Recomenda-se:

Netscope

Monday, July 29, 2013

Jane Austen sabe tudo. E ensina as mulheres a fazerem-se respeitar.

             
A minha relação com Jane Austen é algo complexa: admiro-lhe o bom senso e a lógica, acho os seus livros encantadores e adoro os diálogos cheios de espírito, mas - pecado imperdoável para muita gente - creio que as suas obras resultam melhor no cinema. Isto apesar de em termos de moda o Período da Regência estar longe de ser o meu preferido (o corte Império e os penteados não são exactamente o meu cup of tea; se vivesse nessa época faria como algumas senhoras e acrescentaria umas "faixas romanas"  aos vestidos na zona da cintura) e de ser precisa muita sensibilidade, passe o trocadilho, do guionista, para que as falas não se percam na tradução para o screenplay
 Pode gostar-se de Jane Austen de várias maneiras - e poucas autoras continuam tão actuais, motivando spin offs, sequelas, blogs, sites e todo o tipo de merchandising alusivo ao seu ambiente e personagens. Um dos poucos "manuais de relações" a que achei graça foi precisamente o curioso Amor e Sedução segundo Jane Austen, porque afinal, a sensatez cabe em todas as épocas. E claro que quem aprecia estes enredos gosta de Elizabeth "Lizzie" Bennet, a protagonista de Orgulho e Preconceito: segura de si, observadora, com os pés bem assentes na terra e, independentemente do seu estatuto na vida, capaz de colocar as pessoas nos seus devidos lugares.

                           
  Em pinceladas largas, para quem está esquecido, Elizabeth pertence a uma família moderadamente distinta que conheceu melhores dias. A sua tonta mãe vive ansiosa por casar as cinco filhas o melhor possível - e o receio da senhora é de certa forma justificado, pois  segundo certas leis inglesas daquele tempo, nenhuma das jovens poderia herdar a casa paterna, que passaria para um primo mais tonto ainda. Tal como as irmãs, Elizabeth não é considerada um bom partido; não dispõe de dote e aos olhos da sociedade só lhe resta depender da sorte ou aceitar o primeiro pretendente que lhe aparecer; recorde-se que na época o casamento era, para as raparigas do seu meio que não possuíam fortuna, uma das poucas formas de conseguir um certo grau de independência. 
   Ainda assim, Lizzie não se deixa intimidar por isso. Recusa categoricamente a proposta do primo insuportável, o bajulador Mr. Collins, e mesmo quando se apaixona pelo glamouroso Mr. Darcy (um partido a que supostamente não poderia aspirar) mantém as suas relações com ele sob um prisma lógico, que raia mesmo o Preconceito. A sua fortuna, a sua posição e o seu bom aspecto não deixam que Lizzie proceda como uma tola, procurando agradar ou mostrar-se diferente do que é. Embora cometa erros ao longo do romance, Lizzie mantém sempre a consciência dos factos, daquilo que é justo e do seu próprio valor - qualidades raras, mesmo nas mulheres dos nossos dias.
   O orgulho dele e as ideias pré concebidas dela quase ditam que vá cada um para seu lado, mas Mr. Darcy acaba por pôr a mão na consciência e perceber que é com Lizzie que quer passar o resto da vida. Faz-lhe então a declaração de amor mais trapalhona e insultuosa da história da literatura:

           
"Quero casar consigo, apesar de ser obviamente indigna de mim; fiz tudo para me afastar mas não sou capaz, blá blá blá..."...ora, obrigadinha. Ainda assim, conheço muitas meninas por aí que saltariam de contentes perante uma proposta tão mal feita, mas a Lizzie é uma rapariga de brio. Mais do que a paixão que sente por Mr. Darcy, mais do que escapar a um futuro sombrio e muito mais do que qualquer sentimento de ambição, importa-lhe a sua dignidade feminina. Não está disposta a aceitar um homem que se considera um presente dos céus. A palavras tão arrogantes (fora uma série de circunstâncias que não importa detalhar agora) responde-lhe nos termos seguintes:

                 
 Como falamos de um clássico, atrevo-me a estragar o final a quem não leu/viu, adiantando que mais tarde o casal vive feliz para sempre, mas em termos de gente honesta e ajuizada. 
  O mais curioso, e mais triste,  é que mesmo no nosso tempo, em igualdade de circunstâncias, vejo raparigas e mulheres dispostas a tolerar desfeitas semelhantes (e coisas muito piores) para manter a todo o custo um relacionamento que não traz nada de bom. Têm à sua disposição meios, educação, independência, e mesmo assim não estão interessadas em fazer-se respeitar nos aspectos mais elementares, apesar de todos os disparates "feministas" (ou pouco femininos) que lhes ensinam. Talvez Jane Austen devesse ser imposta às meninas portuguesas, e às outras, desde a primária. Às colheradas. 

3 comments:

Madrigal said...

Olá
faço parte de um blogue dedicado a Jane Austen e se me permitires irei fazer um post dando conta deste teu texto. Gostei muito do que escreveste e gostaria de partilhar com os outros admiradores de Jane Austen. O blogue é: http://janeaustenpt.blogs.sapo.pt/

Imperatriz Sissi said...

Fico honrada! Não conhecia o blog e gostei muito. Vou acompanhar com muito prazer! Beijinho.

Madrigal said...

Olá, é só para dizer que já fiz o post no blogue. demorou um pouco mais por alguma falta de tempo e porque tive alguns problemas no PC. Mas agora já lá está a referencia e link para este post :) Obrigada.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...