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Monday, April 8, 2013

Humildade ou basófia?



“Dinari e santità, crìdìtinni mità”

(Riqueza e santidade, acredita em metade)

Provérbio siciliano

Poucas pessoas são dotadas de verdadeira modéstia. Vão rareando a arte de não se levar demasiado a sério e de saber estar serenamente em toda a parte, a consciência do próprio valor e do lugar que se ocupa, que faz com que alguém se sinta igualmente à vontade - e proceda de acordo com as normas vigentes, sem melindrar ninguém -  num palácio ou na cabana de um caçador e a atitude despida de desafio /bajulação aos mais poderosos ou de arrogância perante quem está abaixo. Numa sociedade em que os valores andam pelas ruas da amargura, em que as tradições já não são o que eram e em que o êxito material, a fama ou o augusto título de doutor! obtidos por meios mais ou menos condenáveis se sobrepõem a critérios de categorização social considerados obsoletos, venera-se o self made man, o chico esperto, o "mãozinhas" que faz pela vida (termo detestável que parece desculpar tudo). 
  Mas atenção: tudo se desculpa, desde que acompanhado do chavão da humildade. "Humildade" deve ser a palavra mais estafada, mal empregue e incompreendida do léxico português É que a desgraçada da humildade serve para tudo, menos para caracterizar o que deve. Quando ninguém sabe o que dizer de si mesmo, é certo e sabido que - com zero criatividade e muita vontade de passar por santo - dirá "ah, eu sou uma pessoa muito humilde" caindo automaticamente nas boas graças de certo público. Como se diz lá em casa, quando um rústico se apresenta (num reality show, por exemplo) afirma automaticamente:

" Sou humilde, amigo do meu amigo e vivo cada dia como se fosse o último"
o que, analisado, se traduz sensivelmente por:

" sou um saloio de marca maior, logo não se sintam ameaçados pela minha presença"

Curiosamente, são esses os primeiros a sacar da ostentação, das peneiras, dos "tiques de vedeta" que o povo, tão amiguinho da suposta (falsa?) humildade, detesta e combate a todo o custo, mesmo que não existam. O maior benemérito, a mais educada e amorosa das criaturas, passará à partida por persona non grata se tiver um ar minimamente altivo ou vá, civilizado, e se não anunciar aos quatro ventos que é...adivinhem, humilde.

Quando alguém me diz "sou uma pessoa humilde, a minha família é humilde, tenho muito orgulho nas minhas raízes humildes, ai, gosto tanto de fulano porque é tão humilde" desconfio de imediato. Primeiro, porque a humildade é como o oxigénio: não precisamos de reparar nele para saber que existe. Quem verdadeiramente a possui, ou a aprecia, não a menciona.  A obsessão pela humildade, sua e dos outros,  traduz, regra geral, um complexo de inferioridade social, e uma consequente atenção obsessiva (tingida de inveja e bisbilhotice)  para com o estatuto alheio. 
 Segundo, porque quem se diz muito humilde, geralmente não faz ideia do que isso é, a não ser no que respeita a um certo atrevimento ou brejeirice que confunde com "simplicidade". 
 Terceiro, porque quem muito gaba a humildade, só a espera dos outros para não se sentir atingido nos seus sensíveis brios.
 Algumas das pessoas mais bem nascidas e com maior relevo social, económico ou o que seja que conheço são também as mais "humildes"...naquilo que realmente interessa. No respeito para com os outros; na forma como tratam os mais velhos ou necessitados; na forma de estar; na capacidade de perdão, de se despir do orgulho, de voltar atrás, de estender a mão, de reconciliação; no relativizar das ofensas; na maneira flexível e amorosa como gerem os relacionamentos; na faculdade de reconhecer o erro e procurar repará-lo; e - bem vindo mas não essencial quando se trata de pessoas próximas - na nobreza de pedir, aceitar ou esboçar desculpas. Tudo o resto é basófia, orgulho ressabiado e vão, vontade de aparecer, falta de noção e santidade da treta. Para se acreditar em metade, ou menos. Porque quem é rico, santo ou humilde não reflecte nisso, nem se gaba disso: é-o assim como uma cerejeira dá cerejas; naturalmente...

3 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Adorei este teu post, conheço muitos "humildes" desses, infelizmente, mas sabes, eles é que estão "certos" e eu sim sou acusada de falta de humildade. Mas não do valor verdadeiro em si, mas sim da tal "humildade" que eles apregoam.

Inês Maria Rocha Gonçalves Moura de Sousa said...

Que excelente texto sobre aquilo que está na minha lista de coisas com as quais embirro profundamente: a falsa humildade que se traduz em hipocrisia, falta de caráter, nos falsos desgraçadinhos que adoram clamar para si próprios a dita humildade. A minha vida profissional está bem povoada dessas criaturinhas e é um inferno porque temos mesmo de as aguentar e ter muito jogo de cintura e paciência tomada em colheres de sopa logo de manhã.

Carla Santos Alves said...

O chá deve ser tomado desde pequeno, como a humildade, pode beber-se, mas ou se toma ou não, por muito que se beba;).
Obrigada pela partilha.

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