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Saturday, June 15, 2013

Violência sobre as mulheres, de novo: breaking the girl

                                 
Ontem tivemos mais um caso vergonhoso de violência doméstica (neste caso, violência sobre as mulheres...) levado ao extremo. Outro crime passional de um homem sobre a ex companheira, com consequências trágicas. Isto deixa-me gelada por dentro porque só quem nunca sentiu de perto a violência doméstica, na pele ou observando os casos de pessoas próximas, pode desvalorizá-la ou olhar para o lado. Dizia eu há dias que nenhuma mulher - por mais psicologicamente forte ou menos "vulnerável" que seja, por bem preparada que esteja pela informação ou pelo exemplo- está livre de se envolver com um agressor. Não sou especialista na matéria, mas é sabido que pessoas assim procuram a todo o custo qualquer tipo de fragilidade que possam explorar. Ou porque a mulher é economicamente frágil, ou fisicamente fácil de dominar, ou está de alguma maneira isolada, ou tem pouca auto-estima ou porque é ou parece permeável por ter saído de outro relacionamento há pouco tempo. É uma questão de domínio, de controlo, e em certos casos de ciúmes, porque ainda há muito rapazinho por aí que não vê as mulheres senão como santas ou prostitutas, sem meio termo; e se aos seus olhos a mulher que diz amar tem um comportamento que lhe desagrada, por mais injusto ou delirante que isso seja...merece, na sua cabeça, tudo o que lhe possa acontecer. Há sempre alguma coisa que um agressor em potência fareja, mas não se julgue que só escolhe raparigas tímidas, inseguras, sem ninguém que as proteja ou outras opções amorosas. Muitas vezes é o simples acaso que determina fatalidades destas; noutras, para um agressor narcisista, pode ser interessante testar os limites e procurar precisamente dominar alguém que constitua um desafio, que lhe alimente a vaidade, só para repetir o mesmo padrão de comportamento por que se regeu toda a vida. E isso pode correr ainda pior, porque a violência não começa de repente, nem com gestos dramáticos. A pequena, subtil e discreta violência psicológica vai-se instalando aos poucos, tão lentamente que nem se dá por ela. E muitas vezes, a vítima só a reconhece como tal quando está demasiado envolvida. Então poderá parar o ciclo antes de a  violência se tornar física mas as marcas estão lá, e não são menos dolorosas do que as equimoses. São mais difíceis de situar, de identificar. Há cerca de um mês escrevi a short story abaixo, mas decidi só a partilhar convosco agora. Antes porém, há algo que soube recentemente, uma pequena subtileza na Lei que acho importante divulgar: a difamação, agressão verbal, insultos e maus tratos psicológicos, ainda que entre namorados ou ex namorados, qualquer que seja a idade ou o tempo de relacionamento, é violência doméstica e constitui crime público. Por vezes não nos apercebemos que mal ou bem, os mecanismos legais funcionam. Estão lá quanto mais não seja para dissuadir, para impedir males maiores antes que o palavrão, a desconfiança, as acusações, os gritos, a calúnia, o insulto ou a tortura psicológica evoluam para algo mais visível ou mais perigoso. Nenhuma mulher (e para sermos justos, nenhum homem, mas os leitores que me perdoem - nós ainda somos a minoria e temos menos força física; não me venham dizer que uma rapariga do meu tamanho pode grande coisa contra um homem grande, por mais técnicas de auto defesa que conheça) tem de aturar isto. Não deve. Não pode. Isto diz respeito a todas nós. Nunca sabemos quando é a nossa vez ou a de uma amiga, prima, irmã. 

Breaking the girl


Ele virá com bela figura, belas palavras, mãos grandes e o coração nelas, como uma fortaleza, como um escudo. Vai jurar, não recitar, o Cântico dos Cânticos e proferir blasfémias, colocá-la num altar e selar as promessas com o nome, com os lábios, com os olhos. Vai fazê-la amá-lo com todo o ímpeto e urgência de que só os loucos e os cobardes são capazes, enchê-la de incensos de santidade, mesmo quando descer aos mais mundanais impulsos. Como podes amar-me tanto se és tão bela, aqui está a nossa casa, o meu coração, toma-os, mais dia menos dia partes, que não sou digno de ti, que farei sem ti? E  a seguir vai esperar em troca disto infinito silêncio, infinita condescendência, nenhuma vontade própria, nenhuma indignação, possuir-lhe os  pensamentos, devassar-lhe o  passado, ser dono do seu presente, sem nada oferecer a não ser o bonito teatro. Vai fazê-la amá-lo, não como devia, mas em permanente estado quero que ele me ame, que mais posso fazer para manter a mesma adrenalina, o mesmo sétimo céu; vai jogar todos os jogos, vai confundir-lhe a mente para a quebrar e a tornar fraca por mais forte que ela seja, vai virá-la do avesso e ferir como puder; virá com silêncios, virá com injúrias, virá com toda  a sua força e tamanho e supremacia, até que o domínio seja completo, território conquistado e fértil para todos os desmandos porque já não se sabe para que lado está a verdade, a mentira, o certo ou o errado, e quando tudo isso falhar haverá a desconfiança, a calúnia, seguida de calmaria e das belas palavras, mãos grandes e o coração nelas, o chão está a girar ou é a minha cabeça? E o que se pretendia era isto, breaking the girl, mas há quem não tenha nascido para quebrar, ainda que sucumba a feitiços transitórios. Virago crudelíssima, pois. Paciência.

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