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Tuesday, July 30, 2013

Uma curta história de amor (Long live McQueen!)

                              
Havia um cavalheiro distinto  que não permitia que a mulher que amava, se o acompanhava a alguma festa ou reunião mundana, usasse encarnado. Admirava-lhe o gosto, a graça, a beleza, tudo o que ela escolhia estava bem, desde que se mantivesse longe do escarlate, até dos rubis. A cor do pecado estava reservada ao bâton, e olhe lá. E ela, amiga de agradar, ia relegando os vestidos da cor proibida para o fundo do armário, reservando-os para os dias em que o mais que tudo não estava. Se ele sonhasse havia amuo pela certa; mas amuos são coisa pouca, nada que um beijo não cure, que palavras meigas não apazigúem, é só uma cor, e uma cor que mal tem? Vestido, blusa ou saia igual aos outros, nem mais revelador nem menos. Qual! Se não punha dúvidas quanto ao bom senso dela em escolher a medida exacta da bainha ou do decote - sabia que jamais se roçaria a vulgaridade mas há a milimétrica perfeição que separa a beleza do conflito, o sagrado do profano, o apresentar-se bem da tortura de ver os outros convidados de olhos em riste para os seus ombros nus - quanto à linguagem clara, explícita, que aquela cor falava aos seus preconceitos, isso era mais forte do que ele. Encarnado não é para mulheres sérias. Em vão ela insistia, em tom de nha, nha, nha que a Rainha, God Save the Queen,  usa encarnado - a Rainha é outra história, outra idade e outro posto, e com o mal dos outros posso eu bem.
 Mas um dia apareceu este vestido, e ela não aguentou mais. Se um era como um rei para ela, o outro era McQueen! E como Scarlett O´Hara acusada de adultério, apresentou-se com ele, toda glória e desafio, mulher escarlate. Já era tarde para mudar de roupa e toda a santa noite ele fez o seu papel, com o coração em ânsias e vontade de a trancar na arrecadação, de fazer um disparate. A seda cor de sangue fazia-lhe brilhar os olhos, a pele, o colo, o cabelo; o ciúme e a audácia do desafio (ele que não lhe pedia mais nada, com mil raios!) faziam-lhe ferver o sangue. Bebia e suava frio, e à saída houve cena. Que perante uma daquelas, mais uma daquelas, ele deixava de ser seu namorado, noivo, marido, que o título do senhor não nos diz respeito, e ela nunca mais lhe punha a vista em cima. Perdida por cem, perdida por mil; o prazer de ter usado o vestido já ninguém lho tirava. Lançou-lhe os braços ao pescoço e jurou que podia deixar à vontade de ser seu namorado, noivo, marido, que são afinal títulos potencialmente temporários, à mercê da vontade de Deus e dos homens; mas não deixaria de ser o seu amor, porque isso ou existe ou não existe, e não há birra que tire. Ele fez cara feia de novo, e conduziu até casa de rosto fechado, admitindo lá com os seus botões que o maldito vestido lhe ficava mesmo um espanto. E assim ganhou McQueen: quando uma mulher se apaixona não há nada que a detenha.

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