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Sunday, June 23, 2013

Fujam da rusticidade, salvo seja

                            
Antes de vos contar como tem sido o meu final de semana (e não me refiro ao weekend, já que andei quatro dias fora...bloody inconsiderate of me) tinha guardada esta pérola para partilhar convosco. Acho a maior das graças a manuais antigos de boas maneiras, e por estranho que pareça muitas ideias lá demonstradas estão (ou deviam estar) bastante actuais. Uma colega encontrou no sótão um certo Compêndio de Civilidade do Senhor Padre Maciel, que eu não tenho a honra de conhecer, datado de 1939 e destinado "às casas de educação" e teve a  feliz ideia de mo mostrar. Mas porque é que já não se dá isto nas escolas portuguesas, que andam cada vez menos civilizadas? Pois, andam cada vez menos civilizadas porque ninguém dá aos pequenos disciplinas de civilidade. Que cousa, digo eu que fui educada à moda de melhores tempos. Enjoy:

"O homem que despreza as regras da civilidade dá livre curso aos seus defeitos". 
     
Verdade, verdade. As regras estão cá para nos ajudar a moderar um bocadinho os nossos impulsos naturais; ajudam a esculpir a personalidade. Por exemplo, uma pessoa que seja naturalmente acanhada será forçada, se seguir as normas de boa sociedade, a corrigir essa falha de carácter; pelo contrário, quem tem demasiado à vontade (e o atrevimento é um defeito que importa corrigir de pequenino) será, ou devia ser, obrigado a temperar a ousadia excessiva. 

"Fujam da rusticidade e da falta de polidez nas palavras e nas acções, procedendo sempre com todos humana e afavelmente, mas sem afectação e sem baixeza nem quebra de dignidade".

Isto é ouro. A rusticidade é um defeito a moderar, mas quando deixa de ser genuína para ficar toldada pela afectação ... mais horrível e doentia se torna. Infelizmente, vejo incontáveis almas que só sabem proceder de três maneiras: com pretensiosismo e afectação (se sobem ou tentam "subir na vida") rebaixando os inferiores (se têm a sorte de pôr em prática o termo execrável de "subir na vida") ou precisamente com baixeza, quebra de dignidade e bajulação abjecta perante os superiores. E para mim, quem engraxa os que estão acima e amesquinha quem está abaixo, é imediatamente riscado da lista. Pa-vo-ro-so.

"A polidez, para ser perfeita, deve fazer-nos agradáveis a Deus sem que deixemos de o ser para com o próximo. A polidez do coração não é mais do que o esquecimento de nós próprios em proveito do próximo. Faz-nos benévolos para com os humildes, cordiais para com os iguais, respeitosos para com os superiores".

Muito boa gente faz por ter "modos" e esquece-se de que as boas maneiras, mais do que usar correctamente os talheres ou sentar-se bem, passam essencialmente por saber proceder em toda a parte (o que dá sempre jeito) mas sobretudo, por não incomodar os outros e pôr o próximo em primeiro lugar. Isto por um motivo simples: se todos pusessem o próximo em primeiro lugar, tentando não causar incómodos, cada um de nós estaria sempre em primeiro lugar nas prioridades alheias e tudo funcionava como um relógio. Simples, não é? Mas hoje, com o aligeirar dos bons costumes e o egoísmo que se instalou, é uma baralhada total e uma pessoa é infelizmente forçada a proceder um bocadinho mais...à bruta, se não quiser ser passada à frente em todas as filas, pisada nos transportes públicos, incomodada na rua, etc. Sinais dos tempos. Ainda assim, é sempre bonito dar o exemplo e lá porque todos agem mal, não vamos nós fazer o mesmo. Além disso, pensar menos em nós e mais nos outros confere serenidade e graciosidade, olhem a tia Audrey Hepburn, não se fiem em mim...

