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Thursday, June 13, 2013

Santo António, I love you


"Santo Antônio Pequenino, 
Amansador de burro brabo
Quem mexer com Sto Antônio, 
Ta mexendo com o diabo!"

(Popular brasileiro)


A minha ligação a Santo António é quase umbilical. Afinal, nasci na Paróquia de Santo António, fui baptizada na mesma Igreja da comunidade onde ele se tornou Franciscano, e o nome António (ou Antónia) repete-se a minha família há gerações. Uma das minhas birras é não me terem chamado Antónia, na melhor tradição romana ("filha de António"). É um nome lindíssimo e soa bem em português, inglês e numa data de outras línguas, embora me veja obrigada a reconhecer que Sissi Antónia ia parecer no mínimo estranho. Outra razão para eu gostar dele é que, como a maior parte dos Santos da minha devoção, não é propriamente um Santo "santinho". Não me perguntem porquê, mas tenho inclinação para os Santos guerreiros ou aguerridos: S. Miguel Arcanjo, S. Jorge, S. Sebastião, Santo Expedito, Santa Marta, Santo António. Talvez porque eu própria possuo, assumidamente que graças aos Céus de hipócrita não tenho nada, um lado bom e um...menos amoroso. Gosto das figuras ambíguas, como eu.


Santo António é único não só pela sua rápida Canonização (uma das mais céleres de sempre) que ocorreu menos de um ano após a sua morte, motivada pelos muitos milagres que lhe sucederam, mas sobretudo pelos feitos extraordinários que realizou em vida - alguns com sabor a lenda, outros confirmados pela Santa Madre Igreja. E não há nada a fazer, os Santos místicos têm inevitavelmente o meu apreço.


A sua grande bondade e a sua cultura só são superadas pelos prodígios que deixavam abismados os que tiveram a felicidade de privar com ele...ou a audácia de o desafiar. Reza a tradição que possuía o dom da ubiquidade, sendo capaz de continuar tranquilamente o seu sermão em Pádua, ao mesmo tempo que corria a Lisboa para livrar o pai de morrer injustamente na forca; que duvidando um marido ciumento de ser o pai de um recém nascido, Santo António fez o bebé falar, atestando a honestidade da mãe; que falando às autoridades da Igreja, cada um dos presentes o ouviu na sua própria língua, espantando o Papa.


Quando um jovem veio confessar-lhe, arrependido, ter dado um pontapé na mãe, Santo António terá desabafado "o pé que fez tão feia acção devia ser cortado!". O jovem ouviu aquilo e impressionado, ao chegar a casa decepou o próprio pé. A mãe aflita correu a chamar o Santo, que logo tratou de lho pôr no lugar, como novo. Menos sorte teve um fanfarrão que para testar Santo António, se fingiu de cego: colocou uma venda sobre os olhos e pediu-lhe que o curasse. Zangado, o Bom Frade retirou-lhe a venda...e os olhos vieram atrás, perante o horror da assistência - não me recordo se lhe voltou a colocar os olhos no sítio, mas o episódio retrata o carácter (humano, afinal) de Santo António, capaz de se encolerizar e de castigar, como todos nós. Por essas razões, a sua figura cercou-se de um riquíssimo folclore e caiu no carinho popular. Muitos milagres relatados já depois da sua Canonização são espantosos, mas dão-se perante as angústias dos fracos e os dramas do quotidiano. Conta a lenda que um pai arruinado tinha uma filha muito linda, e que o seu maior credor desejava, em troca o perdão da dívida, os favores da jovem; desesperada, a moça lançou-se aos pés da imagem de Santo António. Comovido, o Santo atirou-lhe uma das suas sandálias...quando lhe pegou, esta era de ouro e pedrarias. Assim saldou a dívida da família, livrando-se da desonra.


O fervor popular de portugueses, italianos e espanhóis espalhou-se para as colónias, e a devoção a Santo António propagou-se nas tradições mágico-religosas da diáspora Africana e não só. No contexto da Umbanda, Hoodoo, Santeria e outras é sincretizado com Ellegua, Exu (a divindade que abre caminhos, viaja entre mundos e pode simultaneamente, ser benévola ou cruel) ou Ogum, o Deus da Guerra. 


E como seria de esperar, ganha contornos menos ortodoxos...

A imagem do Santo, tão familiar, tão camarada, é mesmo alvo de brincadeiras, no intuito de o "obrigar" a fazer milagres: são muitas as "simpatias" que incluem virar o santo ao contrário, pô-lo de castigo ou fechá-lo num lugar desagradável, como o frigorífico, até obter o resultado desejado. Neste cenário livre e pagão, o seu nome é invocado para os mesmos favores que nos habituámos a associar-lhe (recuperar objectos, empregos ou amores perdidos, questões de saúde, fazer casamentos) mas também para mudar a sorte, abrir caminhos, trazer oportunidades, amarrar maridos ingratos e castigar inimigos. Um Santo com muitas faces, mas sempre poderoso e próximo de nós. Como não gostar dele?

1 comment:

O Sexo e a Idade said...

Sempre presente em várias imagens aqui por casa!

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