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Thursday, June 6, 2013

A nobre arte da resignação cristã é muito linda...mas tem limites

A Anima Sola (alma do purgatório muito popular na folk magick da América do Sul)
Uma coisa boa de se ter espiritualidade é que nos habituamos a certos exercícios interiores que ajudam a encarar os aborrecimentos do dia a dia com outra temperança. E nesse campo tive uma vivência riquíssima e ecléctica, com bons mestres, excelentes livros e melhores exemplos de campos variados. Mas sejamos práticos: num país Católico como o nosso, não é preciso procurar filosofias exóticas para ter à mão um vasto campo de práticas e devoções que - bem compreendidas e bem aplicadas - arrumam a um canto (com todo o respeito) muito mantra e tratamento New Age que por aí anda vendido como se fosse a Pedra Filosofal...o que acontece é que os santos da terra não fazem milagres. E nem toda a gente presta atenção ao que é familiar, que já se tornou parte da paisagem e mais obrigação social do que outra coisa. O desaparecimento das velhinhas que sabiam rezas mais ou menos autorizadas para tudo e mais alguma coisa também retira alguma magia à fé popular, é um facto - e se ninguém for compilando esses segredos, pior será. Mas divago, e o que eu queria dizer é que ter avós muitíssimo religiosas mas com muitíssima cabeça (uma das quais tinha o hábito delicioso de me trazer pagelas com santos e orações de cada santuário recôndito que visitava, o que alimentou a minha mania de coleccionar essas curiosidades) me ensinou um par de coisas. Quem não teve uma avó católica à moda antiga não sabe o que perde.
 E por causa disso, um dos exercícios que faço diariamente (para além do bom e velho exame de consciência antes de deitar) é o exercício da humildade, da resignação, porque Deus Nosso Senhor é que sabe e não nos dá nenhuma Cruz que não sejamos capazes de carregar. Por vezes, na nossa arrogância e egoísmo (que por sua vez, têm um papel legítimo que não é para aqui chamado) achamo-nos muito injustiçados, mas se pensarmos que até os Deuses desceram do pedestal para se humilharem e sacrificarem pela humanidade (e não falo só de Cristo, como já mencionei noutros posts) se calhar as nossas penas parecem bem menos importantes. Outra parte desse exercício é a velha noção de oferecer os nossos sofrimentos em remissão dos nossos pecados (mesmo que não nos lembremos, havemos de ter alguns...eu sei que ao longo do dia, ainda que sem querer, faço uma data de asneiras) ou pelos pecados de todos, ou para proveito das almas (o facto de dizerem que já não há Purgatório não me convence lá muito; gosto da ideia de um patamar intermédio e das alminhas a quem se pode pedir favores, que intercedem por nós se rezarmos por elas, que querem? O Purgatoriozinho ninguém me tira) ou pelos desacatos e maldades que se vão cometendo por este mundo fora, ou em troca de uma Graça que desejemos obter. Sempre ficamos com a ideia de que as nossas chatices servem por alguma coisa e ainda desagravamos o Céu, o que é sempre boa ideia. Em última análise, as vetustas frases "mais do que nós sofreu Jesus!", "tudo seja por amor de Deus!" ou "seja por amor dos meus pecados!" são chavões excelentes. Por vezes - quando nada mais funciona -  a resignação, a capacidade de delegar num poder mais alto ou a lei do esforço invertido são meio caminho andado para que os problemas se resolvam como que por magia. Quando deixamos de nos ralar e seja o que Deus quiser, o caminho abre-se.  Tried and True. Experimentem.
  Mas (e este texto estava mesmo a pedir um  "mas") tudo isso tem limites. E há situações que têm o condão de me tirar do sério, que me cansam e não vão lá nem com reza mansa, nem com reza brava, nem com dar a outra face, nem à bofetada, nem com o exercício da resignação (ou com o exercício "com os malucos não se discute"). Perante essas, há um exercício espiritual melhor ainda: o exercício de se pôr a milhas, do pó de sumiço, do dane-se e quero que tudo isto se expluda, mas numa daquelas explosões galácticas. Esse também resulta, quando o saco enche. Mesmo que seja um saco com uma boa camada de resignação católica, daquela da velha guarda.


1 comment:

Dool In High Heels said...

Olá...
Gostei muito do teu cantinho...
Sou nova na blogosfera como blogger mas já cá navego há bastante tempo como leitora...
Parabéns pelo excelente trabalho que tens feito no teu Blog...
O meu cantinho é:
dollhighheels.blogspot.pt
Se puderes dá uma espreitadela e se gostares segue-me...
Bjokas
Bruna

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