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Friday, May 24, 2013

Escolher os inimigos, como se fosse possível


"Um homem deve dar toda importância à escolha 

dos seus

 inimigos: eu não tenho um só que não seja idiota".

            Oscar Wilde

     Esta manhã demos pancada na gente feia que cita o magnífico tio Oscar a esmo, e por causa disso ocorreu-me outra frase sua que tem muito de verdade. Ou teria, se  as  antipatias fossem questão de escolha. Não são: ou porque a citação só se aplica aos homens e as mulheres são aselhas nestas coisas (não me atirem pedras, estou só a pôr essa hipótese) ou a pessoas desbocadas que fazem inimizades por desporto mas que sabem o que é bom para elas, logo escolhem cuidadosamente quem é seguro provocar. Cá eu...nunca provoco ninguém ou antes, muito dificilmente abro hostilidades (embora seja óptima a fechá-las, como já disse). Sou essencialmente dada à paz, embora desconfie bem que seja dona de um dos blogs mais embirrentos que para aí andam, por mais serena e menos explosiva que seja a linguagem aqui utilizada. Palavrinha, cross my heart: sou mesmo dada à paz. O tipo de pessoa sossegada, metida no seu canto, que não faz mal a uma mosca até a mosca se meter comigo. Não me intrometo nos assuntos de pessoa alguma, não cobiço o alheio, detesto a mania de ser competitiva porque sim, não complico, trato toda a gente com respeito e a menos que tenha sido gravemente ofendida não me ouvirão dirigir-me a ninguém em termos desagradáveis. Seria de esperar que me deixassem tranquila, mas vivemos num mundo que é uma selva e há sempre gentinha difícil que quer o lugar/sucesso/qualidades/companhias dos outros, pelo que de antagonistas ninguém está livre. Isso eu percebo: lá dizia Eça de Queirós que todos precisamos dos inimigos necessários para confirmar uma superioridade.

 O que me escapa, o que não entendo mesmo, é o tipo de adversários que me calha, principalmente no que diz respeito às mulheres. Que nunca conheci um que não fosse idiota, é certo - nisso sou, involuntariamente, fiel a Wilde - mas idiota no sentido mau e irritante do termo.

Regra geral, dou-me lindamente com as pessoas do meu sexo: sou uma boa camarada, das que levantam a auto estima às colegas e primam pela solidariedade feminina. Já se sabe que há algumas fêmeas que nos envergonham a todas e quanto a essas, nada feito. Ainda assim, essa parte eu compreendo. O que não me entra é porque é que, sendo eu uma pessoa que selecciona os ambientes e as companhias, raramente me aparecem antagonistas de qualidade. Do tipo que eu possa respeitar e até admirar, quase frenemies, e detestar com sentimentos nobres, do estilo "noutras circunstâncias podíamos ter sido amigas". Do tipo de adversárias que ficam bem no cartaz, que são giras e articuladas, que vestem bem. É que no quesito inimigos, e inimigas mais ainda, nunca me aparece uma alma que se lhe diga benza-te Deus! ou que seja uma honra desfeitear de volta. Qual quê! São sempre os camafeus, os trambolhos, as pindéricas e os saloios que vêm embater na minha realidade ou atravessar-se no meu caminho, seja sob a forma de mulheres da luta ou de gente francamente reles, a quem não abriria a porta nem para mandar engraxar o calçado. Até envergonha uma mulher de bem, que não se mete nessas misturas. Palavra de honra: de cabeçudos carnavelescos a travestis tresloucados, de autênticas múmias desesperadas a pipas com pernas movidas a Duracell, parece que os circos de aberrações não gostam mesmo de mim. Pior ainda, quase todos têm olhos de tubarão, ou seja, um olhar burrinho, inexpressivo, de quem tem ar e vento na cabeça (o que condiz com os disparates que lhes saem pela boca fora, ou pelos facebooks da vida fora...) e sinceramente, acho isso sinistro.
   Que se tenha de lidar com gente que se detesta, é um facto da vida; que além disso seja incomodada por pessoas que desprezo, já é mau demais.
 Resta-me um consolo: já que não posso ser selectiva nos desafectos, ao menos 
agarro-me ao facto de só vilões que nada devem à harmonia estética ou ao gosto se atreverem a chatear-me a molécula. Com os outros está tudo bem, ou lida-se com civilidade.

2 comments:

S* said...

Considero-me uma pessoa pacífica e que gosta de agradar, pelo que julgo que não tenho inimigos...

Ariana said...

"Pior ainda, quase todos têm olhos de tubarão, ou seja, um olhar burrinho, inexpressivo, de quem tem ar e vento na cabeça (o que condiz com os disparates que lhes saem pela boca fora, ou pelos facebooks da vida fora...) e sinceramente, acho isso sinistro."
"Olhos de tubarão": GENIAL! O que eu já me ri...

Infelizmente, tenho cada vez mais a certeza que ser pela paz e gostar de agradar, como a S*, não será garantia de não se ter inimigos. Com tanta gente a rebentar a Terra pelas costuras, e 80-90% deles à batatada e ao soco para chamar a atenção (das formas mais disparatadas que se possam imaginar), acho infelizmente que nós teremos SEMPRE alguma coisa - quer seja na nossa imagem quer seja na nossa maneira de ser - que, por mais pequena que seja, sirva de embirração por parte dos outros. Enfim...

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