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Thursday, April 4, 2013

Ensaio sobre a "feiura"

                              
Entre as ideias que mais defendo está a de que poucas coisas são tão relativas como a beleza - bem como a diversidade dessa mesma beleza, que pode vir com uma variedade enorme de tamanhos, traços ou cores, e que por vezes depende mais do carisma, ar e charme que se tem do que de questões meramente plásticas. 

Sempre me ouvi dar grandes sermões a amigos que - sem se olhar ao espelho nem aos sentimentos alheios - classificavam, de forma ligeira, esta ou aquela rapariga como feia. E a reprovar as mulheres que atiravam esse insulto umas às outras, mesmo sem ser verdade. Porque a "beleza" depende tanto dos padrões individuais de cada um, porque ninguém é perfeito, e em última análise, porque nascer "feio" ou "bonito", mesmo na era das makeovers e da cirurgia estética, é algo que só ao acaso se deve. Logo,  nunca foi palavra que gostasse de usar para classificar alguém. A avó ensinou-me sempre que ninguém se deve ufanar, nem deitar os outros abaixo, por coisas que fogem ao controlo de cada um: o nascimento, a saúde, a beleza ou a falta dela. Deus castiga, e não faças aos outros...

                                                            
*No entanto* (tinha de haver aqui um "mas" como ponto de viragem, estava-se mesmo a ver que o texto já estava fofo demais e eu só sou amável quando quero ou quando não tenho de dizer verdades...) constato que as pessoas que mais chatices me têm causado ao longo da vida não só são inegável e indiscutivelmente desagradáveis à vista- de caras de gárgula ao "feinho assim assim", a cabeçudos de Torres Vedras passando por gigantones, peles de sapo, fuinhas e ratazanas, tem-me aparecido de tudo - como são medonhas por dentro. Ou seja, por vezes quem vê carantonhas também vê corações. Há aqui um complexo de pescadinha de rabo na boca, ou de círculo vicioso. Se calhar andam por aí pessoas supostamente muito feias, mas que, como têm carácter e bom coração, desenvolvem um encanto tal que nem nos lembramos de as caracterizar como desagradáveis fisicamente: muitas das que achamos horrendas são, muito provavelmente, feias por dentro também. E contra ser feio por dentro, não há extreme makeover que valha.
                                        
 No caso das mulheres (já que em relação aos homens o caso torna-se mais complexo ainda) há uma questão de acção e consequência: uma rapariga desengraçada desenvolve naturalmente alguns complexos. E das duas uma: ou os combate e investe em si por dentro e por fora (passando à categoria das "pequenas sem grande beleza mas com um certo je ne sais quois") ou se torna uma ressabiada de primeira água. E o grande mal do ressabiamento é que contamina o sangue, faz os traços torcerem-se e a pele esverdear-se, estilo Juliana de O Primo Basílio. Zás, mais feia vai ficando. Depois, a rapariga feiota percebe desde cedo que terá de  esforçar-se muitíssimo mais que as outras, de recorrer a outros artifícios, uma vez que não obtém atenção masculina: o resultado natural é tornar-se uma tremenda mulher da luta. Ou seja, desenvolve um descaramento nada senhoril, deita fora a ética, o pudor, a dignidade e a solidariedade femininas; atira-se, oferece-se, põe o carro à frente dos bois, arranja intrigas com os namorados das outras se for preciso,  toma as iniciativas todas, dá todas as facilidades, tudo o que vem à rede é peixe -  aproveita qualquer janela de oportunidade, já que são tão poucas. Faz o papel da amiga, da confidente, do ombro aproveitadorde pneu suplente, aguenta tudo, tolera tudo, sofre as humilhações necessárias para não ficar a ver navios. Uma rapariga acostumada a ter atenção sabe que não precisa de suportar certas coisas, mas uma mulher "feia" está por tudo. E como ouvi por aí, é muito complicado lutar com pessoas feias, pois elas não têm nada a perder. Em qualquer área da vida, os indivíduos mais perigosos são os mais desesperados: recorrem aos piores truques, não desistem, matam e esfolam se for preciso. E como a necessidade obriga, são assim em tudo: no amor, no local de trabalho, nas amizades. Acabam por dar tanto nas vistas com as suas maldades que a falta de encanto se torna por demais evidente, e aí sim, justifica-se dizer "Meu Deus, que é medonha por fora e por dentro! Pobre pequena!". Afinal, contra certos males, só rezando...



4 comments:

Sérgio Saraiva said...

Eheh... No meu caso há outro tipo de pessoas que acho "graça". São aquelas que se autoconsideram muito bonitas e que aos olhos delas, todas as outras pessoas são feias. E claro que esta "beleza" é herdada para a descendência, e os filhos deles são a coisa mais gira à face da terra, à semelhança dos pais, e os dos outros são todos feios.

Eu acho que percebo a ideia: já que não tem mais nada com que se possam valer, imaginam que tem algo que mais ninguém tem e que só existe dentro da cabeça delas (uma vez que na realidade estamos a falar muitas vezes de pessoas balofas sem qualquer noção estética de como vestir, etc).

E ai de ti que insinues sequer que talvez a coisa não seja bem assim. Ui...

Imperatriz Sissi said...

Credo, Sérgio. Mas é verdade, as pessoas que descrevo no post agem muitas vezes como se não tivessem espelhos. Uma pessoa fica em modo " as if..." mas enfim. Beijinho

Ânia Morouço said...

Peço desculpa mas discordo totalmente do que dizes no último paragrafo. Para já, a beleza é algo subjetivo- o que eu posso achar feio,tu podes achar bonito. Depois discordo novamente quando dizes "muitas das que achamos horrendas são, muito provavelmente, feias por dentro também", acho um pouco patético dizeres algo do género. Estás a esteriotipar e no fundo a descriminar as pessoas que classificas como "horrendas" e a dizer que se uma pessoa é feia por fora muito provavelmente é feia por dentro - acho que estamos no século XXI, não sei talvez a nossa mente deveria estar mais aberta. E por fim, aqui discordo totalmente quando afirmas que as "pessoas feias" têm de se esforçar mais que as outras, portanto oferecem-se e etc... O que é que estás a dizer? Que estas pessoas não são capazes de chamar a atenção? Ao contrário do que dizes muitas pessoas "horrendas" têm bom coração, e por vezes ser bonita não basta. E digo mais é mais provavel encontrares uma pessoa bonita por fora que seja podre por dentro, porque essas têm o complexo de superioridade, acham-se melhores que os outros. E por serem bonitas conseguem os rapazes que querem facilmente sem oferecer essas facilidades que dizem, no entanto, essas muitas vezes são as piores. Quando alguém está apaixonado - não sei se é o teu caso - por muito feio/a que o nosso companheiro/a seja, aos nossos olhos é bonito/a.

Imperatriz Sissi said...

Ânia, com todo o respeito, acho que não me fiz entender. Estás a defender posições que eu própria defendo no post. A beleza é subjectiva - isso está explícito nos primeiros parágrafos. De seguida falo nas pessoas "feias" que têm óptimo coração e acabam por desenvolver uma certa beleza/factor de atracção. Só as que são feias por fora e por dentro (e acredita, existem) são visadas no post. Conheço exemplares suficientes para enumerar sem cair no estereótipo - para mal dos meus pecados!

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