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Wednesday, April 3, 2013

Eu embirro com...seitas

                              

Apesar de ser uma pessoa vá, tolerante ("indiferente desde que não me macem" seria um termo mais adequado) relativamente aos hábitos e crenças de cada um, um dos chás que me deram à baciada desde pequenina foi o chá de espírito crítico. 

Tenho cá a minha espiritualidade e os meus lemas, mas muito dificilmente engulo que certa banha da cobra vendida pelas esquinas é miraculosa, que determinada pessoa descobriu a pedra filosofal e vai guiar os incautos à iluminação ou salvação (já existem pelo menos duas religiões estabelecidas e com gente minimamente séria para o efeito, não são precisas caras novas) ou que o líder de um partido/organização é o Grande Líder, título assaz cómico (e viu-se o resultadão que deu na China; para mais, acho o culto ao líder uma pinderiquice).


 A minha formação em marketing não ajudou muito: as "vendas agressivas" e os esquemas de pirâmide eram abordados com certo desdém - o que prova que, mal ou bem, entrei em cursos de gente minimamente ajuizada; não se pode tropeçar sempre em quantos loucos há, felizmente...

Logo, é claro como água que embirro com pessoas que acreditam, fazem formações para acreditar e/ou fingem que acreditam em todo e qualquer tipo de esquema.

 "Religiões" que prometem milagres a penalti (acredito que certos métodos de auto ajuda até possam resultar, mas tudo o que envolva grupos a gritar num pavilhão assusta-me) ; sistemas "enriqueça rápido" que se baseiam em ar e vento, ou seja, em ter pessoas a vender para si coisas que nunca se sabe bem o que são (gambuzinos?); produtos iguaizinhos aos que estão disponíveis nas lojas, mas incomparavelmente mais caros e que, vá-se lá saber porquê - que isto nunca é explicado, faz parte do "mistério" que é a primeira coisa a caracterizar uma seita - só podem ser vendidos junto de um super distribuidor autorizado ultra-secreto, com o cérebro devidamente lavado; produtos que precisem de uma cósmica e fenomenal apresentação para serem vendidos, de preferência com os "clientes" em potência amarrados a uma cadeira; artigos ou serviços tão bons, tão ultra secretos, tão de primeira necessidade e de tal maneira exorbitantes relativamente aos seus congéneres que precisam de um contrato diabólico para a sua aquisição - sem insulto, porque os contratos com o Diabo, nos filmes, costumam incluir a man of wealth and taste, logo têm um certo cachet... em suma, coisas tão esquisitas, de que ninguém precisa, que exigem muita lábia, muita "formação", muita brainwashing para continuarem por aí, num mercado paralelo, a atormentar as almas. 

Estas seitas, e quem se mete nelas, trazem sempre consigo uma aura de pulhice e malandrice, um perfume reles a desespero e a burla, e mesmo quem jura por elas fala como se se estivesse a convencer a  si mesmo.

                                           

São as super panelas que fazem tudo e mais alguma coisa, os mega aspiradores, o fabuloso time sharing /apartamentos que funcionam não se sabe bem como, método que proporciona a famílias do mais classe média que pode haver férias em locais "exclusivos" com o devido almoço de culto pelo meio, os colchões milagrosos, os clubes de dança/ginásios onde se passam coisas esquisitas e de onde só se sai renegociando o contrato com o demo, as "bolhas", os produtos milagreiros para emagrecer ou engordar com fórmulas que se vendem em qualquer ervanária mas que obrigam os desgraçados dos vendedores a colocar pins e autocolantes do mais medonho que há na lapela e no carro, as super caixas para guardar comida que só podemos adquirir mediante um cultozinho em casa, e por aí fora. 

Quem se envolve nelas aspira a:

a) Beneficiar/ ganhar uns trocos, e se for uma pessoa honesta acaba por fugir a bom fugir sem ganhar grande coisa, depois de aborrecer devidamente família e amigos para aderir à seita;

b) Enriquecer rápido, e se for uma pessoa um pouco menos honesta fica com o juízo toldado para o resto da vida, caindo em quantas complicações há, moendo o juízo a família e amigos para aderir à seita (estes dão o desconto e deixam-no andar) e descarregando  os nervos despedaçados nos infelizes com quem se cruza;

c)Beneficiar/ ganhar uns trocos, enriquecer rápido e sem dúvida, a juntar-se a organizações secretas, ou menos secretas, daquelas à séria, para subir na vida -  mesmo as que olham de cima para as seitas realmente foleiras que vendem isto e aquilo à bordoada; mal ou bem o discípulo vai treinando para uma divertida carreira de malandro, e aprendendo a acreditar nas próprias endróminas e retóricas, o que dá sempre jeito. Poderá ser um membro um pouco baratucho da organização, mas é preciso uma fuinha em todas...

