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Sunday, April 28, 2013

Dos ciúmes deles


O monstro de olhos verdes no masculino já foi abordado em detalhe aqui, mas quanto mais o testemunho, mais curioso o acho.
 Eu não conheço bem o ciúme das mulheres, a não ser pelo exemplo. Sei que as há doentias, por insegurança crónica, por traumas do passado, por razões que ultrapassam a minha modesta sabedoria. Delas não posso falar. E em boa verdade, não posso falar por quaisquer outras mulheres, porque só consigo avaliar o meu próprio ciúme e esse é tão tranquilo que só se manifesta perante uma ameaça clara e objectiva. Até que tal coisa se apresente, confio de olhos fechados. Não por ingenuidade, não por gentileza, mas porque creio que uma pessoa não se envolve num relacionamento no firme propósito de ter alguém de quem possa suspeitar, e comprazer-se nessa angústia. Quem ama, ama de livre vontade; o compromisso, se é uma "fortaleza" que nos obriga a fazer escolhas ("não quero estar com mais ninguém porque escolhi esta pessoa") é uma "muralha" com a ponte levadiça sempre aberta, e cada parceiro tem a sua chave no bolso. As "grades" servem apenas para proteger de agressões externas, mas a porta da liberdade está acessível a qualquer momento - mesmo que isso possa magoar o  outro.

                                    
Assim, defendo que se avise sempre, e  só uma vez - não o faças. Não permitas (porque nestas coisas de enganos há sempre o que procura, o que permite e o que alimenta) invasões, grandes ou pequenas, por palavras ou actos, intenções ou planos. Porque o simples alimentar de proximidades com pessoas munidas de segundas intenções não só abre a possibilidade de consequências graves, como encerra em si mesmo objectivos pouco definidos ou deslealdade. Quem ama não deixa desprotegido o objecto da sua afeição, do seu compromisso. Quem ama e tem essa certeza não necessita de atenções perniciosas.
 Só face a essa realidade o Monstro de Olhos Verdes me assalta. E quando fere, apesar da minha advertência inicial, e precisamente por causa dela, só a fuga ou a retaliação podem lavar, ou aliviar, a ferida. 
 Isto porque em geral - e apenas no que concerne à retaliação escapo um pouco à generalidade das mulheres, que preferem carpir em silêncio. O  ciúme feminino é intenso, mas breve. Uma vez cansada de sofrer pela situação, uma vez o problema sarado, a ameaça descartada, há uma tendência para perdoar, para desatar os nós do sofrimento. E é nisso que o nosso ciúme  difere do deles
                               
O ciúme masculino vem da posse e da imaginação. Uma vez implantado um cenário mental, seja qual for o motivo desse cenário, um homem ciumento não abre mão dele, por mais provas que tenha do inverso. Nem juras, nem palavras, nem actos lhe desfazem a ilusão. Cada conversa sobre o assunto, sobre o alegado rival, não aparece no sentido de esclarecer, mas de encontrar falhas ou brechas que comprovem a impressão inicial, ou a mentira/duplicidade da mulher. Seja por insegurança íntima (ver o outro como um "macho alfa" ou superior a si de alguma maneira) seja por inferiorização da mulher ("é uma tola, qualquer um a convence com duas lérias") o veneno está lá, ainda que a suposta ameaça esteja na China, em silêncio absoluto, incapaz de causar dano. O ciúme masculino procura provas onde elas não existem, se for necessário recorre a calúnias de estranhos para se alimentar, devassa o passado e transporta-o para o presente e o que é pior, dá ao ciumento excelentes desculpas para pecar por seu turno, vulgo "just in case...já que ela me engana de certeza, vou arranjar um Plano B. Ou dois". Mesmo quando o motivo do ciúme deles surgiu por sua única e exclusiva culpa (o velho cenário "saí com ele porque te afastaste", ou " porque me enganaste primeiro") isso é totalmente irrelevante. Se surgiu, óptimo, pensam eles masoquistamente:  mais provas da dura realidade. Se "enganou" é porque já tencionava fazê-lo, ou porque a duplicidade lhe está no sangue. É esse o raciocínio deles, fechado neles, totalmente alheio à justiça dos factos ou à dor que daí advenha. 

“So will I turn her virtue into pitch,
And out of her own goodness make the net
That shall enmesh them all. ” 

  ShakespeareOthello



     É, dizem eles, porque a situação já existia, porque andava a ser cuidadosamente planeada nas suas costas - os homens julgam-nos sempre mais ardilosas do que somos , com uma estratégia militar de fazer corar os romanos - é, afirmam eles, porque toda a paixão jurada era mentira ou meia verdade. O terror de serem enganados - não tanto por amor, mas por orgulho - é de tal ordem que contamina qualquer hipótese de esclarecimento. Mesmo quando a "ameaça" nunca esteve presente.

“O, beware, my lord, of jealousy;
It is the green-ey'd monster, which doth mock
The meat it feeds on. That cuckold lives in bliss,
Who, certain of his fate, loves not his wronger:
But O, what damnèd minutes tells he o'er
Who dotes, yet doubts, suspects, yet strongly loves!

ShakespeareOthello


 A suspeita basta-lhes, e essa suspeita é fatal. O retrato interior que tiram da mulher que amam, se estiver tingido (ainda que com tinta falsa) raramente perde as nódoas. Dificilmente uma mulher abre mão de uma relação de forma definitiva por culpa de uma suspeita sem provas, mas um homem é capaz, uma vez ferido, de infligir golpes sucessivos ao relacionamento, até o deitar por terra, de cortar as correntes ou de o desgastar até ao fio, à conta de uma simples ideia. Ainda que isso o magoe. Ainda que devaste o objecto das suas suspeitas. Dizem que as mulheres são emocionais e eles racionais - talvez por isso o ciúme delas seja desgastante e cruel, mas breve. O deles, nascendo no seio do método, do raciocínio, da posse, é infindável, e mata aos bocadinhos. Recordemos que Othello leva uma peça inteira a ouvir intrigas, e como prova para o desfecho, um lenço mentiroso lhe basta...se fosse Desdémona a ter ciúmes confrontaria Othello, chamava a suposta rival à tábua, deitava o palácio abaixo - mas dificilmente o drama seria uma tragédia. Os homens só complicam.

3 comments:

Sérgio Saraiva said...

Ó Sissi, que visão tão negativa tens da minha espécie... Mas afinal os homens só complicam? A minha experiência de fazer compras com mulheres não é bem essa, inclusivé nisto e em muitas outras coisas tenho ideia que o papel do "complicometro" cabe, regra geral, às mulheres...

Imperatriz Sissi said...

De alguns exemplares, Sérgio, só de alguns ;)

O complicómetro é mais do domínio feminino na maior parte dos aspectos, mas no que concerne ao ciúme, o vosso é bem mais intrincado.

Inês Maria Rocha Gonçalves Moura de Sousa said...

O Sérgio que me desculpe, mas eu já vivi esta situação na pele tal e qual como aqui foi descrita a relação sobreviveu porque eu meti-em nas minhas tamancas e quando disse que ou acabavam os ciumes ou acabava o casamento a outra parte reconsiderou, mas foram meses de inquéritos e cenas.

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