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Wednesday, May 29, 2013

Ninguém está acima da boa educação

                                  
Toda a vida ouvi dizer que quem é muito bem educado, pode dar-se ao luxo de quebrar as regras que tão bem conhece uma vez por outra. E sou toda por uma certa aura de enfant terrible, por um comportamento de Lord Henry, pelo charme de um certo cinismo, da fleuma ou da indiferença, pelo uso da ironia, do sarcasmo ou de uma franqueza desconcertante - figuras de estilo que no local/ocasião/circuito certos acrescentam espírito e graça. Eu própria venho de uma família em que arreliar os outros, usar de um certo humor negro, enfrentar pessoas desagradáveis com uma subtileza acutilante ou entrar em modo "bicho do mato" não é pecado nenhum, por isso tenho elevada tolerância aos Viscondes Reinaldos desta vida.
Tudo isto faz parte de uma certa forma de estar e não vem por aí mal ao mundo, desde que não se exagere - a linha que separa uma certa rebeldia elegante e a atitude "estou-me nas tintas" da má criação pura e dura é muitas vezes ténue. Para começar, porque ninguém gosta de palhaços de serviço nem de caricaturas sentadas à mesa. Quem recorre constantemente a brincadeiras, chistes, alfinetadas e alusões, sem nunca falar a sério, acaba mesmo por não ser levado a sério e crispar os outros. É enervante, no mínimo,  estar perto de quem a toda a hora troça, aponta, imita, hiperboliza e exagera, a pontos de já não se perceber onde começa o teatro e onde acabam as conversas de gente normal. Depois há as pessoas que - ou porque se acham tão folionas que tudo lhes é desculpado, ou tão sofisticadas que podem cometer crimes sem castigo -  levam a troça, as partidas e as brincadeiras longe demais. É escusado dizer (porque isso a vida vai ensinando) que às vezes essas brincadeiras acabam muito mal: pessoas assim estão-se borrifando para a sua segurança e para a dos outros. Peguemos então no argumento do mau gosto: há coisas de tal maneira grosseiras ou inconvenientes que por mais bonita, poderosa, elegante, benzoca ou foliona ou que a pessoa seja, não passam em branco; antes, desmerecem e mancham quem as faz. Ou são indignas de quem as comete. Não é o autor que branqueia a atitude, mas a atitude que rebaixa o autor...
 Se é verdade que as pessoas muito bem educadas, que tomaram muito chá em pequeninas, podem permitir-se ser malcriadas quando a ocasião o exige... também é verdade que por terem tido tão boa educação, têm a obrigação de dar o exemplo; que recebendo da vida certos privilégios, deveriam levantar as mãos para o céu e zelar para não estragar os dons que lhes foram dados fazendo papelões decadentes. Porque à lei ainda se escapa, mas às figuras tristes nem por isso.

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