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Monday, July 8, 2013

O homem dos vinte sorrisos

 
Sabem aqueles filmes que vemos na infância e nos assombram para o resto da vida? Esta semana, quando procurava outra coisa, deparei-me com um deles, cujo nome já nem recordava. E quando li a sinopse, fez-se luz e fui resgatar ao fundo da memória detalhes esquecidos - precisamente aqueles que me marcaram. Tratava-se de The Company of Wolves, que afinal não era um filme de terror como eu julguei estes anos todos e sim de um conjunto de fábulas algo freudianas sobre o simbolismo escondido no folclore dos contos de fadas - tema que adoro - um pouco na linha de uma das minhas séries preferidas de todos os tempos, The Storyteller. O que não o torna menos sinistro e por isso mesmo, menos interessante. Mas divago - vamos ao que nos trouxe aqui.
 Eu e a avó fazíamos serão, como era nosso costume às vezes, e como ela nunca foi mulher de se assustar com nada (ela própria era uma grande contadora de histórias e influenciou muito a minha paixão pelas ditas) deixou-me estar, toda empolgada porque o filme já andava a ser anunciado há alguns dias. Mas quando a mãe chegou e me viu toda entretida na cena mais horrorosa - nem mais nem menos do que uma transformação em lobisomem que me ficou na cabeça até hoje - achou que era demais e apesar dos meus protestos, mandou-me para a cama. De modo que só vi metade do enredo (estou a ganhar coragem para o rever, com medo não do lobisomem mas de que a memória não corresponda à realidade).
  Mas aquilo a que assisti ficou, precisamente porque toda a estória girava à volta de uma avó que relatava contos populares à neta. E o conselho que ela lhe dava, também as minhas avós me davam: "nunca confies num homem com sobrancelhas espessas e unidas". E se tiverem olhos fascinadores, pior um pouco. Está claro que as minhas avós e tias, apesar de contarem casos de lobisomens que corriam sete aldeias a arrastar correntes, não acreditavam propriamente neles. Mas é folclore, percebem? Tudo é alegórico nestas coisas. O Capuchinho não é mais do que todas as mulheres, uma data de conselhos desmancha prazeres para que não se confie em cavalheiros misteriosos, de beleza algo obscura e sorriso lupino. Para a avó, um homem de sobrancelhas espessas tinha algo de selvagem e incontrolável; sobrancelhas dessas prenunciavam sempre um carácter tempestuoso e ciumento. Péssimo material para namoros ou coisa mais séria, portanto. E eu achava graça a isso. Confesso que sobrancelhas expressivas, independentemente do seu formato, sem constituírem uma preferência são algo que me chama a atenção no rosto das pessoas, e nunca dei importância especial ao aviso, nem para um lado nem para o outro. E com a minha imaginação, um visual algo misterioso tem sempre o seu apelo. Mas as avós têm sempre razão. Não disponho de dados estatísticos mas a julgar pela amostra, atrevo-me a repetir o aviso. A vida ensinou-me a prestar atenção a essa característica particular. A isso, e a senhores que tenham vários sorrisos. Todos temos mais do que um (o sorriso tímido, o sardónico, o aberto e o neutro, por exemplo) mas ter cerca de vinte (um puro e inocente, outro malvado, outro sarcástico, outro triste, outro assustador e por aí fora) por mais intrigante que seja, por mais curiosidade que desperte, é muito mau sinal. Não digo que indique um lobisomem em potência, porque se ainda existissem já tínhamos dado por eles nesta era da informação em que tudo se sabe. Mas lá está, tudo é metafórico nestas coisas. E em algumas pessoas, a natureza selvagem, o lobo que vive dentro delas, está muitíssimo presente. Valha-me que gosto de usar capuchinhos: são excelentes acessórios de moda, caem bem com tudo, e dão um jeito enorme para esconder o rosto quando passa um lobo em potência, que não convém olhar nos olhos.

1 comment:

S* said...

Agora puseste-me a rever mentalmente os vários sorrisos do meu rapaz. :') Ainda bem que ele não tem sobrancelhas espessas e muito menos unidas...

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