequadas e de duplo sentido, assédio, mau ar, certos hábitos na forma de trajar,falta de noção, certos gostos e passatempos...a lista é infindável e dava um post em si.

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