"A roupa, o riso e o andar do homem dão a conhecer o que ele é".
(Ecles.XIX, 27)

O Bom Livro, sem ser tomado à risca senão andávamos por aí à pedrada, é uma fonte de inspiração óptima para bem viver. E no caso acima, quem diz "homem" diz mulher. Goste-se ou não, ou programamos a nossa imagem pública ou os outros fá-lo-ão por nós. É muito difícil, por exemplo, parecer séria se se bamboleia  pela rua com bandage dresses ou calções que não tapam nada, por mais virtuosa que se seja; ou sofisticada quando tudo o que se veste tem o aspecto mais reles e mal acabado possível. Vivemos num mundo de paradigmas e a bota deve bater com a perdigota, nada a fazer. Pessoas bem educadas moderam o riso e o discurso: a minha cara avó sempre insistiu que uma menina não deve rir histericamente em público, à semelhança das hienas. E um cavalheiro tão pouco...

"É pois imodéstia e incivilidade torcer-se ou balançar-se, espreguiçar-se, fazer trejeitos, inteiriçar-se e fazer quaisquer outros movimentos descompostos. É também imodéstia e descortesia estar com os olhos pasmados, fazer muito estrondo a assoar-se, rir às gargalhadas, olhar para o lenço depois de assoar-se, bocejar com muita força, enrugar sem necessidade as sobrancelhas, etc".

Imodéstia e descortesia: dois adoráveis termos muito fora de moda. Acham antiquado? Pessoalmente não suporto ter gente a embasbacar para mim, como se quisesse furar-me com os olhos, principalmente quando o contacto visual não é recíproco (típico dos grosseirões portugueses, e não só de trolhas no alto dos andaimes...) ou ver gente a apontar outras pessoas na rua, um básico da educação que se vai perdendo. E o resto nem precisa de comentário...

"Trazer vestidos desproporcionados ao talhe do corpo, ou impróprios à idade e estado de cada um - é ridicularia; trazê-los desabotoados, soltos ou descaídos - é desalinho; trazê-los rotos, sujos ou com nódoas (...) é indecência. Quando se caminha é má educação levar os braços pendurados, movendo-os à maneira de pêndulos, próprio de caminheiros. É também muito reparado e sinal de má criação curvar as pernas, mudar-lhes a  posição continuamente, carregar mais sobre um pé do que sobre o outro, porque denota que estamos contrariados na presença da pessoa com quem falamos."

Ridicularia, desalinho e "muito reparado" eram termos em voga lá em casa, mas que ouço cada vez menos...e é uma pena, porque caracterizam lindamente muitos desleixos que por aí se vêem. Já se sabe, se não reparamos ou apontamos as coisas menos correctas elas tornam-se corriqueiras, até entrarem definitivamente em uso, e é um Deus nos acuda...
 Quanto às normas acima, os tempos que atravessamos permitem uma excepção: perante uma pessoa malcriada ou abusadora, que não percebe que está a incomodar impondo a sua presença num caso típico de má educação passiva, mexer-se de forma impaciente pode ser uma forma subtil e útil de preparar a saída e dar-lhe a entender que o seu comportamento não é desejado.

 Por fim, este livrinho é um achado tão grande que responde à velha questão "porque é que as mulheres vão sempre juntas à casa de banho?". Elementar: quando uma menina ou senhora necessitava de se retirar da mesa (para empoar o nariz ou coisa parecida) era de bom tom chamar uma amiga para a acompanhar; no caso das meninas muito novas, devia pedir à mãe ou a uma tia que o fizesse...assim não corria o risco de ser incomodada pelo caminho, ou surpreendida por algum louco num momento privado. E como é lógico, não seria próprio solicitar a um cavalheiro que a escoltasse numa situação tão...bom, íntima, logo teria de se fazer acompanhar de outra mulher. 

Estão a ver o que se aprende em livros bolorentos? What´s not to love?





2 comments:

Ana C. said...

Li este seu texto a meio de uma pausa do meu estudo para os exames.
E que estava a estudar? A educação humanista, e a sua evolução para uma educação mais formalista e de etiqueta, com as obras de Castiglione e de Monsenhor Giovanni della Casa.
=)

Imperatriz Sissi said...

Ana, olhe que chatice! Contava distrair-se ao passar por aqui e vem encontrar um tema semelhante...espero que tenha gostado do texto. Achei o livro delicioso. Beijinho.

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