E com isto me calo, não vá a minha casa ser atacada com caixas de comida, cocktails molotov de chá verde com pirulitos, ou raptarem-me para uma reunião onde se vendam colchões com picos que fazem bem à saúde. A tortura uma pessoa ainda aguenta, tanta piroseira junta já é demasiado para as minhas capacidades...








4 comments:

Jedi Master Atomic said...

Bem, há que distinguir 2 tipos de coisas:

1 - a "seita" religiosa
2 - a "seita" comercial

Na 1ª, supostamente as pessoas ganham força e conforto emocional, enquanto que na 2ª, supostamente, para além da força e conforto emocional ganham também dinheiro.

Eu já vendi produtos duma marca que tu és capaz de identificar como esquema de pirâmide. Ganhei algum dinheiro na altura (nada de especial), mas acabei por desistir, não pelo que dizes, mas porque não tenho paciência para vender produtos.

Embora tenha conhecido muito gente que ganhasse bastante dinheiro e soubesse como eles faziam para o ganhar, nunca me seduziu a cena das vendas.

Mas percebo como funciona e porque tem que ser feito daquela maneira, senão não funciona.

Quanto a produtos que não se vendem em lojas e só através de distribuidores autorizados, estás a misturar coisas. E dou-te já um exmeplo básico que tu não vês de certeza como fraude, Tupperware. Não os encontras em lojas. Há efetivamente produtos muito bons (e eu uso alguns deles) que não se encontram em lojas. É preciso é ter conhecimento de causa sobre eles ;)

Imperatriz Sissi said...

Jedi,vindo da escola do marketing, a minha perspectiva está sempre em tornar as coisas tão apelativas que as pessoas não precisem de ser pressionadas a comprá-las: uma coisa é responder a necessidades e criar métodos/publicidade persuasivos, outra é impingir. E mistérios, que me cheiram sempre a esturro. Em relação às tupperwares,que já foram alvo de análise num "eu embirro" aqui, nada contra elas em si - só contra a vaidade que algumas pessoas têm nelas, que é francamente cómica - mas acho o sistema de distribuição um disparate. Lá está, esta rubrica não pretende ser imparcial ou justa. Embirração é embirração, e assiste a cada um...

Inês Maria Rocha Gonçalves Moura de Sousa said...

Eu não só embirro, como tenho de me pôr a milhas quando me deparo com as ditas "seitas". A minha experiência mais relevante com estas coletividades tem a ver com o Yoga. Nem me vou alargar muito (depois faço um post sobre isto) basta dizer que eu gosto de praticar yoga só a prática. Mas tenho me visto em palpos de aranha para arranjar um sitio onde ir fazer a aula sair e pronto. Já levei com: pessoal fanático por alimentação biológica ao extremo da conspiração (os crugormiti batizados lá em casa, por comerem quase tudo cru e porque os Gormiti estão na moda e ligava bem). Depois foi a vez da religião ui! vem ao workshop disto por causa da senhora não sei das quantas que nos dá uma paz interior maravilhosa, e ainda aqueles tipo new age com a mania da renovação celular. Parece impossível como é que não se pode ir a uma aula e sair sem levar com as catequizações. A minha postura é sempre a mesma, um sorriso, uma recusa educada e ala que se faz tarde fujo a 7 pés.

Tamborim Zim said...

Como seres pensantes e críticos q somos, nunca devemos é misturar o imiscível - sob risco de penosa simplificação - e, ao mesmo tempo, não cultuar as maiorias pq sim. "já existem pelo menos duas religiões estabelecidas e com gente minimamente séria para o efeito, não são precisas caras novas)" - não posso discordar mais. Mais do que as religiões, importa os princípios a que as religiões se re-ligam. E essa definição de princípios, e consequente aplicação em modos de vida, n se legitima pela "tradição", mas pelas práticas. Na religião, como nas personalidades, nos estilos, nas atitudes.

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