Recomenda-se:

Netscope

Monday, August 26, 2013

Lady Ellenborough: amar perdidamente, a este, aquele ao outro e toda a gente.

                 File:Stieler-Jane Digby.jpg

Florbela Espanca não conheceu Lady Ellenborough (nome de baptismo, Jane Elizabeth Digby) mas este verso da sua autoria aplicar-se-ia lindamente à bela e escandalosa aristocrata inglesa. As suas aventuras românticas, dignas da Maria Monforte d´Os Maias, escandalizaram a sociedade Georgiana, não sem uma certa razão: quatro maridos, muitos amantes e uma vasta prole com vários pais dariam nas vistas em qualquer altura, quanto mais tratando-se de uma menina bem nascida, de quem se esperava um bom casamento e uma vida discreta.
 Mas tal como a personagem de Eça de Queiroz, Jane Digby era de natureza romântica, tempestuosa, descontrolada: honra, nome, fortuna, conveniências, tudo sacrificava às suas caprichosas paixões. O "sentimento" e a aventura eram o móbil da sua existência. 
File:Jane Digby.JPG A estonteante Jane, chamada "Aurora" pelos admiradores graças à sua luminosa beleza (era escultural, loura, com um rosto perfeito de grandes olhos azuis e uma pele de "rosa brava") nasceu num lar opulento e confortável, não destituído de uma certa aura romanesca. O tesouro de um galião espanhol consolidara a fortuna do seu pai, o Almirante Henry Digby. A sua mãe, Lady Jane Elizabeth Coke, filha do 1º Conde de Leincester, era uma famosa beldade.
 Estavam lançados os dados para uma existência delicada e tranquila, mas Jane tinha outros planos. Ou talvez não planeasse nada: seguia a natureza, acumulando casos amorosos como uma cerejeira dá cerejas.

 Bonita, prendada (viria a falar fluentemente oito línguas) apresentada à sociedade aos 16 anos, não tardou a ficar noiva do primeiro cavalheiro que a cortejou, o Barão de Ellenborough, viúvo e 17 anos mais velho. Apesar de a união não ter defeitos a apontar, a família da noiva, que lhe conhecia o carácter ingénuo e caprichoso, achou que não havia necessidade de tanta pressa. Mas Jane começava a provar ser uma daquelas mulheres que, tal como as cortesãs, amam o amor em si, e não os homens. Adorava a ideia de estar apaixonada...e casou. O enlace foi razoavelmente feliz ao início, mas os afazeres políticos do marido obrigavam-na, muitas vezes, a comparecer sozinha a convites. Além disso, veio a descobrir que o Barão mantinha uma amante na mesma cidade onde o casal passara a Lua-de-Mel. Isso foi demais para ela: pensou em vingar-se, e não procurou muito longe. O eleito foi o seu primo, o Coronel George Anson. Foi uma paixão fulminante...e em breve achava-se a braços com uma criança fora do casamento. O primo acabou por provar que não a amava, e Jane teve um horrível desgosto. 
 Em breve, porém, outro homem surgia na sua vida: o Príncipe Felix Shwarzenberg. A início Jane estava demasiado infeliz para lhe prestar atenção, mas ele foi tão atencioso, tão insistente na sua corte, tão pródigo em carinhos e consolações, que em breve a rebelde dama embarcava num affair mais escandaloso do que o primeiro, encontrando-se despudoradamente com o seu novo apaixonado. Esta foi a machadada final no casamento - o divórcio foi verdadeiramente sensacional -  e trouxe-lhe mais dois filhos ilegítimos. Mas a morte de um deles ditou o afastamento do casal: com a desculpa de que sendo católico, não poderia casar com ela, o Príncipe tentou afastar-se aos poucos - um golpe doloroso para o coração de uma mulher.
 Para escândalo da família, saiu do país e foi no encalço do amado para a Suiça, no desespero de o reaver: sem êxito. Seguiu-se então Ludvig I da Bavária e pouco depois, um casamento de conveniência com o Barão Karl von Venningen...e mais dois filhos (por esta altura, começo a perder-lhes a conta, confesso).  
O novo matrimónio não foi suficiente para a sossegar: em breve, apaixonava-se pelo Conde grego Spyridon Theotokis. O marido descobriu, desafiou o grego para um duelo: foi ferido, mas o casal acabaria por se separar amigavelmente...e Jane, ainda sem estar legalmente divorciada, casou-se pela Fé Ortodoxa com o seu novo apaixonado. Porém, mais uma vez a tragédia acabaria por ditar o fim do romance: o filhinho de ambos, Leónidas, de seis anos, o único que Jane conservava perto de si, despenhou-se fatalmente de uma varanda. O casamento não sobreviveu à desgraça - e às infidelidades do Conde. 
 O seu próximo amante seria o Rei Otto da Grécia - nem por acaso, o filho do seu antigo amante, Ludvig. Uma campanha negra para manchar o nome da bela Jane não se fez esperar. O escândalo precipitou-a numa nova paixão, desta feita com um herói da Revolução Grega, o General Chatzipetros ( acompanhando o seu exército como "Rainha" dos revolucionários, a monte, a dormir em cavernas e a caçar nas montanhas) . Mas o aventureiro também não era homem de uma mulher só...e Jane afastou-se mais uma vez. 
 A sua sede de emoções fortes impeliu-a para o Médio Oriente: com 46 anos, mas ainda deslumbrante e cheia de vivacidade, capturou o coração do Sheik Abdul Medjuel el Mezrab, vinte anos mais novo. Casaram segundo a Lei Muçulmana e finalmente, Jane acertou. A união durou até à sua morte, 28 anos depois.  Apesar de não se ter convertido ao Islão, aprendeu árabe e viveu de acordo com os costumes do marido - adoptando as vestes Sírias e pintando o cabelo de preto, já que as madeixas louras eram consideradas "de mau agouro". O casal dividia o tempo entre as tendas do deserto e uma luxuosa villa em Damasco. Foi um final feliz - após dois Barões, um primo, dois Reis, um príncipe, um Conde e um Sheik (uffff, esqueci-me de algum?). 
 Curiosamente, a sua sobrinha-bisneta, Pamela Harriman, viria a ser uma das últimas "mulheres galantes" do século xx, com artes só comparáveis às cocottes da Belle Époque. Mas isso é outra história.




No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...